Bem Vinda Ao Campo
22 Começa a Operação
Finalmente era o dia da execução do plano, a esta altura Anne já estava grávida de sete meses e a protuberância de sua barriga despontava descaradamente no vestido que o major mandara Rudolph entregar a ela, junto à mais outros três. Os antigos já não lhe cabiam mais.
Estava ansiosa como nunca antes, e andava de um lado para o outro do quarto, como se isso pudesse lhe aliviar a tensão.
Ao contrário dela, o filho não se mexia, estava tranquilo como que ignorando a importância desse dia.
O caixão de madeira permanecera fechado desde que chegara, hoje não escaparia, e Anne tremia só de pensar na possibilidade de entrar nele.
Atenta como estava, ouviu o som da chave girando na fechadura. Voltou-se para a porta, não tinha como continuar fingindo que não ligava e virada para a janela.
– Olá. – cumprimentou o major, entrando de cabeça baixa.
– Olá.
Heinrich sentiu o coração parar ao ouvir a voz dela, não ouvia aquele som há tanto tempo!
Encararam-se por longos minutos, gelo e violeta se combatendo silenciosamente. Não era preciso de muita observação para saber que ambos estavam magoados, e ao mesmo tempo esperando que o outro desse o primeiro passo.
– Vou dar continuidade ao plano.
Veltheim saiu e bateu a porta. Anne respirou profundo, sentou-se na cama, sentido seu coração acelerado. Era impossível ignorar a presença daquele homem.
***
Caminhava apressadamente em direção à sala de Rudolph, estava tão apreensivo que sentia as têmporas latejarem, gotas de suor brotavam em sua testa.
Já estivera na guerra, mas aquela era sem dúvida a operação mais crítica e importante de sua vida. Nada poderia dar errado.
Rudolph o esperava sozinho na sala. Decidiram que assim era melhor, se houvesse outro médico ou soldado por perto, este poderia se oferecer para ajudar e tudo iria pelo ralo.
– Anne já está pronta.
Krämer assentiu, saíram controlando os passos, não deviam correr, tudo tinha que seguir de modo natural.
O oficial no saguão dos alojamentos militares achou estanha a entrada do major e do médico ao mesmo tempo. Via o Dr. Krämer ali uma vez por semana, sabia que ele ia examinar a cigana doente de Veltheim, mas nunca os tinha visto ao mesmo tempo. Algo deveria ter acontecido.
– Está tudo bem major?
Não houve resposta, os dois homens o ignoraram e subiram as escadas apressados. Achou melhor ficar quieto, melhor não contrariá-los, e logo o motivo da pressa seria descoberto.
– Acha que ele percebeu alguma coisa? – indagou Heinrich, já em frente a porta.
– Só que estamos nervosos, é melhor que tenha percebido, vai deixar a coisa mais real... – tranquilizou Rudolph enquanto entrava no quarto.
Anne os esperava, olhos arregalados, tinha aberto o caixão. A boneca de areia lhe causou forte impacto.
– Rápido, pegue a boneca. – incitou o major tentando não perceber o pavor da cigana – Vamos fazer isso depressa.
Num instante Rudolph e ele enrolaram o espantalho em um lençol, o major segurava-o no colo. Daquele jeito não tinha como dizer que não era mesmo um cadáver. Anne sentiu-se ali, morta.
– Vá para o banheiro. – ordenou Heinrich – Eu volto em breve.
Saiu com Rudolph em seus calcanhares, a porta foi fechada e Anne cerrou o caixão de madeira. Correu para o banheiro e ficou lá, esperando.
***
O que se seguiu a saída do quarto deixou o major completamente confuso. O cadáver de areia fazia com que ele sentisse estar carregando Anne, sua tensão estava no ápice.
– Jesus, Maria, José! – exclamou o oficial ao vê-los passar com um corpo enrolado num lençol.
– Nunca viu uma pessoa morta? – rosnou Heinrich sem parar de andar.
Atravessaram o pátio onde ele e Anne haviam se conhecido, nem era possível crer que já tinha tanto tempo, oito meses, desses oito, há sete ela carregava um filho seu no ventre.
Não conseguia pensar em como seria a criança ao nascer, se pareceria com ela ou consigo, se seria de fato um menino, ou outra menina. Só pensava que a amava com todas as forças que tinha.
Por isso estava fazendo aquilo, se arriscando e arriscando Liesel ao carregar um falso corpo pelo campo. Fazia pela criança e por Anne.
Rudolph ao seu lado não dizia nada, mas estava tão preocupado quanto ele, seus olhos verdes nunca estiveram tão angustiados.
Estavam praticamente correndo quanto finalmente entraram no pavilhão médico, afinal, se por algum motivo alguém desejasse ver o corpo? O que iriam dizer?
Fortuitamente, o major Von Veltheim carregando um cadáver era ameaçador o bastante para que lhe parassem para perguntar qualquer coisa.
Abriu a porta da sala de Rudolph com um chute, para de imediato jogar aquela coisa sobre a maca. Sentia-se aliviado por não ter mais de segurar o espantalho, lhe dava arrepios.
– Agora é com você Rudolph.
O médico assentiu, enxugando o suor da testa com a manga do jaleco branco. A partir dali, o sucesso do plano dependeria dele, não poderia mais contar com a presença imponente de Heinrich.
Veltheim saiu da sala, e ele se viu sozinho com a boneca de areia sobre a maca. Krämer suspirou, e chamou por dois enfermeiros.
– O que é isso doutor? – indagou um deles apontando para corpo.
– A cigana do major Von Veltheim.
– A que estava doente? – perguntou o outro.
– Sim. Ele a encontrou morta há pouco.
– O que vamos fazer?
– Vamos cremá-la, que pergunta Finkel.
August Finkel conformou-se, mas o outro enfermeiro, Ernest Hamm ainda não estava contente.
– Posso vê-la? O capitão Engels disse que ela era muito bonita...
– Pelo amor de Deus, é claro que não! — exasperou-se Rudolph – Tenha respeito pelos mortos.
– O doutor tem razão Ernest, é melhor deixar os mortos como estão.
Intimamente, o médico agradeceu pela superstição do enfermeiro Finkel, e apressou-se em pegar padiola.
– Segurem para eu colocá-la.
Os enfermeiros seguram a padiola um de cada lago, e Rudolph depositou o corpo de areia sobre ela. Tudo estava bem.
Deixaram o pavilhão médico sob vários olhares curiosos. E Krämer mal podia crer na sorte em que estava tendo por mais ninguém lhe parar a fim de ver o cadáver da cigana do major Von Veltheim.
O crematório era distante, e tiveram de andar muito até chegar ao destino final. Quando se aproximaram das fornalhas e Rudolph sentiu o calor infernal das chamas, pode se permitir ficar mais tranquilo.
Recolheu o corpo e jogou-o dentro do forno. Tudo havia acabado, Anne Kubícek estava definitivamente morta.
Notas finais
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