Belos, recatados e vingativos
1 Causar um barraco - adoro
Notas iniciais
Boa leitura!
— Oi, amor – Edu disse, em bom e alto tom, enquanto ele e sua irmã invadiam o aposento. Alta, não tão magra e de cabelos e olhos negros como seu coração, Denise exibia seu sorriso vingativo registrado ao adentrar a casa, desfilando como se atraísse as atenções com sua camisa de manga comprida verde e jeans cinza. Já Du, mais belo, recatado e do lar, apresentava-se de modo mais sutil, mas sem deixar de chamar a atenção com sua calça preta e seu casaco cinza. Caminhou até seu anfitrião, que exibia o quão confuso estava através de seus olhos azuis, e sussurrou: — Boa noite!
— O que vocês estão fazendo aqui? — Ricardo questionou, surpreso com a visita inesperada. A resposta era simples: se vingar, óbvio, por ele ter se divertido com Denise ao passá-la respostas erradas de propósito na prova de matemática. Era aquele velho ditado: “Se me atacá eu vou atacá”.
— Fique xiu aí, não arruine esse momento com palavras. — Dudu falou, de modo autoritário. A ideia inicial era que sua irmã fingisse estar grávida, graças ao Rick, e, quando contassem aos pais dele, ficaria de castigo por tempo indeterminado por ter engravidado alguém de 16 anos. Mas, como Edu estava se sentindo meio piranha, aceitaram uma mudança de planos – Deixe que o seu coração te dê as respostas, querido.
No fundo da sala, uma nova figura surge: em roupas amarelas e brancas nada mais que casuais, a mãe de Ricardo apareceu ajeitando seus cabelos ruivos atrás de sua orelha. Não esperava visitas...
— Senhora Pandolfi, boa noite! — Denise se pronunciou antes que mais alguém o fizesse, procurando manter o controle da situação – Lembra de mim? Já vim aqui para fazer trabalhos com o Ricardo, mas hoje vim com o meu irmão para almoçar com vocês: temos algo muito importante para lhe contar.
Suspirou.
— Meu filho sempre se esquece de me contar esses detalhes cruciais – o rosto de Dê já era conhecido, então não deveria estranhar tanto assim a sua visita. — Uma sorte que fiz a comida hoje; se tivéssemos que nos alimentar de sobras, não teria o bastante para todos. Entrem!
O sussurro de Rick (“Saiam daqui agora ou eu mato vocês”) provavelmente deveria ter soado ameaçador, mas Du achou graça. Seguindo a adulta até a cozinha, exclamou:
— Boa noite, senhora Pandolfi! Ainda não fomos apresentados – constatou, tentando não rir durante a fala – Mas creio que seu filho tenha te contado sobre mim: afinal, ele deveria ter. Sou o Eduardo.
Ricardo chegou em questão de segundos, pelo visto desgostando da expressão que Denise possuía. Continuou, sem abrir espaço para respostas:
— Somos bem chegados, sabe? A princípio não éramos, nos conhecemos em uma partida de futebol. Times opostos, acabou gerando briga, como sempre acaba. Mas superamos isso rapidamente e aprendi a gostar de sua voz de locutor de rádio, de seus olhos azuis profundos e até dessa verruga nojenta no pescoço dele. E pensar que agora eu adoro entrelaçar nossas mãos e afagar seus cabelos...
— Gostou do discurso? — Dê perguntou baixinho, no ouvido de Rick – Foi ensaiado, só pra você.
Ele parecia ainda não ter entendido o que acontecia ali, nem sua mãe: ambos encaravam Eduardo como se insinuassem “Você não tinha nem que estar aqui”. Não estavam tão acostumados com viadagens como Denise estava; pelo contrário, na última vez que estivera ali esta percebeu que eram muito homofóbicos.
Agarrando-o pelos seus dois ombros, Eduardo segurou Ricardo firmemente e aproximou sua cabeça da dele, aproveitando o momento de confusão. Até aquele momento, tinha beijado dois homens em todos os seus quinze anos de juventude. Aquele terceiro realmente não sabia como reagir quando tocaram suas bocas e uniu suas línguas em uma confusão adorável que era o beijo de boca.
— O seu filho e o Dudu estão namorando! Não é lindo? — Denise perguntou no instante em que o ato se realizava, como que casualmente. Agora era só estabelecer um drama, sair dali e rir de seu colega quando imaginasse a conversa de trinta e duas horas que teria em família tentando explicar que não, não era gay.
Finalmente tomando uma atitude, Rick empurrou o outro garoto para longe de si. Passara alguns segundos atordoado, o que fez com que Edu se lembrasse de seu primeiro beijo, e de como ficara emudecido por não tê-lo visto vindo.
— Nós não estamos namorando, seu idiota! — gritou, enfurecido. Aparentemente, aquele religioso extremista realmente não gostara de ter perdido o BVL com um homem. Já Dê realmente gostava de levar aquilo de vingança a sério demais.
Com uma cara de indignado mais realista que qualquer outra coisa no cômodo, Du manifestou-se, tornando real a cena que tanto queriam:
— Você não me empurre, já está na hora de sair do armário, Richard; já desabafei – cansei de ser ignorado quando nos observam, de ter que marcar encontros nas sombras por pura vergonha; não tolero tamanho desrespeito com a minha pessoa: é um absurdo que você faça nós dois sofrermos por ligar tanto para a opinião dos outros. Pra quê ser tão arrastado pela sociedade!?
Sem conseguir se segurar, Denise estava com um grande sorriso estampado na cara, fruto de um ar vingativo, sua marca registrada. Queria aplaudir seu irmão de pé – ele merecia um Oscar por ter atuado tão bem! Ela dava uma nota positiva para a situação porque percebera que a senhora Pandolfi acreditara no que ela queria.
— O que!? Isso é... Tão... ARH! — Ricardo não conseguia formular as palavras que queria, estando confuso. Maravilha.
— Vai negar de novo, moço? — Dê se intrometeu, para dar logo o final que queria àquilo. — Como você pode ser tão vacilão? Vem, Dudu, você mesmo disse “Se ele negar, a gente diz pra se ferrar e cai fora”. Vamos sair daqui, não se misture com essa gentalha.
Puxando-o pelo braço, foi com seu irmão para a porta, abrindo-a com a chave que estava na própria fechadura. Permitiu-se rir baixinho ao ouvir o “Saiam, por favor” rancoroso de Rick, que estava muito irritado.
Vingança, sucedida.
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