16 de outubro de 2385

Local: Barcelona — Espanha.

Horário: 19 horas e 44 minutos.

Ainda esperando os reforços, os dois membros do Exercitum evitam chamar atenção para o local em que estão escondidos. Contudo, eles também serão descobertos se não agirem logo.

— A situação está piorando... Eles já revistaram boa parte do porto, sem falar que o tempo parece não passar. Preciso agir, mas se descobrirem nossa posição? Alícia não consegue fugir a tempo, não posso deixa-la aqui. Não quero que mais ninguém morra por situações assim... – Pensa Cieto sem parar.

— Cieto, está tudo bem... Consigo ver no seu rosto que você está confuso sobre o que fazer, na verdade você sabe, mas está preocupado comigo... Não precisa, independente do que você escolher, eu sei que vai ser a melhor decisão e vou te apoiar... Não se preocupe! – Diz com um sorriso no rosto.

— Alícia... – Diz surpreso – Idiota, isso não é hora de falar uma coisa dessas... Tudo bem, já fiz minha escolha... Obrigado! – Diz o Princeps um pouco mais calmo ao mesmo tempo em que pega sua AS500 e posiciona para o disparo.

— Fico feliz que tenha decidido lutar...

— Sim, meu medo é de que achem nossa posição por causa dos tiros. Na verdade eu tenho um equipamento para esse tipo de situação, mas ele funciona melhor em distâncias maiores. Sem falar que não tive muito tempo de prepara-lo no campo, apenas naquele intervalo que ficamos sem nos ver. De qualquer forma, está na hora de usá-lo.

— No final você tinha algo guardado.

— Sim, o nome é Echo e foi desenvolvido pela Research. A função dela é bem simples, imitar o som da minha arma pra que o inimigo não consiga identificar de onde vem o tiro. Para isso eu preciso espalhar algumas pequenas caixas de sons por todo o território de luta, elas cabem em uma mão, mas simulam os tiros com perfeição. Por fim, eu ligo esse imã em qualquer parte de metal da minha AS500, a partir dai sempre que eu atirar e ela produzir alguma vibração, esse imã vai capta-las e simular o tiro nas Echo. O problema é que mesmo assim o inimigo poderá nos localizar caso escolha a nossa posição, em vez das caixas. Bom, consegui separar quatro delas pelo porto, então a chance deles nos acharem é uma em cinco. Vamos ter que contar com um pouco de sorte.

— Entendi...

— Além disso, os tiros vão ser um pouco mais difíceis do que o de costume... – Diz enquanto tira o scope de seu rifle – Certo! Agora está tudo pronto.

— Por que fez isso? Desse jeito será mais complicado acertar alvos à distância.

— Eu sei disso, não se preocupe. Alícia, alguma vez já apontaram um rifle em sua direção?

— Não que eu me lembre, por que pergunta isso? – Diz enquanto Cieto aponta o scope para ela.

— Está vendo? Dependendo do ângulo em que eu aponto a mira para você, é possível ver um reflexo de luz passando pela lente, ou seja, se eu não retirar o scope, poderão nos achar por esse feixe de luz... Depois de um tempo utilizando apenas armas com mira, o atirador perde boa parte de sua habilidade de atirar sem. Mas não se preocupe, eu sempre utilizei minha AS500 das duas maneiras... – Sorri.

— Não é à toa que ele foi a primeira opção para ser tornar o Princeps da Absens... É realmente difícil de encontrar alguém que consiga usar uma arma desse jeito, ainda mais com os membros do Exercitum se acostumando às novas armas tão mais fáceis de usar... Não consigo pensar em mais ninguém que usaria com tanta segurança um rifle desse jeito, com tanto a perder – Pensa.

— Ótimo! Agora que está tudo pronto já posso começar...

Alguns quilômetros do porto, o navio da divisão Bona finalmente se aproxima.

— Ei, Ceifon, falta muito para chegarmos? Já disse que é um saco viajar de navio? – Diz uma voz desconhecida.

— Sim, você disse isso vinte e três vezes desde que subiu no Octavius, e já te disse que vamos chegar em tempo próximo de dez minutos. Afinal, por que eu tive que te buscar também? Pensei que minha missão era apenas para dar suporte para o Cieto... Que azar! – Diz enquanto coça a cabeça.

— Não tenho ideia, mas parece que foi ideia do Anrev e do Imperator, sendo assim não há muito que discutir... Se te deixa feliz, também não queria vir com vocês, olha o nome desse navio só de pensar tenho calafrios... Enfim, acelera logo esse negócio que parecia ser importante a mensagem da Intelligentia.

— Sinceramente, como um cara desses virou Princeps? – Se questiona.

Ao mesmo tempo em que o navio se aproxima, Cieto começa a trabalhar com seu rifle.

— Tudo bem, já terminei a contagem. Ao todo são oito inimigos. São duas duplas e temos um trio. Finalmente um trabalhando sozinho. Isso foi o que deu para contar, não tenho muita visão por conta que as paredes estão quase todas feitas, e não há janelas – Pensa sem dizer nenhuma palavra.

Após a contagem Cieto escolhe seu primeiro alvo.

— Esse primeiro tiro pode decidir muita coisa, não há espaço para erros... Vou começar pelo que está sozinho e espero que uma bala seja o suficiente. Alícia, você anotou as posições que eu te pedi?

— Sim! Quando você precisar delas me avise.

— Tudo bem, preciso que você compare a posição deles depois do disparo com os dados que eu te passei, vou tentar entender a movimentação deles. Se realmente a Mercenarius estiver por trás desse ataque, eles serão soldados bem treinados, além de que deve ter um nono membros escondido dando as ordens para eles.

— Entendido... O alvo que se encontra sozinho deve estar a duzentos metros de distância, trinta graus a sua esquerda. Não se esqueça da altura aproximada de nove metros do prédio, você vai precisar calcular a queda da bala também.

— Não se preocupe, essa parte é fácil... Alvo localizado... O Echo já está ligado e funcionando... Agora é comigo! – Diz para sua Legato— Certo, sem a Insignis a situação volta a ser como a de alguns anos a trás, mas não tem problema, nunca errei um tiro a essa distância. Primeiro preciso controlar minha respiração bem lentamente. Meu coração está um pouco rápido, mas nada que vá me atrapalhar. Solte o ar lentamente. Faça a contagem agora, Cieto! – Pensa sozinho – Três... Dois... Um...

Cieto atira. Não há como comparar o disparo com o realizado um dia antes, mas nem por isso foi um mau disparo. Na verdade, o tiro foi perfeito considerando todos os problemas envolvidos no disparo. O tiro foi perfeito se comparado com o de outros Princeps. O tiro foi perfeito se comparado com o de qualquer outro membro da Absens, talvez apenas o Legato Hayh conseguisse dar um tiro como esse. O tiro só não foi perfeito para o nível que Cieto cobra de si mesmo.

— Mas que droga... Não acredito que errei um tiro desse nível! – Diz inconformado.

— Você errou? O alvo está vindo ou ele foi em direção a algum dos Echo? – Pergunta extremamente preocupada com o que pode acontecer em breve.

Cieto não errou, mas não acertou onde queria. Assim que o projetil sai do cano da arma ele demora sete décimos de segundos até chegar ao alvo. Mais precisamente no pescoço. O som do tiro só não é mais forte do que a imagem do sangue se espalhando no metal atrás do membro da Mercenarius.

— Não se preocupe, ele não vai mais nos procurar... De qualquer forma eu estava mirando na cabeça, não precisava ser na testa, qualquer parte do rosto já estava bom... Não acredito que acertei o pescoço. De qualquer forma, tenho no mínimo sete novas tentativas de acertar, Alícia, me passe a posição dos outros, por favor!

— Cieto, mesmo que não pareça, você é muito gentil e se preocupa com os outros em sua volta. Ao mesmo tempo você consegue ser assustador quando atira – Pensa sozinha – Certo, de acordo com os dados que você me passou, temos três grupos ainda. Uma das duplas está a sessenta graus a sua direita e trezentos metros de distância. O trio está logo a frente a um pouco mais de quatrocentos metros. A última dupla está a vinte graus à esquerda e distância de cento e cinquenta metros.

— Obrigado, Alícia! Preciso parar os dois que estão mais perto... Acabei de localizar os dois e parece que a movimentação deles é justamente em direção ao prédio. Os outros cinco parecem estar indo para algumas Echo.

— Que bom, parece que está funcionando – Sorri.

— Sim, nossas chances de vitória aumentaram – Sorri –Me acalma ver a Alícia sorrindo de novo, mas mesmo assim eu sei que nossa situação não está tranquila o suficiente para abaixar a guarda... Os próximos tiros serão mais complicados, vou precisar acertar os dois alvos em pouco tempo para evitar que eles consigam se comunicar e identificar minha posição. Preciso ir rápido, os dois estão se aproximando – Pensa.

Cieto repete sua preparação e atira. Novamente um tiro perfeito e, dessa vez, onde ele queria.

— Ótimo, acertei no centro, agora preciso deslocar a mira rapidamente para o próximo alvo... Não há tempo a perder.

Todos esses pensamentos correm em uma velocidade impressionante na mente do Princeps. Ao mesmo tempo, seu braço esquerdo puxa a arma alguns centímetros para seu lado, acertando a mira no próximo alvo. O movimento é rápido, mas preciso.

— Merda, meu braço ainda dói por causa dos cortes. Não tenho tempo para isso... – Atira.

A dor incomoda. Mesmo que Cieto resista a ela, ainda assim ele tem problemas por conta disso. A sensação das centenas de cortes se abrindo ao mover o braço foi o suficiente para que ele não acertasse o alvo com a mesma precisão de antes.

— Eu... Errei? Droga!

Novamente o tiro acerta o alvo, mas pega abaixo do olho direito saindo em direção à orelha do alvo. Não foi suficiente para mata-lo, apesar de ser o suficiente para derruba-lo de bruços no chão.

— Vou precisar de outro tiro, agora eu não erro... – Preparando a mira novamente e atirando muito mais rápido do que antes.

De fato, o segundo tiro acerta na parte posterior da cabeça, sem chances de vida. Porém, o erro custa caro, Cieto não conta com muita munição para sua AS500 na atual situação e tudo que ele quer evitar é um combate a curta distância nesse momento.

— Já foram três, só mais cinco... – Pensa – Alícia, olhe na lateral da Vector, nela deve aparecer um contador com algum número, quanto ele está marcando?

— Deixe-me ver... – Procurando um número até encontrar escrito com luzes vermelhas – Está indicando vinte e cinco, o que isso significa?

— Ótimo, ela está com o número máximo de balas. Infelizmente esse é o único pente que deu pra trazer, o resto ficou no carro. Faça bom uso delas...

— Tudo bem, pode deixar comigo.

— Voltando ao nosso principal problema agora. Localizei os outros dois grupos, um deles já chegou ao local de uma das Echo, mas estão longe demais para acertar qualquer tiro com precisão agora... Sequer consigo vê-los direito – Reclama – O outro, que estava a minha direita, está indo em direção de outra Echo, parece que o plano funcionou...

— Sim, pelo menos por enquanto... Cieto, faltam quatro minutos, o que faremos? – Pergunta com um certo tom de preocupação.

— Ainda não podemos sair daqui, ainda mais com você nesse estado... Não restam muitas alternativas, vou continuar eliminando quem aparecer até conseguirmos voltar.

— Entendo... Sinto muito, não queria causar problemas, se eu tivesse... – Até ser interrompida.

— Pare de falar esse tipo de idiotice, isso me irrita demais. Você sabe que não tivemos culpa – Suspira.

— Mesmo assim... – Interrompe sua própria fala assim que avista o navio se aproximando – Eles chegaram!

— Alícia, pela distância e velocidade do navio, você acha que ele chega ao porto em quanto tempo?

— Não consigo ter certeza, mas acho que vão chegar um pouco depois do tempo previsto, dentre seis ou sete minutos.

— Atrasados como sempre... Tudo bem, não reclamarei dessa vez, Helena – Pensa sozinho – Como está sua perna?

— Ainda dói, não consigo apoia-la ao chão.

— Certo... Mas se eu servir de apoio, você acha que consegue caminhar um pouco.

— Talvez... – Pensa um pouco – Sim, acho que consigo andar o suficiente para chegarmos ao navio.

— Desculpe te fazer passar por isso, mas no momento não há outra saída, juro que vou te compensar quando chegarmos ao Colosseum— Sorri.

— Quando voltarmos, irei cobrar todas essas promessas que você fez para mim...