Tudo estava escuro demais. Na verdade, escuro não era a palavra mais apropriada. Amy sentia-se como se estivesse cega em todos os sentidos, se isso fosse possível. Naquele momento ela realmente conheceu a escuridão. Era uma sensação que jamais poderia se assemelhar ao que ela imaginava. Aquilo tornava o preto, apenas uma cor em um tom escuro.

Na escuridão, ouviu uma voz. Um barítono firme.

– As coisas correram de uma forma que eu jamais imaginei. O meu plano teve muitas surpresas boas, sabe... A facilidade pelo qual os guardiões se renderam, as invasões eficazes. Tudo no seu devido lugar. Na verdade, mais do que isso. Estava tudo realmente perfeito. Mas aí, uma parte do meu projeto não foi bem sucedida. Como se algo estivesse balançado esse equilíbrio. Veja bem, quando capturei Sonic e ordenei que ele deixasse aquela carta, pensei apenas que vocês iram se lamentar, chorar, espernear e ponto. Imaginei que aceitariam a situação e a derrota. Entretanto, de alguma maneira, aquilo se tornou um combustível para vocês e então, simplesmente saíram por aí procurando por ele, se sentindo como heróis sem nem ter por onde começar! – A última frase foi recheada de indignação. – Enfim, me custou tentar entender isso tudo mas eu continuei minha busca. O mais fácil foi encontrar Sonic, afinal, quem nessa galáxia nunca ouviu falar do ouriço-herói que corre mais rápido que o próprio som? No caso de Denfire, que apesar de ser um planeta pouquíssimo habitado, e por ser uma dimensão alternativa de Mobius — assim como Lively está para Shield — foi mais difícil. É assustador ver as semelhanças. A começar por Eggman Nega. As esmeraldas do Sol também são incríveis como as esmeraldas do caos. Quer dizer, achar a guardiã custou não muito mais. E não tinha sido a primeira vez que eu havia encontrado Blaze. Lively, um planeta nada animador, movido pelo dinheiro só poderia ter um guardião político. E lá estava Quake salvando o dia com sua bondade e filantropia. Então tudo ficou mais interessante. Ele não tinha filhos e nunca se casou. Criado pela avó com quem viveu até seus anos adultos, ele um dia achou uma criança raposa dormindo em baixo de uma ponte.

– Lumina – Amy ouviu a voz de Tails e assustou-se. Até então não se atrevera a falar.

– Isso mesmo. Ela era uma raposa incomum, mas ainda assim, uma criança. Ele a levou pra casa e a criou. A sua sucessora. O mesmo caso de Silver e Blaze: pegue um e você terá o outro nas suas mãos. No fim, só precisei de uma chantagem. E valeu a pena. Lumina possui poderes impressionantes demais. As coisas pareciam perfeitas. Mas então, quando percebi o quanto era complexo o fato de Sonic ser o guardião, mas ao mesmo tempo não possuir o amuleto, uma reviravolta maravilhosa aconteceu, e as coisas ficaram mais claras e fáceis. Ter vocês por perto iria ser uma vantagem. Incusive, seriam perfeitos para fazer Blaze morder a isca. E Silver também ajudaria e se tornaria presa muito fácil. Cabeça-dura, teimoso, prepotente. É verdade que ele se perdeu no tempo, mas ainda assim viria a ser um descendente de Sonic — distante, mas ainda assim, com sangue de guardião. Foram dois coelhos numa cajadada só. Tive em minhas mãos um poderoso ouriço e uma gata guardiã. – A voz pareceu cantar vitória. Logo continuou. – Porém, vocês me atrapalharam mais uma vez. Mandei Lumina, uma das minhas mais fortes armas e até ela teve problemas com vocês. Mas minhas ordens a ela foram claras. Não os mate. Vocês eram os escolhidos, e indiretamente me ajudariam a capturar a última guardiã.

– Por que tanta crueldade, Pyro?! O que há com você?! Por que isso tudo de tirar os guardiões de seus planetas fazê-los sofrer? – Apesar de Tails gritar, sua voz mais parecia um sussurro, um pensamento alto – Eu apenas não consigo entender essa raiva pelos guardiões!

– Você não entende, não é? A captura dos guardiões foi apenas um pretexto pra que eu pudesse colocar as mãos no que eu mais desejava – A risada sarcástica de Pyro ecoava. — Realmente não sabem quem eu sou, não é? – Por mais que tudo estivesse escuro, podiam imaginar pela voz de Pyro que a sua expressão estava mais para dor, que raiva.

Eu sou uma presença. Uma presença desejando vingança!

– P-presença? – Tails estava começando a entender.

– Minha espécie quase não existe mais. Vivíamos naquele planetoide abandonado que vocês visitaram. Lembra dele? Denominávamo-nos ‘presenças’ por sermos singulares em muitas coisas. Somos como almas. Por isso sou quase imortal. Quase. Minha existência é como uma pilha, uma bateria de longa duração. Aos poucos vou desaparecendo. Mas isso não é o mais impressionante sobre nós.

– E o que isso tudo tem a ver com nós? – Amy pela primeira vez, perguntou corajosamente.

– Vivíamos em constante guerra com os planetas do eixo Rosa Negra. Ele e seus guardiões. Esses mundos não viveram apenas de glória. Minha época foi marcada por tiranos ocupando tronos. E eles queriam dominar e explorar os pequenos planetas e planetoides. Então nós entramos em guerra...

– Mas se era uma espécie conhecida, como Tikal não soube me dizer isso com certeza? Ela pareceu falar de um inimigo estranho. – Amy indagou.

– Quando invadi Mobius na época de Tikal, minha espécie já havia sumido. Ou quase toda. Poucos de nós ficamos. Éramos nós por conta própria. Mas ainda tínhamos nossos poderes... E ainda temos e por isso estamos vivos. Como qualquer presença posso lhe dominar, tomar controle da sua mente, entrar em você... Basta você me dar espaço... É como uma depressão, que vem devagar e quando você menos espera...

Para Amy tudo já estava muito claro:

– Quer dizer que aqueles capangas seus não passam de pessoas, seres indefesos que deixaram ser controlados por... Presenças? Inclusive Lumina? E Silver também!?

– Exatamente, podemos invadir e controlar até mais de uma se possível... Lumina estava cheia de problemas com seus poderes. Silver também estava nas minhas mãos... Um de nós estava tentando invadi-lo por sonhos. Mas vocês e sua amiguinha roxa atrapalharam o domínio.

– Claro – Tails interviu. — Sua espécie é afetada pelos sentimentos, apesar de serem poderosos. A determinação, amizade e união são a barreira.

– Infelizmente é isso mesmo.

– Por que está contando isso para nós? Não iríamos deixar você nos dominar e ainda mais agora que sabemos de tudo... – Tails parecia confiante.

– Ah, raposo. Sempre se colocando acima dos problemas. Já está acontecendo...

– O quê?! Não! – Agora ele percebia. Aos poucos, o pouco que restava de si já estava sendo tomado. Era uma distração! Essa conversa estava acontecendo em seu inconsciente como um sonho ruim! E aos poucos, ambos sentiam que Pyro ia invadindo, submergindo tudo que fazia parte deles. E o que era breu estava se tornando em nada, como se estivessem sendo sugados por um buraco negro. Tails estava tão confuso e assustado que cedia facilmente. Amy estava desconsolada, como se tivesse decepcionado a si própria profundamente. Não sabia se estava de fato desmaiada. Talvez tivesse ocorrido uma colisão depois que o avião entrou na nave – o que era bastante previsível. Mas ela estava tão confiante em Tails e em suas habilidades que a causa parecia ser bem mais importante que sua segurança ou vida. E se estava morta, ela não se importava. O seu único pesar era de não poder ser mais forte que tudo ao seu redor. Seus amigos, sua casa, tudo estaria perdido.

Eu decepcionei a todos. – Pensou ela.

Aos poucos sentia: Estava deixando de existir.

Sonic. Eu lutei.

Lutar. Por quê? Será que as coisas teriam que acabar dessa forma?

Sonic.

Não. Não era para acabar assim.

Sonic. Eu quero.

Ela sentiu cada parte de seu corpo retornando ao seu comando. As cores estavam voltando.

Sonic! Não! Eu não vou desistir! Eu vou lutar!

Amy despertou, alarmada. Mesmo confusa e zonza, reconheceu o que estava acontecendo ali. Havia alguém que estava com uma das mãos em sua testa e a outra na testa de Tails. Reconheceu Pyro quase que imediatamente. Então a sua ira se acendeu e ela sentiu em suas mãos o seu parceiro martelo se materializar. Em um sobressalto, ela desferiu o seu melhor e mais forte golpe em Pyro. A silhueta voou longe e só parou ao se chocar contra a parede. Amy não perdeu tempo e socorreu o amigo raposo.

– Tails! Tails! Levanta! Não abandone a nossa causa! Não abandone Mobius! Levante! – Ela balançava seus ombros incansavelmente. Após poucos segundos, os olhos azuis de Tails surgiram. Amy respirou aliviada. E da mesma forma que a ouriça, o raposo retomou consciência do que estava acontecendo rapidamente. Sua raiva parecia fulminante enquanto levantava.

– Pyro, seu imbecil! Porque não nos deixa em paz? –As palavras de Tails foram literalmente cuspidas.

Metros adiante criatura que Amy atingiu, estava levantando-se desconcertada, porém firme. Estavam frente a frente pela primeira vez. Se tivesse que compará-lo a qualquer coisa, compararia à morte. Ele envolto como que em uma capa escura, como uma enorme túnica, sendo impossível vislumbrar seu rosto completamente. As mãos, que eram a única parte do corpo vista, estavam parte envoltas em um pano, como se tivesse sido mumificado. Além delas, apenas seus olhos eram visíveis. Possuíam, um tom alaranjado, porém firme e opaco. Assustador.

– Não podem mais resistir. Vocês já perderam. Venham. Quero que vocês vejam por si mesmos. – Pyro apertou um botão em alguma das paredes. O chão cedeu. Estavam em uma plataforma que desceu até o lado de fora da nave. Imediatamente, Amy e Tails sentiram calafrios. Suas pernas perderam as forças diante de tal imagem. Sonic estavam lá sim, esse fora o motivo do calafrio. Mas seus joelhos tombaram ao chão, quando viram a que ponto a situação havia chegado. A floresta estava em parte incendiada, o céu estava negro e não era possível ver estrelas. No campo de batalha aéreo, uma cena completamente inversa a que estava minutos — ou horas — atrás. Os robôs e soldados Demolish dominavam cada um dos que lutavam pelo bem e pela paz. Alguns amarrados, outros apenas presos em garras de metal ou poderes ocultos, e haviam outros desmaiados também. Sonic estava lá sim. Estava estrangulando Silver pelas costas.

– Não! – Amy chorou, estava mais do que evidente que Sonic tinha sido dominado por alguma Presença. Logo mais, uma cena machucou ainda mais seu coração. Uma Blaze dominada saiu do Thyphoon com Brine em prantos em uma das mãos. Cream, poucos segundos depois, saiu também e tentou impedi-la de fazer aquilo. Como resposta, recebeu um violento soco e caiu nocauteada.

Brine gritou, e então algo inesperado aconteceu. Suas mãos adquiriram um tom azulado e incandescente e ela foi envolta em um aura de mesma cor. A explosão foi uma surpresa tão grande que nem todos acompanharam, apenas perceberam Blaze jogada em outro canto e também desnorteada. Como consequência, a loba também ficou desacordada. A falsa Blaze, agilizou-se e correu, arrancando sua tornozeleira. Depois amarrou a criança, entregando a Pyro. Este, por sua vez, falava como um mestre cauteloso, ensinando a seus pequenos aprendizes:

– Brine é muito nova e ainda não consegue dominar seus poderes. Ela ainda não sabia, mas sua mãe era uma poderosa guerreira de Shield e também a guardiã. Seus poderes são similares ao dela, dominando a água e tudo que seja relativo a ela. Quake também é bastante poderoso, ou deveria ser. Ele tem como ancestrais, dominadores da terra, ele teve conhecimento disso. Mas por ser tão negligente, não desenvolveu esses poderes e deixou-os de lado, sendo inútil eu tentar dominá-lo com um dos meus.

– O que você quer? O QUE VOCÊ QUER, PYRO?! – Tails gritava descontroladamente a repetitiva pergunta, não por querer saber a resposta, mas por não acreditar em tais atos. – PORQUE ESTÁ FAZENDO ISSO?! – Os soluços diminuíram a intensidade da voz do raposo.

Pyro fitou-o. Uma pausa de alguns segundos separou o seu próximo discurso:

– A força que ainda me mantém vivo é o ódio que sinto por não ter conseguido o que queria. Os seus antepassados dividiram o amuleto quando eu já estava com ele em minhas mãos. Eles pegaram duas partes e esconderam. Os quatro amuletos dos guardiões dos quatro planetas, vão enfim me dar a imortalidade! Tudo para destruir e aniquilar todos esses planetas, para vingar minha espécie. Só falta o último amuleto. O do guardião de Mobius... Que não está com o Sonic. Está com vocês!– Pyro, com as mãos, puxou a manga de sua capa e mostrou, no braço esquerdo, um colar desgastado e envelhecido com um pingente e a pedra que costumava ficar na testa de Blaze – era tão minúscula que se não fosse por seu brilho, talvez não a tivessem visto. Juntamente com a tornozeleira, os objetos brilharam em um amarelo tão vivo que pareciam pequenas estrelas.

– Vão finalmente se unir agora. E essa união irá reconhecer em vocês as partes que estão faltando.

Assim que Pyro disse isso, todos ao redor presenciaram um fenômeno fantástico. De repente, um dos rabos de Tails começou a brilhar, da mesma forma que o martelo de Amy.

– Os seus bisavós esconderam as pedras na forma do segundo rabo de Tails e no martelo de Amy. Às vezes não acredito que viveram tanto tempo assim, e nunca se perguntaram por que tinham esses atributos estranhos.

Os amigos se entreolharam ainda nervosos. Amy e Tails estavam tão perplexos que sentiam seus corações palpitarem desesperadamente.

Tails, não se lembrava de sua infância, nem porque tinha um segundo rabo. Só lembrava que sempre fora ridicularizado por causa dele, até o dia em que conheceu Sonic, e descobriu que poderia usá-los como uma hélice. Desde então, o segundo rabo sempre lhe ajudou. Mas alguma coisa estava errada.

Amy tinha como única lembrança sua mãe o dia lhe presenteara com um martelo rosa. Sempre esteve com ele, que, magicamente, poderia aparecer, desaparecer, ou se multiplicar, tudo por desejo das suas emoções. Era seu dever protegê-lo, por amor à sua família e a Mobius, e ela sabia.

Entretanto as coisas não eram da maneira como Pyro pensava.

– M-mas não é possível! – Pyro lamentou, contrariado e confuso.

Por um momento assim, tudo ficou diferente. Tails e Amy então começaram a brilhar da mesma forma que o rabo e o martelo. Ambos não entendiam o que estava acontecendo, mas sentiam uma paz, e uma segurança que só eles podiam sentir e não tinha nada a ver como o que possuíam. Eram eles a parte que faltava à pedra?

Somente Pyro ali compreendia. O seu paladar não errava. Aquele gosto singular... Era único, não havia como ser confundido. O tão raro sabor de vários sentimentos ao mesmo tempo. Não era possível distinguir se era amizade, lealdade, amor, paz, ou qualquer outro sentimento pleno, porque todos eles estavam intimamente ligados. Mas ele tinha certeza que o poder vinha dali. E isso era um problema. O ódio cresceu dentro de si.

– Mas como?! Era para a pedra reconhecer em vocês os pedaços que faltam e nada mais!

Mas estava claro para Tails.

– Realmente, Pyro, você estava certo. Essas coisas são a herança deixada a nós. Mas você esqueceu algo. Não depositamos a nossa em força em caudas ou objetos, Pyro – disse Tails – O nosso empenho está em algo além da sua capacidade. Está dentro de nós! E isso é algo que você jamais irá pôr as mãos!

Uma ira crescente se acendeu em Pyro, ele podia percebeu tudo em si ganhar um sentimento de ódio.

– É verdade... Você está certo, realmente não posso. — O plano de Pyro havia falhado. Ele sentiu que talvez teria sentido uma lágrima tenha corrido em seu rosto no corpo que havia dominado há muitas décadas. Tudo que havia planejado e acreditado em todos esses anos se misturaram em um borrão que simplesmente sumiu por suas mãos. Não era possível roubar sentimentos, e ele não sabia como agir frente a uma situação dessa. Não havia se preparado para enfrentar algo tão singular como aquilo. Mas não podia entregar o jogo assim.

– Mas se acham que os deixarei impunes estão muito enganados. Posso esperar o tempo que for para ter minha vingança! Se meu destino é padecer, esse também será o de vocês e o de todos esses planetinhas miseráveis! E vocês – Pyro riu. — terão o prazer de serem mortos por aquele que tanto admiram. Sonic.

Imediatamente o corpo de Sonic movimentou-se em posição de ataque. Por mais que Pyro não conseguisse o que queria, ele ainda estava com o domínio da situação. Tails sentiu medo. Não era medo da morte, mas de um final infeliz, que estava prestes a acontecer.

Está tudo acabado?