Amélia passou o domingo inteiro enterrada nos livros na biblioteca. Fazia mais um belo dia de sol, e a maioria de seus colegas de casa passou o tempo nos terrenos da escola, aproveitando o que bem poderia ser a última aparição do sol daquele ano. Quando anoiteceu, milagrosamente, Amélia fazia acabado todos os deveres, mas tinha a impressão de que alguém andara malhando o seu cérebro contra sua caixa craniana.

— Eu provavelmente devia tentar adiantar os deveres durante a semana — murmurou para si quando finalizou o último exercício.

Pensou que na manhã seguinte não teria nenhuma novidade no Profeta Diário de Lisa que pudesse piorar seu humor. No entanto, a coruja-entregadora mal levantará voo da jarra de leite em que pousará quando Lis já deixava escapar uma enorme exclamação e abria o jornal todo para mostrar uma grande foto de Dolores Umbridge com um enorme sorriso, piscando lentamente para eles sob a manchete.

MINISTÉRIO QUER REFORMA NA EDUCAÇÃO.

DOLORES UMBRIDGE NOMEADA PRIMEIRA ALTA INQUISIDORA DA HISTÓRIA.

— Umbridge... Alta Inquisidora? — foi a exclamação sombria de Caleb, que baixou o garfo que estava a caminho da sua boca. — Que é que eles querem dizer com isso?

Lisa leu em voz alta:

— Ontem à noite, o Ministério da Magia surpreendeu a todos aprovando uma lei que concede ao próprio órgão um nível de controle sem precedentes sobre a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

"'Já há algum tempo, o ministro tem se mostrado apreensivo com o que acontece em Hogwarts', comentou seu assistente-júnior, Percy Weasley. 'O decreto é uma resposta às preocupações expressadas por pais ansiosos que sentem que a escola está trilhando um caminho que desaprovam.'"

"Não é a primeira vez nas últimas semanas que o ministro Cornélio Fudge tem usado novas leis para realizar aperfeiçoamentos na escola de magia. Em 30 de agosto recente, foi aprovado o Decreto de Educação n.º 22, para assegurar que, na eventualidade do atual diretor não conseguir apresentar um candidato a uma vaga de professor, o Ministério selecione uma pessoa habilitada."

"'Foi assim que Dolores Umbridge acabou sendo indicada para o corpo docente de Hogwarts', disse Weasley ontem à noite. 'Dumbledore não conseguiu encontrar ninguém, então o Ministério nomeou Umbridge e, naturalmente, ela alcançou imediato sucesso...'"

— Ela o QUE? — Amélia exclamou em voz alta.

— Espere, ainda tem mais — disse Lis: — "... imediato sucesso, revolucionando inteiramente o ensino da Defesa Contra as Artes das Trevas e informando em primeira mão ao ministro o que está realmente ocorrendo em Hogwarts."

"É esta função que o Ministério está formalizando agora ao aprovar o Decreto de Educação n° 23, que cria o cargo de Alta Inquisidora de Hogwarts. 'Inicia-se assim uma nova fase no plano ministerial para enfrentar o que alguns têm chamado de queda nos padrões de Hogwarts', diz Weasley. 'A Inquisidora terá poderes para inspecionar seus colegas educadores e se assegurar de que estejam satisfazendo os padrões desejados. O cargo foi oferecido à Profª Umbridge, que aceitou a nova incumbência e a irá acumular com o cargo docente que ora exerce.'"

"As novas medidas do Ministério receberam o apoio entusiástico dos pais dos alunos de Hogwarts. 'Eu me sinto muito mais tranqüilo agora que sei que Dumbledore está sujeito a avaliações justas e objetivas', declarou o Sr. Lúcio Malfoy, 41, à noite passada de sua mansão de Wiltshire. 'Muitos de nós, que no fundo queremos que nossos filhos sejam felizes e bem-sucedidos, estávamos preocupados com algumas decisões excêntricas que Dumbledore andou tomando nos últimos anos, e ficamos contentes de saber que o Ministério está atento a situação.'"

"Sem dúvida, entre as decisões excêntricas mencionadas encontram-se as nomeações controvérsias apontadas pelo nosso jornal, entre as quais se incluem a contratação do lobisomem Remo Lupin, do meio-gigante Rúbeo Hagrid e do ex-auror delirante Olho-Tonto Moody."

"Naturalmente, correm muitos boatos de que Alvo Dumbledore, que no passado foi o Chefe Supremo da Confederação Internacional de Bruxos e Bruxo-presidente da Suprema Corte, não está mais à altura de administrar a prestigiosa Escola de Hogwarts."

"'Acho que a nomeação da Inquisidora é o primeiro passo para assegurar que Hogwarts tenha um diretor em quem possamos depositar nossa confiança', declarou uma fonte do Ministério à noite passada."

"Os juízes da Suprema Corte, Griselda Marchbanks e Tibério Ogden, renunciaram aos seus mandatos, em protesto à criação do cargo de Inquisidora de Hogwarts. 'Hogwarts é uma escola e não um posto avançado do gabinete de Cornélio Fudge', declarou Madame Marchbanks. 'Trata-se de mais uma tentativa repugnante de desacreditar Alvo Dumbledore.'"

(Leiam a história completa das supostas ligações de Madame Marchbanks com grupos de duendes subversivos na p. 17.)

Ela terminou de ler e olhou para os amigos, sentados à sua frente.

— Uma coisa que eu não entendo é a confiança que Fudge tem nessa mulher, ela é uma cobra. — Amélia resmungou mal humorada.

— Quem sabe ele também não é uma? — Ben fez piada, tentando quebrar a tensão do ar.

— Pelo menos agora sabemos como foi que acabamos alunos da Umbridge! Fudge aprovou o "Decreto de Educação" e forçou a sua contratação! Agora lhe concedeu o poder de inspecionar os outros professores! — Lisa falou com raiva. — É um absurdo!

— Sabemos disso — Caleb disse, tentando acalmar a namorada. E pegou em sua mão direita, girou e lhe deu um beijo singelo ali. Mas o Benjamin começou a abrir um sorriso assustadoramente maroto. Esse era definitivamente o seu melhor sorriso.

— Eu tenho até medo de perguntar, mas o que foi? — perguntou Caleb olhando para ele, mas ainda segurando a mão da namorada.

— Ah, mal posso esperar para ver a McGonagall ser inspecionada — disse feliz. — A Umbridge não vai saber nem o que foi que a acertou.

— Ah, quer saber? Vamos logo para a aula — Amélia disse, levantando em salto —, se ela estiver inspecionando a classe de Binns não vou querer chegar atrasada…

Mas a Profª Umbridge não estava inspecionando a aula de História da Magia, que foi tão desinteressante quanto a da segunda-feira anterior, tampouco estava na masmorra de Snape, quando eles chegaram para os dois tempos de Poções, em que ele entregou o trabalho de Amélia sobre a pedra da lua com um enorme "A" no canto superior.

Snape era um mala, todos concordavam, mas as suas aulas eram uma das melhores. Se perguntassem a Lisa o que ela tinha a dizer sobre isso, apenas reviraria os olhos e expressaria seu total espanto com a loucura da amiga.

— Dei a vocês as notas que teriam recebido se tivessem apresentado esses trabalhos no seu N.O.M. — disse Snape com um sorriso afetado, ao passar pelos alunos devolvendo os deveres. — Isto deverá lhes dar uma ideia realista do que esperar no exame.

Snape foi até a frente da classe e se voltou para a turma.

— O nível geral dos deveres foi absurdo. A maioria de vocês não teria passado se fosse um exame real. Espero observar um esforço bem maior no trabalho desta semana sobre as variedades de antídotos para venenos ou terei de começar a distribuir detenções para os tapados que receberem "D".

O professor riu com afetação quando Malfoy deu uma risadinha e disse num sussurro ressonante:

— Teve gente que recebeu um "D"? Ha!

Porém Amélia percebeu Malfoy esconder a sua prova disfarçadamente enquanto falava. Obviamente, não foi Amélia que tirei a nota mais alta, mas um "A" era muito melhor do que um "P" ou "D", e se ele realmente tiver corrigido os trabalhos com base nas correções da N.O.M.s, ela tinha uma pequena chance de tirar uma nota boa nesta matéria. A garota estava decidida a ser motivo de orgulho para os seus pais e tirar pelo menos quatro "Os" e o resto, no máximo, "E", mesmo que para isso tenha que pedir a ajuda da Granger.

Quando Snape colocou as informações sobre a atividade daquele dia no quadro-negro, ela leu e releu cada linha pelo menos três vezes. Sua Solução para Fortalecer ficou exatamente um turquesa-claro como a de Hermione, talvez, se arriscava a achar, melhor do que a dela, o que foi um alívio.

— Como que cor ficou a sua? — Amélia perguntou a Dino quando subiram as escadas das masmorras para atravessar o Saguão de Entrada e ir almoçar.

— Azul — ele respondeu e riu.

— Vocês fazem uma dupla perfeita — falou para Thomas e Finnigan -, um sempre tem que explodir alguma coisa na aula e o outro não consegue fazer uma porção. O que seria de vocês sem mim?

— Por isso agradecemos todos os dias por termos conhecido você — Simas falou e lhe deu um beijo de despedida na bochecha, sendo seguido por Dino. — Nós vemos por ai, nerd.

Rindo, Amélia foi na direção de Caleb, que comia afastado dos outros dois amigos.

— O que houve? — perguntou sentando ao seu lado e começando a comer.

— Eu e a Lisa…

— Brigaram de novo? Vocês andam brigando muito.

— Ela fica me cobrando coisas que eu não consigo fazer.

— Você nem tenta, Caleb, namorar é se entregar de cabeça e estar disposto a se moldar.

— E como você pode entender tanto do assunto? Nunca teve um namorado, e nenhum garoto quer saber de você.

— Já entendi você não quer ajuda de uma pessoa inexperiente, tudo bem — falou, magoada. A garota não saiu dali, mas também não falou mais nada, passou o restante do almoço torcendo para Umbridge não estivesse supervisionando o professor de Aritmancia. E como se Merlin quisesse lhe agradar, ela não estava lá.

Quando entrou na sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, dez minutos depois da sineta tocar, ela estava aguardando os alunos.

Ela sorria e cantarolava baixinho quando entramos. Amélia acabou sentando novamente ao lado de Hermione e, mesmo que a contragosto, ouviu Harry e Rony contarem a Hermione, que estivera na aula de Aritmancia com ela, exatamente o que acontecerá em Adivinhação, enquanto apanhavam os exemplares de Teoria da Defesa em Magia, mas, antes que Hermione pudesse fazer alguma pergunta, a Profª Umbridge chamará a atenção da sala e todos se calaram.

— Guardem as varinhas — mandou ela com um sorriso, e aqueles que esperançosamente haviam apanhado as varinhas, com tristeza as repuseram nas mochilas. — Como terminamos o capítulo um na aula passada, hoje eu gostaria que abrissem na página dezenove e começassem a ler o capítulo dois de "Teorias de defesa comuns e suas derivações". Não haverá necessidade de conversar.

Ainda sorrindo, aquele sorriso amplo e presunçoso, ela se sentou à escrivaninha. A turma deu um suspiro audível quando abriu, como se fossem um só aluno, a página dezenove. Amélia ficou imaginando, entediada, um modo de impedir essa mulher de dar aulas quando reparou que Hermione erguera novamente a mão no ar.

A professora também reparou e, além disso, parecia ter preparado uma nova estratégia para essa eventualidade. Em lugar de tentar fingir que não reparará em Hermione, ela se levantou e deu a volta na primeira fila de carteiras até ficar cara a cara com a garota, então se inclinou e murmurou, de modo que o restante da classe não pudesse ouvi-la:

— O que é agora, Srta. Granger?

— Já li o capítulo dois.

— Então passe para o capítulo três.

— Já li também. Já li o livro todo.

A Profª Umbridge piscou os olhos, mas recuperou sua pose quase instantaneamente.

— Bem, então, você deverá poder me dizer o que Slinkhard escreveu sobre as contra-azarações no capítulo quinze.

— Ele escreveu que a denominação contra-azarações é imprópria — respondeu Hermione imediatamente. — E que contra-azaração é apenas o nome que as pessoas dão às suas azarações quando querem fazê-las parecer mais aceitáveis.

A Profª Umbridge, ergueu as sobrancelhas, e Amélia conseguiu perceber que a professora estava impressionada ainda que a contragosto.

— Mas eu discordo — continuou Hermione.

As sobrancelhas da professora subiram um pouco mais, e seu olhar se tornou visivelmente frio.

— A senhorita discorda?

— É, discordo — confirmou Hermione, que, ao contrário de Umbridge, não murmurava, falava em uma voz alta e clara, que a essa altura já atraíra a atenção do resto da turma. — O Sr. Slinkhard não gosta de azarações, não é? Mas acho que podem ser muito úteis quando são usadas defensivamente.

— Ah, então essa é a sua opinião? — disse a professora, se esquecendo de murmurar e endireitando o corpo. — Bom, receio que seja a opinião do Sr. Slinkhard que conte nesta sala de aula, e não a sua, Srta. Granger.

— Mas... — recomeçou Hermione.

— Agora basta — disse a professora. Voltou, então, para a frente da sala e se postou ali, mas toda a segurança que exibirá no início da aula se perdera. — Srta. Granger, vou tirar cinco pontos da Grifinória.

Houve uma eclosão de murmúrios.

— Por quê? — perguntou Harry indignado.

— Não se meta! — cochichou Hermione para ele, ansiosa.

— Por perturbar minha aula com interrupções sem sentido — disse a Profª Umbridge suavemente. — Estou aqui para lhes ensinar, usando um método aprovado pelo Ministério que não inclui convidar alunos a darem suas opiniões sobre assuntos de que pouco entendem. Os professores anteriores desta disciplina podem ter permitido aos senhores maior liberdade, mas como nenhum deles... com a possível exceção do Prof. Quirrell, que pelo menos parece ter se restringido a assuntos apropriados para sua idade... teria passado em uma inspeção do Ministério…

— É, Quirrell foi um grande professor — Amélia disse em voz alta, tentando impedir que Potter fizesse uma besteira -, exceto pelo pequeno problema de ter Lord Voldemort saindo pela nuca.

Este pronunciamento foi seguido de um dos mais retumbantes silêncios que já ouvi. Então…

— Acho que uma semana de detenção lhe fará muito bem, Srta. Belmont — disse Umbridge com voz sedosa.

— A senhora não pode dar uma detenção por ela está falando a verdade.

— Potter, será que você pode calar a boca? Eu sei o que estou fazendo — Amélia falou entredentes para o garoto.

— O senhor está questionando o meu método de ensino, Potter?

— Sim!

— Vejo que também precisa de mais uma semana de detenção.

Amélia podia afirmar com toda certeza que poucas vezes havia ficado com tanta raiva como naquele momento. Se Potter achava que ela era uma garotinha indefesa que precisava de um herói para lhe salvar, estava muito enganado, e precisava muito menos de um idiota que ganhava detenção por nada. Amélia sabia o que Umbridge ia fazer com ela naquela detenção, tinha visto o estado da mão de uma garota da Cornival depois de uma detenção com aquela monstra, detenção essa que só recebeu por falar para seus amigos que acreditava naquele idiota.

Quando o sinal tocou, Amélia foi a primeira a sair da sala, mas esperou por Harry na porta e assim que ele passou o puxou consigo, e é claro que as suas duas sombras os seguiram. A garota empurrou ele para dentro da primeira sala vazia que passaram.

— Você tem algum problema na cabeça? — gritou assim que o Weasley e a Granger fecharam a porta.

— Do que você está falando? — perguntou ele, também aos gritos.

— Em você tentando bancar o herói salvando a mocinha à algum tempo atrás.

— Eu estava tentando lhe ajudar, sua mal agradecida.

— Você só pode ter algum problema na cabeça! Eu sabia o que estava fazendo.

— Você não sabe como é a detenção daquela mulher, Belmont! Você nunca passou por aquilo, eu já, sei o quão ruim é — ele falou, agora abaixando o tom de voz.

— Eu sei como é, Potter, e estava tentando impedir que você não passasse por isso de novo, mas pelo que percebi você é um masoquista, e agora ganhei uma detenção por nada. Muito obrigada mesmo!

Amélia passou por ele e pelos seus dois amigos, saindo daquela sala escura e indo para o seu dormitório, saindo de lá só para ir a detenção, sendo acompanhada por um Harry calado.

Não se queixou durante a detenção; estava decidida a não dar a Umbridge essa satisfação; repetidamente escreveu "Não devo contar mentiras", e nenhum som escapou de seus lábios, embora o corte se aprofundasse a cada letra. Harry parecia ter o mesmo plano que ela, pois era difícil ouvir até mesmo sua respiração.

Quando saíram da detenção, Harry tirou, sabe-se lá de onde, um pedaço de pano branco e enrolou na mão de Amélia.

— Obrigada! — respondeu calmamente, a última coisa que queria era uma nova briga, estava cansada demais para isso.

— Me desculpe! — ele falou e Amélia o encarou sem entender. — Pelo que aconteceu mais cedo, eu realmente estava tentando ajudar, mas normalmente as coisas não saem como eu quero.

A garota apenas olhou para o chão, sabia, mesmo que não quisesse admitir, que também estava errada, estava lhe julgando sem realmente conhecê-lo, e outra, havia feito o mesmo, tentado dar uma de heroína.

— Me desculpe também! — Harry olhou para garota, confuso. — Eu não deveria ter lhe falado aquelas coisas, eu meio que estava fazendo o mesmo.

Ele sorriu de lado e negou com a cabeça, como se dissesse que não tinha sido nada.

— Você é diferente do que dizem — ele disse, agora olhando para a frente.

— Falam de mim?

— Claro que sim. Você deu um soco no seu primo quando estava no primeiro ano.

Amélia riu, teve que rir. Ninguém nunca mais falava naquilo, na verdade, nem ela mesma falava. Havia acontecido a tanto tempo que parecia ter sido em outra vida.

— O que foi? — ele perguntou quando a garota parou de rir.

— Ninguém mais fala disso, e, em minha defesa, eu estava totalmente certa.

— Nunca disse que não estava — ele falou e levantou as mãos como quem diz "eu me rendo". — E todos falam sobre isso depois da nossa discussão com aquela monstra.

Amélia abriu a boca para responder, mas percebeu que já estavam em frente ao quadro da Mulher Gorda, entraram em silêncio e subiram as escadas, antes de se separassem Harry lhe desejou um boa noite baixo e seguiu seu caminho.

— Você também é diferente do que dizem — Amélia sussurrou, mas sabia que ele havia escutado, não sabia como, mas sabia.