Belanote

6 Capítulo 6 - Criança.


Notas iniciais
Todos os capítulos irão sair excepcionalmente as 14 horas das quartas-feiras. Não se esqueça de ler os capítulos anteriores antes de ler esse.

Ela sabia que seu nome era Nicole, mas não sabia o porquê.

Porque escolheram esse nome para mim, se perguntou mais uma vez. A que conduz o povo a vitória. Porque?

Eu conduzo apenas para a morte.

Queria esquecer o que fez, porque parecia o correto querer esquecer. Porem ela sabia que não se importava. Tirar a vida de uma criança de uma maneira tão fútil apenas por querer silencio, qual era a diferença dela para a de um animal que mata por diversão?

Não importa, ela pensou com sigo mesma, não foi o primeiro nem será o último.

Ela estava de pé perto de uma cova que ela mesma fizera. Não era muito funda, não precisava ser. Ela enrolou o pequeno corpo em seu próprio casaco e o deitou no fundo da cova, olhou mais uma vez e começou a jogar terra para tampar.

Ela estava fazendo aquilo porque parecia o correto, mas sabia que não se importava.

--//--

Ela desejou ter pesadelos sobre o que tinha feito, queria acordar suando frio e pedir perdão a deus pelo que fez. Mas era claro que nada disso aconteceu. Suas horas de sono passavam sem problemas e sem sonhos.

Sua rotina era sempre a mesma: Acordar, tomar café, caminhar, almoço, caminhar, janta, caminhar e dormir. Ela já percorrera muitos quilômetros em busca de um significado para seu nome.

Sua mochila continha apenas o básico. A comida sempre acabava rápido, mas quase sempre dava para chegar em algum lugar habitado antes que tudo acabasse, ela andava rápido.

Percorria rodovias e as vezes passava por trilhas, dependia para onde seu senso de direção a guiava, as vezes recebia carona, mas era raro, nos últimos anos poucos veículos transitavam rodovias, o movimento era muito mais pelos céus.

Nesse dia teve sorte, uma carreta parou para lhe dar uma carona.

Carretas ainda circulavam com relativa frequência, era mais barato levar a carga de um ponto A ao ponto B se esses lugares ficassem tão longe. Os se as cargas não fossem muito importantes.

O homem parecia estar com seus 50 anos, tinha uma barba que já começava a ficar branca e tinha um olhar que esbanjava confiança. Nicole não gostou muito.

— A senhorita vai para onde? – Perguntou motorista depois de algum tempo.

— Nesse momento pretendo ir para o sul. – Respondeu Nicole.

— Eu também, — Achou graça o motorista – mas para onde exatamente?

— Não sei, só sei que tenho que ir para o sul. – Ela olhava a estrada deserta pela janela da carreta agradecendo por não precisar andar tudo aquilo.

— Eu estou levando a carga aí atrás para o Rio de Janeiro, lá é um lugar que atrai todo tipo de pessoa que não sabe para onde ir, talvez você possa ir comigo até lá.

— Eu ficaria grata se pudesse me levar até lá. – Ela respondeu sem desviar o olhar da janela.

Sentiu uma mão em sua coxa esquerda.

— Claro que tem um preço. – Disse o motorista com um sorriso.

--//--

Nicole demorou 16 horas para chegar no rio, se guiou apenas pelas placas na estrada. Ela não entendeu como podia dirigir, principalmente uma carreta como aquela, nunca aprendera a dirigir. Ou aprendi? Questionou-se, mas logo isso não importava mais.

Ela deixou a carreta um pouco antes da cidade começar de verdade, não seria interessante ela ser pega com um veículo roubado. Seria sim, pensou e sorriu para si mesma.

Nas próximas horas ela caminhou rumo a parte litoral. Durante o caminho prestava atenção nos prédios altíssimos, nas propagadas holográficas, nas bicicletas que corriam em disparada sem nunca colidir, nos pedestres apresados com seus celulares e é claro na segurança. Durante sua caminhada de pouco mais de 4 horas, ela parou em dois bares e numa loja de roupas.

O primeiro bar foi logo quando chegou. Estava faminta, toda sua comida acabou um dia antes de chegar no Rio. Por sorte o caminhoneiro tinha um bolso rechiado de dinheiro. Sorte minha, azar dele, pensou Nicole e fez uma cara de nojo. Comeu até ficar satisfeita, uma das poucas coisas que lhe dava verdadeiramente prazer era doces, por isso comprou 5 bombons e saiu.

Em seguida foi em uma loja de roupas, comprou duas peças de camisas e de calças e um par de sapatos novos. Sua antiga roupa parecia um trapo sujo que não prestaria nem para dar para um sem teto. Ao trocar de roupa olhou-se no espelho do provador. Seu rosto adolescente e seu cabelo grande e negro junto com seus quadris e busto fartos a tornavam uma mulher desejada mesmo com roupas imundas. Quanto tempo já faz que não me olho no espelho? Pensou, ainda bem que tenho esta aparência ou as coisas poderiam ser mais difíceis, concluiu.

E por fim entrou novamente em outro bar no fim da tarde para fazer um lanche e comprar doces, o atendente pareceu gostar dela. Claro que gostou, todos gostam, pensou em quanto saboreava um pedaço de torta.

A noite já havia caído a muito quando Nicole chegou na praia, a vista da Pedra da Gávea era algo que ela nunca tinha visto antes e ela aprecia novidades. E um belo lugar para ficar, refletiu, acho que posso apreciar esta vista antes de seguir adiante.

Após algumas horas Nicole percebeu que era a única pessoa na praia. Como posso ser a única pessoa aqui se esta cidade e tão grande? Questionou-se.

Ela decidiu caminhar pela beira do mar segurando os sapatos, era bom poder ter água salgada entre seus dedos. Água salgada? Pensou, isso me lembra algo...

Ela viu de longe a figura de um homem naquela penumbra, algo em sua cabeça brilhava. Ela ficou curiosa.

E então ele começou a correr em sua direção. Ela ficou parada e girou a cabeça, como um cachorro ao prestar atenção em que o dono fala, imaginando o que ele iria fazer. Quando o homem estava a pouco mais de dois metros dela ela notou que o brilho vinha de um capacete que ele usava, e o sujeito parecia usar um uniforme. Ela nunca tinha visto aquilo. Não me parece tão estranho assim..., cerrou os olhos com esse pensamento.

— O que está fazendo aqui a esta hora? – O sujeito tinha um tom de voz de quem fala com uma criança.

Nicole não gostou.

— O que eu faço não e de sua conta. – E foi andando, mas o homem segurou seu braço.

— O que faz você pensar que tem direito de falar assim comigo? – Perguntou, agora com um tom mais agressivo sua mão começava a machucar.

— E quem e você? – A pergunta de Nicole fez a mão do sujeito afrouxar e ela se soltou dando um passo para trás.

Ao se libertar fez sua melhor cara de garota perdida e indefesa. Era uma expressão que ela odiava fazer, mas sempre funcionava com homens.

— Você tem que vir comigo, a levarei até sua casa. – O sujeito se virou e fez um gesto para que ela o seguisse.

E ela seguiu em silencio querendo ver o que iria acontecer, ou descobrir. Não gostava de ser ignorante sobre nenhum assunto porem era o que mais acontecia. Por algum motivo sua memória parecia falhar as vezes.

— Eu vou deixar passar dessa vez. – Continuou a falar o homem. – Tem sorte dessa ser minha área, os outros não são tão gentis. – Ele girou a cabeça em sua direção e ela se viu no reflexo do vidro preto do capacete – Se eu arrumasse problemas com todas as crianças que decidem dar uma volta na praia a noite...

— Não sou uma criança! – Cortou Nicole. – Você ainda não me respondeu quem e você.

— Apenas crianças são inconsequentes dessa forma! – Sua voz estava carregada de agressão novamente – Claro que você sabe quem eu sou, não me faça de bobo garota.

— Não vou andar nem mais um passo sem saber quem e você. – Cruzou os braços e parou de segui-lo.

— Mas o que... – O homem parecia surpreso com a atitude da garota – Quer ser tratada como mulher? Que seja.

O estalo preencheu o silencio da noite no momento que a palma de sua mão acertou o rosto dela.

Ela soltou um gemido surpreso, e deu um passo para traz com as mãos tampado aonde ardia em sua face.

— Agora me siga... Mulher. – E cuspiu no chão, seguindo em frente.

E ela se moveu, claro que não foi para segui-lo.

Tudo ocorreu no tempo de um suspiro demorado.

Ela encostou a mão na parte de detrás do capacete, aonde protegia a nuca. Como se homem não tivesse peso algum, ela simplesmente empurrou a cabeça até que ela afundasse no solo de areias fofas. Parece um avestruz, e riu daquela cena.

Ela podia escutar uma voz abafada pela areia, o tom ela conhecia bem. O capacete deve ser impermeável, ela refletiu em quanto golpeava pela terceira vez a barriga do sujeito.

E então correu.

--//--

Ela passou os dias seguintes descansando. Tinha dinheiro o suficiente para se alimentar bem e dormir bem. Então posso me permitir a esses luxos.

Ela havia pintado o cabelo e estava andando só de óculos escuros e com sua segunda muda de roupas. O motivo era simples: Ela descobrira da pior maneira como irritar um defensor. Como eu não sabia deles?— Ficava se perguntando muito isso nos últimos dias -, todos sabiam. E graças a sua atitude ela estava sendo procurada, temia que mudar a cor do cabelo para ruivo e mudar a roupa não fossem o suficiente porem já se passaram alguns dias e ninguém a abordou.

Depois do primeiro dia e dormiu todas as noites em um modesto hotel perto do centro. Perguntado, descobriu que a partir das 22 horas e instalado um toque de recolher em prol da segurança pública. O senhor que a contou isso não pareceu satisfeito com a pergunta.

Durante os dias ela caminhava sem rumo dentro da cidade, buscando algo que possa leva-la a um caminho, mas nem mesmo ela sabia o que buscava. E tudo abstrato de mais, pensou, como vou descobrir o significado de meu nome procurando dessa forma, sem rumo?

--//--

No crepúsculo da quarta tarde ela estava sentada em uma pracinha. Observava as crianças nos balanços e correndo a tarde toda, achava reconfortante, aqueles pequenos, nenhuma preocupação a não ser se divertir.

Com a noite próxima as crianças já tinham voltado para casa, menos uma. Então ela decidiu se aproximar.

Sentou no balanço ao lado dele, era um garotinho de não mais de nove anos.

— Oi! – Disse o garoto quando ela se aproximou.

— Oi. – Respondeu Nicole. – Você não se importa de eu balançar aqui ne? – E começou a fazer o movimento com o balanço.

— Claro que não. – Respondeu o garoto com bastante curiosidade na voz – Porque você não veio antes?

— Oque? – Parecia surpresa.

-É. Antes. Você ficou ali o maior tempão olhando para cá, mas só veio brincar agora. – Ele pisou no chão para pegar impulso e balançou mais alto. – Porque?

-Ahhh... E que eu estava com vergonha, não sou mais uma criança para brincar no parquinho, já tenho 15 anos. – Olhando em volta Nicole teve que perguntar. – Porque não foi embora ainda, já é noite.

— Estou esperando meu pai. Ele e um mecânico, ele superforte e grande e também... – Ele deixou o raciocínio de repente e começou a correr – Papaiiiiiii!

Nicole estava sentada, já não balançava mais. Seu olhar estava fixo na cena de pai e filho se abraçando até irem em bora. Em seu cérebro as informações estavam sendo processadas.

O que uma criança faz quando precisa de ajuda?

Procura por seus pais.

Onde está meu pai? — Nicole se perguntou, em quanto sua mente ardia pelas lacunas de conhecimento que tentavam ser preenchidas com ignorância. Não, não! Lembre-se droga! Você não foi sempre sozinha!

Durantes longos minutos Nicole manteve seus olhos fechados, suando frio e segurando com força a corrente do balanço. E então subitamente se lembrou de algo.

— Preso. – Sussurrou.

Papai estava preso. — Completou para si.

Notas finais
Capítulo 7 já postado.