Belanote

8 Capítulo 8 - Premonições.


Notas iniciais
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Ryan estava sentado na beira da cama olhando para a janela, a eletricidade correndo nos fios a noite e o barulho de um carro ou outro que raramente passavam por ali àquela hora. Estava pensativo, ultimamente não dormia muito, imaginava o que poderia ocorrer agora que se mudou novamente.

Após a prisão de todas aquelas pessoas na luta clandestina ele foi “promovido”, continuava sendo um defensor como qualquer outro porem foi transferido para uma cidade muito maior, mas mesmo assim não era muito grande comparada com os principais centros urbanos. Mas diferentes deles lá não tinha o toque de recolher, que só era implementado em cidades com mais de 1 milhão de habitantes.

Ele se levantou e se vestiu, não com seu uniforme e sim como um civil. Antes de sair ele passou um tempo observando a sua esposa, ela dormia tranquila, seu peito levantava e abaixava ritmicamente com a respiração, seus cabelos loiros mexiam um pouco com o vento que vinha da janela, Ryan podia ver os detalhes de seu rosto mesmo na aquela penumbra, ele tocou a rosada pele de seu rosto. O holograma se desfez e ele saiu.

Única coisa que levou com sigo foram as três capsulas especiais de Belanote que ainda restavam. Saiu a pé, sua casa ficava localizada em um condomínio não muito longe do centro. Queria respirar o ar puro tranquilo da noite local e refletir sobre o que perturbava.

Ele já matou muita gente, já fez muitas coisas que merecem pesadelos, e realmente os tinha. As vezes após uma missão ele não conseguia dormir por dias devido a eles, sua mente sempre o perturbou. Geralmente era o mesmo sonho: Uma garota sobre uma pilha de corpos, repetindo em um sussurro cortante “Shanai”. A garota não tinha rosto. O sonho era sempre aquela repetição ininterrupta e isso o perturbava.

Des do início desses pesadelos a meses a traz ele vem pesquisando sobre sonhos, sobre premonições. De início ele achava tudo uma bobagem, mas só um idiota e cético apenas por parecer improvável.

Ryan tinha essa filosofia de que “Nada ocorre ao acaso”.

E para ele aquilo eram premonições, ou algo parecido. Era importante e queria dizer algo, tinha que ser. Era melhor que imaginar que tudo aquilo vinha em sua mente sem motivo.

Para refletir ele caminhava durante a noite, o ar gelado preenchia seus pulmões em quanto ele observava as casas e arvores ao redor.

Shanai. Ele dizia para si mesmo quase como um murmúrio. A palavra cada vez soava mais familiar e perturbadora, como se fizesse parte do seu idioma, mas que significasse algo terrível. E deveria mesmo, já que foi tirada de um pesadelo.

Ryan apesar de ser um Defensor e de ter provado o sangue diversas vezes, ainda se considerava um covarde. Tinha medo de quem ele amasse fosse ferido pelos malfeitores que ele tanto perseguia. Tinha medo também de morrer. Se não fosse os efeitos psicológicos que o Belanote causa, inibindo emoções e atiçando outras ele não seria capaz de matar nem o pior dos bandidos.

Ele sabia que eram pessoas como ele, que tinham família que se importavam. Mas nada, absolutamente nada justifica a ameaça à paz. Seja dinheiro, amor, luxuria ou ganancia. Se alguém ameaça o bem maior deve de ser aniquilado sem julgamento, na verdade pelo meu julgamento.

Ele vestia o uniforme sempre que a inteligência o contatava. Nessa cidade ele continuava trabalhando sozinho, mas tinha a impressão que não por muito tempo. O primeiro mês foi complicado, as pessoas não estavam acostumadas com um Defensor andando por ai, Ryan teve que dar fim a milícia loca, com o tráfico primeiro. Foi um mês cheio, trabalhava sem parar. Não entenda mal, para ele lidar com todos era fácil, só era demorado e cansativo.

Na primeira noite Ryan teve direito de suar seu traje Rank 2 pela terceira vez dês que se tornou um Defensor. Era impossível ser mais diferente do Rank 4, não era uma armadura e sim duas manoplas e um casco, como de tartaruga nas costas. Essa limitava sua mobilidade ao extremo.

O casco servia como uma mochila de metal, dentro continha uma espécie de bateria criada com as pérolas do Belanote. Ela absorvia a energia ao redor ignorando o usuário, assim qual quer um que chegasse perto para ataca-lo não poderia se mover. Praticamente isso anula algumas leis da física o que a torna mais complexa ainda.

As manoplas eram ligadas ao casco por um exoesqueleto, e toda energia que o casco absorvia as manoplas liberavam. Causando danos catastróficos sem muito esforço.

Nessa noite Ryan devastou o quartel da milícia. Era um prédio bem protegido, mas ainda usavam armas de fogo contrabandeadas, e elas eram inúteis contra ele. A própria energia das balas em alta velocidade foi mais do que o necessário para derrubar as paredes com um soco da manopla. Os que lutaram morreram e os que se renderam foram presos. Essas organizações são sempre o problema em locais aonde não tem Defensores, eles instauram o medo na população.

Os traficantes de armas e drogas foram liquidados logo em seguida. Traficantes em geral são fáceis de se lidar, o problema e desmantelar as teias da organização, eles estão em toda a parte, tem dinheiro e eles são bem organizados. Prender dez ou mil não faz diferença se você não matar a inteligência deles. Mas não foi o que fez nesse dia, dessa vez usou seu Rank 4 novamente, era o que ele mais costumava usar. O protegia todo, melhorava suas habilidades e colocava medo nos vilões. Ryan gostava de assustar caras maus.

Agora o pior já foi combatido e a cidade estava segura, nas últimas duas semanas ele não teve nenhuma ocorrência seria. Foram todas coisas simples, como brigas de vizinhos, brigas em bares, acidentes etc...

As pessoas começavam a perder o medo de sair de casa à noite. Ryan tinha deixado tudo em ordem. E não existe nada melhor que a ordem.

Nos últimos dias ele se permitia caminhar a noite, obviamente ninguém conhecia sua identidade, logo ele saia tranquilamente como um civil sem chamar a atenção.

Ele gostava da praça a 5 quarteirões de onde morava, ficava horas olhando o breu de entre as arvores em quanto a neve caia. As fracas lâmpadas iluminavam a sua volta eram como a única luz do mundo nas noites sem luar.

Hoje era um dia desses, o ambiente ficava assustador. Os galhos secos sacodiam em quanto a suave neve caia. As luzes dos postes o guiavam pelo caminho de pedras no parque.

Ele encontrou seu banco favorito, era um ponto estratégico, ele ficava localizado em um lugar aonde as arvores em sua frente não atrapalhavam encher o céu e que as luzes dos lados não o ofuscavam.

Ficava apreciando a maravilhosa vastidão do espaço, amava as estrelas e gostava de encontrar constelações no céu. O tempo passava rápido enquanto ele divagava sobre sua existência.

Ryan amava o que fazia, queria torar o mundo um lugar melhor, mas era cansativo e parecia um trabalho infinito. Nos últimos tempos, bem antes da luta clandestina aliás, ele vem querendo que seus dias passem rápido esperando que assim os resultados apareçam.

E isso o tornou distraído. No ano anterior ele com certeza escutaria de longe os passos na neve fofa reagiria a tempo. Mas hoje estava distraído com as estrelas e com seus pensamentos quando alguém sentou do seu lado no banco.

— Oi.

Ryan sentiu seu sangue gelar, sem o Belanote era apenas um saco de carne ambulante e carne e macia e pode ser facilmente cortada.

Ele se virou para quem quer que seja que estivesse do seu lado em um sobressalto, ele escutou uma risada. E só depois seus olhos se encontraram, era uma garota, estava na casa dos vinte anos tinha longos cabelos negros flagelados pela neve que caia.

— Oi. — Respondeu mais relaxado agora.

— Eu percebi que você tem vindo aqui todo dia, — Agora ela estava olhando para o céu – eu também venho ver as estrelas.

— Sei... – Se fez silencio por algum tempo – Você me deu um susto e tanto.

— Desculpa.

Ele ficou esperando para ver se ela iria dizer mais alguma coisa, mas não falou nada.

— Eu achei que era o único a vir aqui essa hora da noite.

Depois de mais um tempo de silencio ela falou:

— Também achei ser a única até você aparecer, no começo achei que era só uma conveniência, mas depois percebi que vinha todas as noites. Decido me apresentar.

Ryan sorriu.

— Eu tenho vindo aqui com frequência, me ajuda a esclarecer meus pensamentos. – Fez uma pausa e se virou para a garota – Meu nome e Ra... – Impediu que o resto da frase saísse com uma tosse forçada. – Matheus.

Ela sorriu. Se virando para ele.

— Meu nome e Shanai.

Ryan levou alguns segundos para organizar os pensamentos só então percebeu a faca que transpassava seu abdômen. O seu sangue maculava a neve de baixo do banco.

— Nós sabemos. – Foi tudo que disse. Ela não tinha rosto.

Ryan acordou em um sobressalto no banco da praça olhando em volta desesperado. Ninguém.

Olhou para o local da ferida. Nada.

Foi um sonho.

Superou aliviado, o vapor de sua respiração dançava em sua frente em quanto ele se levantava.

Quando colocou a mão no bolço do casaco ele sentiu algo com um papel. Ele o tirou do bolso e leu.

Deixou o papel cair, olhou em volta mais uma vez. Tomou uma das capsulas de Belanote e correu com toda a velocidade para casa. No papel estava escrito:

Sabemos aonde você mora, Defensor Ryan.

--//--

Quando chegou em sua casa os pilares de fogo se estendiam as alturas. Várias pessoas se juntavam próximas a sua residência, curiosas. Ele não se importou com elas e correu para dentro, confiava na proteção do Belanote. Porem quando abriu a porta uma forte explosão o jogou para trás. Era impossível entrar lá. A sua pele não suporta esse inferno em chamas.

Ele se ajoelhou observando as chamas e sabendo que as coisas que amava estavam queimando. As pessoas cochichavam entre si, seu disfarce tinha sido destruído. Todos sabiam agora que ele era um Defensor.

As lagrimas brotavam de seus olhos, e seus punhos se serravam. Ele se levantou, passou pela multidão e correu.

Tinha trabalho a fazer.

Notas finais
Capítulo nove já postado.