Bela Morta
26 Capítulo 25
Ana tocou a campainha e em segundos Bruno abriu a porta, olhando intensamente para seus olhos sem vida, que já não pareciam tão sem vida assim. Os olhos da moça ainda não tinham emoção, mas se arrastaram pelo corpo de Bruno em busca de algo, ela estava preocupada e ele sorriu ao perceber.
— Entre. — pediu e ela logo atendeu.
— O que aconteceu com seu braço? — questionou observando o braço de Bruno de perto.
— Você já vai entender. Sente-se! Eu vou buscar uma coisa. — respondeu saindo rápido da sala.
Ana estava preocupada ela não podia negar, não podia negar como negava todos os princípios de emoção que começara a sentir ao se aproximar de Bruno, ela ainda tinha problemas para perceber e entender sentimentos, porém desde que fora presenteada com um urso de pelúcia, seus olhos não eram sempre mortos. Ao olhar e apertar entre seus braços o peludo ursinho na solidão de sua casa, havia traços de emoções em seus olhos, principalmente depois de ter sido beijada por Bruno duas vezes.
A Bela Morta não conseguiu conter um leve esboço de sorriso que se formou em seus lábios quando estava sozinha no interior de seu quarto, ao lembrar dos lábios do rapaz alto, fofo e insistente, contra os seus.
Ana não podia, sabia que era complicado, estava presa as responsabilidades, o caminho junto a ela poderia fazer Bruno sofrer. Ela definitivamente podia parecer não responder a Bruno, mas mesmo sem ele saber ela respondia.
— Voltei! — Bruno chamou sua atenção ao voltar para sala escondendo algo atrás das costas.
— O que está acontecendo?
— Você reconhece isso aqui? — continuou sem responder sua pergunta e revelou a caixa de madeira.
Depois de uma odisseia terrestre, finalmente, Bruno viu uma emoção cruzar os olhos de sua Bela Morta, ela estava surpresa.
— Como você conseguiu isso? — sua voz não era monótona.
— Eu invadi sua casa, foi assim que eu consegui os arranhões. — respondeu simplesmente sorrindo.
— Você não podia fazer isso. — ela tentou voltar a ser a morta de sempre, porém não podia, aquilo era sério, aquilo mexia com ela, Bruno mexia com ela e tudo estava junto.
— Mas eu fiz e não me arrependo. E você pode tê-la de volta. — falou entregando a caixa em suas mãos, a qual ela prontamente pegou se agarrando a ela.
— Por que você pegou isso? — sua voz oscilava entre algo emocional e algo sem forças.
— Eu precisava fazer algo por você, mas você já pode ter sua caixa, menos isso aqui. — respondeu tirando o envelope amarelado do bolso.
— Bruno!
Ana se levantou de repente largando a caixa no sofá, ela estava aflita e mesmo sendo uma sensação ruim, Bruno estava feliz por ela está sentindo emoções.
— Eu li a carta e ela não é justa, Ana.
— Você não podia. — ela não estava com raiva, não ainda.
— Eu devia fazer isso e fiz, porque eu faço qualquer coisa para te ver feliz e para isso você tem que ter emoções, tem que estar livre para isso.
— Eu sou livre. — ela sabia que era mentira.
— Seu pai te amava com todas as forças, mas você não precisa viver uma vida para honrar sua memória.
— Bruno, me devolve isso. — seus olhos tinha emoções, poucas, contidas, mas tinha.
— Não. Eu vou fazer o melhor para você.
Antes que Ana pudesse reagir ou pensar, Bruno rasgou a carta em quatro pedaços bem diante de seus olhos, demonstrando tudo o que aquela carta realmente era, um simples e frágil pedaço de papel.
— Não! — Ana gritou e Bruno sorriu abertamente ao ver a raiva.
A raiva era nítida clara e viva nos olhos de Ana. A raiva, um dos sentimentos mais primitivos, o sentimento que impulsionava e fazia agir, sem pensar ou refletir, apenas agir. A inveja podia criar planos, o ódio podia articular esquemas, a ganância podia promover estratégias, mas era necessário a raiva para que uma ação imediata, efetiva e vital fosse tomada.
A Bela Morta havia despertado e nem o amor fora um sentimento tão eficaz quanto a raiva neste processo.
— Isso, sinta raiva! — Bruno vibrou feito um louco.
— Você não tinha o direito! — ela gritou mais uma vez.
Aquela não era mais a Ana do começo, aquela não era uma pessoa sem vida. Finalmente existia emoções correndo por todo corpo da ex Bela morta e estava as demonstrando. Em um movimento rápido Ana estava diante de Bruno lhe acertando socos no peito, demonstrando todo seu repudio a atitude dele e aquilo não podia deixa-lo mais feliz. Realmente esse negócio de amor não fazia sentido nenhum.
— Isso, sinta as emoções, meu amor.
Bruno parecia um louco rindo, sorrindo e incentivando Ana, enquanto ela o acertava com tapas e socos. Era uma explosão emocional, toda raiva acumulada a 7 anos fluía, era angustiante a forma como os dentes de Ana estavam trincados e rangiam com o movimento de seu corpo, seus olhos ardiam como nunca na vida, era uma das emoções mais primitivas se manifestando e mesmo com a dor física, Bruno estava se deliciando, pois seu amor estava sentindo.
Um grito sofrido, alto e cortante escapou da garganta de Ana, cortando o ar e fazendo o coração dela bater mais rápido. A raiva se misturou com a dor, a dor era demais, a dor da perda, a dor do desamparo, do desespero, a dor nutrida e guardada há anos, a dor nunca exposta. O rosto de seu irmão, foi o primeiro aparecer em sua mente, depois o de sua e mãe e por fim, seu pai, a dor era grande, sólida, presente, real demais, as lágrimas desceram sem permissão e de uma vez só.
— Isso, meu amor. Chora, chora tudo aquilo que você não chorou. — Bruno sussurrou ao ver o rosto de Ana banhado por lágrimas e os soluços começavam a vir, fazendo ela parar de bater em Bruno.
— Isso dói! — ela gritou mais uma vez, mais baixo que da última, porém um grito ainda mais angustiado e sufocante.
— Eu sei, meu amor. Vai passar é só jogar para fora. — ele a envolveu com seus braços de forma protetora, sentido seu corpo quente tremer contra o seu.
Ana chorou e chorou, chorou pelos 7 anos que havia passado sem chorar, chorou por sua família, por sua adolescência perdida, por sua solidão, por sua morte emocional, por ter aguentado tudo sozinha e até mesmo por não ser normal o suficiente para Bruno. Eles estavam abraçados naquela posição a mais de 20 minutos e o choro de Ana não dava trégua, ela estava se sentido fraca e Bruno também, com delicadeza ele foi abaixando junto com ela, até sentar no tapete, encostando no sofá. Com Ana deitada em seu colo, mais alguns minutos se passaram, até que eles adormeceram ali, juntos e exaustos, Bruno havia vencido, mas isso ainda não era tudo.
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