Bela Morta

30 Capítulo 29


Os olhos de Dona Omara eram sinceros e naquele momento Bruno rogou para que eles não fossem. O desgosto era claro, ela não gostava de Ana e mesmo com a moça não sendo uma expert no assunto emoções, ela sabia que a sogra não gostava nenhum pouco dela, mas para o seu alívio, Ruben nunca havia sido tão gentil com alguém.

— Senta aqui, mocinha. — Ruben indicou um lugar próximo a cabeceira e ao lado de Bruno.

O lugar parecia seguro tirando o fato de que ela se sentaria de frente para Omara, que a mirava com olhos hostis. Assim que se ajeitou na cadeira, Ana segurou a mão de Bruno por baixo da mesa tentando se sentir menos tensa.

— Ana, não ligue para falta de educação de Omara. — Ruben continuou sorrindo tranquilizador.

— Falta de educação? — era óbvio que Dona Omara não deixaria aquilo passar sem se ofender.

— Exatamente. Está olhando para a namorada do Bruno como se fosse matá-la.

— Não seja exagerado, Ruben. — ela não negou a intenção do olhar.

— Está tudo bem, eu não estou incomodada. — Ana estava só sendo educada, já que a vontade dela era correr para longe dali, com Bruno claro.

— É claro que está, Ana. Minha mãe deveria ter mais educação.

— Olha só! Vocês dois me conhecem bem. Eu realmente não estou satisfeita com esse namoro. Nunca te vi assim, Bruno. Você está dependente dela, está agindo de uma forma completamente diferente. Eu não o reconheço mais! — Ana sentiu o coração parar ao final do discurso de Omara, ela estava certa.

— Chega, mãe! Tente ser só um pouco agradável.Não é possível. Você entende o que eu estou falando, Ana? — os olhos de Omara eram ávidos e Ana apenas assentiu sem vontade de mentir para si.

— Ana, você não precisa concordar com ela. Na verdade, a gente nem precisa ficar aqui. — basicamente rosnou se levantando e fazendo Ana fazer o mesmo.

— Bruno. — Ana soltou sem certeza do que estava pedindo silenciosamente.

— Nós vamos embora. Ela está errada. — Ana obedeceu, o seguindo mesmo sabendo que aquilo não era o certo, mas era o que ele queria.

— Cadê sua vontade própria, menina? — Omara alfinetou.

— Chega, Omara. — Ruben se pronunciou observando o filho sair com a namorada.

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— Não acredito que ela fez isso! — Bruno praticamente gritou se jogando no sofá de sua casa.

Ele tinha ido basicamente o caminho todo reclamando da mãe, enquanto Ana permanecia em silêncio revirando todos os acontecimentos e emoções em sua mente.

— Ela está certa. — falou finalmente, em pé no meio do tapete verde.

— Não fala isso. Ela não está certa. — rebateu se levantando apreçado em um misto de desespero e exaspero, que fez Ana recuar em sua mente.

— Eu te amo. — aquilo tinha mais de um significado.

— Eu também te amo, mais do que a mim mesmo. Eu não sei viver sem você. Entende isso? — suas mãos seguravam o rosto de Ana como se segurasse ao último fio de vida.

— Entendo. — suas mãos tomaram a gola da camisa dele e suas bocas se fundiram em um desespero tangível.

As mãos alternaram por todo corpo de Ana, sentido o desespero fluir por seu sistema circulatório. Sem a menor consciência de como chegaram aquela posição, Ana tinha os joelhos de cada lado das pernas de Bruno e a boca aberta dele possuía cada área do pescoço dela. A mão de Ana afundava nos cabelos de Bruno de forma possessiva, enquanto a outra passeava pelo peito nu dele entre os espaços dos botões já desfeitos da camisa.

— Eu preciso ir. — em um rompante, Ana sentenciou ofegante, se afastando, mas sem sair do colo dele.

— Por que? — não havia decepção, apenas uma confusão clara.

— Eu só preciso ir. — ela sabia que se aquilo continuasse nunca mais teria volta, nunca mais sairia do lado dele.

— Ana? — ele transpirava preocupação, enquanto ela se afastava de vez, ajeitando as roupas.

— Eu volto amanhã.

— Eu te levo em casa.

— Não. — ela parecia atordoada, mas Bruno sabia que não deveria insistir.

— Ana, eu te amo. — ele precisava que ela tivesse certeza disso.

— Eu também te amo.

Ana correu direto para casa sentindo as lágrimas correrem pelo rosto, uma decisão seria tomada ainda naquele dia. Já Bruno se manteve atordoado na sala de estar por um bom tempo, ele tentou realizar algumas tarefas simples, porém tudo parecia difícil demais. Ele queria ir atrás de Ana, abraçá-la forte e implorar para que ela nunca fosse embora, mas ele sabia que devia dar espaço.

Naquela noite Ana e Bruno não conseguiram dormir. A decisão estava tomada, ia doer como nunca, mas era necessário, Ana precisava se conhecer, se amar e ser independente, pelo menos, uma vez na vida e ela precisava devolver a independência de Bruno. Ele iria odiá-la, ela tinha certeza disso, mas Dona Omara estava certa. Pela primeira vez Ana viveria pela sua própria vida, aprenderia amar a si mesma.

Bruno pegou no sono por volta de 5 da manhã e seus sonhos foram consumidos por ela. Toda sua vida se trava de Ana, desde que ela aparecera, nada fazia sentido sem ela, respirar se tornava pesado quando ela estava longe e ele não ligava a mínima de depender dela para viver.

Era uma da tarde quando a campainha tocou fazendo Bruno despertar prontamente. Ele apenas esfregou o rosto antes de abrir a porta e encontrar Ana com uma mala na mão. Bruno quase caiu de joelhos diante dela, mas se segurou na maçaneta.

— Para que essa mala? — exigiu se segurando na porta.

— Bruno...

— Entra, Ana. — seus olhos imploravam por isso.

— Eu não posso. — seus olhos eram miseráveis.

— Por favor! — ele soltou batendo a cabeça na porta.

— Bruno! — o reprendeu tocando seu rosto automaticamente.

— Fica comigo! Fica aqui.

— Eu preciso ir. Eu preciso me conhecer. Preciso saber que consigo viver sem você.

— Mas eu não consigo viver sem você! — trovejou a pegando pelos pulsos, fazendo ela soltar a mala e puxando a para si.

— Me solta, Bruno.

— Não! — exclamou com uma criança birrenta, puxando os braços dela para atrás de suas próprias costas e enfiando o nariz na curva de seu pescoço respirando tudo de uma vez.

— Bruno. — sua voz vacilou.

— Fica. — sussurrou contra sua orelha em agonia.

— Me solta.

As mãos deles apertaram os pulsos dela mais forte.

— Me solta. — suas mãos a soltaram sentido seu coração morre no peito.

— Por que?

— É o melhor para nos dois. — respondeu com lágrimas nos olhos, retomando sua mala e se dirigindo ao táxi que a esperava.

— Não faz isso comigo. — clamou.

Ela não respondeu apenas continuou a andar e Bruno foi atrás. A calçada estava quente e queimava os pés descalços de Bruno, mas nada se comparava a dor em sua alma. A porta do carro se fechou e o rapaz bateu o punho contra o vidro implorando para que abrissem, mas seus gritos foram ignorados e o carro partiu. Forçando as suas pernas e ignorando as bolhas que se formariam em breve, Bruno correu atrás do táxi como se corresse atrás da sua vida e realmente ele fazia isso.

Algumas pessoas observam incrédulas um cara de pijama correndo descalço na rua, mas Bruno não dava a mínima, ele corria mais que podia, mais do que um dia correra na vida, mas aquela competição já era perdida.

— Ana! — ele gritou com o resto de fôlego que tinha, mas tudo foi em vão.

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Já se passava das 3 da manhã, a rua estava completamente deserta e não se ouvia mais barulho algum vindo das casas próximas. Dentro da tão planejada casa de Bruno o único barulho soando era o do tic tac incansável do relógio, o qual as batidas já eram iguais ao ritmo do coração de seu dono, que sentado no tapete verde da sala de estar, olhava fixo para ele.

Após corre feito um louco pelo meio da rua, o rapaz voltou mancando para casa, sem fazer ideia do porque estava fazendo aquilo, já que naquele momento nada mais importava. Tomou banho no automático demorando mais que o normal, tentou se convencer de que ela voltaria. Contudo, a ficha caiu e seu mundo deixou de existir.

Os minutos passavam e a única coisa em que Bruno pensava era Ana. Era sufocante e doloroso, um vislumbre de esperança surgiu quando a porta descuidadamente destrancada se abriu.

— Ana! — Bruno falou baixo, mas cheio de expectativa ao ver a porta da casa se abrir totalmente.