Bela Morta

23 Capítulo 22


Notas iniciais
Quem é vivo sempre aparece, às vezes quem é morto também.

Bruno saiu da lanchonete terminando de comer o sanduíche e com o refrigerante ainda intacto, mas ele não tinha tempo a perder. Entrou no carro, esperando apenas José e Enrico se acomodarem e deu a partida. Durante o caminho os rapazes comiam seus lanches e conversavam, especialmente sobre Ana. José contava histórias que viveu com a moça e até Enrico tinha algumas para contar, e apesar de se sentir enciumado por vezes, Bruno estava gostando de ouvi-las.

Um bom tempo depois da partida, Bruno deixou Enrico em casa e seguiu um pouco mais a frente entrando em uma fazenda, José sugeriu que Bruno parasse o carro embaixo de um telheiro que tinha do lado da casa e ele o fez. Saindo do carro foram direto para dentro de casa, entrando pela cozinha onde uma moça de cabelos longos e castanhos batia o que parecia ser massa de bolo.

— Oi, meu amor! Estava com saudades. — José falou carinhoso abraçando a mulher por trás e depositando um beijo em sua bochecha.

— Eu também! Você demorou.

— Meu carro parou de novo, mas Bruno me salvou. — falou soltando a mulher indo até Bruno.

— Olá, Bruno! Eu sou a Lis, esposa do Zé. — falou sorrindo simpática.

— Olá, Lis! É um prazer conhecê-la. — respondeu educado.

— É seu novo amigo, Zé? — Lis questionou sem entender, afinal, ela conhecia todos os amigos do marido.

— Digamos que sim. Ele é namorado da Ana. — respondeu se sentando em um banco comprido perto da mesa e indicando que Bruno fizesse o mesmo.

— Namorado da Ana? — Lis questionou sem entender a quem ele se referiu.

— A Ana! Aquela que foi embora daqui de Pinheiral, vocês eram amigas. — respondeu exercitando a sua memória.

— Ah, sua ex-namorada. — falou se lembrando.

— Isso! — respondeu pegando uma maçã na fruteira.

— Nós estudamos juntas quando criança. Como ela está? — Lis perguntou para Bruno.

— Ela... está bem, eu acho... É complicado! — não havia como explicar a atual situação de Ana muito bem.

— Ana ficou meio sem sentimentos depois da morte da família. — José explicou, Bruno havia falado um pouco mais sobre a situação de Ana no carro.

— Nossa, isso é terrível! Mas como assim sem sentimentos? — Lis tinha ficado curiosa, até se esquecendo do bolo.

— É bem complicado. É como se ela não sentisse nenhum tipo de emoção, ou pelo menos, não sabe entendê-las e expressá-las.

— E sendo assim, como é que vocês namoram? Desculpa perguntar. — falou envergonhada ao perceber que estava sendo muito curiosa.

— Na verdade a gente não namora. Somos próximos, eu a amo, sei que de alguma forma ela gosta de mim, porém não temos um compromisso. E é por tudo isso que estou aqui.

— É, o Bruno veio até aqui para descobrir se tem alguma coisa no passado de Ana que a faça ser como antes. — José concluiu já se sentido amigo de Bruno e a par de toda a situação.

— Exatamente.

— A mãe tá na sala, Lis? Bruno precisa de algo que tá com ela. — José falou se levantando e Bruno o acompanhou.

— Dona Augusta tá sim.

Eles foram até a sala e Bruno voltou a se sentir ansioso, ele já tinha descoberto muita coisa importante e podia já ter o suficiente para conseguir provocar emoções em Ana. Contudo, Bruno sentia em seu interior que ainda tinha algo por vir, algo que realmente o ajudaria alcançar seu objetivo.

— Mãe! — José chamou entrando na sala e sentando do lado da senhora que lia um livro com muitas imagens de plantas. — Preciso te apresentar uma pessoa, esse é o Bruno.

— Olá, prazer. — Bruno falou apertando a mão de Augusta.

— Olá! É amigo do Zezinho? — a senhora perguntou colocando o livro sobre a mesinha de centro.

— É, acho que já somos amigos. — respondeu sorrindo.

— Mãe, esse rapaz é namorado da Ana. — Augusta olhou para o filho que apenas sacudiu a cabeça positivamente como se respondesse uma pergunta muda.

— Eu gostaria de saber mais sobre o passado dela. A senhora poderia me ajudar? — Bruno pediu da mesma forma que falou com José na lanchonete.

— Sente aqui, meu filho. Eu já volto. — a senhora falou simplesmente se levantando.

Bruno ficou esperando a volta da mãe de José em silêncio, ele estava muito ansioso para ter uma conversa e José percebeu isso e o respeitou. Pouco tempo depois Augusta voltou com uma caixa grande que parecia estar pesada, porém ela a carregava sem dificuldade, colocando a caixa no chão a senhora voltou a se sentar, agora no meio de José e Bruno, o último já contorcia os dedos da mão com a espera.

— Aqui nesta caixa estão algumas coisas que recuperamos da casa de Ana, você pode ficar à vontade, Bruno.

Ele não pensou duas vezes antes de abrir a caixa, a primeira coisa que viu o fez sorri involuntariamente, era um porta-retratos com uma foto que parecia ser de Ana e sua família.

— Ela sempre foi a cara do pai. — Augusta comentou observando rapaz que tinha o porta-retratos nas mãos.

Com o comentário de Augusta, Bruno teve certeza de que aquela era família de Ana. Ele continuou a olhar a caixa, encontrou mais fotos, umas duas roupinhas de bebê, umas três medalhas de atletismo, três ingressos de jogo de futebol e alguns documentos, Bruno viu tudo com atenção, mas ele logo pegou o porta retrato novamente. Seus olhos analisavam cada detalhe da foto, até encontrar algo familiar, algo que já havia visto na casa de Ana, a caixa de madeira, entalhada com flores pintadas à mão.

— Essa caixa? — Bruno questionou apontando o objeto na foto e olhando para Augusta em busca de respostas.

— Essa era a caixa de documentos deles, foi uma das coisas que Ana levou, lá estava todo o presente de 16 anos dela, incluindo a carta. — a resposta veio de José.

— Que carta é essa? — Bruno sentia que tinha achado.

— O pai de Ana a amava muito e se preocupava demais com o futuro dela, mas ele podia ser bem exagerado. — Augusta respondeu.

— Como assim?

— Ana foi emancipada com 16 anos para poder viver no Rio de Janeiro e se forma na faculdade, Fontes havia apostado todas as fichas em Ana, ele queria que ela fosse a primeira com ensino superior na família. Na carta tinha a declaração de amor de Fontes para Ana, mas também tinha um manual de como ele queria que o futuro dela fosse.

— Ele projetava nela suas próprias vontades? — Bruno começava entender algumas coisas.

— Constantemente. — Augusta respondeu.

Depois de dar mais uma olhada nas coisas da caixa e pegar algumas coisas para si, Bruno foi convidado para dormir lá e ele aceitou. Acordou cedo no dia seguinte se despediu de todos para partir.

— Obrigado por tudo. — Bruno agradeceu José.

— De nada, volte sempre, será muito bem-vindo.

— Papai! — uma menina de uns 4 anos gritou correndo até José, carregando um urso grande e encardido.

— Oi, meu amor! Papai só tá se despedindo do amigo e já vai brincar com você. — gritou para ela, que parou antes de se aproximar deles.

— Aquele urso? — Bruno questionou o achando parecido com o que havia comprado para Ana.

— Era da Ana, a mãe pegou da antiga casa, mas um dia Ritinha encontrou e não soltou mais.

— Ana devia gostar muito dele.

— Como todo presente que o pai dava a ela. Você acha que se ela visse o urso reagiria de alguma forma? — José questionou como uma sugestão, mas logo se arrependeu ao pensar em tirá-lo da filha.

— Não, ela já tem um novo urso. — Bruno o tranquilizou.

— Ok, até a próxima.

— Até a próxima.