Bela Morta
18 Capítulo 17
Assassin's Bar. O letreiro era grande e chamativo, o bar era claramente o refúgio dos geeks descolados, e por um arranjo de Tiago com o gerente do local, havia lugares suficientes para todos os convidados do aniversário de Bruno.
Tiago estava acompanhado de uma moça diferente da que foi com ele a festa infantil, essa nova garota Bruno não conhecia, mas já estava acostumado em conhecer novas ''amigas'' de Tiago. Aproveitando que estava acompanhado, o melhor amigo de Bruno não se sentou perto dele, dando espaço para que Gabi sentasse, toda sorridente.
Bruno estava sorrindo, mas não era de verdade. Ele era um exemplo de educação, não poderia ficar com a cara fechada em um evento que era pensado e feito para ele. Mas mesmo com o sorriso no rosto, Bruno não conseguia disfarçar que seu espírito não estava ali, ele nem havia percebido que Gabi havia se sentado ao seu lado tão próxima, enquanto ele dava uma atenção melhor aos amigos que haviam encontrado no caminho.
O bar realmente era a cara de Bruno, os pedidos já haviam chegado e ele pode comprovar que a comida, bebida e o atendimento eram muito bons, seus amigos queridos estavam ali, mas faltava algo muito importante. Quando Bruno era criança, em todas as suas festas de aniversário não podiam faltar 3 pessoas, seu pai, sua mãe e Tiago. Tiago estava lá como sempre, mas isso não parecia importante, seus pais nem passavam por sua cabeça no momento. Nesse aniversário as coisas eram diferentes, faltava outra coisa, ou melhor, outro alguém.
Ana não havia dado as caras, eles já estavam ali a 1 hora e Bruno já não conseguia disfarça sua insatisfação. Ela havia prometido! Ela mesma falou que iria! Por que não estava lá? Essas eram as frases que rodavam na cabeça do rapaz, que fez algo que chocou Tiago no exato momento do ato. Era um copo de caipirinha que Tiago tinha acabado de pedir, mas antes que ele pudesse tocá-lo, Bruno pegou e o bebeu tudo de uma vez.
— O que foi isso? — Tiago questionou assustado.
— Eu bebi. — respondeu com uma careta devido ao gosto do álcool.
— Primeiro, essa careta é desnecessária, tem pouco álcool aí. Segundo, você não bebe. Nunca!
Bruno só havia bebido uma vez na vida, no primeiro ano do ensino médio, para nunca mais. Havia bebido um daqueles vinhos baratos que adolescente compra para se achar legal, ou algo parecido. Ele nem havia bebido muito na ocasião, mas foi o suficiente para deixá-lo tonto e fazê-lo vomitar no tênis de Tiago.
— Nem pense em encher a cara, a última vez que você fez isso eu praticamente perdi um tênis. — sinalizou ainda surpreso.
— Você não me trouxe aqui para me divertir? Vai ficar me regulando agora? — Bruno não parecia irritado e sim cansado, Tiago logo percebeu o motivo e puxou o amigo pelo braço fazendo ele apoiar os cotovelos na mesa para ouvi-lo de perto.
— Eu sei dos seus sentimentos por Ana, mas ela não veio. Você deveria prestar atenção em quem está ao seu lado e para de pensar na Ana um segundo. — o recriminou baixo para apenas ele ouvir.
— Olha, só me deixa quieto. É o meu aniversário! — respondeu se afastando.
Tiago não insistiu mais, ele sabia que Bruno estava magoado e que não importava quanto Gabi fosse bonita, legal e ideal, Bruno não tinha olhos para ela, ele só tinha olhos para única pessoa que ele queria que tivesse ali, mas não estava.
Mais 10 minutos se passaram, Gabi tentava puxar assunto com Bruno, mas ele apenas a respondia educadamente e começava a dar cada vez mais indícios da sua infelicidade, até que resolveu pedir um drink com vodka, igual de um amigo que estava sentado próximo e bebeu seu segundo copo já começando a sentir os efeitos do álcool.
Bruno só havia tido uma experiência, mas sabia que era fraco para bebidas, nunca havia sentido vontade de beber, não achava nenhuma graça nisso e só tinha feito isso na adolescência pela vontade boba de se enturmar. Mas agora tudo era diferente, ele se sentia triste, magoado, ansioso, sem controle algum dos seus sentimentos, ele precisava de algo para aplacar seu desconforto, inibir seus sentidos.
Mais 10 minutos e mais dois copos, Tiago conversou com o garçom pedindo que não atendesse mais Bruno, mas os quatro copos haviam sido o suficiente para deixá-lo bêbado, o estado não era grave, mas era visível que Bruno não estava bem e só Tiago e Gabi conseguiam ver isso, o resto das pessoas conversavam e se divertiam alheias ao sofrimento de Bruno.
Tiago estava cada vez mais preocupado com o melhor amigo, ele definitivamente não era assim. Ana realmente estava mexendo profundamente com Bruno e Tiago começava a não gostar nenhum pouco disso. Gabi começava a ficar desconfortável, ela sabia que Bruno não estava feliz, não sabia o porquê, mas já sabia que sua presença era indiferente para ele.
— Bruno. — a voz mais esperada da noite se manifestou.
A voz era tão sem vida e monótona, que praticamente nenhum dos convidados notou, mas mesmo tonto e com os sentidos atrapalhados, Bruno a reconheceu na hora e se levantou, sentido sua perna falhar, se apoiando na mesa.
— Ana! — ele abriu um sorriso radiante, apagando toda mágoa, nada mais importava a não ser ela.
— Desculpa o atraso. — a moça falou se aproximando dele com um embrulho pequeno e retangular nas mãos.
— Não tem problema, o importante é que você veio. — isso era real, era o maior presente que ele já havia ganhado.
— Isso é para você. Tive um compromisso em uma das filias e tive que comprá-lo antes de vir para cá. — ele não precisava de desculpas para o atraso, mas aquela era a melhor de todas ao seu ver.
— Não precisava. — respondeu animado pegando o embrulho e o desfazendo sem jeito.
— Olha só! Você apareceu. — Tiago falou com um tom debochado após observar toda cena.
— Eu prometi ao Bruno.
— Ele estava esperando por isso, estava ansioso até. Ainda bem que a Gabi estava aqui para distraí-lo. — continuou só que agora em um tom insinuador.
Ana olhou para estagiária ao lado de Bruno, sem qualquer emoção, porém seus olhos mortos se demoram um bom tempo sobre a moça, que se encolheu constrangida.
— Oi. — Gabi falou simplesmente sem graça, antes de virar para uma outra estagiária que estava ao seu lado, tentando fugir do clima estranho.
— É uma caneta linda. — Bruno realmente havia ficado feliz com o presente, a caneta era muito bonita e ele adorava canetas.
— Pensei em comprar um jogo para você, mas a ideia da caneta me pareceu melhor, você parece gostar de canetas. — assim que Ana concluiu sua fala, ele finalmente teve seu melhor presente de fato, ela havia realmente reparado nele.
— Você acertou em cheio! Senta. — ele se atrapalhou um pouco puxando uma cadeira para o seu lado, mas conseguiu executar a tarefa.
— Não precisa, eu já estou indo. — toda a aura de felicidade e êxtase se desfez, o álcool realmente havia deixado Bruno mais sensível, mas com certeza, aquilo era um banho de água fria.
— Por que? — ele quase gritou a pergunta.
— Eu falei que não gostava da ideia, só vim porque te prometi. — aquela já era uma frase aberta a interpretações ruins e no tom sem emoção de Ana só piorava.
— Você não precisava vir só por obrigação. — Bruno praticamente desabou na sua cadeira irritado.
— Se eu prometi, eu precisava vir. Você insistiu. — que facada.
— É, eu insisti! Eu sou um idiota! — esbravejou.
Mais rápido do que Tiago pudesse reagir, Bruno roubou outra bebida do amigo e bebeu de uma vez. Ana observou com atenção sem sair do lugar, como se estivesse indecisa sobre ir ou ficar, mas seus olhos ainda eram os mesmos.
— Oh, garçom! Me traz um desse aqui! Esquece esse meu amigo chato, eu não estou dirigindo ou coisa parecida. — Bruno exigiu e o garçom apenas assentiu com a cabeça indo para o balcão.
— Não sabia que você bebia. — Ana comentou como se não se importasse.
— Nem eu! Acho que só faço isso quando me sinto um idiota. — respondeu bebendo a bebida de outra pessoa.
— É melhor eu ir embora, você também deveria. — respondeu indicando que partiria.
— Eu ir embora? Por que? — perguntou ainda mais bêbado.
— Você não está bem, Bruno.
— Eu vou levá-lo para casa, Ana. — Tiago informou.
— Me levar? Você está ocupado, não se preocupe. — Bruno respondeu apontando para a garota que estava com Tiago.
— Eu vou levar você, Bruno. — Ana decidiu surpreendendo Tiago e Bruno.
— A mim? — ele começava achar que estava mais bêbado do que o possível.
— Sim. Você consegue lembrar o caminho?
— Claro! Eu super consigo. — respondeu pegando sua bolsa e levantando novamente ainda mais tonto.
— Então, vamos. — era inacreditável como uma pessoa que não demonstrava nem um interesse ou empatia podia tomar aquela atitude.
— Você vai levar o aniversariante embora? — Tiago ainda tentava entender o que estava acontecendo.
— Acho que vocês conseguem se divertir sem ele. E ele realmente precisa ir embora. — respondeu olhando para Tiago, que pela primeira vez se assustou com seus olhos.
— Vamos partir! Mas antes... — Bruno contornou a mesa se aproximando do garçom no salão e pegando um drink da bandeja o bebendo até a metade. — Aquele rapaz bonito vai pagar minha conta. — declarou terminando de beber e apontando para Tiago.
— Esse é o último. — Ana informou o acompanhado até a saída.
— Claro, eu estou indo embora! Como vou beber mais? — falou alto quase caindo nos degraus da saída, porém Ana o segurou a tempo. — Ana, você gosta de mim? — Bruno perguntou de repente andando pela calçada, sentindo a mão quente da moça o segurando pelo braço.
— Como? — ela não sabia responder a pergunta.
— Eu gosto de você, Ana! Eu gosto muito, de um jeito diferente de tudo que já senti. Chega a doer! — declarou com os sentimentos confusos, mas conscientemente feliz por ela estar ali.
Era impressionante como as reações de Bruno mudavam drasticamente em relação a Ana. Uma hora estava magoado por sua ausência, outra radiante por sua aparição, logo depois irado com sua atitude e agora feliz por sua presença, mas a montanha russa de emoções estava pronta para uma nova emoção do cara cheio de sentimento versus a mulher com completa ausência deles.
— E você, Ana? Gosta de mim? — ele estava esperançoso, afinal, ela o estava levando para casa.
— Você é instável, mas é uma companhia suportável. — a existência de uma resposta pior era impossível.
— Uma companhia suportável? Você não está entendendo. — Bruno sentia algo maior que irritação no momento, mas estranhamente a felicidade não o havia deixado.
— É possível. Como disse, você é instável, por vezes é difícil te compreender.
— Eu não sou instável, você me tornou assim. E eu vou te fazer entender. — respondeu parando no meio da calçada e ficando de frente para mulher.
Seus olhos turvos pelo excesso escandaloso de emoções se fixaram intensamente ao deserto de sentimentos dos dela. Ana estava imóvel, como sempre não agia, apenas reagia as situações, as mãos de Bruno emolduravam seu rosto mantendo o olhar penetrante, de uma forma inexplicável a respiração da moça tornou-se mais instável, sendo o único sinal de reação aquela situação.
Sem pedir licença, ou medir as consequências, Bruno colou seus lábios aos de Ana com uma pressão exagerada devido ao seu nível de embriaguez. Sentindo seus pés vacilantes, os arrastou aproximando mais seu corpo do da mulher que continuava imóvel. Os lábios de Bruno começaram a se mover em busca de resposta, a boca de Ana se entreabriu, mas as respostas da parte dela acabaram por aí, porém o jovem apaixonado não ia parar agora.
Levando uma das mãos aos cabelos negros e macios de Ana, Bruno continuou seu exercício em busca de reações da parte dela, tomando seus lábios entre seus, ousando passar sua língua por eles, matando sua curiosidade de sentir seu gosto. Que gosto! Era melhor que a maciez e o calor da pele, melhor até que o cheiro de fruta fresca, era o gosto mais pleno que já tinha sentido na vida. Aquilo era mágico, mas mais uma vez a montanha russa de emoções alcançou um novo ponto, e Bruno se afastou irritado.
— Eu já tenho a resposta, você não gosta. — ele estava com raiva e ferido.
— Bruno, você está bêbado. Eu só preciso te levar para casa. — era impressionante como que para ela nada parecia ter acontecido. Pena que Bruno, não sabia que ela havia fechado os olhos durante o beijo.
— Para que? Você não gosta de mim! Me deixa aqui mesmo, a minha casa já é a terceira da próxima rua. — respondeu como uma criança birrenta.
— Obrigada pela informação.
O resto do caminho, Ana continuou segurando Bruno pelo braço enquanto ele soltava algumas reclamações. No portão de casa, Bruno se atrapalhou com as chaves e Ana o socorreu abrindo o portão e a porta, os trancando em seguida. Enquanto fechava a porta da sala, Ana deixou Bruno seguir sozinho pelo cômodo e ele logo tropeçou no tapete caindo sobre ele, por sorte foi uma queda tranquila sem danos reais.
— Bruno, você está bem? — questionou se agachando perto dele.
— Estou ótimo. — resmungou se ajeitando no tapete, como quem se ajeita para dormir.
— Vou fazer um café. — informou pronta para se levantar, mas Bruno a segurou pelo braço.
— Não, só faz cafuné até eu dormir. — respondeu colocando a mão dela sobre a sua cabeça.
— Tudo bem. — ela respondeu simplesmente, se sentando a seu lado e atendendo ao seu pedido.
Enquanto os olhos de Bruno se fechavam, os de Ana continuavam abertos o observando, eles não revelavam nada, mas a respiração irregular havia voltado, e o deslizar dos dedos alvos da moça, sobre o cabelo castanho do rapaz era mais suave e cuidadoso como se fosse um ato de puro carinho.
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