Notas iniciais
Iniciando os trabalhos, peço paciência! Inseri um link no primeiro parágrafo que leva pra uma playlist bem bacana no Spotify. Se você curtir, escuta lá e mergulhe na personagem principal da estória ainda mais junto comigo. Boa leitura!

Eu costumava praticar um ritual todas as manhãs. Assim que abria os olhos, esticava a mão até o criado mudo ao lado da minha cama e procurava pelo meu celular para checar as mensagens de texto e e-mails, sempre atenta a qualquer sinal que pudesse definir o meu dia de trabalho. Naquela sexta, que mais tarde eu definiria como desafiadora, eu acabei acordando mais cedo e, incrivelmente, não havia nada para ser lido. Deixando de lado esse detalhe, continuei meu ritual. Levantei-me, liguei o som na minha playlist preferida e fui tomar um banho. Assim que saí, cuidei do Bartolomeu, meu gato de estimação, fiz o meu café e me sentei na bancada da cozinha. Olhei para o relógio e percebi que ainda faltava uma hora para eu sair de casa.

Tentei não me julgar tanto por ter acordado tão cedo, quando eu poderia simplesmente estar dormindo. Enquanto divagava olhando dispersa pelo apartamento, meu celular tremeu na bancada. Era o Bruno, chefe de reportagem do jornal.

— Bom dia, Rebeca. – ele disse eufórico assim que eu atendi – Preciso que você venha para o jornal mais cedo hoje.

— Aconteceu alguma coisa? – perguntei interessada, pensando imediatamente que meu sono sabia das coisas e por isso eu estava de pé às seis da manhã.

— A Ísis deixou uma mensagem pra mim quase de madrugada, eu acabei de ver. Temos muito o que fazer hoje.

— É tão grave assim pra você me ligar? Você deu sorte, Bruno. – respondi com meio sorriso no rosto e ele riu também – Estou indo.

Desliguei a chamada e já fui rapidamente deixando a louça na pia para sair de casa. Dirigi em meio ao trânsito caótico de sexta feira e, após alguns minutos, passei pela porta do prédio da redação.

— Bom dia! – saudei as poucas pessoas que estavam ao meu alcance – O Bruno está na sala? – perguntei para a Lívia, uma das fotógrafas do jornal, que se aproximou de mim.

— Está. Os olhos estão até arregalados. – ela respondeu rindo de leve.

— Você sabe o que aconteceu? – indaguei curiosa.

— Não tenho ideia, Rebeca. Ele está uma pilha.

Arqueei as sobrancelhas, atraída, e abrimos a porta da sala. Em vez de encontrar vários repórteres como sempre, avistei apenas o Afonso, um dos jornalistas mais experientes daquele lugar. O Bruno respirou aliviado ao nos ver.

— Ainda bem que vocês chegaram! – disse esbaforido.

— Isso porque hoje eu acordei bem mais cedo... – cochichei com a Lívia.

— Nós madrugamos. Sorte a sua por ter sido de forma involuntária. – respondeu cochichando de volta e eu sorri fraco, tentando fazer com que o Bruno não percebesse.

— Vou precisar de vocês separadamente. Além das notícias do dia, estou com uma pauta quentíssima que pode levar alguns dias de pesquisa, apuração, entrevistas, enfim...

— Lá vem bomba. – o Afonso brincou.

Arregalei os olhos e peguei minha agenda para escutar o que mais ele tinha a dizer.

— Vocês conhecem a ArteMil? – o Bruno perguntou erguendo uma sobrancelha.

— Claro. – a Lívia respondeu e eu e o Afonso assentimos.

— A famosa rede de lojas de departamento que vende a “arte nas roupas de forma acessível”... – falei baixinho, anotando o que eu podia.

— Exato. – Bruno concordou – Agora adivinhem quem foi acusada de manter uma fábrica de mão de obra escrava no interior de São Paulo...

— Você tá brincando... – o Afonso falou sorrindo de forma incrédula.

— Pior que não. Tivemos uma denúncia anônima, precisamos investigar.

— Mas a ArteMil não é aquela que “defende a não precarização do trabalho e os recursos naturais”? – a Lívia perguntou confusa, citando um dos lemas da própria empresa.

— Sim. E é por isso que o furo é tão grande. Pelo jeito falam demais e fazem de menos. – o Bruno falou erguendo as sobrancelhas – Afonso e Lívia, vamos mandar vocês pro interior. E você – disse para mim – vai até a sede da companhia aqui na capital. Comecem as pesquisas, conversem com os diretores... Preciso da reportagem pronta no máximo, estourando, até daqui sete dias. Está na mão de vocês para esse furo sair pelo Expresso.

Respirei fundo e tentei não surtar. Aquilo que ele estava jogando no nosso colo seria maravilhoso pra mim, mas nem nos meus anos de estágio e nos poucos meses que eu estava trabalhando ali eu tinha sido deixada com algo tão grande. Seria ótimo para eu crescer no jornal.

— Posso contar com a audácia de vocês? – o Bruno continuou.

— Claro que sim. – respondi com a respiração um pouco presa e a Lívia e o Afonso concordaram comigo.

— Ok, podem ir. Conversamos mais depois.

Fechei minha agenda e engoli seco, tentando me situar o mais rápido possível. A Lívia e o Afonso se levantaram e já foram logo saindo da sala, mas uma pergunta surgiu na minha mente, me impedindo de fazer o mesmo. Porque o Bruno estava depositando tanta confiança em mim, se havia vários outros jornalistas bem mais experientes na redação? Eu não gostava de me gabar, então pensar em qualquer mérito meu nem passou pela minha cabeça.

— Alguma dúvida, Rebeca? – ele perguntou, vendo meu olhar inquieto.

— Não. – respondi, ignorando os meus pensamentos.

Eu poderia até duvidar, mas jamais perguntaria qualquer coisa ao Bruno que o fizesse pensar que eu não era capaz daquilo.

— Você mostrou potencial aqui dentro.

Eu sorri nervosa por ele ter praticamente lido minha mente e assenti.

— Isso é grande coisa, então... Obrigada.

— Não agradeça ainda. Faça isso depois, quando me mostrar que eu não estou errado.

Arqueei as sobrancelhas mais uma vez e mordi minhas bochechas. Ok, aquele era um sinal de que eu não deveria ficar parada na frente dele nem por mais um minuto.

Sentei no meu canto depositando todo o meu peso na cadeira e comecei a pesquisar. Entrei no site da marca, mandei e-mails, fiz ligações e, quase no fim da manhã, eu já tinha uma resposta e um encontro marcado com o diretor comercial que, inacreditavelmente, tinha um horário disponível para o fim daquela tarde. Eu não sabia bem o que perguntar logo de cara, então esbocei mil questões que vagavam pela minha cabeça antes, durante e depois do meu almoço. Eu me desliguei de tudo naquele dia e me joguei naquilo que havia sido proposto pra mim.

Eu estava no carro do jornal, indo para o prédio da companhia para a entrevista, quando vi que havia ligações perdidas da Alícia no meu celular. Pensei comigo mesma no que ela queria falar comigo naquele dia, já que havíamos conversado o suficiente para me estressar no dia anterior.

A Alícia era aquele tipo de pessoa completamente fora da casinha. Vaidosa, ambiciosa e o avesso de tudo que eu era. Frequentemente eu me perguntava como meus pais foram capazes de deixar a empresa deles nas mãos dela, já que a sua formação, muito boa por sinal, não era o suficiente para colocá-la no seu lugar e fazê-la olhar pra frente com os pés no chão, a fim de garantir um bom futuro e honrar o que os meus pais haviam construído em toda a vida deles. Eu nunca me senti apta para tal função, fora que nunca foi a minha vocação, então às vezes compreendia o fato dos meus pais terem passado a presidência para aquela minha única irmã mais velha. Era muito mais emoção do que razão.

Tentei não pensar demais nas ligações da Alícia e, sem saída diante do que me aguardava em poucos minutos, reli tudo que eu tinha escrito. O homem que eu encontraria era Antônio Bergamo, diretor comercial da família do fundador da famosa rede de lojas. Eu não consegui saber nada sobre ele além do nome no site e do que conversei com uma secretária, então logo imaginei um homem de meia idade bancando o esperto durante toda a conversa. Cabelos parcialmente grisalhos, um terno com um bom corte e um sapato fino. Linguajar sofisticado, trejeitos extremamente educados e uma habilidade assustadora de desviar de qualquer pergunta que comprometesse sua profissão e a ArteMil.

Assim que adentrei o prédio, me direcionaram para uma pequena sala vazia, com duas poltronas e uma mesa com água, café e balinhas. O logo da empresa estava grandemente estampado na parede atrás desses móveis e a única coisa que eu escutava era o barulho do ar condicionado ligado no modo congelar. Esperei, esperei e esperei até ver uma silhueta surgir próxima à porta de vidro fosco. Mordi o interior das minhas bochechas e me ajeitei na cadeira, até que a porta se abriu e um homem bem novo entrou meio apressado. Levantei-me e fixei o olhar nele para nos apresentarmos.

— Me desculpe pelo atraso, hoje o dia está bem corrido. – ele disse de forma simpática, erguendo a mão para me cumprimentar – Antônio Bergamo, diretor comercial da ArteMil.

— Prazer, Antônio. Sou Rebeca Riche, repórter do Jornal Expresso. – respondi, disfarçando o fato de eu estar atônita por constatar que de meia idade ele não tinha nada.

Quanto às outras características que criei na minha cabeça, eu descobriria em breve.

— O prazer é meu. – ele respondeu educadamente, enquanto nos sentávamos – A minha secretária me adiantou o assunto, mas você pode repassar?

— Claro. Estamos com uma reportagem em andamento sobre algumas companhias, incluindo lojas de departamento como a ArteMil, e as suas condições de trabalho em relação aos funcionários por ser algo com o preço acessível, que utiliza recursos naturais e que supostamente demanda maior sofisticação de produção. Quais são seus objetivos, propostas e visões.

O Antônio me observou atentamente e deu uma leve assentida assim que acabei de falar. Eu não entregaria todas as minhas cartas e o que eu realmente queria com aquela conversa logo de cara, já que ainda havia muito o que investigar. Eu não falaria sobre a denúncia enquanto o Afonso não tivesse informações mais concretas. Antônio provavelmente não sabia, mas aquele não seria nosso único encontro.

— Tudo bem. – ele respondeu juntando as mãos e apertando os lábios.

— Posso começar a gravar? – perguntei.

— É claro. – disse se encostando inteiro na poltrona, esperando que eu fizesse a primeira pergunta.

A entrevista deve ter demorado em torno de quarenta minutos. Após ele se encaixar perfeitamente no modo de agir que eu havia imaginado, percebi que teríamos bastante trabalho pela frente. Ele respondeu tudo da forma que lhe era confortável, fugindo de qualquer sinal de erro que eu discretamente apontava. Perguntei sobre as fábricas, seus locais, o tipo de mão de obra e basicamente tudo se encaixava.

Enquanto eu finalizava a gravação e guardava minhas anotações em minha bolsa, vi que ele guardava alguns papeis dele calado. Observei-o mais um pouco e o traje era sofisticado e o sapato fino, exatamente como imaginei. O engraçado de tudo isso era que ele tinha 29 anos e era diretor pleno, como havia me dito na entrevista, e o oposto da imagem de um homem que ocupa um alto cargo em uma empresa. Também descobri que o nível de parentesco com o dono era próximo, o que explicava tudo. Não era nenhum primo distante do primeiro Antônio Bergamo, dono da companhia, e sim seu neto.

— Rebeca, posso te fazer uma pergunta? – ele perguntou normalmente, enquanto eu fechava minha bolsa.

— Pode. Devo pegar minhas anotações de novo? – indaguei de forma bem humorada e ele sorriu fraco.

— Não precisa. Você disse que seu sobrenome é Riche, né?

— Sim. – respondi, já imaginando sobre o que ele me perguntaria.

— A empresa de cosméticos com sede no Rio tem alguma ligação com você?

Na mosca. Naquele mundo de negócios basicamente sobre beleza, eu tinha noção que o nome da minha família e dos produtos da marca dos meus pais era reconhecido. Se a pessoa manjava da área ou usava algum dos produtos, ao ver meu sobrenome, fazia a ligação.

— Tem. Meus pais são os fundadores. – respondi de forma simples, sem render muito o assunto.

— Imaginei. Estamos estudando uma parceria com nossas filiais no Rio, para vendermos os produtos nas nossas lojas. Espero que dê certo. – disse rindo levemente.

Engoli seco e logo pensei na Alícia. Apesar de não interferir em nada na empresa dos meus pais, me assustava o fato de estar investigando uma rede de lojas que supostamente utilizava mão de obra escrava e que estava se ligando com a Riche.

— Eu não sabia. – falei tentando não demonstrar o susto, sem ter que elogiar ou achar a situação ótima – Não me ligo muito nos assuntos da Riche. O meu negócio é outro. – completei da forma mais despretensiosa e agradável possível para sair logo daquele assunto.

— Entendo. – ele disse após assentir e sorrir fraco – Foi um prazer.

— Obrigada pela disponibilidade. Eu aviso quando a entrevista for publicada e, qualquer coisa, volto a entrar em contato.

— Fique à vontade.

Demos outro aperto de mão ao nos levantarmos e, dessa vez, percebi que foi mais forte da parte dele. Talvez por convicção e satisfação pelo que ele tinha falado, mas seu olhar se tornou bem penetrante naquele momento. Cerrei os dentes para mim mesma de modo que não demonstrasse fraqueza, já que, com toda certeza, por ter fugido de forma maestrante do ponto que eu internamente queria chegar, ele provavelmente sacou qual era a daquela entrevista.

Fiquei intrigada e instigada a mergulhar naquilo cada vez mais. Pelas respostas que eu tinha em mãos, a investigação andando com o Afonso e a novidade envolvendo a administração da Alícia na empresa dos meus pais, se relacionando com a ArteMil, fiquei curiosa o bastante para me sentir insaciada. Eu precisava de mais.

Cheguei em casa após a entrevista, fiz um café bem forte e me debrucei sobre a mesa. Transcrevi cada palavra dita pelo Antônio na gravação, analisei as entrelinhas, procurei por detalhes que talvez eu não tivesse percebido e, por fim, liguei o computador para tentar novamente pesquisar o máximo que eu pudesse na internet. Eu tinha novas informações, tudo que o Antônio falou deveria servir para alguma coisa em relação a isso.

Adentrei a madrugada salvando tudo que eu podia. Quase às duas da manhã, quando me dei conta, as abas abertas no meu computador já demonstravam o meu cansaço. Eram simplesmente a página da empresa com a sua história e detalhes sobre sua fundação, a página do Antônio em uma rede social e seu currículo, encontrados após muita procura. Eu deveria me atentar aos outros diretores, mas o Antônio me parecia mais interessante por já conhecê-lo, mesmo que brevemente.

Me levantei para tomar um banho e dormir já sabendo que o sábado, que seria meu dia de folga antes de tudo acontecer, seria no mínimo cansativo. Eu teria que juntar minhas informações com as do Afonso enquanto ele me contatava, além de pensar no meu próximo passo diante da direção da ArteMil. A minha folga existiria só em teoria, já que trabalharia na minha própria casa.

Passei o sábado exatamente como imaginei. No fim da tarde eu já consegui redigir alguma coisa com as minhas informações ligadas às do Afonso, mesmo que fossem iniciais.

Acordei na segunda fazendo o meu ritual como todos os dias. Eu também pretendia e esperava que aquele primeiro dia da semana seguisse rotineiro, mas não foi o que aconteceu. Eu deveria ter ficado atenta aos sinais.

Quando desci até a garagem e entrei no carro para ir ao trabalho, me surpreendi ao girar a chave e ele simplesmente não pegar. Tentei milhares de vezes, mas não ligava. Rezei, pedi perdão, prometi nunca mais reclamar da vida e nada adiantou. Eu imaginei que fosse a bateria, o que não era difícil de resolver, porém observando bem a hora, percebi que eu não teria tempo. Infelizmente eu não tinha acordado bem mais cedo como na sexta feira.

Saí do carro apressada enquanto chavama um uber. Me dei conta de que estava atrasada quando estava à caminho da redação e desci desesperada do carro para atravessar a rua e entrar no prédio. E foi aí que um carro me atropelou.

Notas finais
Critique (se for construtivo), comente, deixe opiniões. Se não quiser falar nada nesse sentido, deixe apenas um 'oi' para que eu saiba que não estou sozinha nessa. Beijinhos.