Beirut

4 Postcards From Italy


Acordei com uma batida na porta do quarto e meu pai berrando meu nome. Levei um susto imediatamente me dando conta de que Colin ainda estava na minha cama. Eu o sacodi para acordá-lo, mas ele só gemia, então joguei-o da cama, daí ele acordou.

— Melanie! – meu pai ainda me chamava – Por que sua porta está trancada?

Olhei perdida para Colin que ainda estava no chão.

— Porque eu dormi pelada. – respondi.

Houve um breve silêncio.

— O quê? Por quê?

— Porque eu quis! Me deixe em paz, pai. Eu desço em alguns minutos.

Ele não respondeu imediatamente, mas disse “tudo bem”.

Suspirei passando a mão pelo rosto. Se eu não tivesse trancado a porta ontem provavelmente estaria bem ferrada nesta manhã.

Colin se levantou com um sorriso no rosto, achou essa situação engraçada. Eu por outro lado ainda não estava preparada para rir disso. Saí da cama e fui até o banheiro escovar meus dentes. Ouvi Colin me chamar do quarto, eu o respondi com a boca cheia de pasta, suspeitei que ele não houvesse entendido.

Ele apareceu na porta do banheiro com o meu celular na mão mostrando uma mensagem que Kent havia acabado de mandar.

— Há uma mensagem de Kent no seu celular. Por que tem uma mensagem dele no se celular?

Cuspi na pia antes de tomar o celular da mão de Colin.

— Não é da sua conta. – cantarolei.

Colin me olhou com o cenho franzido.

— Vocês são amigos agora? Até onde eu sei você nem tinha amigos.

Cruzei meus braços e olhei para Colin indignada.

— Pensei que você fosse meu amigo, mas aparentemente não sabe agir como o tal.

— Não mude de assunto, Mel.

Revirei os olhos, bufando, como se eu devesse alguma resposta a Colin.

— Nós vamos sair hoje, Colin.

— Um encontro? – ele perguntou e eu assenti – Não acredito nisso! Você sabe que não gosto desse cara.

— Você ainda tem remorso por algo que ele disse a você no primeiro ano?

— Não é remorso. Ele insultou minha família e a mim.

— Ele não disse nenhuma mentira.

Ele pareceu chocado com minha resposta e eu não me arrependia nem um pouco do que acabara de dizer.

— Você concorda com ele?

Dei de ombros e eu revirei os olhos.

— Colin, você realmente vive o sonho dos seus pais, faz tudo que eles querem, você não tem opinião na sua própria vida e isso é triste.

Nossas vozes deviam estar elevadas e nós nem percebemos, pois meu pai apareceu novamente perguntando o que estava acontecendo, apenas disse a ele que já desceria.

Colin ainda olhava para mim, chateado. Me aproximei dele.

— Olha, Colin, não estou julgando você ou sua família, estou apenas dizendo a verdade.

Ele assentiu.

— Eu acho que já está na hora de eu voltar para minha casa.

Pensei em chamá-lo e me desculpar, mas não havia com o que me desculpar, não havia dito nem uma mentira e Colin precisa escutar aquilo, não era justo ele viver daquele jeito.

Desci e encontrei meu pai e Brad na mesa da cozinha tomando café-da-manhã, me juntei a eles. Comecei a me servir sentindo os olhos do meu pai em mim, não entendia por que ele estava tão desconfiado. Não era como se eu vivesse quebrando regras, eu mal sabia o que era viver de verdade.

— Com quem você estava conversando? – ele perguntou antes de levar o garfo até a boca.

Fingi que não entendi o que ele falava.

— O quê? – perguntei sem fazer contato visual com ele, ainda me servindo.

— Ouvi você falando sozinha no seu quarto. – ele disse com a boca cheia.

Brad riu.

— Ela finalmente enlouqueceu de tanto se isolar.

Meu pai olhou sério para Brad, fazendo-o parar de rir.

— Isso não é brincadeira, Brad.

Ele revirou os olhos e meu pai olhou para mim ainda esperando uma resposta.

— Eu estava falando no telefone. – menti.

Graças a Colin estava me tornando uma ótima atriz com uma incrível facilidade para mentir.

Ele uniu as sobrancelhas.

— Desde quando tem com quem falar no telefone? – meu pai disse e Brad gargalhou.

Revirei os olhos para eles.

— Vocês querem parar! – disse – Eu tenho alguns amigos.

— Sério? – Brad disse – Pensei que tivesse voltado a falar apenas com Colin.

Remexi na minha comida enquanto dizia:

— Na verdade, eu meio que tenho um encontro hoje.

Os dois ficaram em silêncio, paralisados e olhando para mim, o que me fez rir.

— O quê? Vocês me acham tão repugnante assim?

— Não, querida. – meu pai se apressou a dizer – De forma alguma. É só que... Minha garotinha finalmente está crescendo.

Ele disse com uma voz chorosa, brincando e vindo me abraçar. Logo Brad saiu de sua cadeira e fez o mesmo.

— Eles crescem tão rápido. – Brad disse agarrando minha cabeça.

Eu os empurrei e sorri.

— Meu deus, vocês são um saco! – disse.

— Espere. – Brad se afastou – Com quem você vai se encontrar? Será se ele merece ter a honra de sair com a nossa princesa? – ele disse olhando para papai.

— Ninguém merece essa honra. – meu pai disse.

Revirei os olhos.

— É com Kent. – eu disse.

— Kent Loggins? – ele quase gritou.

— Sim...

— Uau... Faz sentido, ele é estranho também. E gostoso.

— Cala boca! – eu joguei o saco de pão nele rindo.

Kent mandou uma mensagem dizendo que passava na minha casa para me buscar às sete horas. Passei o dia todo ocupando minha mente para não ter que pensar muito sobre o encontro, assim evitava ficar nervosa. Já era quase final da tarde e não fazia ideia o que vestir, deixei para decidir depois e voltei a minha leitura. Quando olhei no relógio mais uma vez já eram quase oito e Kent logo passaria aqui e eu não havia nem escolhido minha roupa.

Corri para o banheiro tomar um banho, apressada escovei os dentes e fui direto para o meu guarda-roupa escolher alguma roupa. Nada me agradava e eu estava quase ficando histérica quando Brad apareceu.

— Você ainda está assim? – ele perguntou me analisando.

Suspirei e assenti, me sentando na cama.

— Não acho nada ai que possa ficar legal para um encontro.

Brad puxou um vestido preto e me mostrou. Era o mesmo vestido que eu teria usado no baile, mas eu havia desistido na ultima hora quando comecei a imaginar de como ficaria lá, logo disse a Brad(meu par) que havia pegado uma gripe, ele não ficou muito convencido, embora eu tenha sido bastante convincente, mas assentiu.

Fui até Brad e peguei o vestido de sua mão indo ao banheiro me vestir. Quando saí Brad sorriu para mim.

— Você está ótima.

Agradeci. A campainha tocou e meu coração pulou, ele estava aqui. Brad disse que ia descer para recebê-lo, então me calcei e coloquei o mínimo de maquiagem possível. Brad gritou meu nome e eu respirei fundo e desci.

Para minha surpresa encontrei Colin na porta da minha casa, meu nervosismo pareceu ter se dissipado um pouco. Ele me olhou surpreso.

— É apenas, Colin. – Brad disse decepcionado.

— Podemos conversar? – Colin pediu e eu assenti.

Saí de casa e fechei a porta atrás de mim. Nós estávamos na varanda da minha casa olhando para o chão e em um interminável silêncio, até Colin falar.

— Queria pedir desculpas pela forma que agi mais cedo. – ele disse parecendo genuinamente arrependido – Ainda não gosto de Kent, mas não tenho direito de me meter na sua vida.

Assenti.

— Tudo...

— Ainda tem mais. – ele me interrompeu – Passei o dia pensando e me dei conta de você tem razão. Tudo o que disse era verdade.

— Kent disse a mesma coisa. – lembrei-o.

— Mas eu não quero admitir que ele tem razão.

Eu ri e Colin sorriu.

— Amigos de novo? – ele perguntou com os braços abertos.

Assenti, indo abraçá-lo.

— Melanie? – ouvi alguém dizer e me separei de Colin no susto.

Sorri desconsertada ao ver Kent.

— Ah, oi.

Ele sorriu de volta. Colin não fez nada. Kent começou a se aproximar de nós, então ele olhou para Colin e parecia envergonhado.

— Oi, Colin.

Ele apenas fez um aceno com a cabeça. Houve um breve silêncio entre nós três, então eu disse:

— Colin já estava de saída. – eu disse o empurrando em direção a sua casa.

Ele me olhou com uma cara de raiva e eu o fuzilei. Formei um “Tchau” com meus lábios para Colin sem que Kent visse. Colin, derrotado, cedeu e foi para sua casa virando para trás com raiva uma vez antes de entrar.

Sorri para Kent.

— Você está bem bonita. – ele disse.

Sorri sem mostrar os dentes.

— Obrigada por perceber. – brinquei.

— Está pronta para ir.

Assenti e então lembrei que havia deixado minha bolsa no quarto.

— Só vou pegar minha bolsa. – disse abrindo a porta de casa – Pode entrar se quiser.

Ele hesitou um pouco antes de assentir.

Subi para o meu quarto rapidamente e peguei minha bolsa. Quando desci meu pai e Brad estavam conversando com Kent, ele parecia nervoso.

— Então quer dizer que você quer sair com minha filha? – meu pai disse de forma protetora, cruzando os braços na altura do peito.

Kent assentiu.

— Sim.

— Ainda bem que alguém finalmente vai tirá-la dessa casa. – ele disse por fim.

Fui até os três imediatamente.

— Vamos. – eu disse querendo tirá-lo dali.

Ele assentiu.

— Eu a trago antes das onze.

— Você tem até amanhã para trazê-la. – meu pai disse.

— Pai! – repreendi-o.

Kent pareceu querer rir, mordendo o lábio.

— Estou brincando. Até meia-noite está bom.

— Tudo bem. – Kent disse parecendo estar se divertindo.

Que situação estranha. Foi o que pensei.

Quando estávamos saindo de casa Brad disse baixo o suficiente para apenas eu escutar:

— Minha irmãzinha vai finalmente ser deflorada.

— Vá para o inferno! – cochichei de volta para ele.

Kent abriu a porta para mim como um cavalheiro e então foi se sentar no banco motorista. Ele olhou para mim e riu.

— Seu pai é engraçado. – ele disse.

Sorri com as bochechas provavelmente vermelhas, felizmente estava escuro.

— Ele é estranho.

Kent deu de ombros.

— Ele é diferente da maioria dos pais que tem suas filhas levadas por caras que tem cara de problema.

Eu ri.

Eu ri.

— Ah, quase esqueci. Trouxe algo para você. – ele colocou a mão no banco de trás do carro e pegou algo.

Uma rosa. Não era um buquê. Não era nada demais, era simplesmente um rosa. Eu sorri para ele.

— Uma rosa? Você está tentando mesmo me conquistar.

Ele riu.

— Desculpe, achei que se trouxesse um buquê seria demais.

— E seria. Eu gostei, de verdade. Obrigada, Kent. Ótimo trabalho.

Ele sorriu e deu partida no carro me levando até um lugar onde não fazia ideia aonde era. Ele colocou uma música e um rock bem alto tocou no alto falante me fazendo quase pular de susto.

— Desculpe. – ele disse rindo e arrumando o rádio.

— Tudo bem. – eu disse rindo.

Ele colocou outra música qual eu desconhecia e baixou o som.

— Não sabia que era amiga de Colin. Quer dizer, lembro que eram amigos quando éramos crianças.

Dei de ombros.

— A gente meio que se resolveu há alguns dias.

— E o que Caroline acha disso?

— Não tenho certeza se ela sabe, é algo meio recente.

— Entendo. – ele ficou calado por uns segundos – Ele ainda me odeia, né?

Fiz uma careta e Kent riu.

— Pensei que ele fosse superar isso.

— Colin é meio orgulhoso.

— Não me importo se ele me odeia. Só espero que isso não afete em nada entre a gente.

Comecei a mexer na carne da minha unha, sorrindo.

— Não há razão alguma para Colin se envolver entre a gente.

— Ótimo. – ele sorriu.

— Onde está me levando? – perguntei olhei para a janela?

— Você conhece a história da nossa cidade? – ele perguntou de repente.

— Você quer dizer da lenda de ShadowLake? – perguntei.

— Exatamente. Vou levá-la até onde essa lenda surgiu?

Olhei para ele com os olhos arregalados.

— Você quer dizer o lago?

Ele assentiu.

— Você está com medo de ir até lá? – ele perguntou.

Balancei a cabeça, hesitante e ele pegou minha mão.

Após alguns minutos chegamos ao lago. Kent ligou o farol do carro e desceu, abri minha porta desci também, mas com calafrios por estar naquele lugar. Kent foi até a mala do carro e tirou uma cesta e um pano.

— Vamos fazer um piquenique à luz da lua.

Sorri e o ajudei a colocar o pano no chão, me sentando nele em seguida. Ente se sentou ao meu lado tirando sanduiches, copos, uma garrafa de vinho e chá gelado.

— Trouxe os dois, pois não sabia o que iria preferir.

Escolhi o vinho na esperança de o álcool me ajudar a me aliviar. Ele encheu dois copos de vinho e me entregou um, o líquido quente e doce desceu por minha garganta aquecendo meu corpo de uma forma deliciosa.

— Você já veio aqui antes? – perguntei.

Ele assentiu.

— Uma vez com minha mãe, ela quem vivia me contando a lenda daqui.

— Conte-me.

— Tem certeza de que está preparada? – brincou fazendo suspense — Anos atrás quando ShadowLake não era nada havia essa família muito rica, um garoto dessa família se apaixonou por uma plebeia, eles mantiveram o caso em segredo até descobrirem. Sua família queria executar a garota, mas ela simplesmente fugiu e nunca mais aparece novamente. Daí pessoas diziam que às vezes conseguiam olhar sua sombra no lago, então nomearam a cidade com esse nome.

Kent terminou de falar e ficou esperando minha reação e então eu ri, comecei a gargalhar.

— Que estúpido!

— É só uma lenda. – ele disse rindo também.

Parei de rir.

— Mas eu meio que estou com medo.

Ele sorriu para mim e me abraçou com apena um braço.

— Essas coisas não existem, Mel.

— Não há como ter certeza de nada. – eu disse.

Ele concordou bebendo o vinho. Ele tinha um pouco da bebida na borda dos seus lábios, tomei liberdade para limpar, e então algo pareceu mudar entre nós. Ele se aproximou de mim sem tirar os olhos dos meus lábios e então finalmente beijá-los. Sua língua estava dentro da minha boca fazendo movimentos suaves, sua boca tinha gosto de vinho e a minha também. Suas mãos acariciavam meu braço e a minha sua nuca, até que nos separamos.

— Você melhorou bastante. – disse com os lábios perto dos seus antes de abrir os olhos.

Ele riu e deitou com a mão no rosto.

— Não acredito que ainda se lembra disso. – disse ainda rindo.

Eu ri de volta me deitando ao seu lado.

— Como esquecer meu primeiro beijo?

Ele olhou para mim surpreso.

— Ah, meu Deus! Era seu primeiro beijo?

Assenti sorrindo.

— Me desculpe. – ele disse colocando as mãos no meu rosto – Vou passar um bom tempo compensando-a por aquele dia.

Dei de ombros.

— Não posso dizer que é uma má ideia.

Ele sorriu e me beijou de novo. Então eu fiquei em seus braços, olhando as estrelas e tudo estava indo bem, não estava mais nervosa e sim bem a vontade.

Notas finais
OBS: ShadowLake é uma cidade fictícia que eu inventei sendo localizada no estado do Maine nos EUA.