No one knows what it’s like, to be the bad man.

Ninguém sabe como é ser o homem mal.

Eu acordei hoje diferente de quando eu acordo normalmente. Eu acordei procurando ele em minha cama e percebi que nada tinha ali. Nada além de outro corpo que não era o dele. Mesmo assim, abracei aquela silhueta fria que não tinha o cheiro dele, eu não tinha de onde tirar forças, eu não o tinha mais. Porém eu sabia bem que ele ia me esperar porque me amava. Me amava acima dos meus erros e era nisso que eu poderiaconfiar. Essa era a base da minha vida.

A silhueta que eu abraçava virou-se pra mim, deixou que seus lábios macios acariciassem os meus finos e ressecados. Seus lábios não eram grossos, seus lábios não eram tão saborosos, porque esses lábios não eram os dele. Os lábios que eu lutava para esquecer a cada dia mais, mas queria também, reter a essência deles em mim, para não sentir falta. Para permanecer assim, falho e distante.

O pior de tudo é saber que ao levantar da minha cama eu teria que disfarçar – e não que eu não fosse um grande mestre nisso, mas simplesmente chega uma hora que isso cansa. Eu teria que disfarçar o olhar, não mostrar a falta e o quão vazio sou, sem ele. Fora dali eu teria que encarar o julgamento popular. As pessoas me olhando como se olha para um assassino ou coisa do tipo. Sinto lhe decepcionar, mas eu sou só mais um homem que está tentando sobreviver aos próprios sonhos.

To be the sad man, behind blue eyes.

Ser o homem triste, por trás dos olhos azuis.

E o pior disso tudo não é encarar os olhos da silhueta que é tão fria quanto minha pele sem o calor dele, sem a vida que transparece em seus olhos. Encarar o público e olhar com a cabeça erguida tentando mostrar ao público que o que eu tenho feito é para minha felicidade, mas isso é algo que tem fugido de mim. Há tempos que eu não o tenho. Há tempos que ele se tornou de mero capricho há desejo desesperado, porém eu continuo sendo o mesmo homem que ele deixou ir, só um pouco mais sincero.

Ninguém pode saber como é conviver com a própria tristeza, mas saber que acima de tudo está certo. Está olhando para dentro de si sem ser egoísta, saber que ele vai se dar bem e, por mais que eu queira dizer que também vou conseguir atingir o ápice da minha glória como guitarrista e compositor, eu sei que não vou ser muito. Não vou ser, porque não tenho seus olhos castanhos vivos para me mostrar o caminho certo a ser seguido.

Eu sei, é difícil pra eu confessar o quanto amo tudo aquilo, todos aqueles momentos que eu vivi ao seu lado, com o abraço quente que hidrata minha pele, me faz saber o que é amar. Porque ele tinha o dom de fazer tudo o que era completamente idiota ficar importante, faz as nuvens no céu ficarem mais brancas e parecerem algodões doces que estavam esperando por nós. Quando tocávamos, nada mais importava, só ele e eu em um palco tocando aquilo que amávamos para as pessoas que mais nos importavam; vivíamos para elas e elas para nós.

Hoje só me resta a nostalgia. Encarar uma silhueta por noite para tentar esquecer o que ele fazia comigo. Fechar os olhos para a aliança em sua mão esquerda, fechar os olhos e me acostumar com ele não sendo tão meu quanto eu estava acostumado, porém quem sabe ele acorde no meio do nada se perguntando como é que eu estou, se eu tenho medo ou se estou fumando um cigarro concentrado demais, com nicotina demais. Quem sabe ele também pare para olhar para trás e se lembre que ele e eu éramos um; tanto no palco, quanto na vida. Espero que ele me olhe com um olhar nostálgico e que me procure. Que sinta a silhueta de sua esposa quente, porque somente eu posso ser frio a ponto de ele tentar me aquecer.Somente eu posso preocupá-lo com minhas coisas fúteis e mesmo assim, quando me der vontade, fazer um joguinho sentimental ou outro. Porque ele é meu e nada vai mudar isso.

And no one knows what it’s like, to be hated, to be fated to telling only lies.

E ninguém sabe como é, ser odiado, ser destinado a só contar mentiras.

Um dia você cansa de ter tantas pessoas contra você. Um dia você olha para elas e abre os lábios para falar que estão certas, que você não pode mais fazer o que ama, que não pode mais ser bem sucedido porque magoou quem mais amava, mas no fim das contas eu sempre prefiro ocupar melhor meus lábios com um beijo de boa noite e deixar para mais tarde a desistência. Porque, uma hora, o disfarce te cansa e a falsa felicidade começa a ser evidente e você começa a sentir seu corpo trêmulo só em pronunciar um nome, um nome que se tornou uma verdade.

Um dia você acorda e olha no olhar do seu público e diz que o ama, que eles são especiais para você, que você trabalha para fazê-los felizes, mas o que recebe em troca é um comentário maldoso sobre alguma coincidência não proposital. Ou recebe em troca uma palavra de desafeto, dizendo que você não vai chegar a lugar nenhum. E simplesmente, a máscara cai. O disfarce cai e mesmo assim, você ainda continua a dizer que está tudo bem, que a vida que você constrói agora é a vida que sempre sonhou, ainda que faltem A ou B, é isso que você quer para si e pretende ser forte, agüentar, dizer que não dói enquanto cospem em quem tanto se dedicou. Eu não estou me fazendo de vitima, longe disso. Eu não sou a vitima, só estou deixando que eu mostre algum tipo de sentimento.

Porque cansa ser o vilão da história. Cansa você deixar o egoísmo de lado e o que mais ver é pessoas falando que você é egoísta. E o que mais me cansa é ver que as pessoas que mais me amaram, supostamente, sequer acreditam em meu trabalho. De repente, eu parei de ser o Ryan Ross que amavam para ser o Ryan Ross que odeiam só porque eu busco uma felicidade que eu sei aonde está. Com ele. Com Brendon Urie e seus lábios grossos e silhueta quente.

But my dreams, they aren’t empty. As my conscience seems to be.

I have hours, only lonely. My love is vengeance that’s never free.

Mas meus sonhos não são vazios como minha consciência.

Eu tenho horas, de pura solidão. Meu amor é vingança que nunca está livre.

Eu sonhei. Eu tive coragem de lutar pelo o que acredito. Minha consciência está completamente tranqüila nesse ponto. O que eu fico incomodado é com a minha nostalgia, minha vida, meu coração batendo forte, dolorido. Essas coisas prendem nossa vida e acabam enchendo nossas cabeças com pensamentos completamente desnecessários. Pensamentos esses que você precisa de um lugar pra desabafar e meu lugar é a música. Eu desabo e desabafo por elas, cada letra, cada acorde. São elas, minhas músicas, que me mantém vivo na falta dele. Brendon Urie.

No final das contas, eu reconheci quem estava comigo. Era Kate. Suas pernas entrelaçavam-se com as minhas e, sua despreocupação com meu bem estar me revelavam sua face. Era parecida com um rosto muito importante em minha vida, um rosto que brinquei, magoei, que vi chorar. Alguém de quem eu disse que me arrependeria de ter perdido mais cedo ou mais tarde e que eu queria que me esperasse, mas ela não me esperou. Foi mesmo melhor pra ela apesar de que para mim não foi tão bom assim. Ela foi meu suporte quando eu soube que ele estava decidido a me deixar.

#Flashback#

“Até quando, Ryan?”, Ele perguntou, me olhando. Estava sentado na cama, com teu corpo nu ao me olhar. Tragava seu cigarro lentamente, sem pensar em nada, ou aparentava pensar em algo que o martirizasse. Pensava em mim, em meus atos. Eu só servia para isso: dar-lhe sofrimento.

“Do que você ta falando, Brendon?”, Encarei sua íris escura e ele deu de ombros, após suspirar “Brendon.”

“Você nunca sabe de nada, Ryan.”, Resmungou irritado “E isso já está começando a encher, sabia?”

“Acalme-se, Brendon.”, Falei, passando a mão por sua cintura de forma possessiva. “Só quero saber o que me pergunta.”

“Jac. Keltie. Quantas mais?”, Perguntou, fitando-me os olhos frios. Puxei o cigarro de sua mão e traguei. “De quantas mulheres você precisa para ser feliz?”

“Nenhuma se eu estiver com você.”, Respondi, tragando o cigarro lentamente “Você me conhece.”

“Por isso mesmo que eu te pergunto até quando você vai ter tantas.”, Resmungou, fazendo com que eu escondesse o rosto em sua lateral. Mordisquei-a e ele fechou os olhos, lentamente. Resistente. Ele não queria se entregar aos meus carinhos, mas eu o conhecia. Eu sabia que ele ia acabar caindo. “Não me respondeu.”

“Eu preciso?”, Perguntei, baixinho. Brendon somente rolou os olhos e apagou o cigarro no criado-mudo. Ele maneou a cabeça negativamente, desistindo da resposta. Sabia que eu não ia falar mais do que aquilo. Mantinha a expressão triste, mas gostava das minhas carícias, porque me amava. Sempre me amou e estava destinado a ser assim, para sempre.

#Fim do Flashback#.

E meus olhos se encheram involuntariamente quando me peguei pensando naquele dia. Um de tantos dias que ele me perguntava quantas eu ia precisar ter. Eu me perguntava isso às vezes e eu achava estranho por não ter aquela resposta com exatidão. Talvez eu jamais soubesse. E não ia ter porque saber, eu não gostava tanto assim de mulher. Gostava de um menino que conseguia me fazer feliz. Ele me amava e eu dava a minha vida por ele. Quantas vezes fosse preciso, mas mesmo assim, eu estava longe. Muito longe. Longe da sua silhueta quente, do seu olhar arrebatador, dos seus lábios doces, grossos e sorriso grande.

“Ryan, você está bem?”

Primeira vez. Para tudo tem uma primeira [i]fucking[/i] vez. A primeira vez que realmente – Brendon e eu – nos separamos por mais que umas pequenas férias. Talvez eu esteja tirando férias de dele, do seu cheiro, por mais que todo o meu corpo pedisse para eu sair correndo atrás dele. Eu realmente me tornei um pouco expressivo sem o Brendon? Ou é o fato de eu fumar e beber para esquecer o quanto ele me faz falta? Algo em mim tinha acusado o quanto ele era importante. Eu só não sabia dizer ao certo o que era.

“Sim, eu estou ótimo.” Respondi, inexpressivo. Como sempre. Ela não desfez o enlaço de nossas pernas. Vez ou oura deslizava os lábios por minha pele, prendia os dentes na mesa. Eu não conseguia sentir mais do que meus instintos me permitiam. Nada mais. Não só por meu jeito inexpressivo, mas também porque ela estava longe de ser ele.

“Não quer tomar banho comigo?,” Perguntou em meu ouvido, num murmúrio. Eu dei um suspiro longo e neguei com a cabeça. Eu não estava querendo sequer levantar daquela cama. Não era por medo, era por traição. Porque meu coração fazia questão de me trair e eu tinha que obedecer. “Tem certeza que você ‘ta bem?”

“Me deixa em paz.”, Falei baixinho e Kate deu de ombros, rumando ao banheiro. Ela era assim, não se importava comigo. Nunca se importou e tem coragem de falar que me ama. De qualquer forma, eu não me importo com ela, não tem como me importar muito.

Dizem que vingança é um prato que se come frio. E vingança vem de retribuir algo mal que te fizeram. Algo que você não gostou, apenas suportou porque não teve outro jeito. Meu coração vinga o Brendon em mim. Meu coração não trai o Brendon, eu traio meu corpo, por necessidade. Por gostar de sexo. Eu sei a quem pertenço, como ele também sabe que tem que ter cuidado com os gemidos. Meu nome escapa sem querer toda vez que ele canta [i]Lying Is the Most Fun A Girl Can Have Without Taking Her Clothes Off[/i]. Porque sempre serei eu a ter um toque mais quente, um beijo melhor e um sexo feito do jeito que ele gosta. Simplesmente porque essa música era nossa. Sempre seria.

I’ve got more win a better kiss, a hotter touch… a better fuck. Than any boy you’ll ever meet. Sweetie, you had me.

O meu amor por ele não gosta do que faço. O meu amor por ele me faz cair. O meu amor por ele me faz me sentir desprezível. O meu amor por ele o vinga diariamente em meu coração apaixonado. Como eu sei que o coração inundado de saudades de Brendon Boyd Urie me vinga. Restringe seu corpo a mim, seus sonhos ao meu encontro e sua tristeza no olhar, para mim. Porque tudo em Brendon Urie tem meu nome, mesmo que eu passe o resto da vida longe dele.

No one what it’s like to these feelings. Like I do. And I blame you.

Ninguém sabe como é sentir esses sentimentos. Como eu sinto. E eu culpo você.

Levantar da cama e ir tomar um café da manhã, com certeza, foi uma das melhores coisas que eu fiz nesse dia. Eu precisava me encontrar com Jon para que resolver alguns problemas da banda. Meu apartamento em Topanga tinha cheiro de sexo. Eu ainda cheirava a isso. Não queria tomar banho com Kate. Dei um bocejo longo, enquanto deixava o cheiro do café recém-feito invadisse meu olfato, me afastando momentaneamente da lembrança dele. A que eu sempre quis reter, para não precisar.

“Vou para casa da minha mãe.”, Kate disse, sorrindo. Assenti com a cabeça e deixei que ela me beijasse, como uma despedida. Depois tomei café, quieto em meu canto.

Meus pensamentos não costumavam me trair como aquele dia. Eu não costumava ver Brendon Urie em tudo, porque eu sempre pus o meu trabalho acima dele, eu sempre achei que quando ele decidisse me tirar da sua vida de uma vez por todas, como vivia ameaçando, eu ia conseguir superar com certa facilidade. Eu simplesmente estava errado e não que eu quisesse estar, mas era bom. Aprenderia a força que a verdade nem sempre gostava de mim tanto quanto eu gostava dela. Aprenderia que as peças da vida vêm de surpresa, nós que temos que nos adaptar as novas circunstâncias postas.

Desde quando deixei o Panic! at the Disco procuro não falar, me esconder dos repórteres, mas quando eles me acham eu acabo tocando em seu nome, me ferindo por dentro. Quando toco em ‘Brendon Boyd Urie’, eu falo mais ‘yeah’ que o necessário. Não gosto de não estar por cima. Gosto do controle, de saber o que fazer. Gosto de olhar para trás e ver que eu fiz exatamente o que tinha que ser feito. Era assim que eu me sentia em relação à saída do Panic!, mas não era assim que eu me sentia em relação ao Brendon.

Não sei se ele se sentia da mesma forma que eu. Fraco. Vazio. Era como se meus olhos quisessem passar algo que eu nunca iria permitir. Faltando uma parte de mim que eu sequer sabia que eu era tão dependente. Não vou dizer que me arrependo, porque profissionalmente eu estou muito feliz, eu só não sabia que ao expulsar a banda da minha vida, expulsaria o que tinha com Brendon Urie. Eu nunca quis isso. Eu nunca disse que queria. Ele se afastou de mim. Brendon me pôs para escanteio.

Entendo sua mágoa. Não sou vítima, repito. Estou longe disso, mas não sou o culpado total. Não foi só minha culpa. Ia doer menos se as pessoas parassem de cobrar só de mim, mas eu não vou reclamar mais por isso. Não vou lutar para tê-lo, só vou continuar na luta para esquecê-lo. É assim que ele quer. É assim que vai ser. Sei que às vezes eu vou sentir o coração apertar, acordar como eu acordei hoje. Nostálgico. Porque por mais que eu queira me livrar, a nostalgia estará presente até que sua ausência se torne cômoda e, aos poucos, desnecessária de ser sentida. Desnecessária como essa maldita nostalgia.

Culpo-o. Culpo pelos malditos sentimentos que tenho. Pelos malditos pesadelos que de vez em quando tenho. Culpo Brendon Urie por me deixar sem chão quando se aproxima, por me fazer tremer com um sorriso. Por querer ser mais expressivo só para ele entender que é a única pessoa que realmente me importa, de quem quero cuidar para sempre dos sentimentos, do coração ferido. Culpo-o pelo medo que agora sinto de ficar sozinho, culpo por ter a pele mais convidativa dos Estados Unidos. Culpo-o por me pressionar, por me fazer amar.

A culpa é o oposto da vingança. É uma cobrança que você faz, uma acusação. Uma acusação que machuca e às vezes mata. Esse sentimento é um dos mais destrutivos que o ser humano pode sentir. Eu me culpo por ser fraco, por ser sensível e não aparentar. Eu me culpo por não saber – aparentemente – dar valor ao amor do Brendon, porque eu sei que dou. Eu sempre vou amá-lo do meu jeito frio e decadente. O jeito que todo mundo pensa não ser amor, mas que é o mais intenso e quente dos sentimentos.

No one bites back as hard on their anger. None my pain an’ woes can show through.

Ninguém engana-se dificilmente na sua raiva. Nada de minha dor é como a desgraça que pode mostrar a verdade.

Eu encontrei Jon ainda aquele dia. Eu resolvi os problemas que tinha que resolver. Eu nunca rejeitava Starbucks. Eram de lá as minhas refeições favoritas. Nada que nutrisse muito, mas saboroso o suficiente para me viciar. Jon quis me pagar uma bebida depois do ‘expediente’ e eu decidi aceitar. Iria ver Alex e ia encarar mais uma daquelas crisezinhas de ciúmes parecidas com a de Brendon. Eu passei a noite com Kate, nada mais justo, mas Alex de vez em quando dormia lá em casa, para a gente encher a cara e conversar de qualquer coisa.

Eu nunca gostei de álcool. Me traz péssimas lembranças. Eu nunca gostei de relembrar o que eu vivi com meu pai. Eu nunca gostei de contar quantos litros de cerveja eu joguei fora. Eu nunca gostei de contar quantas vezes eu quis desistir e simplesmente deixá-lo sozinho. Quantas vezes eu me lembrava do único som que tinha em mente – ainda que com pouco de idade, certas coisas que realmente te marcam ficam em sua cabeça -, minha mãe chorando e eu puxando a barra de sua saia querendo atenção. Minha infância seria mais fácil com ela, mas Sandra quis sair da minha vida, por um tempo.

Alex reclamou que ficar bebendo só com o Jon era um porre. Porque Jonathan não tinha meu humor negro. Aquela coisa acusadora e de achar apenas o ponto humilhante das pessoas. Eu fazia isso com Brendon. Eu fazia isso com todos. Gostava da sensação prazerosa que tinha ao ver as pessoas se preocuparem comigo e com meus atos. Um cigarro aqui, outro acolá e algumas bebidas. Não me importava à cor, não me importava o cheiro, só precisava ter álcool.

Eu só queria que a nostalgia passasse. Eu só queria que toda vez que eu fechasse os olhos deixasse de contemplar a imagem dele me sendo repreensivo. Papéis invertidos, eu diria. Papéis completamente invertidos. Eu sempre o repreendia, porque ele era meu e obediência é algo que eu realmente aprecio. Eu o vejo triunfar, mas não estou lá. Eu tenho minha própria glória ofuscada por teu brilho gigante. Eu só tenho que aprender a conviver com minha própria tristeza. Só aprender a conviver de novo com o homem triste.

“Vamos brindar!”, exclamou Alex, eu decidi aceitar, deixando um sorriso falso e sarcástico invadir meus lábios. “Ao Ryan!”

“Ao Brendon e sua capacidade a distância de me torturar.”, Respondi, sarcástico, dizendo toda a verdade. “Saúde.”

Chocamos os copos e os viramos. Estava começando a anoitecer. Eu tinha bebido, mas como toda a droga, passa a perder o efeito esperado, eu realmente podia vê-lo me repreendendo. Eu não gostava de álcool, não tinha passado a gostar, só era meu modo de esquecer as coisas que ele me fazia. Ele me picava.

Dor. Dor que significa remorso. Dor que significa impotência, incapacidade. A pior das dores é ver que tudo o que eu faço tem sempre alguém para me apontar o dedo e dizer que estou errado. Que erro. Minha dor não ofusca o brilho da verdade, porque ninguém consegue me ver mal. Eu não errei deixando a banda, ele errou achando que com isso, eu queria embora da sua vida. O brilho da verdade está aí, ofusca a visão de quem não quer vê-lo.

Quantas vezes na hora da raiva eu perdi o controle? Quantas vezes na hora da raiva eu me esquecia de quem eu era, ficava cego por um brilho de um mau sentimento. Um mal estar. Às vezes que eu achava que o mundo ia desabar sobre minha cabeça e começava a descontar, tudo nele. Agora eu não o tenho mais. Não tenho mais em quem descontar minhas dores, não tenho mais quem me acalmaria. Agora é vida para frente. Ele quer assim. Ele vai ter exatamente assim.

Um nome que se tornou uma verdade destrutiva: Brendon Boyd Urie.

No one knows what it’s like to be mistreated. To be defeated, behind blue eyes.

Ninguém sabe como é ser maltratado. Ser derrotado, por trás dos olhos azuis.

Caro Brendon Boyd Urie. Essa grafia rabiscada não é novidade para você e te conhecendo – como eu conheço você muito bem –, deve pensar que isso é um sonho, mas não é. Eu estou mesmo te procurando. Eu estou tentando mostrar que ainda existe o Ryan Ross que você ama em algum lugar dentro de mim.

Eu deveria parar de escrever essas coisas. Parar de me torturar. De me lembrar todos os dias o quão covarde sou de deixar desamparado alguém como Brendon Urie. Alguém que só sabe sorrir, ser engraçado. Eu o sigo, de longe. Eu pude ver em Open Happiness – que se torna até irônico, ao meu ver -, que ele não estava feliz e pude sentir a dor de seus olhos. Eu admiro Brendon Urie e sua capacidade de expressão. Sua capacidade vocal é só o começo dos tesouros escondidos por ele. O amor que ele tem dentro do peito e a força de vontade que ele tem, encantam.

Deve estar olhando para minha letra com um sorriso bobo na cara, imaginando que se eu estivesse aí, ia dizer algo parecido com ‘Chega de sorrir, Urie’. Mas você sabe que admiro teu sorriso. É sincero, ilumina, encanta e está vazio. Por mais que você tente, a dor está aí e eu consigo enxergá-la mesmo estando completamente longe. Eu consigo te ver entre meus olhos tristes, maltratados e inexpressivos.

Maltratar. Deixar de cuidar. A dor e a sua vingança diária em meu corpo me cansavam, me deixavam infelizes, me faziam pequeno. Pequeno para agüentar a fadiga do disfarce. É quando eu chego em casa, bêbado ou não, sozinho ou não, que as alegorias caem, uma a uma. O personagem de ‘sim-eu-estou-bem’ é guardado no armário, para amanhã pela manhã recolocá-lo, no mesmo lugar. No rosto recém-molhado pela água quente do chuveiro. O disfarce cansa, as alegorias pesam, mas é melhor que dizer que estou mal. Porque parte de mim, não está.

Eu nunca poderia imaginar você calado, simplesmente porque se calar não é algo que você faça. Silêncio não combina com o seu sorriso. Silêncio não combina com você. Silêncio sou eu. Quietude quer dizer incapacidade de argumentar e você tem argumentos. Você é o som, você é as palavras, o tom da minha voz. Está em mim, precisando que eu deixe você acreditar que eu ainda te quero. Porque sou tolo.

Derrota. Todos os dias, todas as horas. O personagem fracassa às vezes e você cai, eu caio. Caímos cansados. Personagens pesam, adquirem vida própria dentro de sua nova vida. Encarar o espelho e não saber mais discernir quem é você e seu personagem passa a ser torturante, porque eles chegam a se fundir, e o que era um conflito existencial passa a ser prazeroso e você quer sempre mais. Adicionar idéias novas aos seus personagens, mas acaba sendo derrotado por ele. Sua essência se perder, eu me perco no olhar dele, ainda que por fotos. Conheço sua intensidade, por isso o amo tanto.

No one knows how to say that’s they sorry. And don’t worry I am not telling lies.

Ninguém sabe como falar que está arrependido. E não se preocupe, eu não estou mentindo.

Os personagens tomam a sua vida e você sente sua consciência começa a te perturbar. Personagens demais para ela poder controlar. Trabalho demais e isso fadiga. Isso perturba, isso te mostra a face de um sentimento que você nunca vai esquecer. Disfarçar demais torna-se monótono e dependendo para quem você disfarça, se torna um arrependimento. Ninguém nunca diz que está arrependido. Não alguém como eu e, de certa forma, eu não estou. Não estou porque me realizei profissionalmente, mas me arrependo de ter deixado que ele pensasse que eu estava fugindo do nosso relacionamento.

Eu fui. Não me arrependo. Se tivesse que fazer, faria de novo. E de novo, e de novo e mais uma vez, a única coisa que eu mudaria é o fato de que ele não me quer mais. Não quer minha instabilidade ao seu lado, não quer corrigir mais os meus erros. Brendon vai me esperar. Ele não é bobo, vai esperar que eu caia de um altura maior para me aparar e dizer que está tudo bem. Brendon vai esperar eu olhar para trás e ver o quanto perdi, mas não está na hora ainda.

Brendon tem alguém. Alguém de silhueta fria. Alguém para dormir de conchinha, para suprir minha falta. Minha vez. Minha vez de provar meu próprio veneno. Engolir garganta a baixo o fato dele ter alguém com quem se preocupar, alguém diferente do Ryan Ross. Alguém que o ame do jeito que ele acha melhor ser amado, de um jeito expressivo que eu nunca vou conseguir amar. Eu sempre vou preferir a humilhação, um amor bruto, sem demonstrações. Um amor decadente, um amor meu. Meu estilo de amar que não te agrada, Urie. Eu preciso encarar os fatos sem ajuda de ninguém.

Minha ausência se torna cada dia mais cômoda. Cada dia que passar, você não vai mais sentir falta do meu timbre de voz, do meu corpo frio para aquecer. Você vai passar a amar não ser mais escarnecido, vai amar ser adorado de um jeito diferente. Já me aconteceu uma vez com uma garota. Ela aprendeu com meus erros e não me deixou me arrepender. Você aprenderá com meus erros e também não me deixará arrepender. E mais um remorso ficará guardado em meu peito.

Mas você voltaria para mim? Eu que tenho lábios de escárnio, corpo possuído por outras pessoas. Disfarces e mais disfarces. Alegorias que enfeitam minha vida. Será que eu mesmo conseguiria viver sem essa máscara? Para Brendon, eu não tenho mistério. Um olhar ele me desvenda e vice-versa. Eu não vou procurá-lo, porque é ele quem quer assim. Eu não vou procurá-lo porque meu orgulho grita por dentro; então nós vamos continuar sendo como dois irmãos brigados, precisado da intervenção de uma mãe para nos ajuntar.

Peter. Cadê você e sua persuasão agora?

FIM.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!