Before everything

7 Escolha de sobrevivência


pov Teresa

O sol alaranjado refletia nos prédios envidraçados, mas sem incomodar os olhos; deve ser pelo ângulo da luz em relação aos prédios. Girei a cabeça a fim de destoar a visão monótona no chanceler discursando. Thomas virou com a provável intenção de destoar a visão, acabando no encontro dos nossos olhares. Rimos um do outro enquanto o vento explanava meus cabelos, e voltei a prestar atenção no chanceler.

Ouvi as crianças atrás de mim se mexerem arrastando os pés na grama.

– Preciso que venha comigo — ouvi um sussurro no meu lado, virei para ver quem era pelo pequeno susto que levei.

Um homem de cabelos castanhos combinando com os olhos — me lembrou do chanceler — estava olhando diretamente para mim.

– Por quê? — Respondi quase sussurrando.

Ele observou meu coturno, o qual a calça não se encontrava por dentro.

Eu o segui desviando das pessoas no caminho, visei Thomas de longe e parei por alguns segundos na porta dupla observando-o, quando o guarda me pegou pelo braço e a parede tapou a visão.

Descemos vários degraus até chegar uma sala com três portais um em cada parede e nos dirigimos ao da direita. Logo após caminhar um longo corredor, atravessamos uma porta circular em seu final. Fui amarrada em uma barra de ferro atrás de um Berg.

– Pensei que tinha desistido. — Uma mulher exclamou para o guarda saindo da rampa da nave. — Vamos acabar com isso logo, traga as outras coisas para dentro.

Um som metálico ecoou no lugar. O guarda foi vasculhar, e em seguida a parceira dele me desamarrou e me levou direto para nave. De repente o homem gritou. Thomas e Minho estavam ali, mas fui arrastada para dentro e só deu para ver Thomas rolando no chão.

O alarme soou e consegui escutar o som da rampa se fechando. Tentei fugir enquanto ela estava na cabine, mas o guarda pulou pela rampa e me afastou da saída. Presa no dormitório, senti a plataforma elevar-se. Um tiro foi disparado e saiu faíscas da nave — não dá para ver muito da minúscula janela -, o Berg ativou os propulsores e disparou céu acima.

***

Fiquei deitada na cama distraída, eu e o barulho dos propulsores, pensando nos outros e na rotina diária que. Se eu estivesse lá agora, estaria me encaminhando para o dormitório. Não muito diferente da minha situação atual.

– Iremos pousar daqui a pouco, fique ligada. — O homem avisou apoiado na porta me tirando dos pensamentos sem fim.

O guarda se deslocou de frente à porta indo para a cabine de comando, seguidamente eu o segui esticando os músculos fracos por estar muito tempo na mesma posição.

Sentados um ao lado do outro o co-piloto (o guarda) e a piloto (a mulher), observavam fissurados o painel de vidro que contornava em forma de meia lua a sala de comando. O céu estava azul com partes alaranjadas, as nuvens refletindo a coloração celeste, só que meio arroxeada. Encostei meu rosto no painel e avistei uma cidade contornada por montanhas de barro compactado e placas de vidro cobrindo a área. O Berg descia em direção à cidade.

O chão se abriu circularmente abaixo de nós espalhando areia. A nave pousou serenamente até repousar na plataforma e ser puxada terra a baixo.

A piloto desafivelou o cinto e me levou a rampa ainda levantada, virou para mim e me instruiu.

– A senhorita vai ficar calada e vai nos seguir para qualquer lugar.

– Vocês me sequestraram para uma cidade no meio do deserto, se for uma cidade, o que eu posso fazer? — retruquei tentando irritá-la.

Ela me encarou com a raiva se acumulando dentro dela.

A rampa de aço se abriu depois que o guarda apertou um botão, devia ter sido um tipo de controle remoto. Descemo-la com meus braços presos nas mãos dos sequestradores.

A sala subterrânea era bem iluminada e construída com um ferro de cor escura. Um homem armado com um fuzil barrava a porta metálica.

– Trouxemos a mercadoria. — A mulher disse.

O homem armado olhou sério para mim, mas não de raiva, como se não tivesse sentimentos. Ele nos permitiu prosseguir o caminho, devia fazer parte do esquema. Eu realmente me arrependo por ter ameaçado o psi, mas ele iriam me raptar de qualquer modo, porque eu poderia comentar com as outras crianças e acabando chegar ao chanceler. “Chanceler” me lembrou de Minho e consequentemente em Thomas, um dia atrás eu estava vivendo normalmente com a minha rotina diária e agora estou no meio do deserto com sequestradores.

Algumas linhas brancas atravessavam o painel dividindo-o horizontalmente e verticalmente, o painel captava a luz solar transformando-a em energia que era transportada pela cidade no próprio vidro. O lugar era refrigerado, casas iguais de cor branca. A cidade era bem pequena, pela estrutura deve ser uma cidade controle. Uma cidade controle é feita para fazer estudos com pessoas infectadas, ou Cranks, e também para guardar mercadorias.

***

Nossa residência era bem simples, não externamente porque são todas iguais. Internamente, uma simples sala, cozinha e banheiro, tinham colchões que colocaria na hora de dormir na sala.

– Por que estamos em uma cidade controle? — Perguntei à mulher sentada no sofá enquanto encostava na porta da cozinha.

– O lugar está em situação estável.

– Como assim?

– A cidade vai ser evacuada daqui a dois dias, ou seja, vão usá-la para guardar recursos bélicos, e antes que você pergunte as pessoas estão limpas do Fulgor e serão encaminhadas para a cidade de sobreviventes.

– Então vamos embora quando?

– Amanhã de manhã — o guarda se introduziu na conversa — melhor dormimos cedo.

***

A noite foi interrompida pelos movimentos brutos dos sequestradores e a conversa no rádio.

– Estou espalhando pelo resto da cidade! — uma voz masculina gritou no outro lado da linha.

O quê? Mas está espalhando o que?

– Vamos. — A mulher gritou e me puxou pelo braço.

A cidade estava vazia, vários meteoritos brancos atravessavam o painel para um só lado.

– O quê está acontecendo? — Perguntei gritando.

– Vamos explodir a cidade. — A mulher respondeu do mesmo jeito.

– Te encontraram. — O guarda completou.

Demos passos largos até chegar à sala do Berg. A rampa começou a se abrir lentamente.

Vieram para me resgatar, é minha chance de fugir. Deve ter alguma porta de emergência lá para fora. Vasculhei o lugar com os olhos. Achei um botão vermelho ao lado de uma porta de aço, tinha que ser.

Contornei a nave correndo e me joguei em cima do botão, a porta se abriu com um lance de vento e areia. Acenei para o céu estrelado procurando por um Berg. A porta se abriu novamente, eu precisava fugir dali, não podia correr no deserto. Eu iria cansar rápido e ele é muito mais veloz do que eu. Escalei a montanha de barro.

O Berg de resgate estava vindo em minha direção, de repente outra nave surgiu atrás de mim e com certeza não era para me salvar.

“Creck”

O guarda me alcançou escalando o barro. Andei rapidamente me equilibrando bem no meio fio, se eu cair para um lado eu rolo até o chão e o no outro o painel. Ele estava quase me pegando no ombro.

A nave de resgate parou na minha frente com a rampa aberta e três atiradores parados nela, atrás o guarda e outra nave querendo me sequestrar. Estou praticamente dividida em dois, só se eu quiser que me raptem de volta. Tentei correr mas uma mão segurou meu ombro fazendo-me desequilibrar e cair.

O guarda pulou em cima de mim, mas o tiro fez um buraco enorme no abdômen enquanto caía. O sangue respingou em mim e o corpo desabou logo ao meu lado. Levantei paralisada, corri atravessando a cidade no vidro — literalmente estava andando em cima da cidade -, o painel tremeu com uma explosão, praticamente um terço dele desabou cidade à baixo.

Agora estou dividida em três partes, a primeira: eu deixo me sequestrarem correndo em direção ao Berg na minha frente, segunda: corro para trás na nave de resgate com o risco de o vidro desabar pois está bem afastada, e terceira: eu caio em queda livre e sou cortada em vidro até morrer quando chegar no chão. Minha vida está em jogo, não dá tempo para me resgatar, já que é minha vida, preciso preservá-la. Outra explosão, o vidro tremeu desabando mais do que a metade, ou eu corro agora, ou morro. Tentei correr, mas o chão envidraçado se quebrou me fazendo cair em queda livre, segurei na borda, a pressão fez pequenos cortes na divisão dos dedos à palma da mão. O vidro começou a rachar, cada vez mais que eu levantava o corte se aprofundava.

Fiquei em pé e corri em direção ao Berg na minha frente, quanto mais me movia, mais o vidro se rachava.

10 metros.

O penhasco.

Isso não é hora de lembranças. Me impulsionei e agarrei na ponta da rampa da nave. Dormência nos dedos, o ferro se encaixou bem nos cortes. Abaixo de mim tudo desabou junto com uma bola de fogo, senti o ar quente, só não fui queimada porque o Berg se afastou suficiente da área.

A rampa se fechou. Foi minha escolha de sobrevivência, é melhor do que morrer cheia de vidros dentro do meu organismo e depois ser evaporada.

A nave deu uma recaída à caminho do dormitório, bati a cabeça no teto e voltei ao chão, senti a inclinação da nave, olhei para o medidor de altitude da cabine do piloto. A nave estava caindo.

Já comecei a me arrepender da minha escolha de sobrevivência, porque agora parece uma escolha mortal. Eu corri para a nave que me sequestrou pensando que não dar tempo de me resgatarem, e neste exato momento estou quase virando pó, se eu desmoronasse cidade a baixo seria a mesma coisa no final, eu iria evaporar.

“Boom”

Uma explosão ocorreu perto do Berg. Corri para a cabine de comando, cruzei o cinto de segurança e o tranquei.

– A nave está sobre controle, mas temos que tomar cuidado... — Ela foi interrompida por um impacto na nave. Se não usássemos o cinto iríamos atravessar o painel.

Toda lateral do vidro estava com labaredas de fogo, e havia só uma fresta que só mostrava terra e areia. Só faltavam alguns segundos para o impacto letal. Esvaziei a mente. 3 segundos. Se essa for a minha morte não vou pensar em nada, aliás, não iria fazer diferença. 2 segundos. Chegou a minha hora. 1 segundo. A vida é feita de escolhas, e essa foi a minha.

Flutuei como se não existisse espaço-tempo, a escuridão entrando em mim e levando consigo todas as minhas lembranças. Minha mente está vazia por completo. De repente a minha única lembranças era do vento, e do pôr do sol refletindo nos meus olhos.