Before You Go
1 Dia 1 – por ele
Notas iniciais
Havia algo que eu poderia ter dito
Para fazer seu coração bater melhor?
Se ao menos eu te conhecesse, eu teria lidado com o problema.
Então, antes que você vá
Havia algo que eu poderia ter dito
Para fazer tudo parar de doer?
Me mata como sua mente pode fazer você se sentir sem valor
Então, antes que você vá
Dia 1 – por ele
terça feira, três de março de 2024
O mundo é preto e branco.
Tudo é sem cor e igual. Não que eu ache ruim, sou um cara preto e branco também, mais do que gosto de admitir. Nunca estive em um relacionamento de verdade em todos meus vinte e sete anos de vida e nem acho sexo tão bom quanto fazem parecer, quer dizer, é extremamente excitante antes e durante, mas é impossível evitar a sensação da perdição animalesca que me envolve após chegar ao ápice do prazer.
Enquanto ando pela rua oitenta e sete da minha cidadezinha isolada no Texas, observo folhas mortas caídas no chão molhado, sinto pingos finos de água caindo por meu corpo, sempre gosto de andar por aí em dias frios e me sentir congelar, pode parecer sombrio mas identifico-me com a natureza em seus dias pálidos.
Destruindo qualquer senso do comum, observo um carro colorido de sorvete passando devagar pela estrada, tocando uma música infantil que propaga os diversos sabores do alimento, por um minuto questionei-me o quão mais pirado que eu esse homem deve ser para sair por aí vendendo sorvete em um dia como esse.
Tal pensando força-me a observar o homem dentro do carro e noto que é tão apagado quanto eu, barba grisalha por fazer, roupas pretas e com aquele olhar de “que-porra-estou-fazendo-aqui?” é o olhar que carrego desde o dia que aprendi a falar, o automóvel passa rápido e logo volto minha atenção para a estrada em frente.
“Relacionamentos vão e vem, amigos são para sempre” é o que minha tia sempre disse ao tentar me encaixar em algum grupinho com outras pessoas, mas pra ser sincero, até mesmo a ideia de ter amigos, me parece um grito de desespero das pessoas fragilizadas que, na verdade, só estão morrendo de medo de terminar seus dias sozinhos nesse mundo assustador. E se eu puder ser sincero: a possibilidade de morrer sozinho nunca foi algo que me assustou. Estou só desde que meus pais morreram. Além do mais, quem inventou isso de amigos serem para sempre é um imbecil, o filho da puta do Tom Finch foi a maior decepção da minha infância. Pessoas não são para sempre, sequer nós somos constantes, quem dirá nosso arredor.
Por isso não fiquei arrasado ao descobrir que tenho câncer terminal e apenas mais dois meses de vida. Quer dizer, não há mais nada que eu almeje nessa terra, já li livros o suficiente para saber que nosso mundo não é nada parecido com a utopia que a ficção nos apresenta.
Fique calmo, não sou um desgraçado infeliz, só não vejo diferença entre sentir ou não sentir. Ser ou não ser. Estou aqui, até que um dia não esteja mais. Espero que minha próxima vida faça mais sentido.
Parei de andar quando finalmente fitei um café, parecia o tipo de lugar que eu gosto: várias mesas, com bancos acolchoados vermelhos e a melhor parte: grande demais pra alguém se atrever a sentar do meu lado.
Assim que entrei pelo local senti o cheiro de bebida quente, o frio congelante me abandonou. As janelas eram vidros enormes, dando a vista perfeita ao lado de fora, onde tinha uma linha de metrô, com pessoas transitando constantemente, ideal para fazer o que mais gosto: observar e desenhar.
Não sou um artista, porém sinto-me bem desenhando as pessoas e criando para elas uma vida mais interessante do que provavelmente elas possuem.
Estou sentado naquele banco gelado, observando aquele vidro enorme, procurando alguém para que pudesse pintar. E é nesse momento, que os deuses parecem querer me presentear, diante dos meus olhos está moça mais linda que já tive a sorte de observar, prendo o ar por alguns instantes, sentindo-me um imbecil, mas é inevitável se encantar por alguém que exala tanta energia dessa forma.
A moça dos meus sonhos está sentada em um banco pequeno na calçada, perto do mesmo café que estou, a diferença entre nós é que ela não observa as pessoas, ela é observada. Ela possui um violão nas mãos e começando a cantar aquela música que conheço muito bem: “before you go”, é como uma visão dos céus, não consegui parar de ouvi-la cantar, sua voz é angelical, nunca vi alguém cantar com tanta emoção, sinto uma espécie de adrenalina passar por meu corpo, uma vontade de correr até ela e puxá-la para dançar e sair correndo por aí ao seu lado, sentindo para sempre esse êxtase, não sou do tipo que se encanta por alguém, mas algo em sua vontade de viver despertou em mim o medo de morrer.
Quando consigo desviar minimante o olhar de seus lábios que cantavam em alto e bom som, noto que não sou o único a observá-la, algumas pessoas estão paradas ao seu redor ouvindo-a cantar, algumas até deixam algum dinheiro no chapéu que está ao seu lado direito, no chão. Ela canta o refrão com sua alma e outra vez sinto vontade de pular. Meus olhos estão brilhando, eu sinto isso. Estou feliz, estou realmente sentindo a euforia da felicidade, senti isso poucas vezes, mas sei reconhecê-la.
Quando ela termina a canção, abre os olhos devagar com os lábios entre abertos e quando as pessoas aplaudem, ela solta o sorriso mais real e lindo que já vi. De repente, suas bochechas coram, esteve tão entregue a sua canção que sequer notou ser observada por tantos desconhecidos. Coloca uma mecha do seu cabelo para trás da orelha, e nesse momento alguns poucos raios de sol surgem iluminando seu cabelo castanho acobreado que voa para trás livremente.
— Está apaixonado? – alguém solta, sentando-se em minha frente repentinamente.
— Eu só... – não consigo achar as palavras, fui pego de surpresa encarando alguém. O que isso me faz parecer? – não sou um psicopata – defendi-me e a mulher loura em minha frente gargalhou, de forma exagerada, jogando o corpo para trás, fazendo com que eu me sentisse hilário, ou apenas patético.
— Está tudo bem, eu só estou brincando, não é crime observar alguém cantando em público.
— E que alguém. – completei, voltando a fitar a moça dos meus sonhos que cantava outra música a essa altura.
— O nome dela é Amy Anders – contou-me como se fosse um segredo – mas se eu fosse você, não tentaria nada.
— Definitivamente não, ela é areia demais para o pequeno caminhão que sou – a loura voltou a rir, talvez tenha realmente algo engraçado em minha dura realidade.
— Meu nome é Jess, trabalho aqui no bar. Como nunca te vi antes, bem-vindo.
— Ah... obrigado – soltei, tímido. Entrei aqui por pensar que seria o tipo de lugar que ninguém se apresentaria a mim, ou sequer notasse minha presença, mas aparentemente as pessoas são receptíveis.
— Qual seu nome? – indagou, como se estivesse esperando a algum tempo que eu dissesse.
— James... James Milton – gaguejei, como se de repente tivesse esquecido esse detalhe tão básico, fazendo-a rir outra vez.
— Meu turno acabou por hoje, espero vê-lo outra vez – ela disse, levantando-se, apenas balancei a cabeça e sorri da forma mais amigável que sei e então ela saiu pela porta.
Quando voltei a fitar o grande vidro, notei que Jess parou ao lado da adorável cantora, que agora sei que tem o nome de Amy Anders.
Jess olhou em minha direção e sussurrou algo no ouvido de Amy, e mesmo sem fazer ideia do que fosse, consegui imaginar algo como: “tem um cara muito esquisito que não para de encarar você ali dentro”, e provavelmente, foi mesmo algo do gênero, pois Amy olhou com seus olhos grandes e verdes em minha direção, deus não, cobri meu rosto com o livro por alguns segundos.
Não me veja assim, não me veja sem estar no meu melhor momento, por que você só merece o melhor. Quando coloquei apenas um olho pra fora do livro, notei você gargalhar enquanto abaixava a cabeça de modo bobo. Voltei a esconder-me atrás do livro e senti meus lábios se repuxarem instintivamente em um sorriso.
Eu não me importo de ser o cara esquisito apaixonado que se esconde atrás de livros por não querer que você repare nele, se isso for fazer você sorrir, eu não me importo. Ria desse completo perdedor apaixonado por você.
Um raio colore o céu, fazendo-me notar que devo ir embora antes que comece uma tempestade. Já são seis da tarde, começo a trabalhar as sete.
Eu ainda não sei por que continuo indo todas as noites para o meu trabalho ruim e que recebo mal, quando meu chefe soube que tenho câncer e preciso de um coração novo urgente para sobreviver mais de dois meses, ele até disse com lágrimas nos olhos: “não precisa mais vir trabalhar, aproveite sua vida. Eu continuarei depositando seu salário” mas a verdade é que não quero passar meus últimos dois meses de vida como um coitado que não trabalha, nem uma vida para curtir eu tenho.
Observo-a pela última vez, eu provavelmente voltarei para lhe ver cantar outra vez.
Entretanto, não é hoje que você saberá meu nome, Amy Anders.
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