Before The Sunrise
15 Um Único Vestígio
Notas iniciais
15. Um Único Vestígio
Brian
Abri os olhos.
De repente o mundo parecia muito... calmo. Anormal. Misterioso.
Irreal.
Eu olhei em volta do conhecido quarto, piscando várias vezes como se quisesse me certificar de que aquilo não era um sonho. Como podia ser que minha vida estivesse subitamente como sempre foi, depois daquela noite? Como eu podia estar acordando em meu quarto como se nada tivesse acontecido?
Encarei o relógio ao lado da cama. 7h da manhã. Eu não havia dormido nem uma hora.
Claro que eu estava morto de sono e cansaço, mas sempre tinha esse instinto natural e meio perturbado que me fazia acordar todos os dias às 7 da manhã, não importava quanto tempo eu tivesse dormido. Pode me chamar de esquisito se quiser, mas isso tinha um lado bom: eu não precisava nem de despertador para acordar em dias de escola. Nos finais de semana, era só dormir novamente.
Levantei-me, jogando o cobertor vermelho para o lado e corri até o armário. Abri-o com um gesto abrupto e logo a vi: a roupa do aniversário de Stella.
Impecável. Tudo bem que o smoking estava meio amassado e com cheiro de usado, mas era só. A camisa branca, os sapatos, as meias, a gravata borboleta... estava tudo lá. E aonde mais deveriam estar? Eu me lembrava de ter saído de Orazón com tudo, mas o problema era que também me lembrava de ter largado boa parte das roupas na caverna pela qual tínhamos entrado naquele mundo sinistro. Então a pergunta não-respondida era: Como tudo isso era possível?
Até onde eu estaria distinguindo a fantasia da realidade? O que tinha mesmo acontecido e o que não tinha? O que era real e o que não era? Poderia todo o reino de Orazón ter sido uma alucinação coletiva vivida por mim, Lizzie, Catherine e Aiden?
Engoli em seco. E se eu só estou ficando louco?
E se não aconteceu nada ontem à noite? Se foi só um pesadelo e eu... dormi mais do que penso ter dormido?
Senti despencar de joelhos no chão, balançando violentamente a cabeça para os lados para afastar os pensamentos.
– BRIAN! Venha tomar café! – ouvi de repente minha mãe gritar da cozinha.
Rapidamente me recompus. Resolvi olhar-me no espelho só para conferir se não estava muito perturbado.
Caminhei até o banheiro e arregalei os olhos para meu reflexo.
Lá estavam elas. Duas olheiras enormes abaixo de meus olhos, provando que eu só tinha dormido exatamente o que pensava ter dormido. Inevitavelmente, gemi de alívio. Ao menos, a opção de que eu estava maluco agora parecia fora de cogitação.
Passei a mão por meu rosto e logo outra coisa me intrigou.
Abaixei minha mão e virei a palma para cima. Era... era impressão minha ou minha mão estava mais macia do que era antes?
E então me lembrei que tinha usado as mãos em concha para pegar água da fonte no palácio.
Sentindo-me bastante alerta, passei os dedos por meus lábios e arqueei as sobrancelhas para mim mesmo. Também estavam incrivelmente macios. Receoso, abri a boca e quase soltei um gritinho ridículo de pavor.
Eu podia jurar que minha boca por dentro nunca estivera tão bem. Tá, é agora que você pergunta: “MAS COMO ASSIM, seu louco?”. Só que... é difícil de explicar. Certeza absoluta que minha língua não era tão vermelha. Ela outrora tivera aquela película meio branca e asquerosa por cima, em algumas partes... Mas agora eu não via mais traços da branquidão. Ela estava limpinha e vermelhinha.
E minha garganta? Depois da festa de Stella, eu tinha sentido ela começar a ficar meio ruim, o que significava que deveria estar irritada. Mas agora estava ótima e com uma aparência pra lá de saudável!
E foi aí que me ocorreu: cara, se toda a água de Orazón fosse como aquela, isso significava que eles não só bebiam, mas escovavam os dentes e tomavam banho com aquela água embelezadora...
Uh. Acho que de repente entendi por que eles são tão bonitos.
Eu devia voltar lá qualquer dia para pegar mais!
– BRIAN!
– Já vou! – gritei em resposta para minha mãe.
Abri a porta do quarto com um sorriso no rosto, feliz por 1) ter descoberto que eu não era louco; 2) finalmente ter encontrado uma “prova” de que eu estive mesmo em Orazón. Tá, era uma prova muito da mixuruca na qual ninguém ia acreditar, mas eu acreditava e, para mim, isso era suficiente.
Caminhei pelo corredor e fiz algumas dobras para chegar até a cozinha do apartamento em que vivia com minha mãe. Kate Harris estava perto do fogão, fritando um ovo, e eu me vi impressionado como as coisas na minha casa podiam mudar em 40 minutos. Foi esse o tempo em que eu cheguei em casa, caminhei pé ante pé até meu quarto, desmaiei pesadamente sobre a cama, minha mãe acordou e agora estava preparando o café.
Quando ela me viu, soltou uma exclamação de surpresa.
– Minha nossa, Brian! Que cara horrível! Quanto tempo você dormiu? – disse ela, rapidamente desligando o fogão e correndo em minha direção.
– E-eu... – não consegui terminar. Fiquei embasbacado por ela ter se agachado perto de mim, pegado meu rosto cuidadosamente entre suas mãos e estar analisando minhas olheiras.
Demonstrando preocupação. Algo que já não esperava dela há muito tempo.
Ela bufou.
– Posso saber que horas você voltou da festa da Stella?
Suspirei. Eu nunca fui bom em mentir, então resolvi dizer a verdade e ficar encrencado de uma vez.
– Às 6h10 da manhã.
Minha mãe arqueou uma sobrancelha, abismada.
– Como assim? Você nunca foi de chegar tarde das festas em casa!
– Eu sei, mas... – senti meu rosto esquentar. Eu tinha uma maldita facilidade de ficar corado. Por muitas coisas além de vergonha: medo, adrenalina, emoção...
Por incrível que pareça, nesse momento prevalecia a emoção.
– A festa estava tão boa assim?
Fiz que sim com a cabeça. Não era tecnicamente mentira. Foi a melhor festa de Stella pra qual eu já fui. Me diverti bastante com Catherine e Lizzie na pista de dança. Quem diria?
Kate suspirou.
– Está virando rebelde agora, Brian Harris, é isso?
Eu sorri para ela.
– Vou querer cometer mais atos de rebeldia como esse agora, se for para a senhora ficar sempre tão preocupada assim comigo!
Silêncio. Minha mãe deixou a cabeça no mesmo nível da minha, e nós nos encaramos por um longo tempo. Foi difícil ficar fitando seus olhos azuis. Eu os observava um tanto arrependido enquanto eles mudavam; mil sentimentos passaram por eles naqueles quietos minutos: surpresa, arrependimento, compreensão... e dor.
Até que ela finalmente piscou.
– Eu... eu sinto muito. – Seus olhos rapidamente se encheram de lágrimas e eu a abracei. – Oh, Brian! Eu sei que tenho sido uma péssima mãe... – ela agora chorava descontroladamente. – Por favor, me perdoe! Eu... nós... seu pai e eu... devíamos ter sido mais compreensivos. Devíamos ter aceitado sua... – ela não conseguiu terminar.
Agora até eu estava chorando, mas consegui rir em meio às lágrimas.
– Mãe. – Eu a soltei por um segundo para poder encará-la. – Não é bem assim, por favor, acontece que vocês nunca me deixaram explicar. Eu... eu não sei se sou gay. É verdade que os indícios são muitos, mas... – eu limpei a garganta, desconfortável. – Eu a perdoo. Mas quero sua palavra de que a partir de agora, não importa o que eu faça ou escolha, você entenderá e será sempre minha mãe.
Ela enxugou os olhos e respirou fundo algumas vezes. O suficiente para se recuperar e sorrir para mim.
– Obrigada, filho. Tem minha palavra. E eu amo você – ela me puxou para outro abraço. – Desculpe-me mais uma vez. Por tê-lo feito acreditar por tanto tempo que eu não ligava para o que você fazia ou deixava de fazer.
Eu senti minhas lágrimas voltarem.
– Foi exatamente isso o que eu senti.
– Não, Brian. Não acredite nisso nem por um segundo – ela agora murmurava. – Eu te amo.
Mordi o lábio, mas não adiantou. Comecei a rir. Ela me soltou e me encarou perplexa, mas assim que eu dei uma risada muito engraçada de sua expressão, ela riu comigo.
– Mocinho – Kate tornou numa voz doce e brincalhona, puxando minha orelha –, você foi muito levado. – E soltou-a. – Mas é obvio que está morrendo de sono e eu acho que te devo uma. Então, o que acha de faltar aula hoje e voltar a dormir? Depois, à tarde, podemos sair e ir ao cinema assistir àquele filme que você queria...
– Espera aí – interrompi. – Tá falando sério? – eu simplesmente não acreditava que aquela sujeita parada na minha frente era mesmo minha mãe. – CLARO QUE QUERO!
Ela sorriu para mim. E eu senti, pela primeira vez em muito tempo, que as coisas com minha família iam finalmente melhorar.
Infelizmente, antes que eu pudesse ficar muito feliz, a imagem de Glynda, Norwick, Yliane e aquele último sombrio loiro que Catherine apelidou de Mack cruzaram minha mente...
Glynda era bonita. Muito, na verdade. Estremeci, pensando o quão pirado e retardadamente agi perto dela. Depois de gritar “Que seja! Vai condenar à morte pessoas como você? Que você compreende?” evitei totalmente olhar para a princesa, com medo de ela estar semicerrando os olhos para mim com uma expressão do tipo “nossa, como você é otário”.
Já Yliane era uma esnobe de personalidade completamente insuportável, e Norwick era um idiota. Um idiota poderoso e perigoso, disso não tenho dúvidas, o que só me fazia ter mais medo dele. Mack foi legal conosco, mas sei que só nos libertou porque tacamos seu ponto fraco: a vontade de não ter perdido a família. E ele me dava medo também, porque de certa forma não sabíamos até onde ele era bom... ou confiável.
Ora, que inferno.
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