Beber, lutar, navegar
5 Londres
Notas iniciais
Mal podia acreditar que finalmente sua viagem havia chego ao fim, na verdade o mais surpreendente fora que o restante de sua viagem ocorrera sem problema algum, e em cerca de dois meses estavam aportando em Londres.
Ele havia visitando a cidade apenas uma vez, durante a sua infância, mas não deixava de se surpreender com a beleza do local ao vê-lo novamente. O cais estava abarrotado de pessoas embarcando e desembarcando mercadorias, especialmente chás e especiarias. Por um momento achou que teria dificuldades em prosseguir viagem, mas ele logo conseguiu encontrar uma embarcação de menor porte que o deixaria em Cambridge antes do cair da noite.
Ele estava se preparando para pegar as malas quando ouviu o som de uma arma sendo engatilhada próximo de si, e logo sentiu algo frio e metálico em sua nuca. Primeiro sentiu medo, caramba alguém estava lhe apontando uma arma! Sentiu o coração acelerar no peito e as mãos ficarem subitamente frias, enquanto sua mente trabalhava rapidamente numa tentativa de tirá-lo daquela situação.
– Seja bonzinho e passe tudo de valioso que tiver ou eu estouro seus miolos. — disse uma voz masculina atrás de si, jovem, no entanto com um forte sotaque estrangeiro que ele não reconhecia. O medo logo foi substituído pela raiva, enquanto ele girava o corpo e acertava uma cotovelada no braço que segurava a pistola, que caiu no chão num baque surdo, antes dele empurrar o homem para trás.
– Isso não teve graça, Scotty! — disse Stiles irritado, passando as mãos pelos cabelos, bagunçando os mesmos. — Que susto, eu achei que estivesse mesmo sendo assaltado! Depois dessa viagem...
O outro rapaz era alto, apenas alguns centímetros maior que Stiles. Vestia o uniforme vermelho e branco da Real Marinha Britânica, tinha os cabelos escuros, o queixo levemente torto de algumas brigas de quando eram crianças.
– Aconteceu algo na viagem que te traumatizou? — indagou Scott ficando subitamente sério, enquanto pegava a arma caída no chão. No entanto, ele não insistiu na pergunta, tinha de admitir que haviam outras prioridades. — Venha, vamos comer algo e você me conta o que veio fazer em Londres, nem acreditei quando te vi. — disse já pegando uma das malas do rapaz com facilidade.
E logo eles estavam em uma taverna, era um lugar com a fachada suja, mas consideravelmente limpo e organizado dentro. Haviam alguns marinheiros que reconheceram e cumprimentaram Scott, eles logo pegaram uma mesa e uma jovem mulher de cabelos negros veio atendê-los.
– O que posso fazer por você e seu amigo hoje, sr. McCall? — indagou sorrindo, enquanto limpava a mesa. Ela parecia gentil, mas Stiles reconhecia que ela tinha um olhar rígido e duro, alguém que certamente não abaixaria a cabeça a qualquer homem.
– Dois pratos do dia, um suco pro meu irmão e uma cerveja pra mim. — pediu sorrindo galante e dando uma piscada, mas logo ele se interrompeu ao ver um homem entrando no estabelecimento. — Er... Apenas isso Alisson, obrigado. — e baixou a cabeça ao ver a garota se retirar e ir abraçar o homem que chegara.
– Eu sei que detesto cerveja, mas não precisava pedir por mim, que patético. — reclamou Stiles revirando os olhos e vendo a garota acompanhando o homem para dentro, pôde captar um "pai" no diálogo, e não conteve a risada. — Nossa! Tem tanto medo do pai da garota assim?
– Ele é da marinha mercante agora, mas foi almirante anos atrás... — murmurou antes de balançar a cabeça, sentindo um calafrio. — Matou mais piratas do que muitos dos meus oficiais superiores. — sorriu de leve para amenizar o clima. — Mas enfim, diga, o que te trouxe a Londres? Finalmente o pai deixou vir me fazer companhia?
Stiles desviou o olhar, e subitamente agradeceu ao ver Alisson voltar servindo as bebidas a ambos, assim como pão. Aquilo lhe deu tempo para respirar e recompor a sua expressão, não queria causar uma discussão entre o pai e o irmão, que sempre se deram tão bem.
– Eu fui aprovado na Universidade de Cambridge, decidi virar médico. — disse dando de ombros, como se não ligasse, mas Scott o conhecia o suficiente. Olhar inquisidor que recebeu era o suficiente para o fazer pensar em algo que convencesse o McCall que queria mesmo aquilo. — Eu não sobreviveria no mar, essa viagem comprovou isso, quase fui morto por piratas. — Scott abriu a boca surpreso, pronto para discutir, mas Stiles o silenciou com a mão. — Eu quero ser médico, talvez eu possa ajudar para que mais pessoas não morram como minha mãe, ou como a sua. — sussurrou, aquilo fora golpe baixo, ele sabia.
Scott ficou quieto e apenas bebericou da sua cerveja e comeu um pedaço de pão, observando de relance Alisson andando entre as mesas servindo algumas pessoas. Lembrar da mãe sempre fora doloroso, ela morrera, assim como a mãe de Stiles, de tuberculose quando ele tinha seus 16 anos, e aquilo fora um baque tanto para o rapaz, quanto fora para Stiles e John.
– Faça o seu melhor então, Stiles. — disse por fim, com a voz rouca. Dois pratos com purê de batata, ervilhas e carne ao molho. — Mas então, você ainda não me contou sobre esses tais piratas que te atacaram.
E aquilo iniciou uma longa narrativa sobre o que havia acontecido no navio, sobre como conhecera a temida tripulação que seguia Derek Hale. Evidente que ele deixou muitos detalhes de fora, dissera que fora nocauteado e deixado no convés depois de tentar os enfrentar.
– Tem sorte de estar vivo, idiota. — disse revirando os olhos e comendo tranquilamente, antes de suspirar. — Se cuide está bem? Lá você estará sozinho.
– Não se preocupe Scotty, posso assustar algum lobo mal que apareça. — brincou comendo, o que estava muito bom, diga-se de passagem. Ele deveria ter uma mente doente, pois por um momento imaginou Derek sendo um lobo mal.
– Acho mais fácil o lobo mal te comer. — riu Scott, mas parou e encarou surpreso Stiles ficar muito vermelho e engasgar-se com as ervilhas.
Infelizmente Stiles tinha uma imaginação muito fértil, e naquele momento aquilo se provara ser uma imensa desvantagem.
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