Beautifully Grotesque
18 Incertezas
Incertezas
Greyback apenas permaneceu calado, dando a certeza para Ginny de que ele sempre soubera daquela preciosa informação. Ela praticamente rosnou, jogando novamente um vaso nele. Ele desviou-se do objeto com facilidade daquela vez, voltando a olhá-la e olhando para o quarto para ver se havia mais objetos a serem arremessados.
– Por que não me disse?
Ela praticamente gritou. Com aquilo, ele perdeu a paciência. Aproximou-se dela e a olhou com atenção e hostilidade.
– Não havia provas concretas de que sua família estava viva. Há pouco tempo sabemos disso. Os corpos da família Weasley não foram achados! – ele gritou. – Era um palpite. Mas agora há indícios mais fortes de que sua família esteja no meio da rebelião.
Ele disse, sem pensar. Se ela sabia que a família estava viva, provavelmente saberia que uma rebelião estava se formando lá fora. Ela o olhou com atenção, mas depois o seu rosto foi percorrido por um sorriso contido, mas satisfeito.
– Nós não iremos desistir. – ela falou.
Ele a olhou por breves segundos, pensando no que realmente aquela garota estava fazendo ali, gritando com ele como se tivesse direito a tal. Ele se aproximou novamente. Ela não se afastou.
– Quer saber de algo mais? – ele perguntou. – Eu não tinha obrigação nenhuma em contar isso para você, sua fedelha. E se depender de mim, eu vou matar cada Weasley que estiver vivo, acabando de vez com essa merda de rebelião! – gritou.
Aquilo a acertou como um soco físico. Antes que ela pudesse refrear as reações do seu corpo, sentiu as lágrimas se acumularem nos olhos e riscarem seu rosto em uma velocidade absurda. Mordeu o lábio inferior e aproximou-se dele, terminando com a distância entre os dois.
Ele se surpreendeu com os socos que ela começou a dar em seu peito. Não sentia quase nada. A tentativa dela de fazer com que ele sentisse dor era patética. Mas ela parecia tão furiosa e determinada em continuar com aquilo, que ele precisou afastá-la bruscamente. Ela o olhou em fúria, dando um último soco no peito largo dele, pela primeira vez não se importando se ele revidaria a violência. Era pela sua família que estava fazendo aquilo.
– Toque um dedo seu em alguém da minha família e eu te mato! – ela gritou. – Eu juro que te mato! – voltou a dar socos no peito dele, dessa vez com mais fúria. – E você me perderá para sempre! Nem que para isso eu precise contrariar uma merda de profecia!
Quando Fenrir escutou a última frase, algo estranho percorreu seu corpo. Pela primeira vez ele pareceu ser atingido pelo soco dela. Ficou imóvel por breves segundos, depois olhou para ela, que ainda batia no peito dele.
– Como você sabe da profecia? – ele perguntou.
Ginny continuou batendo no peito dele, fazendo com que ele perdesse a paciência e pegasse o braço dela de forma violenta. Ele a puxou para ele, dessa vez arrancando a atenção da garota, que se assustou com o gesto súbito.
– COMO VOCÊ SABE DESSA PROFECIA?
Ginny respirou fundo, devolvendo o olhar hostil dele na mesma proporção.
– Snape me contou. – mentiu.
Não podia sequer imaginar o que Snape faria com Hermione quando descobrisse que a garota havia contado tudo a ela, mas sabia que, se Greyback soubesse, o castigo seria pior. Ele a largou, andando de um lado para o outro e parecendo nervoso e ansioso pela primeira vez desde que entrara no quarto. Ginny respirou fundo.
– A profecia fala que temos que ficar juntos para sempre, Greyback.
– Para sempre é tempo demais. – ele pautou.
Ela ficou magoada com o que ele disse. E não conseguiu ocultar isso da expressão em seu rosto. Seu corpo voltou a se encolher e ela logo parecia triste. Fenrir percebeu isso com facilidade.
– O que foi agora? – perguntou, impaciente.
E depois percebeu tarde demais que os olhos dela estavam com aquele brilho estranho, indicando que ela estava chorando. Ele odiava vê-la assim, por mais que não quisesse admitir a si mesmo. Sentia que o seu lado animal ficava ferido, e aquela sensação era inédita demais para que ele a aceitasse com facilidade.
– A nossa ligação é baseada em uma merda de companheirismo e em uma merda de profecia que não podemos mudar. – ela disse, sentando-se em uma poltrona que estava ali perto. — Estamos ligados por razões que estão além de nosso alcance. É como se alguém estivesse brincando com a gente, com nossos destinos, e não podemos fazer nada.
Ela tombou a cabeça ali, de repente parecendo cansada. Fenrir continuou a observá-la, sem dizer nada.
– É ridículo. – ela concluiu.
E foi aí que começou. O rosto dela tornou-se estranhamente pálido e os olhos perderam o foco, como se ela tivesse se desligado do mundo e entrado em outra sintonia. Fenrir sentiu-se inquieto com isso também. Conhecia aquela expressão do rosto dela, e não gostava nem um pouco daquilo.
Ele apenas a esperou, olhando-a com atenção e interiormente querendo que ela reagisse, saísse daquela poltrona e falasse algo. Mas ela não o fez. A apatia havia retornado por um breve momento, e ele sentiu-se estranhamente desesperado com aquilo. Aproximou-se da poltrona, agachando-se ao lado dela e a olhando com atenção. Ginny não percebeu a presença dele de imediato, seus olhos estavam focados nas chamas da lareira. Ela estava chorando.
– Espero que minha família viva. E que todos os Comensais da Morte morram. – disse, olhando-o logo depois. — Inclusive você. Eu sou ligada a você. Mas acabo de perceber que te odeio. Quero você morto. Nem que para isso eu precise morrer junto.
[...]
Horas haviam se passado. Fenrir estava no próprio quarto, sentado na poltrona e olhando as chamas da lareira enquanto fumava um charuto, algo que ele não fazia há anos. Era um antigo hobby seu, fumar um charuto quando chegava em casa. Mas o abandonara. Há anos o seu interesse era apenas ser cruel, perseguir crianças e morder o máximo delas para passar a licantropia.
Aquilo havia mudado.
O charuto que antes era um hobby estava longe de proporcionar prazer a ele naquele momento. Seu objetivo de disseminar a licantropia pelo mundo bruxo estava passando para segundo plano. Nada daquilo lhe dava mais prazer.
Sua única fonte de prazer naquele momento era aquela criatura que estava trancada no próprio quarto, em silêncio absoluto, desde que dissera a ele o quanto o odiava e queria vê-lo morto.
Tinha que admitir a si mesmo, pensara bastante no que aquela ruiva havia lhe dito. Estava fumando apenas para tentar se distrair dos pensamentos e perguntas que insistiam em invadir a sua mente. Ela o queria morto mesmo sabendo da ligação que eles compartilhavam? E por que ela o queria morto, especificamente? Por que ele lhe dissera que ia matar a família dela ou por outros motivos além?
Por que ele lutava ao lado do Lorde das Trevas?
Aquela pergunta o inquietava em demasia. Pois pela primeira vez havia a feito a si mesmo, e não sabia responder. Anos atrás, teria a certeza de que valia a pena seguir um bruxo que lhe pagava na moeda que ele mais apreciava: vingança e crueldade. Ele lhe dava crianças para que Fenrir conseguisse passar a licantropia para o máximo de pessoas que sua boca conseguisse alcançar. Desejava carne, e o Lorde das Trevas proporcionava isso a ele.
Mas era o suficiente?
Levantou-se da poltrona, apagando o charuto ainda pela metade e andando de um lado para o outro do quarto.
Não queria admitir, mas odiava a repulsa que ela estava sentindo dele. Já havia a sentido em vários momentos, mas não naquela intensidade. Odiava saber que ela o queria morto junto com os Comensais da Morte. Detestara ouvir que ela o odiava.
Antes, brincar com os sentimentos dela era no mínimo divertido. Vê-la se sentir inquieta e até mesmo confusa com a repulsa e a atração tornara-se um passatempo para ele. Mas aquilo também havia mudado.
Algumas horas haviam se passado desde que a deixara naquele castelo e fora para a maldita reunião, mas Fenrir já podia dizer com convicção de que já sentia falta do corpo dela. Já sentia falta de escutar a voz dela retumbando por aquelas paredes frias, como se fosse uma poção de vivacidade derramada sobre aquelas pedras mortas. Sentia até mesmo falta de vê-la sorrir ao cuidar das plantas e ao conversar com aquela amiga sangue-ruim.
Ele voltou a andar de um lado para o outro, pensando se seria inteligente voltar a acender o charuto.
O que iria fazer com aquilo tudo? Ele tinha que matar os Weasley. Eles lutavam do outro lado, o lado que ele precisava exterminar para que sua vida continuasse a ser como era. O lado que o Lorde das Trevas queria ver morto. E mandara todos fazê-lo.
Começou a se sentir furioso. Parecia que outra pessoa estava traçando o curso da sua vida e o colocando em um lugar que ele realmente não queria estar. E não tinha saída.
Ficou andando de um lado para o outro do quarto por quase uma hora.
Mas não achou nenhuma resposta.
[...]
Ginny estava debaixo da coberta grossa de sua cama, desejando que seu corpo se esquentasse mais rápido do que estava esquentando. Estava encolhida e virada para a janela do quarto. Os olhos estavam cravados nas estrelas que pintavam o véu negro que era o céu. Não chorava mais. Já havia chorado tudo o que precisava chorar, como se sua mente tivesse lhe permitido novamente de ser fraca por causa do amor. Amor à família que tanto sentira falta, e que agora descobrira que estava viva.
Ela escutou o barulho da porta se abrindo vagarosamente e se fechando logo em seguida. Não se virou, sabia que era Greyback. Não precisava vê-lo para ter certeza. O corpo dela parecia sentir com facilidade a presença do lobisomem ali.
Fenrir se aproximou da cama dela, fitando os cabelos ruivos espalhados pelo lençol negro. A claridade das estrelas batia levemente no ombro dela, mas uma parte do dossel deixava parte do corpo dela oculto pelas sombras que ele projetava. Ele ficou ali, apenas a observando e perguntando-se o que estava realmente fazendo ali. Mas não achou a resposta.
Uma vontade súbita abatera sobre ele e lhe puxou para aquele quarto, mas agora que ele estava ali, ele não sabia realmente o que fazer. Com relutância, ele se sentou na cama ao lado dela.
Ela continuou onde estava. Ele conseguia escutar o som da respiração tranquila dela com facilidade. Ficou quieto por alguns minutos, até se sentir insatisfeito com aquilo. Com um movimento rápido, ele afastou o cobertor dali e enfiou-se por debaixo dele. Sem pensar muito, aproximou-se dela, encaixando-se por trás e passando os braços fortes em volta do corpo frágil.
Ginny fechou os olhos, respirando discretamente com mais dificuldade. O corpo dele era quente, deixando o corpo dela na temperatura que ela buscava minutos atrás. Os braços fortes passavam uma sensação de proteção, mesmo que no íntimo ela soubesse que poderiam significar mais perigo do que segurança. O cheiro dele invadia o nariz dela com facilidade, deixando-a automaticamente mais calma.
– É ridículo. – ela falou em um sussurro.
Ele demorou um pouco para fazer a pergunta.
– O que é ridículo?
Silêncio.
– Estamos do lado oposto em tudo, mas não conseguimos nos desvencilhar um do outro. – ela disse, remexendo-se um pouco. – Eu preferia estar morta.
Fenrir não gostou daquilo, e em um gesto de reação, abraçou-a ainda mais forte, beijando parte do pescoço exposto dela e inalando o aroma adocicado que os cabelos dela possuíam.
– Mas não está morta. Está viva. – ele a apertou mais. – E é minha.
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