Fuga

O meio dia do dia seguinte chegou com a rapidez de um feitiço. Ginny estava dentro do seu quarto, sentindo-se extremamente nervosa para formar pensamentos coerentes. Olhava para o pequeno saco que havia feito com algumas roupas velhas que estava no seu armário. Lá dentro ela colocara uma muda de roupas, um casaco, e comida. Muita comida.

Não fora fácil, mas conseguira entrar na cozinha no momento em que os elfos estavam trabalhando em outros cômodos do castelo, para pegar mantimentos e diversos pães. Não sabia para onde Hermione iria levá-la e se realmente elas conseguiriam ao menos chegar ao objetivo esperado. Mas Ginny lembrou-se que a última vez em que saíra de casa por causa de uma guerra, passara fome e sede. Aquilo poderia facilmente acontecer novamente, e os pães e comida que ela carregava ali poderiam salvar vidas.

Estremeceu. Nunca imaginara que estaria nervosa por aquele motivo. Ela retirou os olhos do saco, que estava cuidadosamente posicionado perto da cortina para que ninguém o visse caso entrasse no quarto.

Ela se levantou, andando até a janela e observando o dia que estava ali fora. O sol estava forte, indicando o calor que ela poderia confrontar nos próximos dias se a temperatura se mantivesse daquela maneira. Os olhos correram pelo jardim do castelo, o peito se apertou um pouco quando ela os pousou nas flores coloridas e belas que estavam ali embaixo.

Um barulho de um estalo cortou o silêncio do quarto e Ginny virou-se rapidamente, assustando-se com a presença do elfo ali. Tentou disfarçar a sua surpresa e obteve sucesso. A criatura não percebeu o nervosismo dela, apenas fez uma reverência e estalou os dedos. Uma bandeja apareceu rapidamente em cima da mesinha de centro que ficava no quarto.

– O seu almoço, senhora.

Ela o agradeceu e ele sumiu, deixando-a mais tranquila. Ginny andou rapidamente até a mesinha e inalou o cheiro delicioso da comida dos elfos. Comeu vorazmente e com rapidez, mas apreciando cada sabor que seu paladar conseguia captar. Temia sentir fome novamente, e não sabia quando seria sua próxima refeição.

Ao terminar de almoçar, afastou-se novamente da mesa e andou pelo quarto, sentando-se na cama. Sentia-se estranha ao pensar que partiria daquele castelo dentro de algumas horas. Antigamente, era tudo o que ela desejava, mas naquele momento, seus sentimentos estavam divididos.

Sabia que Greyback só iria voltar no dia seguinte, e desde ontem não via o lobisomem. E sabia que ao tomar a atitude de fugir, era provável que não o veria novamente. Nunca mais.

Estremeceu ante o pensamento. Não sabia como ele iria reagir, mas podia imaginar o quanto o lobisomem ficaria furioso ao ver que ela havia sumido. E caso um dia se reencontrassem, algo que ela não estava contando, ele no mínimo a mataria. Aos poucos, para que ela pudesse sofrer ao fazê-lo de tolo.

Aquilo a deixou com uma sensação estranha de tristeza, mas logo aquela sensação sumiu, ou ao menos diminuiu. Ela ia ver a família dela! Meses atrás, ela deitava-se naquela mesma cama e dedicava parte do seu tempo em lembrar-se da família e dos dias felizes em que vivera em uma época remota onde a guerra não era uma preocupação tão grande. Ou era, e Ginny era nova demais para saber disso ou se preocupar com os problemas dos adultos.

Para ela, Hogwarts era o lugar mais seguro do mundo e ela estava naquela escola para aprender a se defender, caso o perigo estivesse próximo. Infelizmente, Hogwarts não a treinara e a prepara para tudo o que ela estava vivendo.

E agora ela ia rever toda a sua família e possivelmente alguns amigos. Pessoas que ela acreditara que estavam mortas e que nunca veria novamente. Ela ia sentir aquela parcela de alegria – mesmo que ínfima – voltar a ser parte dela.

Ela se levantou da cama e andou até o banheiro, indo até a pia e escovando os dentes. Pegou um elástico que estava ali e amarrou o seu cabelo para o alto, deixando o rosto mais visível. Olhou-se no espelho. A pessoa que a fitara de volta era muito diferente da pessoa que ela imaginou que veria, da pessoa que entrara naquele castelo meses atrás.

– Você é Ginny Weasley. Uma garota que possui família e amigos.

Ela disse para si mesma, não sabendo o real motivo para aquilo. Mas desconfiava de que parte dela queria recuperar a identidade perdida. A identidade que sumira quando ela começara a se relacionar com Greyback. Por alguns dias, ela havia se esquecido completamente da família, dos amigos e da vida que um dia teve fora daquele castelo. Suas preocupações sempre estavam em volta do lobisomem.

Algo estava errado. Ela sabia que seus pensamentos não estavam coerentes. Ou seus sentimentos. Estremeceu, sentindo-se repentinamente na obrigação de pegar algo ali para que ela pudesse pensar nele e lembrar-se dos momentos que passara ali dentro.

Querendo ou não, aqueles meses haviam mudado sua personalidade e consequentemente ajudado a construir sua identidade. Ela precisava se lembrar que passara por tudo aquilo.

Saiu do quarto calmamente, andando para as escadas e subindo-as para chegar ao terceiro andar, onde o quarto dele ficava.

Ao abrir a porta, o cheiro dele lhe engolfou rapidamente, deixando-a ainda mais confusa e desorientada do que antes. Ela fechou os olhos, tentando se acalmar com aquele gesto. Respirou fundo e abriu os olhos, andando de um lado para o outro do quarto.

Agora que estava ali, não sabia realmente o que pegar do quarto. Começou a ficar inquieta. Por que estava daquele modo? Por que se sentia nervosa? Por que sentia como se estivesse fazendo algo errado? Greyback escolhera um lado, ignorando completamente a ligação que ele tinha com ela. Ele escolhera o lado oposto, o lado que era ruim e que fatalmente ia disseminar o lado que Ginny escolhera. O lado que queria ver a sua família morta.

Ele estava ao lado de Voldemort. Matando por ele. Por que ela não poderia matar pela causa dela também? Era a sua família! Seus amigos! Seus ideais! Então por que sentia como se estivesse o traindo? Aquilo estava completamente errado.

Ela tentou se acalmar, respirando fundo e rezando a Merlin que ele não chegasse antes do previsto. Mesmo que ele tivesse lhe falado que ia ficar fora por dois dias, nada o impedia de ter terminado o serviço e estar voltando para o castelo naquele momento.

Ela contava com a sorte que não. Ela precisava sair dali, e precisava dele o mais longe possível daquele lugar para que Hermione conseguisse entrar ali e conseguissem ter uma chance de fuga. Caso ele chegasse primeiro, ele mataria sua amiga.

E com prazer.

Ela passou os olhos pelo quarto, não sabendo o que realmente pegaria. Quando algo lhe chamou a atenção. A pintura, que normalmente ficava meses apenas com uma poltrona, agora possuía um homem sentado ali, que a olhava com visível desconfiança.

Ginny trancou o maxilar e se aproximou, olhando para o homem da tela com determinação.

– Posso ver os livros novamente? – ela perguntou.

O homem não respondeu de imediato, tampouco se abriu para que ela tivesse acesso ao conteúdo privado das prateleiras. Mas ele continuou a olhando com desconfiança.

– Posso saber o motivo de você querer ler livros que já leu? – perguntou.

Ela perdeu a paciência em um segundo. Fechou as mãos em punho.

– Você me deve uma. Quase morri por sua causa. – ela o lembrou. – Quando precisava de você aqui para dizer a Greyback que foi você que me permitiu pegar os livros, você sumiu.

O quadro não parecia ter sentido a raiva da garota, nem mesmo sentir que lhe devia algo. Ele deu de ombros, olhando para a mão com visível desinteresse.

– Você é companheira de um lobisomem agora. Precisa se acostumar com a violência.

O corpo de Ginny foi percorrido por terríveis arrepios de raiva. Aquela pintura estava praticamente a insultando. E, como o homem mesmo disse, ela era a companheira de Greyback, então tinha acesso a todo o conteúdo daquelas prateleiras ocultas.

O quadro tinha a obrigação de se abrir para ela da mesma forma que se abria para Greyback. Mas o homem parecia devotado demais ao lobisomem para que visse o perigo que ela poderia representar. Pensando melhor, era mais inteligente ter medo de Greyback do que dela, mas era ela que estava ali agora. E não o lobisomem.

Ginny se afastou do quadro e procurou o que precisava no quarto. Algumas velas apagadas estavam em cima de um móvel. Ela pegou uma, indo até a lareira e acendendo o pavio. Aproximou-se novamente do quadro e colocou o fogo bem perto do tecido do quadro. O homem olhou a chama quase com terror.

– O que está fazendo?

– Sendo violenta.

O óleo já começava a modificar, a linhaça não aguentava muito o fogo. O homem entrou em desespero.

– Tudo bem, garota! Peque o que quiser!

Ele se abriu rapidamente e ela afastou a chama do quadro, pousando a vela em um móvel ali perto. Seus dedos correram levemente pelos títulos dos livros e ela pegou o de capa vermelha. O primeiro livro que ela lera ali, e que falava sobre a ligação de companheirismo que um lobisomem tinha.

Antes que ela pudesse se afastar, seus olhos institivamente pousaram em alguns objetos peculiares que estavam ali. Objetos que ela nunca tivera o interesse em analisar com atenção, pois na época estava focada demais em ler sobre a licantropia.

Além de algumas caixinhas de tamanhos diferentes e diversos, ela observou algumas velas e até mesmo um anel. Mas o que lhe chamou a atenção foi uma corrente prateada que estava pousada ali. Não sabia por que o objeto lhe exercera tamanho fascínio, mas não pensou duas vezes antes de pegá-lo e colocar a corrente no pescoço.

Ela era quente, como se a temperatura do corpo de Greyback estivesse ali. E o pingente em formato redondo que estava na corrente brilhava de uma forma peculiar, emanando uma luz prateada, como se a própria lua estivesse dentro da bolinha de cristal.

Ela ficou encantada com o colar.

Enfiou o pingente para dentro da blusa, sentindo como o cristal estava quente, assim como a corrente, observando o fraco brilho prateado até mesmo através do tecido. Ela saiu do quarto de Greyback sem dizer nada ao quadro, nem mesmo agradecê-lo.

O homem da pintura não entendeu o motivo de ela levar o livro consigo. E entendeu ainda menos porque ela pegara o colar e o colocara.

[...]

Ginny andava de um lado para o outro do quarto. A noite já havia caído, fazendo com que o colar que ela estava usando emanasse um brilho ainda mais forte. Ela vestia um vestido longo e o saco onde tinha os mantimentos e as roupas estava debaixo da cama.

Ela gostaria muito de uma calça jeans e uma blusa de malha, ou um tênis. Mas não tinha aquele tipo de roupa ali. Por algum motivo, no seu armário só tinha vestidos, e raramente uma calça de algodão, que ela usava às vezes para ir até o jardim e mexer nas plantas mais à vontade, mas que seria praticamente inútil naquele momento para ela.

O vestido poderia impedi-la de correr se for preciso, mas ela preferia assim. Greyback gostava de vestidos.

Aquela mesma sensação horrível se apoderou de seu corpo. Aquela sensação de que ela estava fazendo algo terrivelmente errado, mas ela concentrou-se em ignorar tudo aquilo.

As horas foram passando rapidamente. Por sorte, os elfos já haviam servido o jantar para ela, aquilo lhe dava mais tranquilidade, pois sabia que as criaturas não voltariam ao seu quarto tão cedo. Mas ela não tocara na comida. Estava nervosa demais para se alimentar.

Ela começava a ficar ansiosa. Depois de alguns minutos, ela escutou o barulho da porta e virou-se rapidamente para o local. Hermione enfiava timidamente a cabeça pela fresta que havia feito, e ao ver a amiga, abriu a porta rapidamente e fechou-a sem fazer barulho.

Correu até ela e a abraçou, sentindo o corpo da amiga levemente trêmulo.

– Precisamos sair daqui. – afastou-se dela e a olhou com atenção. – E rápido.

Ginny concordou, abaixando-se e pegando o saco que fizera, jogando-o nas costas. Hermione andou até a porta e a abriu levemente, não fazendo nenhum barulho adicional. Quando percebeu que não havia ninguém no corredor, ela andou até uma porta, com Ginny a seguindo a cada passo. Hermione lançava uma espécie de feitiço no ar a cada passo que dava. A ruiva não sabia que feitiço era aquele, mas não ousou perguntar no momento por medo de cortar o silêncio do corredor.

Ela abriu uma porta que ficava cerca de dez metros de distância do quarto de Ginny. As duas entraram e Hermione lançou um feitiço antes de fechar a porta e trancá-la com uma chave dourada.

– Como você possui uma chave? – Ginny cochichou.

– Snape me deu. – Hermione respondeu em um cochicho também.

As duas entraram na lareira, Hermione lançando um feitiço no ar.

– Que feitiço é esse?

– Preciso tirar o meu cheiro daqui. Greyback possui faro de felino, Ginny.

A amiga assentiu e Hermione enfiou a mão em uma bolsinha que estava jogada no seu corpo, pegando um monte de Pó de Flu e envolvendo sua mão na mão trêmula da ruiva.

– Greyback irá descobrir cedo ou tarde. Mas preciso tirar meu cheiro para ganhar tempo para Snape. O lobisomem não pode desconfiar de que ele está envolvido nisso. – Hermione a olhou. – Pronta?

Ginny assentiu, sentindo uma súbita vontade de gritar e chorar. Mas não houve tempo, logo seu corpo foi consumido por chamas, e transportado para outro lugar.

[...]

Greyback chegou mais cedo do que esperava. Seu retorno estava marcado para o dia seguinte, mas ele conseguira localizar todos os sangue-ruins que o Lorde das Trevas pedira, e conseguira encaminhá-los para os Comensais da Morte. Com facilidade.

Entrou pelo portão do castelo. Havia usado a lareira que ficava próxima, por algum motivo não tinha conseguido usar a lareira do terceiro andar. Por sorte conseguia atravessar uma pequena parte do labirinto quando estava em sua forma humana.

Pediria para os elfos olharem aquilo. Aquela maldita lareira devia estar novamente com defeito.

Ao entrar no castelo, foi saudado por um elfo, que fez uma reverência para o mestre e o olhou, esperando ordens.

– Estou faminto. Deixem o meu jantar na mesa do meu quarto. – ele farejou o ar e correu os olhos cinzentos pelo local. – Onde está a ruiva?

– Deve estar na biblioteca, mestre. Ela permaneceu quieta o dia inteiro.

Ele assentiu brevemente, subindo rapidamente as escadas e andando em direção à biblioteca. Abriu a porta e enfiou a cabeça no cômodo. Mas ele estava vazio. Nem mesmo o aroma dela estava ali. Fenrir começou a se sentir inquieto.

Ele chamou um dos elfos e duas criaturas apareceram rapidamente.

– Sim, mestre? – um perguntou.

– Onde ela está?

Os elfos se entreolharam e não entenderam.

– Ela pediu o jantar. Não sei se saiu do quarto depois disso.

– Vocês a viram depois do jantar?

Os elfos negaram. Foi aí que Fenrir sentiu seu corpo ser percorrido por algo gelado. Ele ficou imóvel por alguns segundos e depois dispensou os elfos com um gesto de mãos, temendo matar as criaturas caso elas não saíssem da frente dele.

Ele sabia que algo estava errado antes mesmo de abrir a porta do quarto dela. E quando o fez, entrando no cômodo, seus olhos felinos viram que a bandeja dela estava intocada.

O aroma dela ali estava fraco, o que indicava apenas uma coisa que ele no íntimo já sabia desde que entrara na biblioteca.

Ela havia fugido.

Naquele momento, um grito agoniante reverberou pelas paredes do castelo.

Um grito de raiva, de fúria.

Mas quem fosse atento, poderia captar o tom de desespero naquele grito.