Beautiful and Dangerous
15 14. Café da Manhã
Notas iniciais
Naquela noite em Gatlin, Macon soube que sua Transformação estava se aproximando. Pela primeira vez na vida ele tivera a experiência de visualizar o sonho de um Mortal, assistiu ao sonho de sua Jane enquanto a fitava em seu sono, admirando sua beleza ao mesmo tempo em que contemplava a visão que acontecia dentro da mente da moça.
Uma garotinha de olhos azuis e cabelos negros descia correndo as escadas de Ravenwood.
Lila estava parada de costas para ela, folheava um livro e parecia distraída como sempre ficava quando estava imersa em qualquer tipo de leitura.
–Mamãe! – gritou a menininha.
Ela se virou, um sorriso radiante em seu rosto enquanto se abaixava ao lado da garota.
–O que houve, docinho?
–Eu vi uma foto! – disse ela – Papai me mostrou uma foto da vovó! Ela está mesmo no céu?
Lila mordeu o lábio e Macon viu as lágrimas se formarem em seus olhos.
–Eu não sei querida. Ninguém sabe o que acontece quando alguém morre.
A menininha avaliou a resposta.
–Eu espero que o céu seja de verdade. É mais legal assim, mas eu não quero que você e o papai vão para lá! Nem o meu irmãozinho.
Na visão Macon apareceu descendo as escadas e deu um sorriso solidário à sua Jane, ao mesmo tempo tentando se desculpar por ter feito a menina tocar naquele assunto e também querendo oferecer seu apoio a ela.
–Nós não vamos morrer tão cedo, filhinha e seu irmãozinho nem nasceu ainda então você pode ter a certeza de que vai se cansar de nós.
Ele a pegou em seus braços e a levantou fazendo-a rir, então Jane riu e se levantou, uma mão sob o ventre ainda pouco aparente, e depois o beijou.
O sonho terminou e mente de Lila ficou vazia como se sua quota de criatividade tivesse acabado. Diferentemente das outras pessoas ela parecia sonhar enquanto o sono se iniciava e não enquanto ele chegava ao fim.
Macon beijou a testa de sua amada e depois virou a cabeça, fitando o teto. Parte dele desejava que o sonho pudesse de alguma forma se tornar realidade e a outra parte estava certamente ressentida por saber que algum dia ela teria aquela família, só que não com ele e sim com outro homem.
Por hora ele tratou de afastar aqueles pensamentos e a puxou para mais perto de si enquanto pegava no sono.
...
Lila acordou cedo no dia seguinte, reparou que Macon ainda dormia e, com cuidado para não acordá-lo, ela se soltou de seus braços e empurrou de lado o cobertor. Ela foi até sua mala e pegou roupas quentes e confortáveis, colocou-as e depois desceu até o outro andar.
Faminta, Lila se dirigiu à cozinha. Ela não sabia onde estavam as coisas, mas não teve problemas em fuçar os armários para encontrar o que queria. Começou então a preparar uma antiga receita de sua mãe (a única que aprendera e, talvez por isso, sua predileta). Tomates verdes fritos.
Quando o cheiro já se espalhava por todo o cômodo ela ouviu passos atrás de si e Macon passou os braços ao redor de sua cintura.
–Bom dia. – cumprimentou ele.
–Bom dia. – disse ela.
–O que você está fazendo? – perguntou Macon fitando os tomates de maneira questionadora.
–Café da manhã. – respondeu Lila.
–Isso ai é café?
–Não, bobinho, mas sente-se e eu vou servi-lo.
Macon revirou os olhos e se sentou em uma das banquetas que havia próximo à bancada. Lila dividiu os tomates em dois pratos e depois se sentou de frente para Macon enquanto ele experimentava a refeição.
–Isso até que não é ruim. – disse ele.
–É uma delicia, admita Ravenwood!
–Tudo bem! – ele levantou as mãos em sinal de redenção – É uma delicia! Mas o que te inspirou a fritar tomates a essa hora da manhã?
Lila baixou os olhos e largou o garfo. Ela certamente não queria compartilhar todo o seu sonho com Macon por que certamente parte dele fora mais do que perfeita, mas... Bem a parte que respondia àquela questão não tinha nada de perfeita.
–Eu sonhei que a minha mãe estava morta. – disse ela com certa relutância – Essa é a receita dela que eu mais amo, e eu não sei... Acordei com vontade de comer isso porque o cheiro me lembra dela.
Macon pegou suas mãos nas dele.
–Eu vi o sonho.
–O quê? – perguntou ela, levantando os olhos arregalados para ele.
–Perdoe-me se foi uma intromissão. Eu não tinha a intenção de ver seus sonhos, mas aconteceu e isso só significa que minha transformação está se aproximando.
–Oh, Macon... – ela mordeu o lábio – Eu não me sinto preparada para te perder. Não vou te deixar, não vou conseguir. Ontem à noite quando estávamos nos beijando esse sentimento se intensificou. Eu o queria, de uma forma que nunca antes quis ninguém.
–Jane, eu não posso mentir para você e dizer que eu não senti o mesmo, porque senti. Você é uma criatura tão linda. Tão cheia de determinação, tão inteligente, tão... Tudo. Eu a amo e a quero, mas ambos sabemos que isso não é certo, que em pouco tempo eu serei capaz de matá-la.
Lila abriu os braços pedindo-o para que ele a oferecesse abrigo nos seus e assim Macon o fez. Com o rosto escondido em seu peito ela se sentia tão segura quanto jamais antes.
–Eu queria poder fugir para longe como faço quando leio um livro. Queria entrar em uma história com você onde talvez a realidade nunca nos alcançasse. Onde pudéssemos escrever o fim que desejássemos.
–Eu também. – murmurou Macon.
–Leve-me para longe então, deixe que eu tente mantê-lo o mais humano que eu conseguir e se eu não for capaz de fazê-lo então deixe-me morrer por suas próprias mãos.
Macon a afastou e depois pegou seu rosto marejado entre as mãos.
–Ah, minha Jane, eu jamais seria capaz de fazer isso. Eu quero que viva. Que tenha uma vida bela, por nós dois. Se eu não serei capaz de vivê-la então não a privarei que viva a sua.
Ela franziu a testa.
–O que você quer dizer com isso?
Ele pareceu repensar sua resposta antes de apenas esquivar-se dela.
–Nada. Quando a hora chegar, veremos o que acontecerá. – ele forçou um sorriso – Então, que lugar de Gatlin visitaremos hoje? Podemos ir até a biblioteca se você quiser ou até o lago Moultrie.
–Eu não acredito que direi isso, mas já vi livros demais nesse fim de semestre então, é, acho que visitar um lago em pleno inverno é uma ótima ideia.
Macon riu e pegou uma rodela de tomate deixando que Lila a mordiscasse.
–Acho que vamos visitar o lago então.
Ela revirou os olhos e comeu o restante do tomate.
–É o que eu acho.
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