Beautiful View
1 A Confissão da Deusa da Terra é Aceita! ÚNICO
Notas iniciais
Devo admitir que a vista era de tirar o folego, claro, que para um humano. Mas não posso mentir e não dizer que era extenuante e bonito de se ver. Talvez Nanami sempre teve razão quando falava que a cidade pela noite era a coisa mais linda que poderia ser vista e aproveitada. Era bem mais bonito do que olhar parte da cidade pelo Templo ou algo assim, sem dúvidas.
As luzes dos prédios e dos carros em alta velocidade. A noite escura e sem nuvens. O barulho quase quieto, quase impossível de escutar se estando tão longe... Mas ainda dava para senti-lo. Era de tirar o folego até para mim. Admito. E da primeira vez que eu vim aqui, não pude aproveitar como deveria ser aproveitado...
Aquela ponte significava uma coisa bem mais terrível para mim do que uma vista bonita poderia sugerir ser: foi aqui onde a Nanami se confessou pela primeira vez. E depois se jogou da ponte, me fazendo concordar o absurdo de nunca mais tocá-la só para salvá-la daquela vez.
Estranho.
Falar nisto assim... Relembrar do que aconteceu: da sensação de dor que senti quando não soube responde-la e só pensei que ela estaria errada. E quando ela se jogou num ato estúpido e inconsequente — levou meu coração junto com ela.
Mas faz mais de um ano desde que isto aconteceu. É bem raro eu me lembrar disto, uma vez que estávamos mais juntos do que antes, e eu já poderia tocá-la como quisesse havia tempo, e não parecia que existia no mundo alguma coisa concreta que me fosse tirar este direito.
De querê-la.
E eu sabia que ela ainda gostava de mim. Mas não sabia o quanto mais. Na noite em que ela declarou o seu amor por mim: eu nunca imaginei que poderia ser mais do que um amor adolescente qualquer. Ou no minimo, ela estava confusa demais.
A um ano atrás... Nossa, como eu estava enganado na época.
– Descordo, Nanami. — Minha voz preencheu o silencio entre a gente. Isto porque assim como eu, ela estava perdida em seus pensamentos e recordações deste lugar ao mesmo tempo que não conseguia tirar os olhos da vista exuberante. — Aqui não é a vista mais linda que pode ser aproveitada, ao meu ver.
Ela se virou para mim, meio atônita. — Bem, se não gostou nós podemos voltar para a festa da Kei. — E se interrompeu toda preocupada. — Ou se quiser podemos voltar para o Templo agora.
Eu ri. O motivo de termos saído juntos nesta noite era que a amiga dela, a Kei, estava completando 18 anos e os pais dela a permitiram uma festa naquelas casas noturnas com música alta... Acho que o nome era "boate".
Seria até que divertido se tirassem a música alta e os jovens dançantes e bêbados de perto de mim. Mas eu estava disposto a aguentar isto custe o que custar para a Nanami aproveitar também. Por que era disto que jovens modernos gostam, não é? Então se ela estava gostando, estava tudo bem para mim.
Decidimos sair por um momento daquele lugar cheio e barulhento, porque eu fiquei especialmente irritado quando um grupinho babaca de meninos humanos retardados passaram a realmente investir em cima de Nanami. Não se afastando dela até que eu chegasse e a acabasse com a festa deles os ameaçando.
Mas acha que foi o suficiente para cessar aqueles babacas de voltarem outra vez para cima dela e tentarem a própria sorte? Nada disto. Eu tive que puxá-la a força e beijá-la na frente deles. Só assim eles se mancaram e pareceram, finalmente, desistir dela.
Por isto estávamos aqui fora: para tomar um ar. E Nanami, toda corada, quis aproveitar a vista da cidade um pouco. Então por que não? Mas o melhor ainda era que eu poderia aproveitar um bom tempo com ela vestida desta maneira.
– Na verdade. — Fiz uma pausa para observar novamente o quão bem aquele vestido preto (muito curto e bem justo, de primeira em pensei que era inapropriado demais para uma moça e até não quis deixá-la sair de casa assim...Mas agora não conseguia mais parar de me deleitar com a visão do tecido justo em seu corpo), e ela também usava um daqueles saltos altos pretos, (ela havia comprado um dia e ficou bem feliz em estreá-los) que deixavam suas pernas lindas ainda mais lindas para se olhar. Resumindo tudo: ela estava irresistível. — Você aqui é a vista mais linda que pode ser aproveitada.
Ela virou o corpo totalmente para a minha direção, nem se preocupando em esconder o rosto corando nos tons mais escuros de vermelho — eu acho que ela ficou tão surpresa que nem percebeu isto. Só pude sorrir outra vez. Eu simplesmente adorava vê-la envergonhada assim, ficava com uma expressão mais linda do que o normal. E então continuei, só para faze-la relaxar. — Acho que é por isto que aqueles garotos não largavam do seu pé.
Eu acho que não era realmente tipico meu flertar assim com ela. Mas olha só para ela: quem poderia resistir?
Quando eu passei a perceber que sentia o mesmo por ela, a minha primeira reação foi o susto e a negligencia: porque uma menina humana? Justo a única menina humana que pode me controlar como quiser, devido aos seus poderes divinos?
Foi ai que eu notei que ela não me controlava só por seus poderes divinos. E sim pelo meu coração.
Eu me encontrei tão massacradamente apaixonado por ela que o desejo de protege-la, faze-la feliz o tempo todo, cuidar dela da melhor forma o possível e até mesmo sentir ciúmes pelas coisas mais triviais: não eram só coisas de familiar, mas demorou para perceber isto.
Nanami não era uma menina humana que virou Deusa da Terra. Nanami era a garota que conseguiu fazer meu coração bater mais rápido por ela.
Um sorriso alegre surgiu por seus lábios rosados.
– Como você disse, Tomoe. Este vestido não é algo apropriado para uma moça usar.
Notei que as suas bochechas continuavam rosadas, mais do que o normal. Nanami continuou a falar.
– Mas eu tenho certeza que o que eu estou usando aqui por baixo é bem mais inapropriado do que este vestido pode ser. — Ela terminou com uma gargalhada leve, levantando algumas dúvidas minhas sobre ela ter bebido ou não.
– Francamente, Nanami. — O que será que ela tomou? Tão ingenua que não deveria nem saber. Imaginei que se ficássemos aqui fora por mais algum tempo seria melhor para ela. E ainda me permiti ficar irritado comigo mesmo por não ter percebido que ela havia bebido antes, ou talvez o álcool só atingiu o organismo dela agora.
Ignorei estas questões e voltei a falar, prestando mais atenção na reação nela. — Você deve ter se divertido com a minha cara de susto. Mas saiba que eu adoraria ver antes de criticar, não é certo?
Nanami assentiu, sem qualquer pudor.
Fitei-a pasmado. — Você bebeu?
Ela negou, ainda sorridente. E então deu alguns passos em minha direção, chegando tão perto que eu só podia sentir o cheiro predominante de baunilha que ela tinha que era muito bom. Então ela realmente não havia bebido.
Nanami passou os braços ao redor do meu ombro, e com um esforço percebível, já que ela ficou nas pontas dos pés para isto. Imaginei o quanto deveria ser difícil fazer isto estando nestes... saltos altos.Então passei meus braços ao redor da sua cintura e a ergui no ar, alto o suficiente para que pudesse se sentar no parapeito da ponte. Foi o que ela fez.
Agora eu tinha uma Nanami sorridente de frente para mim.
– Tenha cuidado para não cair. — Falei mesmo não sendo necessário, já que qualquer deslize que houvesse meus braços já estavam dispostos ao redor de seu corpo.
Ela ficou parada por alguns minutos me fitando curiosamente, apenas. Seus olhos escuros, um tom indescritível de castanho e incansável de se ver, rodeando por meu rosto enquanto um sorriso permanecia imóvel em seus lábios avermelhados.
– Com você aqui isto não vai acontecer.
O jeito que ela falou, com a certeza e determinação que eu nunca vi diante dela sobre um assunto assim... Um assunto entre nós usando este tom de voz tão certo e seguro, isto com toda certeza me fez prender-me em uma outra dimensão.
Ela havia mudado tanto. E para melhor. Tanto que eu não conseguia mais fazer uma ligação entre a garota apaixonada de um anos atrás nesta ponte e a de agora, na minha frente, mesmo elas sendo as mesmas e ainda estando apaixonadas por mim.
Mas o que ela disse me fez lembrar do ato estúpido, por minha culpa, quando se jogou naquela noite ao ser recusada por mim. Mas era o que eu poderia fazer, naquele momento ela só parecia uma boba confusa e a minha resposta foi a única coisa que poderia me garantir que iria protege-la.
Não é como se naquela noite eu sentisse algo indiferente por ela. Pois foi ali que eu percebi que ela não era só uma menina qualquer.
Nanami continuou me fitando com seus olhos incríveis. E sua aura terrivelmente alucinante: do tipo bom. Era como se ela só me atraísse mais e mais e mais, e a cada coisa que fazia ou dizia, eu me via mais ainda amarrado no que era aquela minha mestra bonita chamada Nanami.
Desta vez fui eu que fiquei nas pontas do pés para colocar a minha cabeça entre o seu pescoço e a curva de seu ombro esquerdo, na esperança de captar mais ainda do seu cheiro e da sua aura: ambos ainda insuficientes para me saciar.
A cada dia que passava eu só conseguia querer mais dela.
Qualquer coisinha que ela fazia eu sempre me recordava, e toda vez que fazia isto um arrepio subia pelas minhas costas: como andar descalça no Templo, usando nada mais nas pernas do que uma saia muito rodada, só isto já mexia com a minha imaginação. Morder o lábio inferior pensativa e toda distraída, enquanto tentava achar uma resposta para qualquer questão de um dever de casa. Guardar doces no sutiã quando não tinha bolsos na roupa. Ou sair do banho enrolada numa toalha curta, enquanto deixava um aroma bom de cereja e baunilha por todo o Templo. Assim, qualquer coisa ingenua que ela fazia — qualquer ato trivial como garota ou como mais ainda uma mulher — eram todos anestesiantes para mim.
E era por isto que eu não aguentava mais: dia após dia, ela fazia coisas novas e impensáveis que eu começava a ver como totalmente sedutoras e inquietantes. E eu sabia que estava errado porque não era isto que eu deveria pensar da minha mestra.
– Eu nunca imaginei que as coisas fossem mudar assim. — Ela tirou-me de meus pensamentos, com seus olhos ainda sobre os meus.
– Nanami. — Chamei-a com atenção. — Você foi a única a mudar. — Ela se inclinou para trás, um pouco surpresa.
– E isto foi o melhor que pode acontecer. — Eu puxei-a mais para a beirada da ponte, suas pernas abertas ao redor de meu corpo. — Entenda que eu só me vejo cada dia, mais e mais, apaixonado por você.
Suas mãos saíram de meus ombros e deslizaram por meus cabelos. O toque dela era sempre reconfortante. Fechei os olhos para sentir este momento para sempre.
– E eu estou te amando cada vez mais.
Abri os olhos para ver se ela falava sério.
Amar?
– É Tomoe. — Ela me respondeu, sem muita emoção, como se lesse meus pensamentos. — Eu estou te amando cada vez mais, já cansei de dizer isto. Mas você sabe que eu não ligo nada com nada, não é? Eu já parei com isto. Até porque eu já entendi a muito tempo que você não busca qualquer tipo de relacionamento com uma humana. Ainda mais com uma menina qualquer, como eu. Se você me diz que está se apaixonando, não é algo que eu vá acreditar facilmente.
Menina.
Qualquer.
E antes que ela continuasse ou eu pudesse pensar em uma boa resposta para dar a ela: agarrei a parte de baixo de suas costas e puxei-a para um beijo para calá-la.
Ela era tão idiota... É claro que se tivéssemos uma relação, seria a coisa mais perigosa e estaria a ponto de se acabar a qualquer momento, mas eu não iria pensar em nada disto agora.
A sensação de ter os seus lábios contra os meus era a melhor coisa do mundo: era melhor do que qualquer outro beijo, até mesmo das tanukis e dela mesma como a Yukiji no passado. Por fim, nem se comparava com qualquer outra.
Os beijos da Nanami, da minha Nanami, tinham aquele calor desconcertante que eu tanto ansiava por. A boca dela: quente, úmida, macia e pequena... Totalmente beijável, era formidável a sensação.
E eu juro que estava lutando para me acalmar, mas só aquele beijo me deixou mais ansioso ainda. Puxei-a para mim, ainda mais perto do que antes, e forcei passagem entre os seus lábios ao roçar minha língua por eles.
E com isto obtive um gemido baixo e rouco de Nanami, mas totalmente enlouquecedor e inesperado. Tive que sorrir entre seus lábios, até que ela fez o que eu inicialmente pedi. Nanami abriu a boca e deu passagem para eu entrar e, em um ato puramente instintivo, coloquei uma de minhas mãos na parte de trás da sua cabeça, puxando alguns fios de cabelo seu e a forçando vim para mais perto de mim — isto só porque em algum lugar da minha mente gritava que mais cedo ou mais tarde ela iria se afastar de mim, mas eu não deixaria que isto acontecesse neste beijo de maneira alguma.
E antes que eu a puxasse outra vez, para força-la a corresponder, ou até perguntar numa linguagem corporal o porque diabos ela não estava correspondendo, Nanami fez algo impensável e insano para alguém que tinha a inexperiência e pureza dela. Ela se agarrou mais ainda a mim e chupou meu lábio inferior usando seus lábios.
Isto fez meu corpo tremer, eu até me contorceria de prazer se não quisesse tanto continuar com aquele beijo e manter o seu corpo perto de mim o máximo o possível.
Mas, Nanami cortou o beijo e me fitou totalmente preocupada. — Desculpa.
Ela colocou a mão em frente a boca, mas eu não prestei muita atenção porque eu estava lutando contra o desejo de arrancá-la a roupa ali mesmo e fazer algo terrível para ela.
Protege-la, Tomoe, isto é o que você tem que fazer.
Concentre-se.
– Se você não gostou eu juro que não faço mais. — Ela pareceu tão envergonhada e desesperada por uma reação minha que eu juro que até riria se não tivesse muito ocupado tentando não atacá-la.
Seus lábios vermelhos e inchados, tão sedutores, os sugadores de todo o meu autocontrole.
– Nanami, não há como eu não gostar disto. — Sinceramente respondi. E aproximei-me mais ainda de seu corpo, o tanto que era possível ouvir seu coração batendo aceleradamente, eu ri. — Por favor, faça coisas assim mais vezes.
E mais e mais e mais.
Naquele momento eu só poderia me concentrar em seus lábios vermelhos e de vez ou outra, em seus belos olhos castanhos.
– Mais? — Ela perguntou, um sorriso crescendo em seu rosto. Assenti desesperadamente contente, sentindo o meu autocontrole vacilar de novo. — Mais.
Ela se inclinou e desta vez capturou meus lábios com toda a dominação sobre mim que eu a deixei ter. É, ela mudou muito. E mudou para melhor.
Agora só faltava eu mudar também, e de alguma forma me convencer de que agora que eu não tinha mais dúvidas quanto a ela, e que pudêssemos criar um relacionamento só nosso.
Não entre uma humana e um yokai.
E sim entre o que éramos, apenas Nanami e eu.
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