Beatrice e Matheus
14 Telefonema
Notas iniciais
Matheus estranhava estar apaixonado por alguém além de Bia. Nos últimos três anos, a menina baixinha de personalidade forte foi tudo o que ele imaginava sobre relacionamentos românticos. Por isso, surpreendeu-se quando começou a reparar involuntariamente em Manuela.
Conheceram-se na metade de junho, no mesmo dia, três anos depois da festa de São João na qual conheceu Beatrice. Ele não gostou de Manuela no primeiro instante. Talvez tenha sido influenciado pelas reclamações dela. Leila e a filha passariam a morar em Recife no final daquele mês e Bia só falava sobre como não gostava nada da ideia.
Quando as férias chegaram e Manu começou a andar com o grupo de amigos de Bia e Matheus, ele mudou de ideia em relação a ela. Manu era um pouco reservada e tinha um ar esnobe natural. Entretanto, ao conhecê-la melhor, ele entendeu que ela era tímida demais e acabava soltando coisas sobre a literatura brasileira do século passado que tanto amava — um fato bem único para uma menina de treze anos — na tentativa falha de socializar.
Então, começou a dar-lhe uma chance, tentou abrir mão do conceito pré determinado por Beatrice e tornar-se amigo dela. Tudo bem Bia se sentir enciumada, mas isso não quer dizer que ele devia afastar-se de Manu. Pelo contrário, Matheus aproximou-se dela. Ele não podia prever o que estava para acontecer. Não sabia que as brincadeiras com o sotaque dela ou com a falta de conhecimentos da “Menina Sulista” sobre palavras e expressões bem pernambucanas fossem fazer tanto efeito nele.
Quando ele começou a se imaginar junto de Manuela, a culpa o atingiu. Ele se sentia errado por passar tanto tempo com ela, quase ignorando Beatrice. Ele sabia a falta que fazia a ela quando ficavam afastados, Bia fazia questão de lembrá-lo. Sua melhor amiga sempre lhe contou o quanto a situação com Manu era incômoda. Sentia-se errado quando diziam que ele e Bia deveriam formar um casal. Era Manuela de quem ele gostava.
O melhor a fazer era contar a Beatrice o que sentia. Todas as vezes que estavam juntos, sempre que iam para alguma festa, nos intervalos das aulas. Oportunidades nas quais lhe faltavam palavras e ele deixava o assunto fugir da sua mente, tomado pela enxurrada de palavras habitual de Bia.
O ponto decisivo foi Guilherme. .Entre os irmãos Agno acontecia uma coisa engraçada. Eles conseguiam perceber quando um deles não estava bem. Era até surreal, mas Guilherme começou a namorar Olívia ao ouvir a irmã mais velha, a milhares de quilômetros de distância. Talvez fosse a vez de Matheus.
— Mati, o que está acontecendo? — abordou-lhe na noite em que Matheus contou para Beatrice seus sentimentos
Matheus explicou-lhe tudo. Não tinha reservas com o irmão, exceto, talvez em revelar que tinha sido apaixonado por Bia antes. Parecia meio bobo, infantil.
— Você não tem obrigação desse tipo com Bia — Guilherme aconselhou. —Ela é sua melhor amiga, tudo bem. Mas você pode se apaixonar por qualquer pessoa.
— Mas, Gui, eu acho uma sacanagem com ela. É a filha da madrasta. Seria como se o príncipe decidisse que o sapatinho de cristal ficou melhor na irmã da Cinderela.
— Pelo amor de Deus, Matheus, é sério que você está fazendo comparação com contos de fadas? Não acha muito petulante da sua parte se dizer o príncipe?
Não vou transcrever toda a conversa aqui. Afinal, vocês não querem saber sobre as provocações naturais entre irmãos e bobagens sobre relacionamentos. Ou coisas nem tão bobas, já que Gui falou bastante de Olívia, e Matheus sempre se interessava pela história deles. De qualquer forma, a conversa chegou ao final quando ele recebeu uma ligação de Beatrice.
— O que eu faço? — perguntou antes de atender.
— Faça o que você achar que deve — Guilherme deu o pior conselho que poderia e saiu do quarto.
Matheus respirou fundo e atendeu à ligação.
— Então, Mati, a gente precisa conversar — ela gaguejou, demonstrando o nervosismo que ele não pode perceber por causa do seu próprio.
Os sentimentos dos dois eram os mesmos naquele momento. Aquela sensação de respiração pesada, frio na barriga. Ambos queriam adiar ao máximo o que dizer. Mas Matheus foi mais rápido. Disse as palavras que fizeram Bia experimentar pela primeira vez um coração partido.
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