Beatrice e Matheus
27 Erro
O ano de 2011 passou num piscar de olhos. Um misto de novas responsabilidades com a chegada do ensino médio e a agonia dos preparativos da sua festa de quinze anos preocupava Beatrice.
Certo, não preocupava tanto. Bia não viu nada de muito difícil no primeiro ano, já que era bem inteligente. Quanto à festa, delegou todas as decisões para as mulheres mais velhas da família Matoso, que amavam comemorações. A única decisão irrevogável era de Matheus como “príncipe”, que a vó Ana tentou, sem sucesso, mudar para o primo Theo.
O verdadeiro motivo para Bia sentir o tempo passar tão rápido era a viagem de Matheus. Ela não queria que agosto chegasse. Não conseguia imaginar passar um ano longe do melhor amigo. Por isso, decidiu passar o máximo de tempo possível com ele.
Como iriam apresentar um número de dança, Bia decidiu fazer aulas com ele e pediu à professora para organizar um número especial para eles, que envolvia uma valsa clássica transformando-se aos poucos num forró pé-de-serra o mais pernambucano possível.
Com isso, Caio ficou um pouco negligenciado. Uma vez que a semana de Bia era bem corrida com suas atividades extracurriculares, as aulas de dança, três vezes na semana, tomaram boa parte do tempo que ela passava com o namorado.
Caio não entendia porque não tinha sido chamado para ser o acompanhante de Bia e odiava toda essa situação. Havia perguntado algumas vezes para ela, mas ela sempre desconversava. Dizia que era porque Matheus ia passar um ano fora. A festa e essas aulas seriam uma boa memória para quando ele estivesse fora. Caio não conseguia aceitar isso, desconfiava que algo mais estava acontecendo.
Só que Bia era tão boa com ele... Sempre que estavam juntos, tentava compensá-lo por não ter tanto tempo disponível para Caio. Prometia que quando Matheus viajasse, em agosto, ela seria toda dele. Ou melhor, passada a festa ela teria mais tempo.
Então, Caio sempre acabava deixando para lá. Não queria admitir, mas estava quase sendo domesticado por Beatrice. Só foi difícil para ele engolir a gafe cometida pela cerimonialista da festa de Bia.
Se o ano de 2011 passou mais rápido do que Beatrice e Matheus gostariam, é claro que o dia 18 de junho, dia da festa, chegou num instante.
Na véspera, o verdadeiro dia do aniversário de Bia, Matheus levou-a para o tradicional cinema dos dois e, como um presente da família Agno, deu a ela uma massagem relaxante, a qual ela só percebeu que precisava quando estava na maca com as mãos da moça desfazendo os nós nas suas costas.
Caio não conseguiu ver Bia, mas mandou um buquê enorme de flores para sua casa, além uma caixa de chocolates trufados. Júlia e Valentina deram a Bia um colar prateado com um pingente brilhante, combinando com o tema da festa, que era luz. Até Manuela ajudou, sugeriu a Alexandre que levasse a filha para o restaurante de comida japonesa preferido de Bia.
Os amigos de Bia tinham uma brincadeira na escola, de chama-la de raio de sol. Diziam que para onde ela virava ela trazia luz e animação. Além de amor e aconchego. Foi a partir daí que Clarisse tirou o tema.
Escolheu um vestido branco com contas brilhantes bordadas como vestido principal. O decote coração com uma tela de tule seguia exatamente o estilo de Bia. A saia abria a partir da cintura, deixando-a com a aparência de princesa que todos viam nela, mas ela não demonstrava tanto para não parecer infantil. Os outros dois vestidos eram mais modernos. O primeiro era um longo nude, da cor exata da pele de Bia, com renda tipo francesa preta. O terceiro, um curto tubinho dourado de paetê. Cada um destacava um aspecto diferente desejado por Clarisse a Bia: o de renda mostrava a mulher que Bia estava se tornando, o branco lembrava a criança que ela deixava de ser e o dourado era um pedido para que Bia nunca se esquecesse de sua juventude.
A decoração estava maravilhosa. Flores brancas bem posicionadas em todas as mesas à volta da pista de dança. Milhares de luzinhas pisca-pisca cobriam todo o teto do salão e substituíam o jogo de luzes normalmente usado nas baladas, com o auxílio daquelas luzes que apagavam e ligavam o tempo todo. As mesas em madeira traziam uma atmosfera rústica de conto de fadas medieval.
A mesa de doces, a parte preferida de Bia, estava tentadora, com doces modelados em chocolate. O bolo de noiva alto, de quatro andares, branco com flores brancas e amareladas em cascata e com textura matelassê era o destaque da mesa. As comidas, servidas em abundância, agradaram todos os convidados de tanta variedade: Clarisse serviu desde mini hambúrgueres até sushi.
Bia ficou encantada ao ver tudo aquilo. Nunca quis uma festa de quinze anos, mas estava começando a agradecer Clarisse por ter insistido naquilo. Estava começando a se sentir especial, e assim se sentia enquanto cumprimentava cada um dos duzentos convidados. E também ao ver as homenagens de todos os seus amigos e familiares.
Caio deu-lhe mais um buquê de flores, mas com um presente especial: um CD do seu jogo de computador favorito, The Sims 3. Bia riu, pois uma brincadeira que tinham é que sua profissão era arquiteta de The Sims. Ela achou divertido o namorado não lhe dar um colar ou anel ou qualquer coisa típica de se presentear uma menina de 15 anos, mas sim um jogo de computador, dava uma ideia de casal divertido.
Acabadas as homenagens, Bia valsou com vários membros de suas famílias. Alexandre, os avôs, George Matoso e Luiz Olímpio, Theo Matoso e três primos dela por parte de pai para representar a enorme família Olímpio.
Finalmente, era a hora de apresentar seu número com Mati. Estava tão ansiosa pelo momento para o qual vinha ensaiando desde abril que nem percebeu o erro. A cerimonialista que anunciava cada momento da festa fez a chamada:
— Chegou o momento de Bia dançar com Matheus Agno, seu namorado.
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