Battle Cry
35 capítulo 34
Stiles inspirou fundo e segurou sua respiração antes de contar até três e só então, expirar de forma lenta. Ele voltou a andar o mesmo caminho, iluminado pelo mesmo brilho fraco da lua, até chegar a mansão e entrar pela porta.
Sua mãe estava lá na cama hospitalar. O mesmo sorriso culpado e olhos tristes. A sala era a mesma, com os mesmos objetos nos mesmos lugares.
Ele andou até a cadeira perto da cama e se sentou alí. Sua mãe o olhava como se quisesse dizer algo, mas nada disse. Ele continuou em silêncio, olhando a seu redor por um breve momento antes de voltar sua atenção para Claudia.
—Eu preciso morrer aqui, não é? — Perguntou Stiles num tom baixo e calmo. Sua mãe o olhou de forma triste.
—Eu não queria que as coisas fossem assim.... Mas... Mas nós podemos ser felizes de novo, Stiles. — Explicou Claudia erguendo uma mão trêmula para segurar o pulso de Stiles. A mão dela era pequena e magra. Ela tinha a mesma aparência frágil da qual ele se lembrava. Ele continuou olhando a mão de sua mãe o segurando por mais alguns segundos.
—Como nós podemos ser felizes? Eu irei estar morto. — Cláudia negou com a cabeça.
—Não, não encare as coisas dessa forma, querido... Você não pode morrer aqui... Encare tudo isso como uma segunda chance.- Stiles franziu o cenho, confuso com o que sua mãe dizia.
—Como assim?
—Aqui, quando você faz o que é o esperado, você recebe uma recompensa... Você consegue uma segunda chance de viver a sua vida.
—Mas... Mas isso não faz sentido... — Sua mãe apertou o agarre em seu pulso.
—Isso o que você está vivendo agora, essa cena toda é apenas um sonho disfarçado de lembrança. — Stiles já negava com a cabeça antes mesmo de sua mãe terminar de falar.
—Não, isso não é possível. Isso aqui, — Apontou Stiles ao olhar ao redor. — isso aqui já aconteceu, eu me lembro de tudo!
—Stiles... Tudo o que você já viveu, é só uma ilusão. Tudo o que aconteceu na sua vida, não passa de uma alternativa. Você pode escolher outro caminho agora... É só você querer.
Stiles olhou bem o rosto de sua mãe. Sua expressão era esperançosa, mas os olhos dela... Os olhos dela pareciam carregar uma tristeza que fazia Stiles se desesperar um pouco porquê ele não entendia o que estava acontecendo. Quer dizer, ele entendia o que estava acontecendo, o que ele tinha de fazer, mas ele não podia. Stiles não podia morrer alí. Ele não sabia se acreditava ou não nas palavras da mulher a sua frente. Uma parte de seu cérebro gritava pra ele não acreditar, apontando que aquilo não fazia sentido nenhum, que tudo aquilo era uma mentira. Mas aí tinha a parte mais emocional de seu cérebro que o perguntava: e se for real? E se existir uma segunda opção? Uma segunda chance? O mesmo mundo em dimensões diferentes e com resultados diferentes. Stiles era um alquimista, ele podia se teletransportar de um lugar para o outro. E se existisse esse lugar entre um salto e a aterrissagem? O mundo por entre um portal e outro? Não é como se Stiles não acreditasse em universo paralelo. Um lugar onde sua mãe não morria, seu pai não se afogava em bebida e seus amigos ficavam bem sem precisar se preocupar com toda essa coisa complicada.
Stiles adoraria esse lugar perfeito onde ninguém tem problema nenhum. Todo mundo seria feliz, mas... Não seria a mesma coisa, não é? Stiles não teria essa segunda família que ele tem agora, ele não faria parte do pack. Scott ainda estaria sofrendo com asma e provavelmente nunca teria começado uma conversa com Allison. Lydia ainda seria a garota troféu ao lado de Jackson, Boyd ainda estaria sozinho, Isaac continuaria com seu pai, sofrendo violência doméstica e Erica talvez estivesse morta por conta do avanço de sua doença. O que garante que a família de Derek não seria assassinada? E se nesse universo paralelo Stiles nunca viesse a conhecer Derek? Stiles nunca saberia como Derek sofreu ou como ele se sentia sozinho. Stiles nunca assistiria Derek conseguir aos poucos reconstruir sua vida com um pack novo e uma casa nova e uma vida nova. Ele nunca descubriria como Derek age quando ele está irritado, ou como ele fica bufando quando está frustrado ou então a forma com que o canto dos lábios dele fica mexendo quando o alfa tenta segurar uma risada. Derek talvez não fosse alfa, ele provavelmente continuaria sendo um beta, um omega, e talvez terminasse morto como a maioria dos lobos sem um pack terminam. Ele não veria a evolução de seus amigos, e ele não veria a evolução em sua relação com Derek, ele próprio não evoluiria. E por mais que a ideia de uma vida "normal" pareça atrativa, por mais que Stiles odeie ter de lidar com todos esses fiascos que o mundo sobrenatural joga na cara dele, Stiles odiaria ainda mais não ser quem ele é agora, e ter o que ele tem agora.
Então ele precisava encontrar uma outra alternativa. Ele precisava sair dali, e ele não podia morrer fazendo isso.
—Eu não posso... -Sussurrou Stiles olhando o rosto de sua mãe, procurando ali qualquer coisa que indicasse o que se passava na cabeça dela. — Tem de ter outro jeito de sair daqui.
Stiles levantou da cadeira, se afastando da cama e do agarre de sua mãe. Ele estava olhando para os lados, tentando achar alguma coisa, qualquer coisa que o ajudasse a ter alguma ideia.
Okay, okay, ele tinha de pensar... O que a mãe dele disse mesmo? Toda a vida dele foi uma ilusão? Tudo o que já aconteceu foi uma alternativa... Certo, suponhamos que isso seja verdade. O que ele está vivendo agora, naquele exato momento também faz parte de uma ilusão? Se tudo foi apenas uma escolha, ele pode escolher não estar ali, não é? Mas como ele faz isso? Sua mãe está o dando apenas duas opções: continuar revivendo aquela cena pro resto da vida dele, ou então morrer e começar tudo de novo. Só pode ser algum tipo de jogo. Quer dizer, tem de haver uma terceira opção...
Stiles voltou a olhar a sua volta, e então ele percebeu algo diferente. O tempo. O tempo não estava passando como das primeiras vezes.
Ele mudou seu olhar para o relógio na parede, e percebeu que o relógio estava parado. Então Stiles voltou a olhar sua mãe, ela continuava na mesma posição com a mesma expressão triste.
—Por que o relógio está parado? — Perguntou Stiles. Cláudia olhou para o relógio por um momento antes de voltar sua atenção para Stiles.
—Ele está esperando você se decidir... Qual caminho você irá tomar?
Stiles olhou o relógio mais uma vez. Não tinha nada de diferente nele, era só um relógio de parede, daqueles de plástico e redondo. Stiles não achava que o relógio tivesse alguma coisa realmente haver com o que estava acontecendo. Mas ele sabia que tinha alguma coisa alí, uma terceira opção.
Ele voltou a olhar sua mãe na cama.
Qual era o papel dela naquilo tudo? Por que aquela memória? Quer dizer, era óbvio que aquela era uma lembrança triste. Era o dia em que sua mãe morria, foi o dia mais triste em sua vida até o presente momento. Mas por quê? Por que aquela memória? Haviam tantas outras opções... Não é como se Stiles não gostasse da ideia de ter sua mãe de volta. Ele adorava a ideia. Mas... Era triste, mas não era um momento em sua vida do qual ele se arrependia. Sua mãe havia morrido por causa de uma doença a final de contas. Ele não podia fazer nada a respeito daquilo. É a vida, as pessoa nascem, crescem e então morrem. Algumas mais cedo do que as outras, mas era isso. Fim. Stiles não se arrempedia de como as coisas terminaram para ele, ele só se sentia triste porque era sua mãe quem havia morrido. Ele se despediu dela, ele a disse que a amava e ela o disse de volta. Se tinha alguma coisa da qual ele se arrependia, era o fato de que seu pai não teve esse mesmo privilégio. Seu pai não se despediu. Quando ele chegou ao hospital, sua mãe já estava morta. É claro que com a morte dela, tudo ficou diferente, Stiles ficou diferente, seu pai ficou diferente, a vida deles mudou completamente. Mas não era algo do qual ele se arrependia, porque ele não foi realmente a causa. O quê naquele momento apenas o fazia se sentir mais no meio de algum tipo de pegadinha. Scott ter sido mordido por Peter foi sua culpa, Derek ter sido paralisado pelo kanima foi sua culpa, seu pai perder temporariamente seu posto com xerife foi sua culpa, ele receber notas baixas em algumas matérias escolares é sua culpa, isso tudo porque nesses casos, tudo o que aconteceu foi porque Stiles fez algo que induziu esses acontecimentos, então esses acontecimentos poderiam ser algo do qual ele se arrependeria. Mas a morte de sua mãe? Como sua própria morte mudaria alguma coisa? Como ele pode ter certeza de que nesse "universo paralelo" sua mãe não irá ficar doente de novo? Ou então o problema no coração de seu pai for algo pior e ele morrer? Ou se o próprio Stiles morrer? O que, exatamente, o garante que essa suposta nova vida seria algo realmente feliz? Stiles adoraria ter sua mãe de volta, mas ele também não quer perder o que ele tem agora. Seus amigos, sua aproximação com seu pai, Derek. Meu Deus, Stiles não teria Derek nesse outro universo. Ele nunca o conheceria, e provavelmente continuaria se humilhando para conseguir um 'bom dia' de Lydia. Stiles não quer perder o que ele tem com Derek. Tipo, eles nem começaram ainda direito, eles ainda não tiveram tempo de sair, e rir e guardar memórias. Eles ainda não tiveram tempo de discutir, e conversar, e fazer as pazes. Eles ainda não tiveram tempo de se conhecer a fundo, de conviver e se acostumar com as manias um do outro. A relação deles era nova, mas Stiles gostava de Derek. Ele gostava muito mesmo de Derek. Ele não queria perder os olhares julgadores, as sobrancelhas que pareciam ter vida própria. Ele não queria ficar sem o humor seco, ou o sorriso com os dentes de coelho dele. Stiles não queria perder a voz suave e a pose de bad boy. Ele não queria se esquecer dos momentos em que eles se salvaram e discutiram e se empurram e se entenderam. Ele não quer esquecer o momento em que ele percebeu que Derek não era só um alfa, mas sim, o seu alfa, o cara que ele estava disposto a ajudar e seguir em frente. Stiles queria ter mais tempo nesse seu mundo que não era perfeito, mas era um lugar em que ele podia ter seus momentos de felicidade, e pessoas com quem compartilhar essa felicidade junto.
Seria ótimo ter sua mãe de volta, mas toda essa história de universo paralelo e 'escolhas' não estava fazendo sentido algum. Stiles era um alquimista, ele já leu sobre pessoas que tentaram trazer os mortos de volta a vida, e isso nunca terminou bem pra ninguém. Stiles até mesmo acreditava em algum outro universo parecido com o seu próprio, mas com acontecimentos diferentes, mas tudo aquilo parecia ser fácil demais. Quer dizer, por que uma criatura tão poderosa a ponto de te fazer conseguir uma segunda chance em uma vida nova, faria isso? Assim, de graça? Isso não fazia sentido. Okay, você tem de se matar ou sei lá, mas quem não gostaria de começar de novo? Evitar todos os erros que você já cometeu? Não seria perfeito? Mas por que alguém faria isso por você? Por que você tem de morrer para conseguir isso? Se tudo o que a Hag quer é te dar uma segunda chance na vida para que você não sofra tudo o você sofreu, por que ela simplesmente não o faz? Por que pegar sua vida em troca? Não está certo... Não faz sentido... Stiles não escolheu o futuro de sua mãe, a morte dela não foi algo que ele pudesse realmente opinar sobre. Então porque ele estava revivendo aquele momento? Por que sua mãe estava ali? Ele tem de fazer uma escolha para sair daquela "lembrança", mas qual escolha realmente era essa? Tinha de haver uma terceira opção...
Espera, espera, espera.... Sua mãe disse algo sobre ele ganhar um prêmio se fizer o que é esperado ou alguma coisa assim... Fazer o que é esperado? O que seria isso, morrer? Aceitar essa segunda chance?
Stiles girou no lugar e voltou a passos pesados até sua mãe na maca. Ela ainda o olhava como se já soubesse o que ele iria fazer.
—Você já sabe o que eu irei fazer. -Apontou Stiles, e Claudia suspirou cansada antes de sorrir.
—É claro que eu sei... Você é meu filho, Stiles, eu sei que você é inteligente e que irá fazer a escolha certa.
—Você não está zangada? — Perguntou Stiles, e Claudia apenas riu baixo de forma fraca.
—Não, eu não estou. Em verdade... — Claudia começou a tentar de sentar, e Stiles a ajudou até que ela conseguisse sentar de lado na cama e firmar os pés no chão. Ela apertou sua mão. -Eu estou muito orgulhosa de você. — Stiles sentiu seus olhos começarem a arder e lágrimas começaram a se formar. Sua garganta estava fechada, e seu peito pesado. — Agora, me ajude chegar até a janela... Eu quero te ver uma última vez antes de você partir.
Stiles franziu o cenho e então voltou a olhar ao seu redor, e lá estava a janela, no lugar do armário. Ele nem mesmo questionou o aparecimento da janela no quarto, apenas ajudou sua mãe a se levantar, observando a forma metódica com que ela desplugava os aparelhos ligados nela e puxava a agulha do soro de sua mão. Eles andaram de forma lenta até a janela que era grande e tinha um parapeito largo o suficiente para alguém sentar alí. Os dois ficaram lado a lado e olharam para fora na paisagem borrada que aparecia depois da janela.
Claudia apoiou as mãos no parapeito e olhou para baixo.
—É bem alto. — Comentou ela, e Stiles engoliu um nó em sua garganta.
—Eu não quero fazer isso...
—Eu sei. Mas é preciso.... Vai ficar tudo bem, Stiles. — Eles voltaram a se olhar, e Stiles entendia agora porque sua mãe parecia triste desde o início. Era porque ela já sabia.
Stiles fechou os olhos assim que começou a ouvir os mesmos sussuros no ar de novo. Ele podia os ouvir falar, mas ele ainda não entendia o que eles diziam. As vozes sumiram e ele abriu os olhos, encontrando o olhar entendedor de sua mãe.
—Você consegue os ouvir, não é? — Perguntou ela, e Stiles limpou uma lágrima rapidamente antes de afirmar com um aceno de cabeça. Sua mãe sorriu.
—O que são essas vozes? Eu consigo os ouvir, mas eu não entendo o que eles dizem. — Claudia trouxe uma mão para o rosto de Stiles, acariciando de forma lenta.
—Você logo descobrirá, não se preocupe com isso agora. Aqui, me ajude a sentar no parapeito.
Stiles a obedeceu, ajudando-a a sentar na janela de costas para a paisagem antes de sentar ao lado dela e também olhar o quarto de hospital mais uma vez. Sua mãe segurou sua mão.
—Preparado? — Perguntou ela, e Stiles negou com um aceno de cabeça. Cláudia riu um pouco.
—Não tem mesmo outro jeito?
—Você sabe que não, querido. Mas não se preocupe com isso, será rápido, e você pode fechar os olhos se quiser.
—Eu não quero perder você de novo...
—Você não vai. — Eles trocaram mais um olhar, e Claudia abriu um outro sorriso, antes de soltar seu agarre na mão de Stiles e se virar um pouco para poder colocar a outra mão no peito de Stiles. — Eu sempre estarei com você, bem aqui. — Concluiu ela com um sorriso, e Stiles deixou mais algumas lágrimas escaparem antes de levar sua própria mão a mão de sua mãe sobre seu peito.
—Eu te amo, Mãe.
—Eu também te amo, meu filho.
E então Claudia trouxe a mão de Stiles para seu próprio peito, e Stiles a empurrou. Ele a olhou cair, e o sorriso dela foi a última coisa que ele viu antes de fechar seus olhos com força e ignorar o peso e a agonia que ele sentia em seu corpo.
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