Ato III

Cena I

Entram três jornalistas, conversando entre si.

JORNALISTA UM – Bem, foi aqui que o tal “Morcego Humano” foi visto na noite passada, em companhia de mais dois fantasiados... Só que esses, segundo consta, eram criminosos! Será que os fora-da-lei também decidiram aderir à moda que ele iniciou?

JORNALISTA DOIS – Não duvido nada, ainda mais porque acredito que esse tal Batman não passe de um pirado! Algum doido que fugiu do Asilo Arkham e resolveu combater aqueles com a mente tão desequilibrada quanto a sua!

JORNALISTA TRÊS – Você realmente pensa assim?

JORNALISTA DOIS – E quem mais além de um louco seria capaz de sair pela noite vestido de morcego, enfrentando bandidos perigosos e armados? Eu não teria coragem!

JORNALISTA TRÊS – Isso é porque você só é mais um dos cidadãos covardes e conformados de Gotham. Não foge ao estereotipo daqueles que cruzam os braços diante da corrupção e da injustiça nesta cidade...

JORNALISTA DOIS, irritado e fechando os punhos – O que está insinuando?

JORNALISTA TRÊS – Eu apenas acredito que o Batman não é um maníaco fantasiado, nem qualquer tipo de lunático. Ele é uma manifestação material da alma de Gotham City, deixando clara a ira da cidade contra toda a degradação que a tomou. As ruas estão cheias de assaltantes, prostitutas e traficantes. Os mafiosos e chefões do crime mandam mais do que as autoridades públicas. Batman é um espectro noturno, uma gárgula, a essência de Gotham tomando forma para combater tudo isso!

JORNALISTA UM – Eu não diria que Batman é a alma de Gotham... Mas na verdade luta por ela! Trava uma incansável batalha contra os criminosos e agentes da injustiça para evitar que eles corrompam os corações da metrópole!

JORNALISTA DOIS – Vocês dois já estão soando poéticos demais para mim... (Aponta para a direita do palco). Nós viemos até aqui tentar uma entrevista com o tenente Gordon... Não é ele que vem logo ali?

Cena II

Entra o tenente Jim Gordon pela direita. É cercado pelo trio de jornalistas.

JORNALISTA TRÊS – Tenente Gordon, tenente Gordon! Sua cruzada contra a corrupção dentro da polícia de Gotham está progredindo?

GORDON – Graças ao empenho de nossos oficiais e informantes, estamos sim conseguindo limpar o Departamento de Polícia de maus elementos que emperram nossa luta contra o crime na cidade. Em breve teremos somente policiais honestos e dedicados zelando pela população!

JORNALISTA DOIS – E quanto ao controverso justiceiro alcunhado de “Batman”, tenente? Qual a posição da polícia perante ele?

GORDON – Qualquer pessoa que tente fazer justiça com as próprias mãos será detida imediatamente pelas autoridades. Ainda não confirmamos a existência desse tal Batman, porém nenhum vigilante poderá agir livremente em Gotham!

JORNALISTA UM – Confirmar a existência? Os relatos sobre as aparições dele já circulam por um bom tempo! Não acha que há algo de verdadeiro nisso tudo?

GORDON – O Departamento prefere conseguir evidências mais concretas antes de formar uma força-tarefa para caçar uma lenda urbana! (Abre caminho entre os jornalistas). Até mais! (Sai).

JORNALISTA DOIS – Esse Gordon... Sempre evasivo!

JORNALISTA TRÊS – Ele é um dos poucos bons tiras que ainda temos...

JORNALISTA UM – Ao menos conseguimos algumas palavras da parte dele... Que tal irmos tomar um café?

JORNALISTA DOIS – Não precisa falar duas vezes! (Saem).

Cena III


Entra Renee Montoya. Depois Bruce Wayne, disfarçado.

MONTOYA, segurando uma carta com uma mão e seu revólver com a outra – Isto foi endereçado a mim secretamente através do Departamento, o remetente é anônimo... Apenas pediu para eu encontrá-lo aqui neste beco. Será que é algum tipo de emboscada? Bem, se for, eu estou armada e pronta para reagir! (Entra Bruce, usando barba postiça e óculos escuros, além de um paletó surrado. Traz um envelope fechado numa das mãos).

BRUCE – Boa tarde, oficial!

MONTOYA, apontando a arma – Quem é você?

BRUCE – Não se preocupe, eu venho em paz. Estou desarmado.

MONTOYA – Qual o seu nome?

BRUCE – Fósforos. Fósforos Malone.

MONTOYA, abaixando a arma – É um nome meio incomum!

BRUCE – Meu pai era italiano e minha mãe irlandesa.

MONTOYA – E o que você quer?

BRUCE – Você trabalha em parceria com o tenente Jim Gordon na polícia, correto?

MONTOYA – Sim... Qual o seu interesse nisso?

BRUCE, estendendo o envelope – Preciso que entregue isto a ele!

MONTOYA – Como vou saber se não é uma carta-bomba ou algum outro tipo de ameaça?

BRUCE – Se eu quisesse matar Gordon, já teria comprado algum policial para fazer o trabalho sujo. É assim que as coisas funcionam nesta cidade. E, com a ajuda do tenente, eu pretendo mudar isso.

MONTOYA, apanhando o envelope – Eu posso me complicar se você no final não se mostrar confiável.

BRUCE – Gotham nunca foi confiável. Espero apenas contar com seu esforço.

MONTOYA, virando-se de costas e caminhando – Eu espero que você esteja realmente do lado dos mocinhos... Esta cidade está morrendo, e já tem vilões suficientes! (Bruce sai sem que ela perceba). Todos os tiras honestos se alinharam com o tenente Gordon em sua guerra ao crime organizado. Corremos risco de morte atuando com ele, porém é o mínimo que alguém que ainda acredita em Gotham pode fazer, não concorda? (Vira-se). Ué, mas pra onde ele foi? Ah... Gotham! (Sai).

Cena IV


Entram o Coringa e sua gangue. Depois Mulher-Gato.

CORINGA – Eu não acredito, não acredito! Eu espalho minhas cartas por aí, faço barulho, semeio o caos... E fico em segundo plano nas notícias, ofuscado pelo maldito Batman!

CAPANGA UM – Ah, talvez depois que eles se cansarem de falar do Batman, chefe, eles falem do senhor!

CORINGA – Hum, você acha? Olha pra minha cara, e veja se estou sorrindo! (Gargalhando). Ha, ha, ha, você entendeu? Sorrindo!

CAPANGA DOIS – Afinal, chefe, como você conseguiu esse sorriso permanente no rosto?

CORINGA – Sabe que nem eu me lembro?

MULHER-GATO, entrando – Quem sabe não foi se esforçando ao máximo para rir dessas suas péssimas piadas? (Os capangas apontam suas armas para ela).

CORINGA – Ora, ora, a bichana resolveu voltar! Relaxem, pessoal! (Os capangas abaixam as armas). Vamos ver o que ela quer!

MULHER-GATO – Sei que nosso primeiro contato não foi lá muito amistoso, mas estou aqui para tratar de um interesse que temos em comum!

CORINGA – Qual? Roubar a cena com nossos dotes teatrais?

MULHER-GATO – Livrar-nos do Batman!

CORINGA – Livrar-nos dele? Eu confesso que gosto do Morcegão... Ele faz com que as coisas tenham mais graça! Seria muito chato se eu assaltasse um banco aqui ou fizesse uma chacina ali sem que alguém viesse me impedir!

MULHER-GATO – Ele é uma pedra em nossos sapatos, deve ser removida! Com ele fora do caminho, Gotham estará livre para ser saqueada por nós, e poderemos dividir o produto dos roubos!

CORINGA – Eu não confio em gatos!

MULHER-GATO – E quem disse que eu confio em palhaços? Só vim aqui para propor algo que pode beneficiar ambos os lados. Não pense que eu simpatizo com você e sua quadrilha!

CORINGA – Então o plano é matar o Batman... Eu gosto de uma boa carnificina, não vou negar... Mas como podemos fazer isso? Botar as mãos naquele desgraçado é tão difícil quanto ganhar na loteria!

MULHER-GATO – Nós temos de observá-lo, e pegá-lo quando estiver desprevenido... Num momento de fraqueza e impotência!

CORINGA – Que tal quando ele estiver dormindo? Acho que podemos encontrá-lo pendurado de ponta-cabeça em algum poste por aí!

MULHER-GATO – Bastará ficarmos à espreita, e no momento certo...

CORINGA – Dar o bote!

MULHER-GATO – Esse é o espírito!

CAPANGA DOIS – Chefe, então quer dizer que agora também teremos de seguir ordens dela?

CORINGA – É claro que não! Nós vamos apenas trabalhar em parceria com a senhorita em questão... E se ela ousar nos passar para trás, a mataremos de tanto rir, ha, ha, ha, ha, ha!

MULHER-GATO – Contanto que não ameacem meus interesses, vocês serão bons aliados!

CORINGA, envolvendo Mulher-Gato com um dos braços e saindo andando com ela – Com certeza, minha cara felina... Com certeza! (Saem todos).

Cena V


Entra Jim Gordon. Depois Batman.

GORDON, olhando ao redor – Mas era só o que me faltava... Um tal de Malone entrega a Montoya uma carta de alguém que me apóia e quer me encontrar na calada da noite... Se for coisa da máfia, estou em maus lençóis!

BATMAN, surgindo de repente – Muito pelo contrário, agora as coisas vão melhorar!

GORDON – Você!

BATMAN – Fósforos Malone é um dos meus contatos no submundo. Ele arranjou o nosso encontro.

GORDON – Mas... O que você quer de mim?

BATMAN – Você é um bom tira, tenente Gordon. Um dos poucos que ainda restam. Eu preciso de um aliado, alguém dentro da polícia com quem eu possa manter contato e buscar auxílio.

GORDON – Você é um vigilante... Não sei se posso apoiar suas ações...

BATMAN – Não estou pedindo que apóie o que faço, tenente. Eu apenas faço o que é necessário, pelo bem da população desta cidade. Se acreditar em mim, podemos botar todos os corruptos e psicopatas de Gotham atrás das grades!

GORDON – Como posso saber se você é mesmo confiável? Usa uma máscara!

BATMAN – Eu quero ajudar no trabalho daqueles que também promovem a justiça e não usam máscaras, tenente!

GORDON – Admito que estamos precisando mesmo de ajuda... Mais da metade do Departamento é pago por criminosos para atrapalhar nossas operações... Sem contar esses novos meliantes que surgiram, de acordo com os boatos... O palhaço das cartas-coringa e a mulher vestida de gato... Acho que eles meio que se inspiraram em você...

BATMAN – E isso me incentiva ainda mais a capturá-los. Porém, acredito que os tiras corruptos sejam nossa prioridade!

GORDON – Nós já estamos trabalhando nisso, a partir de um sistema de informantes... Aliás, quero que conheça um deles! Joe, venha até aqui!

Cena VI


Entra Joe Chill.

GORDON – Este é Joe Chill, ex-assaltante de rua, que está nos ajudando a tirar de circulação todos os oficiais que recebem propina! (Batman fica olhando fixamente para Joe, imóvel). Algum problema?

JOE – Ora, tenente, deve ir contra os princípios dele trabalhar em conjunto com bandidos, não é mesmo? Ainda mais um tão vagabundo quanto eu!

BATMAN – Você... Ele é...

GORDON – O que há de errado?

JOE, estendendo uma mão para Batman – Vai ser muito bom trabalhar contigo, Morcego! (Batman se recusa a cumprimentá-lo). Bem, como quiser...

GORDON – Estamos fazendo um bom trabalho tirando os maus tiras das ruas, mas é mais difícil identificar alguns deles... Além, é claro, de nossos métodos de persuasão não conseguirem fazer os envolvidos abrirem a boca...

BATMAN – Eu vou ver o que posso fazer! (Faz menção de sair).

GORDON – Hei, como eu encontro você?

BATMAN – Eu o encontrarei! (Sai).

JOE – Xi... O Morcego parece estar meio “boladão”, tenente!

GORDON – É, eu também o achei meio estranho...

JOE – Vamos tomar aquele suco que combinamos? Tenho algumas novidades sobre os policiais corruptos do Bowery!

GORDON – OK, vamos lá... (Saem).

Cena VII


Entra Batman.

BATMAN, só – Ele... O assassino dos meus pais! Após tanto tempo, eu o reencontrei! É minha chance... Minha chance de consolidar a minha vingança! (Pára no centro do palco, cabeça baixa. Após alguns instantes desse modo, a música já começando a tocar rumo ao clímax, ergue a face e começa a cantar).

Canção V

“Vingança”

(Melodia: “Charge of the Batmobile”, de Danny Elfman –http://www.youtube.com/watch?v=ZWxCwwfiT7c, de 0:25 até o final).

BATMAN –Após tanto tempo, eu o reencontrei!

Joe Chill vai morrer!

(Agita a capa e fecha os punhos).

Não posso hesitar!

Meus pais eu vou vingar!

(Abaixa a cabeça)

Mas será que devo?

(Ergue-a novamente).

Meu destino!

Minha vida!

Coragem!

Justiça!

Vingança!

Justiça?

Que faço?

O que é certo?

Não sei mais dizer...

(Abaixa de novo a cabeça).

Cena VIII


Entra Alfred.

ALFRED – Algum problema, patrão Bruce?

BATMAN – Após tantos anos, eu volto a encontrar o mesmo rosto, Alfred... O assaltante daquela noite escura e fria! Passei toda a minha juventude viajando pelo mundo para me tornar o que me tornei, treinando com os maiores mestres, preparando-me para este momento... E agora não sei o que fazer!

ALFRED – Pelo que me disse antes, patrão Bruce, seu objetivo ao assumir o manto era trazer esperança a Gotham City, ser um símbolo de mudança para o povo! Trazer justiça, não vingança, nem mortes!

BATMAN – Ele matou meus pais!

ALFRED – Ele é um assassino, patrão Bruce. Mas tenho certeza de que o Batman não é!

BATMAN, após uma pausa e levantando a cabeça – Você se lembra da arma que ele usou aquela noite? A que usou para disparar contra os dois?

ALFRED – Sim. Na época a polícia encontrou-a jogada numa rua perto do beco onde tudo aconteceu. Não havia impressões digitais nela, porém o Departamento a guardou mesmo assim, como evidência.

BATMAN – Até que eu pedi que você a recuperasse e a guardasse na mansão, certo?

ALFRED – Sim, e ela ainda está lá!

BATMAN – Pois bem. Traga-a para mim o quanto antes.

ALFRED – Mas patrão Bruce...

BATMAN, gritando – Eu disse para trazê-la! (Sai Alfred).

Cena IX


Volta Alfred, trazendo uma pequena caixa de madeira em mãos. Ele a entrega triste a Batman, que a abre e retira de dentro o revólver que Joe Chill usou para assassinar seus pais. A trilha “Batman: The Mask of The Phantasm Main Theme”, de Shirley Walker (http://www.youtube.com/watch?v=uWoXlYNwgaM), toca ao fundo, dando maior intensidade à cena.

BATMAN – Eu terei a minha vingança! (Sai junto com Alfred).

Continua...