Batman - A Loucura do Morcego
8 Capítulo 8 - Final
Isso é suicídio, pensou Coringa. Aquele que sempre impedia as suas mais sombrias loucuras conseguiu supera-lo neste quesito. Batman estava mal se mantendo em pé, mesmo assim espera Superman vindo em sua direção, pronto para lutar. Sem kryptonita. Sem proteção nenhuma. Nem a mente perturbada de Coringa conseguia aceitar aquilo que viria a acontecer. E isso o assustava. Talvez, nestes dias que se passaram com Batman, o protetor de Gotham, transformando-a em cinzas, uma lasca de sanidade brotara em sua mente. Isso o assustava. Sempre achava que no fim Batman iria surtar e tirar a sua vida. Era a morte que Coringa queria, desde que passou a conhecer seu fabuloso adversário. Iria morrer com o seu melhor sorriso, neste momento. Entretanto, Batman fez bem pior. Fez o que todos diziam ser impossível e incurável. Devolveu a ordem do caos que era sua mente. Ele não queria mais sorrir.
Há três metros de distancia de Batman, Superman parou de andar. Algo o estava incomodando-o. Usou novamente sua visão de raio-x em Batman. Novamente sem nenhum vestígio de kryptonita. Estava fácil demais. Ele olhou para trás em direção a Coringa. Estava distante o suficiente para falar.
— Pela última vez, Bruce. – disse ele virando-se novamente para Batman. – Acabe com está insanidade. Se renda. A culpa não foi toda sua. Sei que o Coringa foi o que iniciou essa loucura toda. Ele que deixou você assim. Entregue e eu posso testemunhar ao seu favor. É meu último apelo.
Batman não falou nada e nem se mexeu. Seu rosto definhado sob a mascara mostrava apenas um sorriso torto. Superman também não reagia, mas sua expressão era séria e apreensiva. Então, a resposta de seu adversário foi dada:
— Venha logo. – desafiou, Batman. – E venha com tudo. Se não eu juro que quando acabarmos aqui a sua linda e luminosa cidade será a próxima que eu vou “limpar”, e com sua Lois nela.
O semblante de Superman mudou naquele mesmo momento. Agora ele carregava uma total determinação no olhar. Em menos de um segundo os três metros que distanciava os dois sumiram. Superman estava parado em frente a Batman e com um movimento arrancou o seu sinto de utilidades jogando-o para fora do prédio. Se haveria algum outro truque que Batman poderia utilizar fora a kryptonita este já foi anulado. Os dois combatentes olhavam um para o outro. Olho a olho.
— Acabou. – disse Superman. Ele coloca sua mão pesadamente no ombro esquerdo de Batman e o aperta o suficiente para que ele não tente fugir.
— Sim, acabou. – respondeu Batman. Subitamente ele desfere um soco cruzado de direita derrubando Superman no chão.
O tempo parecia ter parado. Coringa não acreditou no que havia acabado de acontecer. Superman estava caído no chão, tonteado e com sangue escorrendo pelo nariz.
— O q-que v-você fez?... ele olhou para cima. Sua visão estava turva. Mas viu Batman sorrir.
— Eu matei você. – Batman aplica um chute nas costelas de Superman, quebrando duas. O herói caído solta um grito de dor estridente. As costelas quebradas perfuraram seu pulmão que começa a encher de sangue. Batman se agacha e aperta sua mão contra o pescoço de Superman, levantando-o até ficarem olho a olho.
— Surpreso, Clark? – ele pergunta enquanto ri.
— N-não tinha... não tinha kryptonita...
— Devia ter procurado melhor! – Batman desfere um chute em Superman com a sola da bota. Ele cai para trás e se arrasta alguns metros no chão como se fosse um boneco.
Rapidamente, Batman anda em sua direção, agarra Superman pela capa e o arrasta até a mureta do terraço. Ele ainda estava cansado, como antes da luta. Estava usando todas as suas ultimas forças para isso. Coringa ainda não conseguia processar em sua mente aquilo tudo.
Chegando a mureta Batman levanta Superman novamente, e o joga com força contra ela fazendo sua coluna trincar e ele gritar de dor novamente. Batman mais uma vez olha em seus olhos:
— Sempre soubemos que se existisse um final seria você e eu os últimos. Os outros sempre nos víamos como a verdadeira dupla dinâmica, os superamigos. Eu era a “Mão-de-ferro” da Liga e você o pacificador. Uma balança que mantinham o equilíbrio perfeito. Eram o que eles sempre diziam. E eu até cheguei a acreditar um dia...
Batman desencosta Superman da mureta devagar. Ele estava pálido. Não conseguia nem falar nem respirar por causa dos pulmões encharcados de sangue – Queria que eles nós vissem agora. – Com um forte golpe, Batman arremessa Superman contra a mureta novamente. Ela arrebenta no local do impacto. Superman começa a cair os mais de cem andares da Torre Wayne. Ele sentiu a radiação de kryptonita passar, mas ele já havia perdido muito sangue. Era tarde demais. O som do seu corpo se chocando no asfalto liberou um eco que se espalhou pela cidade sitiada. E ali seria conhecido como o local da morte do Superman.
— V-você o matou... – disse Coringa olhando para baixo, por cima da mureta.
— Sim. – respondeu Batman. – Agora será mais fácil. Os outros, quando descobrirem, ficaram em choque. O luto irá deixá-los descuidados por um tempo
— C-como? Como fez isso? Ele disse que não tinha nenhuma...
— Kryptonita? – completou Batman. Em seguida deu uma gargalhada roca. Suas costelas doeram com isso. Ele se agarrou à mureta para não cair no chão. Estava cada vez parecendo pior. – Ele não olhou direito. Mais de perto.
Coringa o olhava sem entender.
— Eu injetei uma solução de kryptonita liquida, diluída em meu sangue. Ela emite radiação enquanto circula pelo meu sistema sanguíneo. Quando o grandão chegou perto ele pôde sentir. Infelizmente os efeitos colaterais são terríveis como você tá vendo.
Superman tinha razão, pensou Coringa. Batman é um gênio. Um gênio do crime. Um gênio insuperável.
— Mas não se preocupe. – disse Batman. – A solução vai sair do meu sistema em algumas horas. Depois nós poderemos continuar.
— “Nós”? Continuar o que? – perguntou Coringa. Batman olhou para ele e sorriu com um brilho no olhar.
— A Purificação. – ele então se ergueu e olhou para o horizonte. Vamos limpar todas as cidades de todo o mal. Não do jeito que o Superman ou os outros faziam. Porque já sabemos que do jeito deles o mal sempre volta. Gotham foi a primeira de muitas. Vamos destruir para reconstruir. – Batman vai em direção ao Coringa. Ele andava mais devagar ainda. Então ele coloca as mãos nos ombros do palhaço.
— Você me mostrou a verdade. A sujeira que o mundo é. O mundo civilizado é uma farsa. Sempre foi. No começo os homens se matavam só de receberem uma provocação, ou mesmo um olhar torto de alguém. O homem era um selvagem que foi domado. Ele é uma panela de pressão que sempre vai explodir. As leis não servem pra nada. Até quem as cria as quebra também. A “civilização” passou séculos tentando reprimir os extintos dos humanos. A vontade de ser e fazer o que desejar só pelo prazer. E você, meu amigo, sempre foi o maior exemplo disso. E eu o odiava por isso. Agora, graças, a você, eu entendo.
Coringa abaixa o seu olhar. Não conseguia mais encarar Batman.
— S-se eu soubesse... – começou a falar.
— O que? Não teria explodido o hospital. Acha que foi isso que me libertou da minha prisão moral? – Batman dá uma gargalhada olhando pro alto. – Isso já estava dentro de mim. Está dentro de cada miserável hipócrita neste mundo.
Batman aproxima seu rosto ao de Coringa.
— Vamos, meu amigo. Vamos fazer o mundo voltar ao que era. Destruir essa sociedade que oprime nossas vontades e instintos. O que me diz?
Coringa ainda não consegui encarar Batman. Um sentimento avassalador de culpa o destruía por dentro. Ele tomou folego e suspirou. De repente sentiu um alivio e sorriu.
— É você tem razão. – disse olhando para Batman. – Isso era tudo o que eu sempre queria. Um mundo em que todos iriam ver meu grande sorriso. – Batman fez uma cara de satisfação. De repente o rosto de Coringa ficou sombrio – MAS VOCÊ TOROU ELE DE MIM!
Coringa agarrou Batman e o empurrou contra o buraco que Superman na mureta quando foi arremessado. Os dois começaram a cair. Mas Coringa não soltou seu inimigo. Sua fúria o fazia gritar
— Você tirou tudo de mim!!! Tudo era tão bom antes!! Eu aprontava e você me prendia e eu voltava!! Não importava o que eu fizesse!! Já matei mais gente que posso lembrar e você sempre foi o mesmo!! Por que isso agora? POR QUE?!!
Batman tentava se soltar das mãos dele. Mas ainda estava muito fraco pela kryptonita em seu corpo.
— Só por causa de um monte de crianças idiotas?!! Sim, posso ter exagerado! Posso ter ultrapassado o limite!! Mas você sabia! Você sempre soube que eu sempre ousaria mais e mais!! Mas era pra você ter aguentado. Ter se enfurecido e me prendido. COMO SEMPRE FOI! Você acabou com tudo! Com toda a diversão!! Você ousou se transformar em mim.
Eles estavam a poucos andares do chão. Batman tentou pegar a sua corda em seu cinto. Mas o sinto não estava lá. Superman o havia tirado na luta. O desespero voltou ao olhar de Batman pela primeira vez desde que essa loucura começou. E o olhar de Coringa o destruía mais ainda.
— E o pior de tudo. – disse Coringa. – Eu me transformei em você.
Necrotério de Gotham. Uma semana depois.
— E então, o que tem para mim? – perguntou a Comissário Montoya.
— Não está tudo muito claro ainda. – respondeu o legista.
— Como assim?
— Não tenho ideia de quem matou quem. Veja bem, o Superman foi o primeiro a morrer, com certeza.
O corpo de Superman estava deitado nu em cima de uma mesa de legista. Se ossos estavam todos quebrados.
— Pelo exame de sangue preliminar foi constatado que suas células estavam em um estado de deterioração. Igual quando está exposto à kryptonita. – explicou o legista.
— E os outros dois? – Montoya olhou para os corpos de Batman e Coringa. Também quebrados. – E quem diria que Bruce Wayne era o Batman esse tempo todo...
— Aí é que as coisas ficam complicadas de definir. O corpo do senhor Wayne continha uma grande quantidade de kryptonita diluída no sistema sanguíneo. Provavelmente a que fez mal ao Superman. Mas não dá pra dizer se foi o Coringa que injetou nele para que se matassem ou foi o próprio Bruce que fez isso consigo...
— E por que ele faria isso? – perguntou Montoya.
— Bem, ele estava meio fora de si esses dias, não é?...
Montoya ficou em silencio por alguns instantes.
— Então está me dizendo que o Batman pode ter enfraquecido o Superman e jogado ele do prédio. Mas como ele e o Coringa caíram? Quero dizer, devem ter lutado, mas acho estranho. Batman havia dito na televisão que o Coringa meio que fez um favor a ele. Achei que eles poderiam estar trabalhando juntos nesse caos todo.
— Loucos dizem muitas coisas. – disse o legista. – Mas se você me desse mais tempo e também para a perícia no local, talvez a gente possa esclarecer o que houve.
— Eu não tenho mais o privilégio do tempo. Tem um mar de repórteres lá fora neste exato momento. Repórteres do país todo! A segunda morte do Superman se espalhou feito fogo de palha. Deve ter sido algum idiota da vizinhança que filmou e jogou na internet. E eu não quero dar o privilegio do FBI de dar a primeira palavra sobre isso. Gotham foi arrasada nas ultimas semanas. Os cidadão estão em pânico, sem esperança. Tudo culpa desse palhaço idiota! – ela cuspiu no cadáver de Coringa.
— Mas isso tudo foi obra do Batman...
— Não! – retrucou Montoya – Batman enlouqueceu por causa desse lunático. Batman sempre defendeu Gotham. Mesmo nas piores crises! E agora vai morrer com a imagem de um supervilão. Não deixarei. Gordon não deixaria!
— Bem, e o que dirá a eles, então?
Povo de Gotham. Povo da America. – do alto de um palanque a Comissária Montoya começava o seu relatório improvisado para um mar de pessoas com canetas, blocos de papel e câmeras fotográficas. – Como todos sabem, nas últimas semanas nossa cidade foi sitiada de forma terrorista. O número de mortos ainda estão sendo calculados. E o preço da destruição ainda está sendo levantado. Mas tudo voltará ao normal. Mas sei que estão aqui pela noticia viral do assassinato do Superman que ocorreu a poucas horas aqui em nossa cidade. Como todos devem saber Batman e Coringa estão envolvidos. E todos também viram que o nosso defensor foi o responsável pela onda de destruição na cidade que ele passou anos protegendo. Mas quero que saibam que após uma minuciosa análise no corpo do cadáver de Batman algo se mostrou revelador. Ele estava contaminado por uma substancia peculiar. Ela que o fez agir do modo que agiu nessas últimas semanas. Sabemos disso porque a origem dessa substancia é parecida com o gás do riso do vilão Coringa. Isso mesmo que vocês ouviram. Batman estava sendo controlado pelo Coringa este tempo todo!
Começou uma balburdia. Todos falavam ao mesmo tempo. Surpresos, descrentes, aliviados e duvidosos. Os repórteres do país todo faziam perguntas uma atrás da outra. Mas apenas uma foi ouvida.
— Quem matou o Superman?
Montoya suspirou antes de falar.
— De algum modo Coringa fez Batman chamar o Superman. Mas antes injetou um tipo de kryptonita liquida nele. Superman não pôde perceber a tempo, então a ordem de Coringa atacar foi dada. Batman e Superman lutaram por alguns instantes.
— Então Batman que matou o Superman? – gritou um. E o alvoroço dos repórteres cresceu de novo.
— Silêncio! – ordenou Montoya. – De acordo com a perícia feita no local da luta, que foi o terraço do prédio da Wayne Interprise, Batman arremessou o ferido Superman contra a mureta de proteção do terraço. Mas ele não caiu. Antes de dar o golpe fatal Batman parou, Provavelmente o efeito da droga estava passando. E, para não perder a oportunidade, Coringa atacou Superman arremessando ele do prédio. Ao ver aquilo Batman foi de encontro de Coringa, mas é possível que ainda estivesse fraco pela droga. Coringa tirou facilmente o cinto de utilidades de Batman. Os dois lutaram. E, com um esforço e sacrifício final, Batman se jogou do prédio junto do seu inimigo. Encerrando de vez a vida desse lunático.
Houve uma explosão de vozes. Os repórteres estavam descontrolados. Uma enxurrada de perguntas inaudíveis foram lançadas. Montoya apenas fez sinal de que acabou e foi embora. Ela voltou a sala de autopsia. O legista ainda estava lá entre os três corpos.
— Eu ouvi tudo. Você sabe que não foi bem assim. – disse ele.
— Não importa como foi. Importa o que as pessoas querem que tenha sido. Batman era o herói de Gotham e será enterrado como um herói. O mesmo com Superman em Metropolis.
O legista fez silencio. Ele olhava para o corpo deformado de Batman. Estava sem a máscara. O sorriso torto entre os dentes quebrados passava uma sensação ruim. Já Superman mostrava uma face tranquila. Por fim, o rosto do cadáver de Coringa foi o que mais o chamou a atenção. Estava triste. Como alguém que perdeu tudo o que tinha antes de partir.
— E ele? – perguntou à Montoya.
Ela olhou para Coringa com desprezo.
— Queima até virar cinzas e jogue-as no primeiro esgoto que achar. – ela se virou e foi embora de vez.
Epilogo
Durante três dias houve luto nacional em vários países no mundo. A morte do Superman foi sentida por todos aqueles que ele salvou, ajudou, inspirou e amou. Uma multidão incontável de pessoas estava em seu enterro na capital dos EUA, Washington, DC. A noticia de que o Coringa foi seu assassino continuou sendo alvo de suspeita para muitos. Como uma teoria da conspiração. Muitos céticos não aceitavam que um maluco sem poderes teria assassinado o homem mais forte do Mundo. Outros, entretanto, aceitaram sem questionar. Principalmente aqueles que conhecia bem o palhaço. Os cidadãos de Gotham City.
O luto pela morte de Batman também foi grande. No cemitério de Gotham seu enterro foi acompanhado por boa parte daqueles que não fugiram da cidade depois dos eventos arrasadores que ocorreram. Novamente alguns céticos resistiram a ideia de que foi o Coringa que forçou Batman a fazer essas coisas. Outros defendiam o Cavaleiro de Gotham com unhas e dentes. Sua identidade secreta, Bruce Wayne, continuou em segredo. A Comissária Montoya assim mandou. Segundo ela Batman deveria ser lembrando como Batman e não como um bilionário fantasiado. E assim ficou.
Enquanto Superman era enterrado na capital e Batman em Gotham um homem solitária caminhava entre os becos arrasados da cidade. Ele se agacha em um certo ponto e olha para os lados. Ele então abre um saco plástico e derrama um pó em um pequeno bueiro.
— Adeus, Coringa. – disse o médico legista.
As cinzas se espalharam pelo esgoto de águas sujas de urina e fezes. Ninguem jamais descobriu o que aconteceu no alto do prédio da Wayne Enterprise. E muito menos o que Coringa fez para salvar a cidade. Assim se foi Coringa, o salvador de Gotham.
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