Barriga de Aluguel
5 "Mudando de vida?!"
Notas iniciais
A porta da imensa cobertura foi aberta após saímos do elevador. Meus olhos viajaram de um lado ao outro do cômodo e fiquei pasma vendo o apenas o tamanho da sala. Depois que o motorista levou minha única e minúscula mala, Leonard agarrou minha mão e puxou-me para dentro de seu recinto gigantesco. Era uma sala grande e com móveis lindos e modernos. Uma das paredes era toda de vidro e podia-se ver um grande espaço do lado de fora. Uma piscina, um lugar de lazer para festas e mais ao fundo, podia ser visto o mar. Uma visão de tirar o fôlego.
— Essa é a sala de estar. Como pode ver, tem vista total para o mar e não se engane com a porta para o deque. Várias vezes já vi gente dar de cara no vidro por que errou onde ficava a porta — Ele disse um tanto sério e isso me fez rir enquanto olhava a parede de vidro tentando encontrar a porta camuflada entre as janelas — Ei, você riu?
— Sim, é proibido? — Perguntei e ele arqueou uma sobrancelha.
— Não, mas você nunca ri perto de mim...
— Talvez seja porque eu não ache graça das suas piadinhas bobas, Sr. Vargas. — Encarei-o e vi ele fazer uma careta de reprovação para o que eu havia falado.
— Não me chame de Senhor, por favor. Apenas León, okay? — Eu realmente me incomodava de chamar alguém que eu mal conhecia pelo seu apelido mas se é assim que ele quer, quem sou eu para discordar?
— Estou ouvindo a voz do meu Léonzinho em casa? — Uma voz feminina vinda de outro cômodo surgiu e eu levei um susto. Leonard olhou para mim e eu via em seus olhos que ele queria rir mas ele apenas sorriu. Segurou minha mão e me levou ao cômodo seguinte. Era uma cozinha. Não chegava a ser muito grande, era apenas o espaço para as bancadas, um fogão, dois fornos de parede e uma geladeira. Em um dos cantos tinha uma pequena mesa com quatro lugares e perto haviam alguns armários e uma porta, que deveria dar para a dispensa. Uma moça, aparentando ter uns cinquenta e poucos anos estava em frente a uma bancada sorrindo feito boba.
— Oi, Olga! — Ele a cumprimentou e ela piscou para ele.
— Quem é esse encanto? — Ela perguntou se referindo a mim. Dei um sorriso tímido e ela se aproximou — É finalmente uma namorada?
— Não, Olguinha — Ele exclamou um pouco alto de mais e eu corei de vergonha por ela ter pensado aquilo — Essa é Violetta, ela será a barriga de aluguel.
— A barriga de aluguel? Mas ela é tão jovem e tão magrinha...
— Eu tenho vinte e três anos, Dona Olga. Não sou tão jovem assim...
— E eu tenho vinte e cinco e um corpinho de sereia! — Ela exclamou sarcástica e eu ri. Olga era bem cheinha mas quem era eu naquele momento para dizer algo a respeito? Ela só estava brincando.
— Você ri das piadas dela e das minhas não? — Ele perguntou e fez um biquinho. Muito fofo para dizer a verdade.
— Ela tem senso de humor, você não! — Sorri e ele revirou os olhos teatralmente como se aquilo que ele tivesse escutado fosse a pior coisa que ele pudesse ouvir na vida.
— Vocês são tão lind... — Leonard a interrompeu.
— Olga... — Ele disse sério e ela se calou.
— Senhor, a loira apareceu aqui hoje mais cedo. Disse que é para ligar quando chegasse. — Ela disse indo pegar o telefone mas ele foi mais rápido e sacou o celular do bolso e quando a senhora voltou com o objeto ele já estava com o celular no ouvido.
— Olga, termine de mostrar a cobertura apara ela — Ele pediu sumindo em um dos corredores — Alô? Queria falar comigo, amor?
Amor? Ele tinha uma namorada e não me disse nada? Bom, eu sou apenas a barriga de aluguel, ele não é obrigado a me dar satisfações sobre sua vida amorosa e nem eu posso sair por aí querendo saber de toda a vida dele só porque acho ele atraente.
Dona Olga me chamou para me mostrar o resto do gigante apartamento. Passamos pela linda e imensa sala de jantar com direito a até um piano de calda.
— Não me pergunte como o colocaram lá, querida. Pra mim isso ainda é um mistério! — Olga disse arrancando uma gargalhada minha.
Ela me mostrou onde era a área de serviço e onde ficavam os banheiros do primeiro andar e me levou para conhecer o escritório de Leonard. Era bem espaçoso e incrivelmente bem decorado com todos os móveis em tons de cinza e branco. Uma mesa com um computador que me parecia ser extremamente caro, várias estantes repletas de livros e dois sofás perto da grande janela que mostrava parte da praia em frente ao prédio.
Fomos para o segundo andar onde ficavam os quartos. Haviam cinco, três com vista para o mar e dois com vista para cidade, como Olga havia dito. Ela passou pelo quarto de Leonard mas não se atreveu a mostrar, talvez porque ele não gostasse que entrassem lá.
— Não gosto muito de entrar no quarto do patrão, da última vez que entrei, sem querer interrompi um desfiles de cueca que ele estava fazendo para a loirinha — Ela riu da minha cara de espanto e me puxou para o quarto seguinte.
— Dona Olga, não há nada nesse quarto — Disse ao perceber que o quarto do meio era apenas um cômodo vazio. As paredes estavam pintadas de branco e havia apenas uma cortina também branca fechando a visão que a janela propiciava.
— Esse vai ser o quarto do bebê, por isso não tem nada — Assenti com a cabeça e me peguei pensando por alguns segundos naquele quarto com móveis claros e no estilo clássico. Várias pelúcias fofas espalhadas por estantes e nichos nas paredes e alguns brinquedos e roupinhas dobradas em cima do trocador. Inconscientemente me vi parada em frente ao berço, ninando um bebê e cantarolando algo para fazê-lo dormir. Mas isso nunca aconteceria, e eu estava bem ciente disso.
— Venha, Violetta. Acho que vai gostar do próximo — Ela disse animada e eu a acompanhei até o terceiro quarto.
Ela abriu-o e eu pude entrar no quarto mais lindo que eu já havia visto na vida. A cor em suas paredes era de um tom de rosa bebê. Havia uma escrivaninha branca com uma cadeira rosa felpuda. Não tinha armário, apenas uma cômoda com gavetas grandes e alguns objetos decorativos em cima. A cama de casal que ficava perto da janela tinha várias almofadas fofas em cima e dois criados mudos brancos um de cada lado com um abajur simples nos dois.
Dona Olga mostrou que aquele quarto era na verdade uma suíte e fiquei pasma ao ver uma jacuzzi dentro do banheiro. Ela também mostrou o gigante closet que a porta ao lado do banheiro dava. Eu não teria a quantidade de roupa para encher aquilo nem que eu comprasse todas as roupas da Forever 21 do mundo inteiro. Tudo bem... Eu estava exagerando um pouco mas não me culpem, eu nunca havia visto um closet desse tipo em toda a minha vida.
— Estou vendo que gostou do quarto — Leonard apareceu do nada, me dando um baita susto — E vejo também o quão fácil é te dar um susto!
— Você. É. Hi-lá-rio. — Disse com voz de tédio e ele me encarou segurando o riso — Mas respondendo a primeira observação que você fez, sim eu gostei. Caberiam facilmente uns três do meu quarto antigo aqui dentro.
— Bom, esse será o seu quarto durante o tempo que você passará aqui.
— Oh, céus! Isso é sério? — Perguntei não me contendo de tanta alegria — Muito obrigada, Leonard! — Corri e abracei-o mas me separando logo em seguida, corada de vergonha — Me... Me desculpe, foi impulso. Eu estou muito feliz como pôde perceber.
— Tudo bem, não foi nada — Ele deu de ombros e puxou do lado de fora a minha pequena mala — Pode arrumar suas coisas aí e às cinco quero você no meu escritório para podermos falar sobre o pagamento, tudo bem?
— Tudo ótimo — Respondi sorrindo e abri minha mala para tirar as poucas peças de roupas de lá.
— Está faltando alguma mala, Violetta? — Ele perguntou me encarando e eu sorri, tímida.
— Não, isso é tudo o que tenho. — Ele me encarou com os olhos arregalados e eu levei minha atenção à pilha de roupas que eu devia guardar e coloquei-as todas em apenas uma gaveta da cômoda, sobrando ainda um espaço para mais alguma coisa no futuro.
— A nossa discussão foi remarcada para agora, e é urgente — Ele disse arrancando uma leve risada minha.
— Foi remarcada porque você ficou com pena de mim e quer dar logo meu salário? — Perguntei e ele assentiu — Eu é que não vou fazer uma desfeita dessa!
Ele riu e pegou minha mão, me levando em direção à escada. Como ele estava acostumado a descer mais rápido, tropecei em um dos degraus. No fundo eu esperava rolar escada abaixo mas Leonard me agarrou antes que eu caísse de cara na escada e coisa pior acontecesse.
— Ei, calma! — Ele disse rindo — Você está bem?
— Sim, obrigada — Sorri grata e respirei aliviada quando chegamos ao último degrau.
— Vem, o escritório é por...
— León? — Uma loira, muito bonita e super bem vestida apareceu no nosso campo de visão, séria — Quem é essa, Leonard?
— Amor? Você não ía chegar à noite?
— Quem é ela, León? — Ela perguntou entre dentes e eu me assustei.
— É a barriga de aluguel, Ludmila! — Ele disse em um tom alto e me empurrou para dentro do seu escritório — Vou estar ocupado durante a próxima hora, faça o que quiser. Só não quebre nada!
— Eu... — Ela ía dizer algo mas Leonard fechou a porta com força e respirou fundo. Eu não falei nada, apenas sentei-me em uma das cadeiras em frente à sua mesa.
— Vamos ao que interessa? — Ele perguntou e eu não respondi — Violetta?
— Por que fez aquilo com a sua namorada? — Perguntei séria e ele me olhou surpreso. Talvez eu não devesse me meter na vida dele...
— Minha namorada? — Ele perguntou e eu continuei encarando-o — Ludmila não é minha namorada. Ela é apenas uma amiga chegada, mas é tão grudenta e mandona que até parece que é minha namorada.
— Me desculpe, Leonard. Eu não queria me meter na sua vida particular, não sou esse tipo de pessoa.
— E que tipo de pessoa você é? — Ele perguntou se aproximando mais de mim com um sorriso lindo estampado no rosto.
— Eu sou uma garota comum, que foi pobre desde que nasceu e nunca entrou uma vez sequer em um Mc Donald's.
— Você nunca foi a um Mc Donald's? — Ele me olhou assustado e eu assenti rindo — Em que mundo você vivia, Violetta?
— No mundo dos miseráveis, Senhor Vargas!
— Desculpe-me...
— Pelo quê? Era minha realidade, Leonard.
— Hum... Tudo bem — Ele disse se sentando em frente a mim e pegando alguns papéis — Vou te pagar em cheque, tudo bem? Será mais fácil e mais seguro.
— Como quiser.
Ele pegou o pequeno papel e começou a preenchê-lo e depois de alguns poucos minutos me entregou. Tinha uma contia muito grande escrita ali e eu me assustei por um momento. Só com aquele dinheiro Tia Angie poderia fazer a melhor e maior compra da vida dela, Tio Pablo podia começar a procurar uma casa nova e completa em outro lugar e terminar de pagar conforme eu fosse ganhando e Sofia poderia ser matriculada em uma escola de qualidade. Aquilo era demais pra mim. Nunca pensei em ganhar tanto em um emprego e agora eu podia ajudar e dar orgulho à minha família.
— Violetta? — Leonard chamou mas eu não atendi — Violetta, você está chorando? — Ele perguntou e eu assenti, sentindo minhas lágrimas escorrendo descontroladamente.
Levei uma mão à boca enquanto ainda olhava o cheque sem reação alguma.
LEONARD VARGAS
Ver Violetta daquele jeito me deixou preocupado. Ela estava chorando por que recebeu o salário? Eu não conseguia entender nada.
Levantei-me da minha cadeira e fui em sua direção para tentar consolá-la mas sem entender direito o que estaria se passando na cabeça dela. Puxei levemente seu braço para que ela levantasse e então a abracei, tentando transmitir o máximo de segurança a ela. Violetta apenas afundou seu rosto no meu peito e fungou algumas vezes antes de parar de chorar totalmente.
Ela levantou a cabeça para me encarar e eu pude então ver, bem de perto, aqueles lindos olhos castanhos que eu secretamente admirava desde que a vi pela primeira vez. Ela sorria fracamente e eu não estava diferente. Num impulso aproximei meu rosto do dela e ela do meu, ficando então a poucos centímetros de sua boca. Eu podia até sentir sua respiração descompassada.
Respirei fundo e... Me afastei.
— Le... — Ela ía falar algo mas eu a interrompi.
— Não vou me aproveitar do seu momento sensível, não sou assim.. — Disse, por fim e segurei sua mão, levando-a para um dos sofás e sentando com ela lá — Se acalme, depois saímos daqui, tudo bem?
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