Bandana Vermelha
5 O Festival e a Reunião com Skeller
Asara voltou para casa a passos leves e sem pressa. O fim da tarde demoraria para chegar e, até que tivesse que sair, ainda teria muito tempo para matar. Paco ainda brincava com os amigos nos arredores da casa — suas aulas haviam terminado então podia passar o tempo que quisesse do lado de fora — quando ela o chamou em meio a uma corrida.
— Vikrum está dormindo? — ela perguntou antes mesmo de entrar na casa. Sabia como o sono dele era importante e se entrasse fazendo qualquer barulho sequer poderia sofrer as consequências. — Na tapeçaria, está limpando algumas coisas — ele respondeu, se livrando das mãos da garota e correndo de volta para os amigos.Asara não tinha mais o que fazer pelo resto da tarde, então decidiu seguir pelo portão lateral e entrar na tapeçaria, onde Vikrum se encontrava arrastando os grandes rolos de um lado para o outro.— Quer ajuda? — ela perguntou. — Seria bom, sim. Quero mudar algumas coisas de lugar. Na semana que vem vou trabalhar em novas peças então é melhor deixar isso aqui mais organizado.— Vou tirar a poeira primeiro — ela disse, pegando um pequeno espanador preso a parede. Talvez, se ocupasse a mente, poderia amenizar a ansiedade que era esperar para o momento do recrutamento. Ela começou o trabalho usando uma escada para alcançar o topo das estantes, e em seguida tirando o pó dos cantos e de cima das mesas. O tear permanecia ao fundo sob a luz de pequenos buracos na telha. O seu emaranhado de fios eram um mistério para Asara que não ousava encostar naquilo, temendo ouvir os gritos de Vikrum.Varreu o chão, empurrou a mesa para o outro lado da sala e estendeu alguns tapetes na parede como exibição. O lugar já parecia melhor com pouco tempo de trabalho e quando a tarde chegou já havia terminado. A garota ficara tão distraída com a limpeza que só percebeu Vikrum quando ele apareceu de novo no portão segurando um copo.— Ficou muito bom — elogiou, tomando um gole da bebida. — Estava precisando mesmo matar tempo — ela respondeu, secando o suor da testa. — E conseguiu. Não precisa mais fazer nada, já está chegando a hora do festival. Vá tomar um banho e se arrumar, quero sair cedo. Ela concordou, largando o pedaço de pano que usou para limpar a mesa. Foi direto para os fundos da casa, onde poderia tomar seu banho sem ser incomodada. Quando terminou, seguiu para o seu quarto e encostou a porta. Não queria que a vissem colocando uma blusa e uma calça folgada por baixo do vestido que Vikrum havia lhe dado. Seria motivo de piada se aparecesse na frente de Skeller usando aquela roupa chique.Encontrou o homem na sala ajudando Paco a se vestir. O menino usava uma túnica azulada com detalhes em fio dourado assim como Vikrum. — Vocês estão ótimos — ela disse, sorrindo. — Você também, Sasara — disse Paco, segurando o barquinho que havia ganhado mais cedo.— Pode deixar isso aqui, filho. Nós já vamos estar dentro de um barco de verdade — tomou o brinquedo e colocou no sofá. — Vamos indo. O sol já está se pondo. Asara acendeu uma lanterna de vitral azul, assim como todos os outros faziam, para a proteção da casa. Era uma antiga tradição que serpenteava por ali. Se saísse de casa sem deixar um fogo aceso, você estaria dando permissão para as sombras entrarem. Estranhamente, acender o fogo a fez lembrar do homem que lhe entregou o bilhete e da lâmina gelada na sua garganta. Um arrepio atravessou seu corpo. — Pronto, já podemos ir — ela disse, finalmente. Seguiu Paco e Vikrum para fora, e deu um abraço de despedida nos dois. — Me encontre á meia noite aqui em frente, já estarei em casa para abrir o portão — o homem avisou e ela acenou em concordância.Desceu a rua, indo em direção as Mães das Águas. Queria encontrar Liana e sua família o mais rápido possível. Não queria ficar sozinha, pois o tempo restante até o momento em que sairia ás escondidas fazia suas entranhas vibrarem de ansiedade.As pessoas já vestiam suas melhores roupas, com cores similares ás bandeirolas que se agitavam contra o vento da tarde. O céu estava um pouco nublado, mas a luz do sol ainda atingia a maré em uma explosão de amarelo.Músicos se posicionavam no centro da cidade, coordenando uma banda que desceria a rua principal tocando os clássicos que todos adoravam cantar. Encontrou a amiga logo na entrada da casa onde trabalhava, cercada por outras garotas bem vestidas.— Você veio cedo — ela disse, dando-lhe um abraço gracioso. — Já estamos perto da cerimônia. — Mal posso esperar — disse Asara. O tempo passava rápido quando estava ocupada. Elas andaram pelo palácio, observando as lanternas multicoloridas acesas pelos arredores, acolhendo as famílias que chegavam por todos os arcos do lugar. Liana encontrou os pais, os recebendo com uma menção de cabeça e um beijo de leve no dorso das mãos, indicando seus antecessores. Asara já havia os conhecido tempos antes, quando se limitara apenas a sorrir e dizer poucas palavras. A mesma coisa acontecera naquele dia.Quando a hora de sair chegou, Asara se despediu e acompanhou o grupo de convidados para fora. Quando as novas Mães desfilassem na rua principal, já teriam completado o seu ciclo e poderiam se juntar novamente aos familiares.
A garota aguardou a apresentação começar junto com o resto do povo. A comida já estava sendo servida em barracas nas ruas adjacentes e ela fez questão de ir até a frente da casa do padeiro para provar de novo os bolinhos que fritara. Estavam tão bons quanto antes e ela comeu o quanto pode. Provou outros doces e especiarias, mas nada tão pesado. Os bolinhos já enchiam seu estômago. Gritos e aplausos anunciavam o começo do desfile e Asara, assim como os outros distraídos com a comilança, correram para a rua principal. A banda começou a tocar quando as dançarinas surgiram na linha de frente, girando em uma dança elegante. Homens carregando tochas cuspiam o fogo para o alto, lançando labaredas brilhantes e arrancando exclamações do público. Liana e as Mães vinham logo atrás, carregando fitas brancas sobre as cabeças e balançando-as no ar. Ela sorriu quando viu a amiga no meio de todo aquele espetáculo. Pararam no círculo da cidade, sob o céu azul pintado. Mais dança e mais música preencheram o lugar. Cantavam-se histórias de como o mundo fora criado, de seres fantásticos que viviam sob as águas e do surgimento das Mães com os seus dons para a cura. E logo após o estalo da última nota da canção, cortavam as fitas brancas, dando início ao seus novos ciclos. O público aplaudiu e chamas brilharam novamente no ar, mas o desfile ainda não havia terminado. Continuariam a descida até o porto, onde os fogos seriam acesos dos barcos para iluminar a noite que já chegara.Acompanhou a multidão se sentindo observada. Os mandantes de Skeller apareceriam do nada como da última vez? Ou iriam encontrá-la de outra forma? Ela não sabia, logo precisaria se manter alerta. Encarou o chão de pedra enquanto mordia o lábio inferior. A reunião aconteceria durante a queima de fogos, então já estariam no local marcado minutos antes das explosões começarem. Asara fez os cálculos e chutou que a melhor hora para aparecerem seria enquanto descesse a ruas.Andou pela calçada, ao lado das portas de entrada e dos becos escuros, olhando de relance cada um deles. Estava ficando para trás na multidão, que se adiantava para descer a rua. Não teve pressa em alcançá-los. O porto estava tão perto que já enxergava o barco de Vikrum balançando em meio as ondas. Asara deslizou para uma ruela adjacente sem olhar para trás. Precisava se livrar do seu vestido antes que a encontrassem, então o retirou com cuidado e o pendurou em um fio quase invisível preso no alto da parede. Poderia voltar para pegá-lo mais tarde, só teria de lembrar onde havia deixado. Antes que pudesse se virar completamente, uma mão a alcançou. Ela permaneceu estável e não olhou para trás. — É chegada a hora — disse. — Vou cobrir os seus olhos e você deve vir comigo. Ela balançou a cabeça e fechou os olhos no momento em que um pedaço de tecido áspero era colocado sob o seu rosto. — Não fique com medo, é assim com todos — dizia a voz que a guiava por um caminho incerto. — Não diga uma palavra, nem quando chegarmos ao castelo. Lorde Skeller que dá a palavra por ali.Um castelo? Asara pensou e apenas um lugar possível surgiu em sua mente. As ruínas do lar de Arvos, um antigo rei que comandava o território da cidade milênios atrás. Era um lugar abandonado que muitos acreditavam ser assombrado. Alguns diziam ver sombras se movendo através das paredes de pedra e reflexos em poças de água que mais pareciam rostos. O lugar era perfeito para um encontro com Lorde Skeller.Ela tentou coletar todo o tipo de informação sensorial que tinha enquanto andavam. A elevação no piso lhe indicava que estaria indo para cima e o cheiro pútrido denunciava uma localização mais ás margens da cidade. O silêncio era mortal. Parecia não haver uma alma viva por perto. Conseguia ouvir o seu coração pulsando conforme avançava.— Estamos chegando — dizia a voz ranhosa. — Esse ano temos muitos candidatos, vai ser divertido. Asara tentou ignorar o homem e se concentrou apenas em não cair. Quando pensou que nunca iria chegar no local eles pararam. — Há degraus a frente, tome cuidado — ela levantou o pé e encontrou um bloco de pedra. Mediu a altura e começou a subir. Ouvia ecos, vozes percorrendo as paredes do local. Um vento gélido arranhou a sua pele. Estava no que parecia ser o covil de Lorde Skeller e aquilo conseguia lhe assustar. — Fique parada aqui e aguarde. Ela esperou, enquanto ouvia mais passos ao seu redor e respirações pesadas. Mais e mais chegavam, ela nunca pensou que fossem tantos assim que se candidatariam para o Torneio. O medo de ser encontrar com alguém conhecido tomou conta de si. Nunca havia pensado nisso antes e desejou poder cobrir o rosto. — Bem vindos — uma voz áspera cortou os seus pensamentos. Era Lorde Skeller, ela sabia. — Mais um ano se passou e mais uma vez estamos aqui reunidos nessa noite especial. Alguns estão de volta, já consigo reconhecer, e outros estão pela primeira vez. Quero fazer uma pergunta antes que retirem as vendas e a sua resposta vai determinar o que vai acontecer em seguida. Um silêncio pairou sobre eles, tão cortante quanto a voz de Skeller. — Você estaria disposto a morrer em troca de dinheiro? — ele perguntou finalmente. — Se sim, retire a venda. Se não, continue com os olhos fechados, pois você não merece ver o rosto dos que vão tentar. Asara hesitou. Estaria tão disposta assim? Aquilo já era o primeiro teste, ela sabia. Demorou e quase não tocou na venda, mas um impulso fez com que desatasse o nó e retirasse o pano preto. Estava em uma estrutura totalmente de pedra que lembrava o hall do trono. Arcos quebrados ladeavam o prédio enquanto partes do teto exibiam o céu negro do lado de fora. Asara virou o rosto e viu o mar ao longe, com luzes diminutas cercando os barcos. Seu coração apertou. Voltou a olhar para dentro e viu cerca de vinte homens e cinco ou sete mulheres, ela não conseguia identificar. Todos pareciam ameaçadores, criminosos até. Mas, felizmente, Asara não reconheceu ninguém. Apenas sete continuaram com as vendas e a maioria deles exibia expressões assustadas no rosto. Talvez estavam arrependidos de ter colocado o nome na lista de Skeller, mas ainda sim não podiam fugir até que estivessem no recrutamento. — Vocês sete, podem voltar para o seu festival. Não merecem estar no meio dos meus Campeões — disse Skeller e Asara pode finalmente ver o homem que tanto comentavam em segredo. Vestia um manto negro dos ombros aos pés e na cabeça carregava um crânio de boi, tão branco quanto a lua. Os chifres estavam cerrados e Asara conseguia ver indícios de uma barba longa entre o osso. Os que restaram esperaram até que os mandantes de Skeller surgissem da sombra para os levar de volta. Usavam preto assim como ele, mas mostravam o rosto, com uma linha preta pintada nos olhos e cabeça raspada. Quando sumiram entre as escadas, Lorde Skeller começou a falar. — Já devem saber quem eu sou, então dispenso apresentações. Hoje vou definir os seus oponentes da primeira prova. Nove pares mistos, não me interessa se mulheres vão contra homens. Quero que provem sua força, é para isso que estão aqui afinal. Ele se moveu lento como um próprio boi e foi até um recipiente de vidro no canto da sala. Havia um rolo de papel ali dentro, junto com uma pena e o tinteiro. — Digam os seus nomes de combate quando eu lhes chamar — ele disse, sentando-se em uma espécie de trono no fim da sala. Um dos seus súditos pegou a pena e se preparou para anotar. — Você. — Mordida Mortal — grunhiu o homem. Ele era magro, mas suas unhas e dentes eram afiados, como se próprios para usar como armas. Skeller apontou para uma das mulheres e ela disse seu nome. — Caveira — a mulher era branca como sal e tinha a cabeça raspada, com cicatrizes no pescoço.Skeller chamava mais nomes, todos eles mencionando seu codinome. Terror Saltador, Olho Caçador, Cráquem, a Mamba e até um chamado Peixe Morto. Quando chegou a vez de Asara ela repetiu o nome que usava nos torneios da academia. — Bandana Vermelha. — Você contra ele, isso. Seu nome? — Valete — disse o homem alto e negro, que parecia muito familiar a ela. Lembrou de uma história que contavam quando ousavam falar do Torneio das Ruas, em que um dos participantes ficou conhecido por ter matado o dono da casa onde trabalhava, após o mesmo descobrir que ele participava das provas. Acabou na prisão e lá ganhara o apelido de Valete. Ele era duas vezes maior que Asara. Seria quase como reviver a luta contra Touro.
Mais alguns competidores encontraram o seu par de luta e quando haviam terminado Skeller os dispensou com um aceno. Asara encarou Valete mais uma vez, tentando decifrar o que ele era capaz de fazer antes que o mandante colocasse a venda de novo em seus olhos. — A hora da prova será revelada momentos antes que ela aconteça então é melhor estarem preparados — aconselhou Skeller por fim, no momento em que os fogos começaram a explodir no porto. Aquele era o primeiro ano desde que estava na cidade em que não viu as luzes tomarem conta do céu.
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