Bandana Vermelha
11 O Esconderijo dos Bandoleiros
Ela começou a sentir o mundo antes mesmo que pudesse o ver. Um cheiro familiar, a sensação de cobertas em volta de si e o calor de alguém próximo. Asara conseguia também sentir um ardor característico no braço, mas não se lembrava de como aquilo acontecera. Sua mente parecia em grãos como as areias dos desertos.
Eu estava no mar, lembrou, sentindo o sal seco na pele e a água ainda escorrendo pelas pontas do seu cabelo. Eu estava saqueando o barco de Vikrum. As memórias voltavam para si como se estivesse puxando-as de um poço profundo. Quase achou que fosse um sonho, mas as muitas pistas em volta de si lhe diziam o contrário.
Teve mais certeza ainda quando abriu os olhos e viu o pequeno espelho de mão cravejado ao lado de sua cama. Estava escuro, mas um brilho azulado atingia os seus olhos vindo do pequeno objeto. Onde estava ainda era um mistério. O quarto era escuro, as paredes eram de madeira e a única janela do cômodo estava fechada com tábuas grossas. Não havia porta no quarto, e sim um vão que parecia levar a outro aposento. Ela tentou se levantar, mas a tontura e o enjoo a atingiram antes.
Uma sombra se moveu ao longe e ela recuou, instintiva.
— Asara? – A sombra chamou, se aproximando. Quando surgiu na pouca luz do espaço, viu que não era ameaça, pois conhecia bem o rosto daquela pessoa.
— Kev. – Ela disse, esboçando um sorriso. A garota colocou uma mecha de cabelo loiro atrás da orelha e se aproximou, sorrindo também. A amiga bandoleira que não via há meses parecia maior e mais queimada do sol.
— Sim, sou eu. — Ela se agachou ao lado de Asara, que permanecia deitada em um colchão de palha largado no meio do quarto. — Como está se sentindo?
— Bem — ela forçou a voz seca -, eu acho. Como eu vim parar aqui?
— Bell e Laini te encontraram no fim do duto. Você estava largada lá há horas. Te trouxeram pra um dos nossos esconderijos.
Asara lembrou da prova e do tempo que tinham para entregar os objetos a Skeller. Quase se levantou, mas sabia que seria punida se o fizesse.
— Quanto tempo eu estou aqui?
— Umas duas horas, mas não sei quanto tempo ficou no duto. Você estava horrível quando chegou, perdeu tanto sangue que ficou branca — ela disse. Asara conseguia sentir resquícios de tontura serpenteando pelo seu corpo. Só queria dormir mais e mais.
— Que horas são agora?
— O sino tocou faz pouco tempo. Já deve ser umas cinco.
Passaram-se provavelmente mais de sete horas desde que fora atingida na fuga do porto. O tempo conseguia pregar peças em quem ficava desacordado. Pensou em Vikrum e o que ele estaria se perguntando agora que estava sumida. Não queria ter que voltar para sua casa e enfrentá-lo mais uma vez.
— Eu estou muito cansada — ela conseguiu dizer.
— Eu imagino — disse Kev, brincando com uma tira de sua bota. — O que estava fazendo ali?
Asara não sabia se Bone lhe contara sobre o Torneio. A garota poderia saber, claro, mas se não soubesse, teria que explicar tudo o que acontecera e ela não estava nem um pouco afim de falar mais do que o necessário. Decidiu lhe contar a verdade.
— Uma prova do Torneio.
— Ah, eu entendo. Já estávamos todos sabendo que você estava dentro.
— Que ótimo.
— Está tendo um pouco de dificuldades, me parece.
— Só fui pega por engano. Se não fosse por aqueles outros idiotas eu teria saído de lá sem ninguém notar.
— Estavam saqueando? — ela perguntou, levantando uma sobrancelha.
— Sim.
— Sabia o que estava fazendo, então. Aprendeu tudo conosco.
— Exatamente.
— Skeller andou evoluindo, não é? Nunca fazia esse tipo de coisa e agora está com as maiores ideias. O cara é meio pirado.
— Ele tem seus motivos — ela disse, lembrando da forma que ele falava sobre luta e técnica. Queria competidores ágeis e espertos, não só uma boa luta. Quais seriam seus reais motivos? Talvez nunca saberia.
— É — disse Kev. — Os outros saíram, mas fiquei aqui pra cuidar de você. Quer um pouco de água?
— Sim — sua garganta estava tão seca quanto o deserto.
— Vou trazer. E não se levante, Bone não quer que fique andando pela casa sem autorização — ela já sabia como as coisas ali funcionavam. A partir do momento que saíam do grupo, não poderiam mais participar dos seus atos e nem saber o que acontecia por ali. Mas ela não tinha vontade e nem forças para se levantar, então se limitou a fechar os olhos novamente e ignorar o ardor que persistia em seu braço.
Lembrou do pequeno espelho que havia conseguido na embarcação de Vikrum. Conseguiu alcançá-lo de onde estava e passou um tempo observando seu reflexo nele. Algo que parecia ser sangue permanecia na sua bochecha em uma camada seca. O cabelo preto e cortado na altura do pescoço estava duro e emaranhado. Seu rosto parecia inchado. Havia dormido por muito tempo.
Sua atenção mudou de si para o próprio objeto que segurava. Aquilo parecia ter valor, mas Asara tinha quase certeza de que não a classificaria para a próxima etapa da prova. Teve raiva de si mesma por não ter pensado em algo melhor. Se tivesse ido para um dos navios estrangeiros teria conseguido um artefato mais valioso e com certeza teria fugido mais rápido.
Havia perdido tanto tempo em meio as duas provas que quase esqueceu de Liana e do próprio Vikrum. Os dois pareciam tão distantes quanto as suas chances de vencer a competição. Tudo estava dando errado, como se o destino ou o tempo não quisessem que ela participasse daquilo. Primeiro o ataque e agora o seu completo fracasso na segunda prova. Uma onda de azar parecia ter atingido-a e ela estava começando a se arrepender de ter decidido participar do Torneio.
Talvez eu devesse simplesmente sair, disse, pensando se ainda iria conseguir falar com Skeller. Um Sombra iria estar lhe acompanhando durante as horas seguintes a prova, então desde que saísse da casa dos Bandoleiros e voltasse as ruas, eles iriam a encontrar e levá-la de volta para onde ele estivesse. E depois acabaria com sua participação no Torneio.
Kev voltou trazendo um copo com a sua água.
— Esta aqui — ela lhe entregou com cuidado, ajudando a garota a se levantar. — Os meninos vão trazer alguma coisa pra comer, tenho certeza.
— Seria ótimo.
— Mas e aí? — a garota voltou a sentar do seu lado, usando um palito de madeira para acender uma lanterna de vidro transparente no canto. A luz amarela e cálida encheu o quarto, deixando-o mais confortável. — Já sabe o que vai fazer depois disso? Com relação ao Torneio, claro.
— Eu não sei. Algumas coisas são meio secretas — ela disse, tomando outro gole de água. — Ainda estou na dúvida se continuo participando. Tenho até meia noite de hoje para descobrir.
— Tem tempo. Até lá já vai estar se sentindo melhor. Ainda mora com o cara do tapete?
— Sim. Nem me fale dele. Estou sumida há horas, vai pensar que acabei fugindo ou algo do tipo.
— Deveria voltar pra cá. A gente não tem tanto trabalho a fazer.
Asara lembrava muito bem da sua vida com eles. Se divertiam mais do que realmente conseguiam dinheiro e por isso acabavam ficando em lugares abandonados ou se mudando constantemente. Os planos dela eram muito diferentes daquele, apesar da vida livre deles, ela queria mais do que aquilo. Queria dinheiro próprio para começar a busca pelo seu pai e permanecer com os Bandoleiros não lhe oferecia aquilo.
— Eu gostava mesmo disso tudo — confessou. — Mas meus planos são maiores.
— Até entendo. Tem algo a procurar por ai, não é mesmo? — ela lançou um olhar que parecia lembrar do que Asara havia lhe contado muito antes. — Eu não tenho nada que valha a pena ser encontrado. Então, continuo com eles.
— Isso por que já os encontrou. Talvez seu lugar é onde está agora — disse, provocando um sorriso na garota. Asara sorriu também revirando os olhos em seguida. Não gostava desse tipo de frases. Liana que sempre fazia aquilo, lhe dizendo algo profundo com um toque de mistério.
A vida já é complicada demais para ficar fazendo mistérios, ela dizia para a garota, mas Liana continuava do mesmo jeito, sempre. A visão do rosto confuso e assustado da garota voltou em sua mente. O jeito que ele falou sobre um possível inimigo na casa das Mães assustava Asara até agora. Se referia aos Sombras de Skeller ou algo a mais? Ela não sabia. Ela precisava descobrir.
Um barulho anunciava a chegada do resto do grupo.
— Vou ajudá-los — Kev se levantou e saiu pela porta. Asara conseguiu se levantar com os cotovelos e sentar. Seu braço ainda doía e parecia quente. Precisava da ajuda de Liana mais do que nunca. Agora não era um ferimento simples e sim algo sério. Se não tratasse poderia ter complicações maiores que não gostava nem de pensar.
Kev apareceu um minuto depois, trazendo um saco em sua mão.
— Já está sentada? — ela notou. — Trouxe pra comer aqui.
— Queria me levantar. Não aguento mais ficar deitada.
— Vem comigo, então. Consegue ficar em pé?
Asara ainda se levantava aos poucos, se equilibrando na parede com o braço bom. Resquícios de tontura atravessavam o seu corpo, ameaçando a derrubar. Mas após um segundo em pé ela pareceu recuperar os sentidos.
— Consigo — ela disse, seguindo Kev para fora do quarto apertado. A garota concordou e a guiou por um corredor, indo em direção a um espaço muito mais aberto e iluminado pela luz do dia. Estavam em uma espécie casa improvisada, nada estável e duradoura, mas ainda sim oferecia certo tipo de conforto, algo que a maioria das casas de pedra não fazia.
Bell e Bone estavam sentados atrás de uma longa mesa de madeira, comendo pequenos pães enquanto tomavam uma bebida quente. Katsu, um garoto que Asara não lembrava de ter visto enquanto estava nos Bandoleiros, estava em um canto, afiando uma faca como quem não quer nada. Laini estava próxima a ele, e quando a viu correu em sua direção, a abraçando.
— Asara, você acordou — ela disse, alegre. A garota tinha cabelos pretos como o seu, mas eram mais longos e sua pele era mais escura. Laini era mais delicada que Asara, mas ainda sim sabia lutar e invadir locais como ninguém ali.
— Sim, estou me sentindo um pouco melhor.
— Coma alguma coisa — sugeriu Bone, apontando para a mesa onde um saco estava aberto com doces da padaria e pãezinhos quentes. O estômago dela roncou e ela se aproximou, com um pouco de cuidado. Seu braço ainda estava sensível. — Teve sorte mais uma vez, huh?
— Talvez — ela disse. É claro que tivera sorte de encontrá-los novamente. Nunca pensou que chegariam a tempo de ajudá-la. — Vocês que estão por ai o tempo todo.
— Isso é verdade — Bell falou, em meio a um gole da bebida. Seu cabelo caia, grande, sob os olhos. Eles haviam mudado em pouco tempo, ela tinha percebido. Mesmo que a ajudassem ela sabia que não pertencia mais ali. Precisava só aceitar a sua ajuda e partir.
Comeu da sua comida e conversou o quanto pode, queria aproveitar enquanto ainda tinha tempo para descansar. O tempo passou rápido e a noite chegou aos poucos, levando os resquícios de luz para longe. Asara se despediu deles, aceitando a companhia de Bone, que a guiou até a rua mais próxima de sua casa. Não queria ir para lá, a ideia ainda a assustava, mas não disse nada para ele e esperou que fosse embora até que pudesse andar pelos becos sozinhas.
Não esquecera o espelho, era a única coisa que tinha para mostrar para Skeller. Esperou, observando a lua crescer no mar negro que era aquele céu, remexendo o objeto em suas mãos até que em certo momento o Sombra apareceu ao seu lado e ela o recebeu com um aceno. Precisava acabar logo com aquilo, então o seguiu.
Fale com o autor