Bandana Vermelha

9 O Ataque às Escondidas


Minutos se passaram até que todas as nove duplas tivessem terminado. Os que venceram permaneceram ao lado do círculo enquanto viam o resto dos competidores saírem pela correnteza, de volta para o mar. Asara contou os que ficaram. Treze. Era muito pouco para uma primeira prova. Queria que eles sumissem da sua frente em quantidade para não ter mais empecilhos entre ela e a vitória.

Se esforçou para não olhar para Valete, que parecia a observar do outro lado enquanto esperavam as ordens de Skeller. Ela queria voltar para sua casa, entender o que havia acontecido com Liana momentos antes de sair. Vikrum também estaria se perguntando onde ela havia se metido. Não queria mais mentir ou se explicar.

Lorde Skeller voltou para o centro do círculo, segurando o pergaminho enrolado em suas mãos.

— Foi um bom começo. Se ainda estão aqui é por que seu desempenho em combate se mostrou notável. Já consigo ver o vencedor do prêmio — revelou, provocando um certo desconforto em meio aos competidores. — Pois bem, a primeira prova foi executada com perfeição. O próximo desafio, que irá acontecer daqui a alguns instantes, vai exigir um pouco mais.

Asara travou. A segunda prova já aconteceria assim, tão rápido? Não havia nem tido tempo de processar todas as lutas e Lorde Skeller já estava os encaminhando para a próxima parte. Ela só conseguia se perguntar o que estaria por vir após os combates na caverna. Não seria algo igual, tinha certeza.

— Para o próximo ato vamos aproveitar da ressaca da noite anterior. O porto onde aconteceu o festival está praticamente vazio então vocês farão a segunda prova ali. Quero que me tragam o que encontrarem de mais valioso dentro daqueles navios, especialmente os estrangeiros — disse, provocando reações diversas em meio ao grupo. Asara só conseguia ouvir, parada. — Não quero somente uma luta bem feita. Quero agilidade e esperteza. Devem possuir todos os atributos se quiserem ganhar o meu prêmio.

Teria que voltar a furtar para continuar na jogada. Um sorriso surgiu debaixo de seu lenço. O tempo que passou com os Bandoleiros enfim serviriam para alguma coisa. Ainda mais no porto, onde poderia entrar facilmente no barco de Vikrum, pois sabia que ele guardava relíquias em locais secretos. Ela quase não conseguia acreditar que estava disposta a roubar do homem que lhe ajudou para o seu próprio bem. Sacrifícios devem ser feitos se eu quiser ganhar isso, pensou.

— Meus Sombras irão levá-los até a praia e, assim que o sino da cidade tocar, seguirão de barco sozinhos até os arredores do porto. Têm apenas meia hora para saquear o local, mas até meia noite para me entregarem o que conseguiram. Os Sombras irão até vocês, então não se preocupem em tentar me encontrar. Aproveitem o tempo restante para descansar e recuperarem as energias. Tenho certeza que vão precisar.

E com essas palavras ele deu fim a conversa e saiu do círculo, se misturando as estruturas de pedra afiadas e sumindo em meio a escuridão. O local pareceu um pouco mais claro depois de ele ter desaparecido. Os Sombras surgiram e os guiaram até os barcos. Saíram um a um, esperando certo tempo para não lotar o túnel.

Quando chegou a sua vez na fila que se formara, Asara entrou, recusando a ajuda do Sombra, e pegou o remo com as duas mãos, usando-o para se afastar dali. Ir contra o fluxo da correnteza era pior, seus braços estavam queimando no meio do caminho e percebeu que estava se forçando demais. Gastaria todas as suas energias só fazendo aquilo. Precisava parar e respirar.

A escuridão da caverna deu lugar a luz do dia enquanto se aproximavam da entrada. O sol brilhava forte e o céu era de um azul ofuscante, acompanhado de nuvens cheias feito bolas de tecido. O cheiro de sal e peixes invadia o seus pulmões e a água parecia ter se agitado enquanto lutavam, com ondas altas batendo contra o paredão de pedra.

Asara já conseguia enxergar a pequena praia se estendendo a sua direita, com coqueiros e arbustos secos ao fundo. Viu que os eliminados da primeira prova estavam ali, descendo dos seus barcos e indo em direção a sombra.

Asara já conseguia enxergar a pequena praia se estendendo a sua direita, com coqueiros e arbustos secos ao fundo. Viu que os eliminados da primeira prova estavam ali, descendo dos seus barcos e indo em direção a sombra. A ideia de reunir os que continuariam e os derrotados não lhe parecia muito boa, como colocar cães em um cercado para brigar. Tentou não pensar nisso enquanto descia e ia em direção a um lado mais afastado.

Os ferimentos da luta já começavam a doer. Seu rosto parecia inchado e os nós dos dedos estavam vermelhos. Sentiu o alívio percorrer o seu corpo no momento em que sentou sob um coqueiro baixo, respirando fundo e observando os outros tomarem conta das areias. Sabia que não deveria baixar a guarda tão próximo assim de fazer outra prova, mas seu corpo parecia não se importar. Ela realmente precisava daquilo.

Fechou os olhos numa tentativa de colocar a sua mente em um estado mais concentrado. Contou até dez enquanto controlava a respiração. Quando ia começar a contar novamente, algo se moveu a sua frente e ela abriu os olhos no mesmo instante. Valete estava parado, olhando para baixo com uma expressão confusa.

— O que está fazendo? – ele perguntou, quase como se ela estivesse cometendo um crime. Asara quase fechou os olhos e o ignorou completamente. Não precisava mais temê-lo, pois já provara a si mesma que ele não era uma grande ameaça. Mas algo no jeito em que ele se apresentava, tranquilo mas ainda hesitante, a fez responder.

— O que você quer?

— Está relaxando?

— Não mais.

— Não deveria fazer isso se quiser continuar viva. – Ele se agachou e sentou quase que ao seu lado. Asara quis se afastar imediatamente. Não entendia por que ele, de repente, estava sendo amigável, como se as duas vezes em que tentou matá-la não tivessem acontecido.

— Por quê? Você vai tentar me matar outra vez? – ela perguntou.

— Nunca quis te matar, só te tirar da competição – admitiu. – Mas agora vejo que não é tão fraca e estúpida assim.

— Belo elogio. – Se ela pudesse, levantaria e sairia, mas o cansaso se instalou de vez em seu corpo e ignorá-lo parecia uma ideia melhor do que gastar as poucas energias que tinha se afastando.

— Me desculpe – ele disse, mesmo não parecendo ter se arrependido. – Mas, de verdade, você é uma ótima lutadora. Não me admira que venceu o campeonato da academia.

— Estava lá pra ver?

— Sim, Touro foi burro pra caramba.

— Cala a boca.

Ele riu, mas parou no mesmo instante. Não parecia apropriado.

— Estou tentando ajudar. Sabe como as coisas começam a ficar de agora em diante né? – ele disse, olhando de solslaio para Asara. – Não viu o tal do Mordida? Aquele cara é um doente. Não me surpreenderia se o encontrassem morto por ai. Tentou tanto entrar na competição e quando teve a oportunidade foi eliminado na primeira prova.

— Você o conhecia antes?

— O suficiente pra saber do seu jeito estranho. – Ele balançou a cabeça. – As pessoas ficam malucas quando tem dinheiro envolvido.

— Estranho isso vindo de você – ela disparou, deixando-o em silêncio por alguns segundos antes de responder.

— É eu sei. Eu estou louco por esse prêmio. Odeio ter que admitir, mas aposto que você também está.

Asara não queria aceitar que estaria ficando louca por causa do dinheiro, mas apenas o fato de estar participando da competição já era o suficiente para ser taxada como uma. Ela precisava do dinheiro tanto quanto os outros.

— Por que participa do Torneio? – perguntou, observando um pequeno ferimento que se abria em seu joelho, enquanto Valete passava a mão pelos cabelos raspados.

— Já é a minha segunda vez. Lutar é uma das poucas coisas que eu sei fazer direito e o Torneio me pareceu uma ótima alternativa para ganhar dinheiro e me mudar dessa cidade.

— Poderia arranjar um emprego qualquer.

— Não depois do que aconteceu – ele disse, sombriamente. Asara se aprumou de repente, tomando interesse pela conversa.

— Então, é verdade? As histórias que contam?

— Sim. Foi daí que veio o meu apelido. – Asara lembrou imediatamente da vez em que estava com os garotos da academia no bar, comentando sobre o assassinato mais recente na época. O criado que matara o próprio patrão. Ninguém sabia ao certo o que acontecera, vizinhos disseram ouvir xingamentos e em seguida gritos. Um arrepio percorreu o seu corpo. – Não foi exatamente como contam, mas acabou da mesma forma.

— Por que fez isso? – ela perguntou.

— Foi um acidente. Ele costumava ser extremamente agressivo quando as coisas não saiam do jeito que queria, quando não nos batia, nos atacava com xingamentos. Eu já sabia disso antes de trabalhar na casa dele, mas não parecia ser algo tão ruim assim. Aguentei por muito tempo, mas naquele dia não consegui me controlar. O empurrei contra o fogão e a panela com óleo quente caiu sobre si. O fogo tomou a cozinha inteira antes mesmo que eu pudesse sair. O resto é irrelevante.

— Não foi preso?

— Vivo escondido desde então. Não é a melhor vida, mas pelo menos não estou atrás das grades – ele disse, em um tom um tanto triste. Asara quase sentiu pena dele, mas o fato de ter causado a morte de outra pessoa a deixava conflitante. Ele se virou para ela antes de continuar: — E você? Por que participa do Torneio?

Asara abriu a boca para começar a falar, mas, de repente, um grito agudo cortou o ar entre eles. Ela se virou imediatamente para a praia onde o grupo estava. Todos olhavam em direção ao denso aglomerado de coqueiros e arbustos, tentando identificar o que quer que estivesse do outro lado.

— É melhor a gente ir até lá – disse Valete, levantando-se.

Asara fez o mesmo e correu em direção ao grupo. Percebeu que os sombras não estavam mais ali, observando-os como corvos, apenas os outros competidores com expressões confusas os receberam.

— Tenho certeza que é o tal do Mordida... – disse um.

— Eles estavam se batendo outra vez... – acrescentou outro.

— Acho melhor irmos até lá – sugeriu uma competidora.

— O que está acontecendo? – perguntou Valete.

— Mordida Mortal e a Caveira. – Uma mulher, que Asara lembrava ser chamada de Mamba, falou. – Entraram ali atrás e acho que as coisas não teminaram bem. Eu não me atrevo a ir até lá.

— Eu falei que ele era um louco – grunhiu Valete, indo em direção a vegetação. Asara, que não se sentia nem um pouco confortável entre os outros competidores, seguiu Valete para dentro do desconhecido.

Atravessou a os arbustos secos com cuidado, tentando evitar as lascas de madeira que se misturavam com a areia formando um lençol espinhoso. O calor começou a atingí-la enquanto andava pela trilha e tentou a todo custo evitar os espaços em que o sol passava através das folhagens e abrasava o chão.

Ela encontrou Valete a frente e parou quando viu as pernas de um corpo escondido atrás de um arbusto grande. Quando se aproximou, o horror tomou conta de si. O corpo desfigurado de Caveira estava coberto de sangue e marcas de dentes, e areia parecia ter sido jogada contra o corpo da mulher, em uma tentativa falha de esconder o crime que havia ocorrido.

— Oh, céus – suspirou Asara, sentindo o estômago revirar. Aquilo realmente havia acontecido, ao seu lado, durante a competição. Todas as histórias que contavam eram então verdadeiras. Os loucos eram realmente loucos e a competição não passava de um festival de horrores.

— Eu falei – disse Valete. – Sabia que ele ia ter um ataque.

— O que vai acontecer agora? – Asara perguntou, olhando ao redor a procura dos Sombras.

Eles não estavam por perto desde o momento em que chegaram na praia, como se tudo aquilo tivesse sido planejado para que a tragédia acontecesse. Mordida Mortal havia se aproveitado da ausência dos observadores para atacar Caveira. Era assustador.

— Como assim, “O que vai acontecer agora”? A competição continua mesmo assim, Bandana. O jogo não pode e nem vai parar.

— Skeller não vai fazer nada a respeito? O assassino vai continuar solto por aí?

— Skeller não deve nem estar por perto agora – reclamou Valete, virando-se para ela. – Quanto ao Mordida, eu não sei. Pode sair da cidade ou se esconder em algum buraco, mas ficar solto por muito tempo ele não vai. A Guarda da cidade vai descobrir isso logo, logo.

— A guarda da cidade falhou em prender você, então duvido muito que vão encontrá-lo. Duvido até que encontrem esse corpo.

Asara olhou outra vez para Caveira antes de se virar, enjoada. Sentia uma leve tontura e quase caiu se não tivesse se apoiado em um coqueiro. Outros competidores vinham em direção a eles, testemunhando o ocorrido com expressões de terror. Alguns até não queriam se aproximar, com medo do que aquilo significava.

— A primeira morte é sempre assim – falou um dos competidores, Olho Caçador, com um tom sombrio. – Você vira para um lado e quando se dá conta a coisa acontece, bem rapidinho.

— Há marcas de dentes nela... – observou outro competidor, agachando-se ao lado do corpo.

— Foi o Mordida, não há mistério nisso.

— É melhor a gente sair daqui antes que... – começou Valete no momento em que o sino da cidade ecoou, quase imperceptível, pelas areias da praia. Asara olhou em direção a encosta, onde viu Mamba e mais outros dois competidores já correndo em direção aos barcos. Antes que pudesse reagir, os homens ao redor de si dispararam também, esquecendo em um instante o que havia acabado de acontecer.

Era o sinal que dava início a segunda prova. Tinham que sair dali rápido se quissessem continuar na competição.

— Vamos – gritou Valete, tirando-a do torpor repentino. Asara, que ainda tentava processar a morte de Caveira, só começou a correr no momento em que o sino tocava pela segunda vez.