Bandana Vermelha

8 A Primeira Prova


Algo fez com que pensasse que voltariam ao tal castelo em ruínas da noite anterior, mas logo descartou a possibilidade quando percebeu que o mandante não cobriu os seus olhos. Ele apenas seguia atrás de si, indicando o caminho que deveria tomar.

— Entre por aqui. Isso. — Ela ouvia os seus passos na pedra. Mesmo já sabendo a aparência deles, ainda insistiam em andar empoleirado nas suas costas. — Desça a rua, não precisa olhar para os lados.

Estava tudo vazio como quando saiu. Alguns moradores abriam as janelas para o ar da manhã e outros varriam a sujeira da porta da frente. Asara não conseguiu evitar olhar para eles, sendo logo repreendida pelo mandante. Tinham que manter a identidade oculta, é claro, mas algo em andar com o Sombra atrás de si parecia os deixar invisíveis.

Não ousava perguntar aonde estava indo, pois ainda lembrava das ordens dadas para não falar com eles, mas o fato de não vendarem os seus olhos a fez juntar algumas pistas. Eles desciam ao invés de subir, andando na direção do mar que se estendia a sua frente. A prova seria no mar ou nos arredores do porto? Ninguém aparecia por ali depois da noite do festival então poderia ser o local perfeito para uma luta.

Mas quando chegaram próximo a cerca que separava o chão de pedra das ondas lá em baixo, o mandante a guiou para o lado, onde as escadas levavam para o enorme deque de madeira, que se estendia ao longo da parede de pedra. Barcos enormes estavam atracados ali, servindo de poleiro para gaivotas que se alimentavam de pequenos peixes. Asara tentou encontrar o barco de Vikrum mas não o identificou em meio a tantas outras embarcações.

— Vamos logo, há olhares indesejados por aqui — grunhiu o homem misterioso, guiando-a para uma ponta do deque, onde pequenos barcos de dois lugares tomavam o espaço. — Entre, pegue um remo.

Ela obedeceu as ordens ás pressas. As janelas dos prédios e casas próximas ao porto eram como olhos, observando-a o tempo todo. Queria se afastar o mais rápido possível, ir em direção ao desconhecido. Sentou e usou o seu remo para afastar o barco da água. Onde quer que Skeller tenha decidido o local da prova, não poderia ser em uma ilha ou em algum local muito distante. Não havia nada mais para frente e um pequeno barco como aquele não aguentaria uma viagem longa.

— Siga próximo ás margens — disse o homem atrás de si. Asara sabia que iriam para outro local secreto, outro covil de Skeller nas sombras da cidade. Não havia como os guardas encontrarem qualquer lugar que ele estivesse. A confiança nos competidores era grande, tanto que não precisava mais de vendas ou que ele a tocasse para lhe guiar. Ela sabia que fora observada durante meses, assim como os outros, antes que fossem definitivamente chamados para participarem do torneio. Havia um esquema secreto antes de os jogos começarem.

Ela continuou remando o barco, tentando não fazer um maior esforço. Precisava guardar suas energias para a luta, mesmo que tenha se renovado mais cedo nas piscinas de Liana. O rosto da garota surgiu na sua mente tão rápido que não teve tempo de repreender o pensamento. Seu medo e confusão se espalharam para Asara, deixando-a sem ideia do que a garota estava falando.

"Você os atraiu até aqui", ela disse. Estava falando dos mandantes? O que ela havia sentido de diferente em Asara? Talvez a presença dos outros competidores, ou do próprio Skeller, se é que o próprio emanava algum tipo de essência. "Todos somos essências, todos temos energias", lembrou do que a garota lhe disse brevemente há tempos atrás. Estava se misturando com pessoas de energia ruim? Por que isso era algo tão perigoso? Não devia pensar nisso, não agora.

— Estamos chegando, mantenha o barco distante das rochas — ordenou o homem. Já haviam percorrido quase duzentos metros pela costa, subindo pela esquerda e indo em direção a um paredão de pedra que interrompia as ondas. — Vamos entrar por ali.

Ele apontou para uma rachadura que se abria na parede. De longe parecia pequena demais até para um barco daqueles atravessar, mas ao se aproximarem percebeu que era maior do que um prédio da cidade. Felizmente, as ondas ali não estavam tão agitadas quanto pensou, facilitando assim o percurso por entre rochas escarpadas. Continuou remando até que o fluxo da água se encaminhou de levá-los até a abertura.

A luta então aconteceria numa caverna. Pensou nas possibilidades que aquilo poderia trazer. Iluminação escassa? Terreno danificado? Com certeza seria algo arriscado. Ela viu que outro barco chegava vindo do outro lado. Era uma mulher esguia que remava a frente, acompanhada de seu próprio mandante. Asara tentou lembrar seu nome, mas não conseguiu.

Entrou primeiro e as correntezas fizeram todo o trabalho de guiá-los para o interior. Era como entrar pela garganta de um monstro abissal, as paredes de pedra exibiam pontas afiadas como dentes e o fim parecia tão longe quanto o fundo de um poço. Um calafrio percorreu suas costas quando o homem atrás de si acendeu uma tocha, que ela tinha certeza de que não estava ali momentos antes. O fogo a embalou e eles continuaram a descida para o interior da caverna.

Lembranças do pesadelo surgiram em sua mente. O poço escuro e do rosto de Lorde Skeller tremeluzindo sob a água. Não entendia porque sentiu tanto medo. Era só um homem vestindo uma máscara. Só isso. Agarrou-se a luz amarela do fogo e tentou se livrar daqueles pensamentos sombrios.

Um minuto se passou e o mundo voltou a se abrir. Estavam em um espaço grande, quase como o hall do castelo, e em um dos lados havia uma espécie de margem que se estendia por metros. Pontas afiadas se projetavam do teto e de alguns cantos no chão, iluminadas por tochas espalhadas de forma que a luz tomasse apenas alguns pontos.

Um grupo já esperava nos fundos da caverna. Asara procurou por Valete e o encontrou sob uma sombra, escondendo o que parecia ser o seu rosto ferido. Caveira, a mulher branca que vira apenas por um segundo antes, estava agora entre eles, usando uma roupa rasgada e suja nada adequada para uma luta. Talvez a encontraram em um momento inoportuno e não podia se recusar a ir. Esteja sempre alerta, Asara precisava constantemente lembrar a si mesma disso.

Skeller se encontrava do outro lado, entre os picos que se projetavam para cima, e parecia conversar com os seus homens, todos vestidos de preto. Agia tão normalmente que lhe deu arrepios. Entre os competidores, não se importava em fazer mistério de onde estava e o que fazia, cuidava apenas de proteger o rosto, o seu maior segredo.

O barco raspou contra a margem rochosa e ela se preparou, retirando o lenço vermelho de dentro das roupas e o prendendo em volta do pescoço, cobrindo parte do seu rosto. Estava tão nervosa que quase esqueceu de proteger a própria identidade. Dirigiu-se para o grupo e esperou as ordens de Skeller. Quando o último barco chegou e a competidora foi para o seu posto, Skeller virou-se imediatamente, como se soubesse o momento exato em que todos estariam ali.

— Bem vindos de volta — sua voz ecoou pelo crânio de boi e pelas paredes da caverna. — Não demorou muito até o nosso segundo encontro e vejo que alguns não seguiram o meu pequeno conselho.

O crânio virou para um lado e pareceu pousar o olhar sobre Caveira e outro competidor.

— A morte pode chegar tão rápida quanto uma de minhas Sombras. — Ele fez um leve gesto com a mão, indicando os seus homens. Suas Sombras. — Estejam preparados para elas também.

Ele retirou um pergaminho de dentro das suas vestes e o desenrolou rapidamente, erguendo-o contra a luz.

— Não quero mais perder tempo, pois hoje temos muito o que fazer. Os adversários da luta já foram definidos então quero cada um no centro do círculo quando eu os chamar.

Enquanto anunciava o nome de cada competidor, os seus Sombras derramavam um pó preto sobre o chão, formando um círculo grosseiro.

— As regras para a permanência na competição são secretas. Façam apenas o que sabem fazer e eu decido quem vai e quem fica.

Mais uma vez estava sendo direto, sem enrolações. Não conseguia acreditar nos boatos que circulavam entre os lutadores de que Skeller fazia aquilo por diversão. Parecia mais como um teste ou recrutamento para algo maior, ela percebeu. Um grupo secreto de lutadores e assassino, talvez? O pensamento lhe provocou uma inquietação. Acalme-se, ordenou a si mesma. Skeller chamou a primeira dupla que se dirigiu para o centro. Mordida Mortal contra Caveira.

— Comecem! — bradou Skeller, indo para um canto mais alto onde um de seus Sombras já ditava o ritmo da luta com um tambor.

Mordida Mortal flexionou os braços esguios para trás e deu um sorriso assustador para a adversária, que apenas manteve a expressão carrancuda. Quando deram um passo à frente e se posicionaram, o tambor começou a soar alto, como passos de um gigante. Aquilo só gerava mais tensão, deixando-os nervosos.

Eles se agarraram e se jogaram contra o chão em uma luta feroz. Asara viu o momento em que Mordida Mortal cravava as unhas na pele branca de Caveira, provocando um fio de sangue em suas costas. Ela gritou, mais de raiva do que de dor, e o lançou para longe, com um chute de quebrar ossos. O grupo ao redor exclamou, imaginando a dor do homem, no mesmo momento em que Skeller levantava uma das mãos, interrompendo.

— Chega. Já pode voltar para onde estava. Você — ele apontou para Mordida Mortal. — Não sabe o que está fazendo aqui. Volte para o buraco de onde veio.

Um dos Sombras agarrou o braço fino do homem e o arrastou para os barcos mesmo sob seus gritos de protesto.

— Me dê mais uma chance, Senhor. Por favor! – Ele se debateu, mas foi rapidamente silenciado quando outro Sombra se aproximou, retirando-o dali. Aquilo era ridículo. Ele não teve chances de revidar, apesar de ter se atirado contra o oponente em um movimento completamente errado. Asara percebeu que Skeller exigia técnica na hora de lutar e não apenas um banho de sangue.

— Bandana Vermelha contra Valete — ele anunciou de repente e ela sentiu o seu sangue congelar. Não esperava ser chamada assim tão cedo. Forçou os seus pés mexerem e andou até o centro do círculo, encarando Valete pela segunda vez em menos de doze horas.

Seu semblante era indecifrável, uma mistura de raiva contida com seriedade. Agradeceu a si mesma por lembrar de cobrir o rosto. Não queria mostrar que estava mordendo os lábios, pensando e tentando encontrar uma maneira de derrotá-lo outra vez. A luta da noite anterior havia lhe dado pistas sobre quem ele era e como funcionava em combate. Uma mistura de agressividade com movimentos treinados, um pouco como o seu próprio estilo.

O tambor soou e ela nem conseguiu ouvir Skeller dando a ordem de início, pois Valete já estava se mexendo, mas dessa vez para o lado, em posição defensiva. Queria que ela fizesse o primeiro movimento. Asara, sem mais escolhas, ergueu o punho em direção ao seu rosto em um golpe rápido e simples. Ele desviou como esperado e ela recuou instintivamente antes que o punho dele atingisse em cheio o seu flanco. Ele sorriu um pouco e cerrou os dentes. Estava apenas aquecendo, brincando com ela antes de atacar com força total. Asara quase quis esmurrá-lo, mas forçou o seu corpo se concentrar.

— Vamos – disse Skeller, ríspido. – Não temos o dia todo.

Sua voz se entrelaçava com o rugido dos tambores, como uma canção de terror. Ela precisava deixar que seus instintos a guiassem, precisava parar de pensar. Ergueu os punhos e se preparou para atacar, mas ele já estava em cima de si.

Uma sequência de socos a atingiu, um no rosto e outro na barriga. Ela quase perdeu o equilíbrio, mas se agarrou nos ombros dele e se impulsionou para cima, atingindo sua barriga com o joelho e se afastando antes que houvesse reação. Sua cabeça girava e ela conseguia sentir o sangue pulsar fortemente.

Valete se moveu rápido, sabendo que a garota aproveitaria do tempo para se recuperar, e lhe deu uma rasteira, mandando-a pro chão e em seguida puxando-a de volta pela roupa. Asara grunhiu de raiva enquanto pendurada pelas roupas. Não aguentava mais ser puxada de um lado para o outro no ringue, como uma boneca de pano inútil e frágil. Respirou fundo antes atacar a garganta do homem com os dedos, um movimento seco e rápido, o suficiente para fazê-lo perder o fôlego por um segundo. Ele a soltou e antes de atingir o chão, seu cotovelo já atacava as entranhas de Valete. Ela se virou e dessa vez ele não reagiu. Um chute bem no meio do seu tórax retirou todo o ar dos seus pulmões, fazendo-o cair de joelhos.

Ela esperou o homem se mover, mas nada aconteceu. Havia o atingido tão forte que os ferimentos do seu rosto voltaram a sangrar no momento em que seu rosto atingiu o chão de pedra.

— Chega – encerrou Skeller. Um silêncio seguiu a sua voz. Asara quase não acreditava. Havia o derrotado. Valete estava sangrando e não havia mais o que pudesse fazer para lhe tirar da competição. Mas Skeller se levantou e continuou a falar: — Os dois vão continuar. Vejo que têm muito potencial a ser explorado.

Ela olhou para Valete no chão enquanto tentava se controlar. Ainda havia chances para ele. Não conseguia acreditar. O homem que havia tentado eliminá-la antes da luta continuava na competição mesmo depois de ter sido derrotado duas vezes. Serrou os punhos e voltou para o grupo, tentando ignorar as risadas silenciosas de Valete ecoando atrás de si.