Bala
5 Testemunho
[O Policial coloca o gravador em cima e o liga. Ia transcrever o que a testemunha tinha dito, a fim de contar nos registros daquele caso. Também colocaria pequenas coisas que lembraria. No fim, pensou que tudo ia lembrar, de certa forma, um daqueles textos teatrais. O gravador começa a tocar.]
POLICIAL: Então foi você quem chamou a polícia, certo? TESTEMUNHA OCULAR [visivelmente nervoso]: Sim, sim, isso. [começa a falar rapidamente e para si mesmo] Devia ter é chamado antes, daí assim quem sabe... Mas era só uma briga...POLICIAL: Calma, fale devagar. Conte o que aconteceu. Você não se importa de eu gravar a conversa, para registro?TESTEMUNHA OCULAR: Não.. Então, eu estava vendo um casal brigando... Discutindo no meio da rua... Mas isso é tão normal...POLICIAL [interrompendo]: Onde você estava?TESTEMUNHA OCULAR: Numa sorveteria, na esquina do quarteirão. Estava de frente para a porta, então conseguia enxergar a rua. [volta a falar rápido] Os dois estavam brigando, discutindo, acho que provavelmente algo sobre os dois. Conseguia ouvir umas palavras entrecortadas. A moça parecia histérica e ...[O Policial volta o gravador, ouve de novo, e termina de transcrever. Ouvindo de novo, acha difícil entender as palavras exatas que foram ditas.]POLICIAL: O que você ouviu?TESTEMUNHA OCULAR [olhando para cima, tentando se lembrar. As suas falas são devagar]: Acho que ela perguntava o motivo dele estar ali... Eu também notei que ela estava olhando pro chão, bastante, mas não sei porque... Digo, não sabia... Até... Bom, tinha uma pessoa lá eu acho.POLICIAL: Sim, uma das vítimas estava no chão...TESTEMUNHA OCULAR [divagando]: Acho que ele estava chorando.POLICIAL: Certo, continue.TESTEMUNHA OCULAR: Então, os dois estavam aparentemente nervosos. Digo, pelo menos ela [ele sublinha a palavra] com certeza estava histérica. Posso dar uma opinião? POLICIAL: Fale.TESTEMUNHA OCULAR: Ele parecia, no começo, estar tentando acalmar ela. Ele tentava segurar os ombros dela, mas ela não deixava...POLICIAL [interrompe]: Ele não estava armado?Testemunha ocular: Bom, eu não sei... [nervoso] Ele podia estar, mas eu posso não ter visto. Mas eu acho que não.POLICIAL: Então ele tirou a arma depois?Testemunha ocular [ainda nervoso]: Eu não sei quando ele tirou a arma... Mas houve um momento que a moça deu um grito... Pouco tempo depois eu vi a arma.POLICIAL [sério]: E você não fez nada?TESTEMUNHA OCULAR [entrelaçando os dedos, a voz com vergonha]: O que eu podia fazer? Eu... Eu chamei a polícia um tempo depois. Mas...POLICIAL: Mas ele já tinha atirado na moça.TESTEMUNHA OCULAR: Sim, mas [fica mais sério, continua entrelaçando os dedos e esfregando as mãos uma na outra] eu acho que não foi proposital. Ele sacou a arma, mas eu acho que ele não tinha apontado para ela. Quando eu ouvi o tiro, os braços dele estavam caídos... Acho que foi acidental...POLICIAL: Isso é uma suposição ou uma certeza?TESTEMUNHA OCULAR: [volta a ficar com vergonha na voz] Eu não sei...POLICIAL [deixa os ombros caírem]: Então, sobre o outro garoto...TESTEMUNHA OCULAR: O... Quando a moça tombou no chão, só então eu vi o outro garoto e... E... [se curva para o lado e vomita. Limpa a boca e continua] O assassino pegou o outro garoto e o levantou... E então...POLICIAL [chama outro policial e pede para trazerem um copo d’água para a testemunha]: Fique calmo, já estão trazendo um copo d’água. [Depois de um tempo, o policial chega com a água, oferece à testemunha, que a bebe e em seguida agradece. O gravador emite ruídos enquanto não há som.]TESTEMUNHA OCULAR: Obrigado...POLICIAL: Disponha. Pode continuar com o testemunho?TESTEMUNHA OCULAR: Sim, desculpa por todo esse trabalho. O assassino levantou o menino, gritou alguma coisa... Acho que algo sobre a vida dos dois não valer nada. E atirou. O menino caiu no chão ainda tremendo. POLICIAL: Então ele estava vivo?TESTEMUNHA OCULAR: Sim.POLICIAL [sério]: Por que você não chamou a ambulância logo?TESTEMUNHA OCULAR: Eu não sei... Era um assassinato, tinha duas pessoas mortas... [cruza os dedos] Pelo menos eu tinha achado que já estavam mortas... Achei que devia chamar a polícia, e chamei...POLICIAL: E o assassino?TESTEMUNHA OCULAR: Enquanto eu chamava... Eu já tinha falado que havia tido dois assassinatos no celular quando o assassino colocou a arma na cabeça e se suicidou.POLICIAL: Sabe por que qual motivo ele podia ter feito isso?TESTEMUNHA OCULAR: Não. Eu só sei que ele colocou a arma na cabeça e bang!, caiu morto. POLICIAL: Obrigado pelo testemunho e...TESTEMUNHA OCULAR: Um momento... Eu fiquei sabendo que a menina não morreu... Ela vai ficar bem? [visivelmente preocupado]POLICIAL: Não sabemos. Talvez. [como que segredando algo] Mas eu não sei, mesmo que fique bem... Acho que a família não vai ter dinheiro para pagar uma cirurgia plástica. O rosto dela ficou um tanto deformado devido à bala. E talvez fique pior com a cirurgia.
TESTEMUNHA OCULAR [com raiva]: Miserável...[O Policial desliga o gravador e olha para as duas páginas na sua frente, uma pela metade. Seu serviço tava completo, só faltava anexar o registro da testemunha ao caso. Desliga as luzes e vai para a cama.]
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