Bala

6 Diário


___ de _________- Hoje me disseram que minha namorada me traiu ontem. Eu acho que tudo não passa de um grande mau-entendido. Não devia ser ela. Além do mais, todos lá deviam estar bêbados, não devia ser difícil confundir ela com outra pessoa. Por que ela me trairia? Vou ligar para ela. Melhor que confiar nessas bocas que ficam espalhando fofocas sem sentido. Parece que as pessoas têm um gosto pela fofoca, não entendo isso.

E se ela tiver me traído... Bom, eu acho que posso perdoar ela.

(dia seguinte) – Meu coração dói. Eu queria escrever um poema, mas não ia ser capaz disso. As lágrimas não caem, mas eu sofro. Ela realmente me traiu, as línguas... Havia uma boa metáfora... Ah, as línguas venenosas estavam certas. Eu não queria saber disso. Eu podia viver mais feliz sem que nada me contassem. Há coisas que é melhor não saber.

Ontem, no telefone, eu acho que ela notou alguma coisa diferente na minha voz. Ela admitiu que tinha me traído, e ainda admitiu que estava apaixonada. Disse para terminarmos, eu aceitei. Me arrependo até agora, não sei porque não fiz nada, não sei porque não chorei. Qualquer coisa ia ser melhor do que ter ficado mudo do outro lado do telefone, para depois falar um “tudo bem” lentamente.

Eu não devia ter aceitado assim. Eu amo ela. Não sei como posso ficar sem ela, sabendo que ela está com outro... Não encontro aquele... Aquela coisa que dizem de “se ela estiver feliz”. Mas acho que pode ser mais fácil suportar se ela estiver feliz.

Sei onde ela estuda. Já fui até a escola dela muitas vezes, depois das aulas. Amanhã vou de novo, ver o desgraçado que ficou com ela.

(dois dias depois) – Eu estive seguindo ela nesses dois dias. Quase não consigo escrever de raiva. Está claro que o... O “outro” não liga realmente para ela. Eu sou o melhor que ela pode ter, ela devia estar comigo, nos meus braços agora. Se eu conseguisse tirar ele do caminho, ela ia entender tudo. Eu a amo, a amo, a amo! Ela vai entender isso depois. Qualquer espécie de “paixão” que ela estiver sentindo vai passar depois, porque eu a amo e ela vai me amar.

Como quero acreditar nisso. Mas acho que isso não vai acontecer. Estou desiludido, mas gosto de ter esses pensamentos positivos, me faz me sentir melhor.

Só de pensar que ela pode estar com o outro, que está feliz ao lado dele e não do meu, que realmente amo ela... Isso dói. Queria que a vida fosse como eu vejo nos filmes, que no final tudo dá certo e as pessoas que se amam ficam juntas e todas essas coisas para crianças.

Eu tenho dezenove anos e agindo como se tivesse doze. Eu preciso resolver isso. Como homem. Eu não tenho que só ficar sofrendo aqui sem fazer nada.

...

A solução é simples. Eu só tenho que tirar ele do caminho que ela vai cair nos meus braços.

(algumas horas depois) – Lembrei da arma que meu pai guarda. Se eu conseguir pegá-la, amanhã tudo vai estar resolvido, e ela vai voltar a ser minha. Eu acho que eu consigo pegar a arma, é uma bela arma. E até onde eu me lembro, da última vez meu pai a guardou carregada. Eu faço isso por ela, não por mim. Porque eu a amo. E não quero que ela passe a vida do lado de alguém que não a ama.

Ela vai ter a mim.

(dia seguinte) – Eu tentei hoje. Não sei se deu certo. Eu queria conversar com ele, mas eu não consegui olhar para o rosto dele por muito tempo. Lembrei que ele estava apenas usando ela. Ele não merecia minha atenção, misericórdia, ou qualquer do tipo.

E ele ainda tentou fugir. O covarde miserável tentou fugir. É assim que ele defende ela? Ele nem tentou se desculpar, fazer qualquer coisa do tipo. Ele apenas correu. Mas eu consegui atirar antes que ele estivesse longe demais. Se tudo for como eu penso, logo logo minha amada vai estar em meus braços, e ela vai ver que eu tinha razão em fazer o que eu fiz.

Não, ela não vai saber. Isso será um segredo meu, com ela. Não gostaria de ter segredos, mas vai ser melhor assim. Ele está morto, ninguém me viu, vão achar que foi um ladrão qualquer, um assalto que deu errado. Pensando agora, eu devia ter pego a carteira dele, para deixar a coisa toda mais real. Mas mesmo assim... Podem pensar que o ladrão ficou com medo demais e fugiu antes de roubar, deixando apenas o corpo sangrando para trás.

Sim, ela vai voltar para mim. Com o outro morto, ela vai ver quem realmente a ama.

Guardei a arma antes que meu pai chegasse em casa. Espero que ele não repare na bala que está faltando.

(três dias depois) – Fiquei sabendo que o desgraçado ainda está vivo. Agora ela está lá com ele, no hospital. Não deu certo. Tudo ficou pior. Tudo que podia dar errado deu. Por que eu não mirei na cabeça? Ia ser tudo tão mais rápido.

O pior de tudo é que ele fez um retrato falado de mim. Estou sendo procurado, tenho que me esconder. Em qualquer caso, peguei o revólver comigo. Meu pai deve estar decepcionado, mas foi tudo um erro, não era para ter acontecido desse jeito. Não era para eu estar roubando e fugindo, eu apenas queria ficar com a minha amada. É tão errado assim brigar por aqueles de quem você gosta?

Em outros lugares minha atitude poderia ser louvável. Mas não é o caso. Estou agora na rua, fugindo, tentando não ser visto. Ando com a arma, sempre e sempre.

Assim que tiver a primeira oportunidade, eu vou livrar ela daquele miserável.

(três dias depois) – Quase não tenho mais tempo para escrever. Hoje fiquei sabendo que ele recebeu alta no hospital. Me aproximei de sua casa, mas vi que não era seguro. Havia muitos policiais. Reparei que um deles tinha ficado à paisana. Não era assim que eu ia conseguir me aproximar para acabar com aquela maldita vida que no fim ia deixar ela triste.

Eu preciso pensar em outra coisa. Está ficando cada vez mais perigoso sair por aí, se aproximar do bairro dele. Parece que agora ele está famoso, um ícone da violência das nossas cidades. A polícia não ia poder deixar uma pessoa assim morrer, sofrer outro incidente. Mas eu preciso.

Eu preciso saber como me aproximar dele. Mesmo que for para arriscar tudo. Mas se for para arriscar, dessa vez eu atiro na cabeça. Para não ter erros.

(dois dias depois) – Me decidi. Vou arriscar tudo. Vou seguir ele amanhã. Eu estive notando que meu amor não fica mais na casa dela, que ela o acompanha até a casa dele. Não quero causar nenhum mal a ela. Vou tentar conversar, ela vai entender. Não é sempre assim? Ela vai entender que amo ela, que quero só o bem dela, que aquele outro não valia nada, não valia o ar que respirava. Ela vai entender que eu a amo. Quero só conversar. Quero só conversar.

Com ele, também, quem sabe. Ele não gosta realmente dela, por que ficar impedindo um verdadeiro amor? Por que ficar no meio do caminho e atrapalhar tudo? Toda a culpa é dele. Ele que fez ela me trair. Eu até consigo imaginar ele oferecendo bebidas para ela naquela maldita festa.

Vou conversar. Infelizmente, não posso mais voltar para casa. Meu estômago se revira de fome. Mas isso realmente não importa. Eu vou ter que levar a arma, não tenho onde guardá-la. Vou levar tudo que tenho atualmente: o diário e a arma.

Mas vou só conversar. Só quero isso.

(dia seguinte) – É hoje.

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