Notas iniciais
Uma one-shot que escrevi recentemente, espero que gostem!

Era para ser só mais um dia de trabalho comum. Roman já estava cansado. Só mais uma semana de trabalho, e ele poderia se aposentar e finalmente descansar. Já com seus 57 anos, se arrependia de não ter dado ouvidos a sua psicóloga, que havia recomendado que ele se aposentasse já há alguns anos. Policiais normalmente não trabalham por tanto tempo assim, mesmo que sejam da área investigativa.

“Ainda estou em forma, posso continuar por mais alguns anos”, era o que ele pensava. Ninguém sabia o que havia acontecido para que de repente ele mudasse de ideia e decidisse que realmente já estava na hora. Ninguém, é claro, além dele mesmo. Em verdade, havia chegado um ponto em que 90% dos seus colegas já acreditavam que ele trabalharia até morrer, então foi um verdadeiro choque a todos quando ele disse que tinha dado entrada na sua aposentadoria.

Independentemente do motivo, ele estava de fato pronto para se aposentar. Por este mesmo motivo, os casos que eram passados para ele eram sempre dos mais simples possíveis. Seu papel, desde que a data de sua aposentadoria tinha finalmente saído, era levar os novatos consigo para casos simples e treiná-los da melhor forma possível. Este dia em específico não era diferente.

Por três noites seguidas, a agência tinha recebido ligações do mesmo bairro – apesar de aparentemente de vizinhos diferentes – sobre um grito de terror em uma casa. O que era estranho, na verdade, era o fato de que a casa em questão era uma casa abandonada há meses.

— Essa é a casa? – Perguntou Vinícius, o novato da vez.

— A própria. – Roman respondeu, no tom mais amigável que conseguiu reunir em meio a seu cansaço.

— Me surpreende que tenha precisado de três ligações de três pessoas diferentes em três dias seguidos para decidirem mandar alguém para verificar.

— É claro que te surpreende, você acabou de começar. Vou te dizer a verdade, Vini, desde que a nova direção tomou conta, a agência não se importa mais com a população periférica. Olha para esse bairro.

Vini olhou os arredores. Ele já tinha reparado no caminho, mas aquele bairro parecia verdadeiramente abandonado. As casas pareciam acabadas, a maioria sem reboco, com mato que claramente não via uma capinaria há tempos. Alguns moradores de rua também podiam ser vistos, apesar de que a maioria havia se escondido quando viram o carro da polícia se aproximando. Já fazia alguns anos que a polícia não era bem vinda por ali.

— Por que você não se candidatou a direção quando descobriu que o antigo diretor iria se aposentar, Roman?

— Eu não fui feito para dirigir nada. Me coloque no campo e você dificilmente verá alguém melhor do que eu no trabalho, mas não sei lidar com burocracias. Eu sei meus limites, e acredite, conforme você for passando tempo neste trabalho, você também conhecerá os seus. – Roman respirou fundo, fechando finalmente a porta do carro e começando a se dirigir até a entrada da casa abandonada. – Vamos logo, se tivermos sorte será apenas mais uma casa onde os usuários vem para ter uma bad trip.

Aquele bairro em específico havia sido tomado, nos meses anteriores, por uma nova droga sintética. Esta droga causava, para o usuário, uma sensação próxima do que seriam cerca de cinco a oito orgasmos de uma só vez, segundo pesquisas. Para um observador externo, porém, o que era visto eram gritos de terror e tremedeira extrema. Por isso a experiência ficou conhecida como “bad trip”, por mais que não fosse realmente uma para quem estava sob o efeito.

Roman e Vini se dirigiram até a entrada da casa. A porta já nem tinha mais maçaneta, então entrar foi bem fácil. Com cuidado, e com sua pistola já em mãos, Roman abriu a porta, analisando o que podia ser visto a princípio. A entrada da casa era um longo corredor com uma escada ao fim. Alguns passos a frente, era possível ver uma porta a direita. Mais alguns passos, outra porta, agora a esquerda e, logo a frente desta segunda, uma terceira porta. As paredes eram inteiras em tijolos, sem reboco. As portas eram de ferro, e a ferrugem mostrava a idade do local. As três portas já tinham uma distância de 10cm do chão, pois suas partes de baixo estavam inteiramente corroídas pela ferrugem.

A primeira porta, logo à direita, aparentava ser uma sala de estar no passado. Ali havia um sofá velho encostado na parede, além de vários colchonetes espalhados pelo chão. Numa mesa pequena de centro, várias agulhas e seringas, confirmando, na mente de Roman, o que ele esperava. Aquela era mais uma das casas abandonadas usadas para as bad trips. Esse hábito de ocupar casas abandonadas para este fim tinha se tornado muito comum nos bairros periféricos da cidade. A maldade do tráfico viu na incompetência da administração pública uma oportunidade para se espalhar e se aproveitou disso.

— Bom, devemos ligar para a agência e avisar que é mais uma “casa de bad trip”?

— “Trip” é o termo que usamos para nos referir a essas casas em comunicação interna. Bem criativo. Mas não. Pode anotar mais uma lição, Vini. Nunca tire conclusões precipitadas. Você só pode mandar seu relatório para a agência após investigar a casa por completo. Estamos apenas no primeiro cômodo. Você pode, e deve, anotar isso como um relatório preliminar, mas nunca feche o diagnóstico antes de terminar. Mantenha sua mente aberta.

Vini parecia encantado com os ensinamentos de Roman. Anotou em seu pequeno caderno algo. Roman estava incerto se a anotação tinha a ver com o caso ou com o que ele havia acabado de passar para o novato, mas para ele qualquer uma das opções estava de bom tamanho, apesar de uma parte dele desejar muito que a anotação tivesse a ver com seus ensinamentos. Roman podia estar pronto para aposentar, mas usava esses casos para treinar os novatos a serem o mais próximo do que ele próprio era. Um excelente investigador, mas que nunca havia perdido a empatia.

Eles seguiram para as próximas portas. A próxima porta à direita era apenas um lavabo, onde havia apenas uma pia e uma privada. Mais duas seringas e agulhas estavam em cima da pia. O lavabo emanava um cheiro horrível de mijo misturado com vômito. Ao virar sua atenção para a porta à esquerda, Roman notou Vini tendo um refluxo por conta do cheiro. Felizmente, não vomitou.

A porta da esquerda escondia uma grande cozinha que, se estivesse bem cuidada e em ordem, seria absolutamente linda. No entanto, não era o caso. Aqui o caso era um pouco diferente dos outros dois cômodos, porém. Havia sim seringas e agulhas, mas não era a maior parte. Aqui, a maior parte dos acessórios para uso de drogas eram cachimbos. Havia uma grande ilha no meio, em cima da qual estavam todos os acessórios. Alguns fogões estavam espalhados pela cozinha, a maioria podia-se ver que uma vez foram brancos. É claro, após todo esse uso e todas as drogas usadas naquele ambiente, estes fogões agora encontravam-se mais amarelos do que brancos.

— Crack. – Roman informou. — Não eram só as bad trips, isso aqui era mais uma casa de drogas no geral. A sala para quem quiser a bad trip, a cozinha para quem quiser crack. Com essa informação, não podemos descartar heroína também na sala, considerando que também é uma droga injetável. A operação aqui era um pouco maior do que esperávamos a princípio. Essa é a importância de investigar o local totalmente antes de concluir qualquer coisa.

Roman continuou a investigar a cozinha. Além dos fogões e da ilha, havia um pequeno armário de madeira no canto, com três gavetas. Ele foi até o armário. Nas gavetas, mais seringas e agulhas. Mais cachimbos. Apenas acessórios. Isto é, até ele abrir a última das três gavetas. Nela, havia um pequeno saco com drogas dentro. Roman retirou-o da gaveta, arremessando para Vini.

— Cristal? – Vini parecia surpreso.

— Sim. Alguém deve ter ficado tão louco que esqueceu o precioso pacote de metanfetamina. Agora eu queria não ter vindo com o carro da agência.

— Por quê?

— Acredite, quando o dono desse pacote perceber sua ausência, ele vai voltar correndo até aqui. Infelizmente, quando estão sóbrios esse povo não é tão burro. Ele vai ver o carro da agência e obviamente não vai entrar. Se estivéssemos com meu carro pessoal, isso não aconteceria. Bem, agora já foi. Guarde o pacote como evidência. Vamos seguir para o andar de cima.

— Roman, não deveríamos ligar para agência e pedir reforços? Essa operação envolve bad trip, crack, agora descobrimos até metanfetamina. O povo envolvido com isso é extremamente perigoso.

— Nem se preocupe com isso. Essas casas dificilmente são usadas durante o dia. Não corremos mais perigo do que corremos ao andar pelas ruas da cidade.

Vini parecia tenso, mas aceitou a decisão de Roman. Roman já estava há 40 anos na agência, não tinha porque duvidar da experiência dele. Após terminar a investigação completa do andar inferior, os dois se dirigiram finalmente para as escadas no fim do corredor. Era uma escada em espiral bem apertada, e os dois seguiram ainda com armas em mãos, mais por puro protocolo do que por medo do que poderia ter ali. Mais um corredor, mais duas portas. Uma na direita, uma na esquerda. Foram primeiro na porta da direita, por ser a mais próxima.

Assim como o resto da casa, poderia ser um lindo quarto ali, se não estivesse abandonado. Tinham mais diversos colchonetes espalhados pelo chão, além de um guarda-roupas na parede mais distante da porta. O guarda-roupas foi completamente investigado pelos dois, porém nada importante foi encontrado. Apenas algumas roupas e sapatos, que fediam quase tanto quanto o lavabo na parte de baixo. Ao lado do guarda-roupas, havia uma porta que levava ao banheiro. Era um suíte. No banheiro, mais do mesmo: seringas e agulhas. Este banheiro, porém, fedia menos, e as seringas e agulhas encontradas ali pareciam de maior qualidade, além de estarem perfeitamente embaladas e, consequentemente, esterilizadas.

Mentalmente, Roman criou uma teoria. A parte de baixo era para a maior parte dos usuários. O nível de fedor do lavabo, além da quantidade de colchonetes, seringas e cachimbos encontrados corroboravam com esta teoria. A parte de cima, porém, servia para alguns clientes mais exclusivos. O banheiro mais limpo, a quantidade menor de colchonetes, a qualidade dos acessórios. A parte de cima era para os clientes mais ricos. Ainda não estava pronto para compartilhar sua teoria com Vini, queria ver se ele chegaria a mesma conclusão por conta própria. Vini, porém, não vociferou nada. Concordaram, então, que poderiam seguir para a última porta.

Duas coisas incomodaram Roman. Em primeiro lugar, desde que subiram para o andar de cima, ele ouviu algumas vezes uma voz serena chamando seu nome. E, em segundo lugar, de todas as portas da casa, esta última era a única que estava fechada. Ele se aproximou com cautela, e lentamente empurrou a porta, abrindo-a devagar. Se surpreendeu com o que viu. De todos os cômodos da casa, este era o único que não tinha absolutamente nada. Estava completamente vazio. A janela aberta deixava o ambiente extremamente iluminado.

Esta mesma iluminação foi o que chamou a atenção de Roman e Vini para algo. Um pequeno ponto no quarto, no canto mais longe da porta, no qual não tinha luz alguma. Completamente preto. Era literalmente um ponto, como se fosse uma pequena bolinha de gude flutuando no canto do quarto. Aquilo não era natural. Roman notou que a voz serena que chamava seu nome vinha daquele canto.

— Você está vendo isso também, né? – Vini perguntou, e em sua voz a tensão estava clara.

— Sim. – A voz se Roman estava muito mais calma. Não porque ele de fato estava calmo, e sim porque ele sabia controlar suas emoções. – Você ouve algo também?

— Sim. Ouço meu nome sendo chamado repetidamente.

— É o mesmo para mim. Fique do lado de fora, Vini, eu vou me aproximar e investigar.

Vini não achava que era uma boa ideia, mas não teve tempo de protestar. Antes que pudesse falar qualquer coisa, Roman já estava se aproximando da esfera preta. Vini segurou sua arma com o máximo de força possível, como se ela fosse fugir dele de alguma forma. Estava preparado para agir à força se fosse necessário.

— Roman. – A voz serena agora falava mais forte na mente de Roman, e as falas ficavam cada vez mais claras conforme ele se aproximava. Era uma voz feminina. – O homem que dedicou quarenta anos de sua vida a uma agência que não o dá reconhecimento. O homem que foi traído por uma direção negligente e incompetente. O homem que se vê a uma semana de aposentar e teme que não terá mais nada a fazer da vida além de esperar o doce beijo da morte. Sem esposa. Sem filhos. Sem família. Sem amigos. Eu tenho algo que vai te dar o que fazer após se aposentar. Cairia bem para você. O sabor de cinco orgasmos de uma só vez. É só você querer.

Roman estava quase entrando em um estado de transe quando percebeu o que aquela esfera preta estava fazendo. Como sereias em alguns mitos, ela te atrai com uma voz doce e te pega desprevenido. Roman chacoalhou a cabeça, como se estivesse tentando tirar a voz da mente. O transe foi quebrado. No mesmo momento, Roman viu a esfera vibrar. E após vibrar, ela dobrou seu diâmetro. E após dobrar seu diâmetro, a mesma escuridão da esfera parecia estar começando a infestar as paredes. Vini estava percebendo isso ainda melhor que Roman, e gritou para que ele saísse dali. Roman começou lentamente a andar para trás, com medo de que se corresse algo pior acontecesse. A sala estava cada vez mais tomada pela escuridão. As paredes já estavam totalmente pretas. Agora, a escuridão começava a preencher a sala em volume. A partir do teto, a escuridão começou a descer, tomando todo o quarto.

Vini se desesperou. Atirou diretamente na esfera preta, que ainda estava no mesmo canto do quarto. A escuridão tomou o quarto quase que instantaneamente após o tiro. Por sorte, Roman estava perto o suficiente da porta e, ao perceber o tiro, virou e se jogou imediatamente para fora do quarto. Seu coração estava disparado. Havia literalmente encarado a morte como nunca em sua carreira.

— Mais uma lição, Vini. – Roman falou, entre as suas fortes respirações de desespero. – Por favor, não use a sua arma por qualquer motivo. Se eu não estivesse perto o suficiente da porta, o seu tiro teria me matado.

Os dois observaram a entrada do quarto. Completamente preto. O quarto estava totalmente tomado pela escuridão, mesmo com as janelas abertas e o corretor estando perfeitamente iluminado. Era quase como se aquela escuridão fosse 100% sólida. Como se tivessem preenchido o quarto 100% com piche.

— Eu não sei o que era aquela esfera. – Roman disse, agora um pouco mais calmo. – Mas é aquilo que anda aliciando as pessoas a terem as bad trips. Ela usou as minhas fraquezas, meus medos, para tentar me manipular a usar. Era como se eu estivesse entrando em transe. E quando eu escapei do transe, ela tentou me matar. Jesus, isso aqui é um caso muito maior do que qualquer coisa que já vi na vida.

Grito. A fala de Roman foi completamente cortada por um grito extremamente agudo que arrepiou por completo tanto Roman quanto Vini. Era um grito infantil e de terror, como se uma criança estivesse sendo morta. Eles olharam imediatamente para a escada, de onde o grito estava vindo. Lá, só viram o topo da cabeça de uma criança. Era possível apenas visualizar dos olhos para cima. Olhos estes que estavam completamente brancos, não havia vida alguma ali. A criança também não tinha cabelos e era completamente pálida. Quando foram se aproximar, a criança se desfez em uma fumaça preta, e os gritos pararam. Roman institivamente olhou para trás novamente, com medo do que fosse ver. A esfera preta, agora, estava no meio do corredor, em frente a porta do quarto onde ele acabara de escapar com vida. As paredes atrás da esfera começaram a se tornar pretas.

— Porra, Vini, corre! – Roman berrou.

Os dois se viraram e correram o mais rápido que puderam em direção as escadas. Quanto mais corriam, mais rápido as paredes ficavam pretas. Quando chegaram no andar de baixo, todas as paredes da casa já estavam pretas. As três portas do andar inferior, totalmente pretas. Os cômodos já haviam sido preenchidos pela escuridão. A única parte que faltava era aquele corredor. Era também a única coisa que separava Roman e Vini de escapar ali com vida. Mais gritos. Olharam para trás e viram que a escuridão já havia alcançado as escadas, a criança novamente presente ali. Agora, porém, conseguiram ver a criança por completo. Não tinha roupas. Completamente pálida. Não tinha também nem partes íntimas femininas nem masculinas. Roman percebeu que a boca da criança estava fechada, mas os gritos ainda vinham com tudo.

Não tinha tempo para pensar. A escuridão estava alcançando-os, e a única saída restante era a mesma porta pela qual entraram. Voltaram a correr a toda velocidade em direção a porta. Quanto mais corriam, mais longe a porta parecia estar. Não só a escuridão estava os alcançando, como parecia algum feitiço que tornava aquele corredor infinito. Ou era apenas a relatividade, e no momento de maior tensão de suas vidas, aquilo simplesmente parecia infinito.

Após o que pareceu uma eternidade, eles chegaram na porta. Roman abriu-a no desespero, tentando escapar do que quer que fosse que o estava perseguindo. E tudo ficou preto.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!