Bad Romance
7 Depois De Você
Notas iniciais
Eu não sabia como reagir quando sai da casa do Ciel. Eu jamais imaginei que nossa relação terminaria assim, dessa forma tão triste. Eu sempre tive relações passageiras, baseadas somente em sexo sem compromisso, nunca me permiti gostar, de verdade de alguém e justo quando eu me apaixono acontece algo assim.
Como eu poderia imaginar que o Ciel e eu nos conhecíamos? Eu estava bêbado, não estava? Não havia a menor possibilidade de eu me lembrar do que aconteceu naquela maldita boate. Eu não conseguia aceitar o que o Ciel havia feito comigo, ódio e tristeza foi tudo o que eu senti no dia em que soube da vingança, e mesmo agora, duas semanas depois, ódio e tristeza ainda era tudo o que eu sentia.
E agora, depois de tudo o que aconteceu, eu me limitava apenas a tentar esquecer tudo o que havia vivido nos últimos dias, o que não era tarefa fácil. É difícil esquecer, quando tudo à sua volta te lembra daquilo que você não quer lembrar. Minha cama estava inacreditavelmente impregnada com o cheiro do Ciel, mesmo que ele tivesse dormindo nela apenas uma vez. A cozinha me lembrava da primeira vez que transamos, o carro me lembrava do nosso primeiro beijo. Era tão difícil esquecer.
Sabe que eu sempre achei que as pessoas estavam fazendo drama, quando diziam que não conseguiam esquecer alguém? Eu achava que era falta de vontade delas, falta de empenho, mas só agora depois de terminar com o Ciel, foi que eu percebi que você não consegue simplesmente esquecer, é muito mais complicado do que isso.
Os dias se arrastavam e a última semana pareceu durar um mês. Felizmente, o fim de semana estava próximo e eu poderia ter um pouco de sossego, pelo menos era isso que eu esperava. Já era Sexta-feira e eu estava na biblioteca da Universidade, tentando estudar um pouco, já que em casa eu não estava conseguindo fazer isso.
Escolhi alguns livros nas estantes e me acomodei em uma mesa qualquer. Abri e o livro e um pouco antes de abaixar a cabeça para começar a ler, vi o Ciel entrando, distraído como sempre. Minha vontade foi de ir embora naquele exato momento, mas por algum motivo resolvi ficar.
Ele pegou alguns livros, e sentou-se na mesa em frente a minha, mas não chegou a me ver ali. O Ciel abriu um dos livros e começou a ler, a mesma expressão séria de sempre no rosto. Eu continuava pensando em ir embora, mas à vontade de continuar olhando para ele, me impediu de sair daquela biblioteca.
Vê-lo me causava um aperto no peito, talvez fosse saudade. Uma mecha de cabelo insistia em cair em seu rosto, de modo que ele estava sempre puxando-a para trás. Seu cabelo estava realmente grande. Os dedos batiam de leve contra a madeira da mesa, os olhos fitavam o livro, e vez ou outra um pequeno sorriso se formava em seus lábios, fazendo com que eu sorrisse também.
Por um momento me imaginei tocando aquele rosto outra vez, e subitamente deixei dois livros caírem no chão. Os olhos de Ciel se desgrudaram do livro que lia e se fixaram em mim. Meu corpo inteiro gelou, e eu fiquei exageradamente nervoso. Peguei os livros do chão, recolhi minhas coisas e rapidamente sai dali. Eu só não queria que o Ciel me olhasse daquele jeito, tão sério, tão frio.
Sai da biblioteca sem pensar em nada e andando a passos largos, rapidamente cheguei em meu carro. E só depois de me acomodar lá dentro, é que senti que havia voltado a raciocinar direito. Conclui depois de alguns instantes, que sair da biblioteca daquele jeito foi a reação mais idiota que eu poderia ter, mas o olhar do Ciel me afetou tanto, que eu não pensei em nada.
— Desde quando me tornei esse ser humano dramático e deprimido? – falei olhando para meu reflexo no retrovisor do carro.
Minha atual personalidade não tinha nada a ver com a antiga. Era como se existisse um Sebastian antes do Ciel, e outro depois do Ciel. Eu ainda tinha que buscar mais uns livros na biblioteca da faculdade, mas não estava com a menor vontade de andar pelo campus, então aproveitei que já estava dentro do carro e fui direto para casa.
Chegando em casa, tomei um banho, almocei e me esforcei o máximo possível para conseguir me distrair. Era Sexta-Feira e em outras ocasiões eu estaria pensando em quantas boates iria durante o fim de semana, mas esse tipo de programa já não me agradava mais. Eu agora fazia o tipo que ficava em casa, as sextas e aos sábados à noite, assistindo a um programa qualquer na televisão.
E lá estava eu no sofá, sendo consumido pelo tédio, enquanto assistia a um filme de terror, já que não via opção melhor naquele momento. Como alguém podia mudar tanto em menos de dois meses? Era o que eu me perguntava constantemente. Eu sempre critiquei as pessoas que ficavam em casa, remoendo mágoas passadas e se sentindo solitárias e agora eu era uma delas. Eu estava me tornando tudo aquilo que um dia critiquei.
Levantei do sofá, decidido a parar de lamentar o passado e fui em direção ao carro. Eu não sabia para onde ir, então apenas dei uma volta por alguns lugares da cidade. Não sei quanto tempo fiquei naquele carro, nem me lembro direito por onde passei, só sei que quando dei por mim estava lá, dirigindo na rua onde Ciel morava.
Não demorou muito para que eu passasse em frente ao seu portão, eu sabia que o melhor era ir embora, mas mesmo assim estacionei o carro e fiquei olhando para sua casa. Eu nunca entrei em sua casa, pensei. Não conheço seus pais, não sei do seu passado. Eu estava muito ocupado tentando transar com ele, não fiz questão de conhecê-lo melhor. Peguei o celular e fiquei olhando para o seu nome na agenda. Qual seria sua reação ao receber uma ligação minha? Ou melhor, qual seria sua reação se eu aparecesse em sua porta, assim do nada?
Percebi então que já não restava nenhum ódio pelo o que acontecera entre nós, acho que agora só restava saudade mesmo. Confesso que pensei em conversar com ele, em esclarecer as coisas, mas o orgulho quase sempre fala mais alto. Liguei o carro e voltei a dirigir, eu precisava de uma boate lotada, muita bebida e quem sabe uma desconhecida qualquer, para me ajudar a esquecer tudo aquilo.
Dirigi por alguns minutos e então finalmente avistei uma boate. Estacionei o carro e rapidamente entrei naquele lugar. A boate estava completamente cheia, a música que tocava não era das mais agradáveis e faziam meus ouvidos doerem, mas isso não importava. Fui direto para o bar e pedi um uísque. Eu queria beber e voltar a ser o que eu era antes de me apaixonar.
Me acomodei em uma das cadeiras do bar, e comecei a olhar em volta. Pessoas bebendo e dançando descontroladamente. Local quente e abafado, cheiro de álcool no ar. Achei que reviver os velhos hábitos, depois de tanto tempo, teria um gostinho de nostalgia, mas não. Tinha gosto de “você só está aqui, porque levou um pé na bunda.” Se é que era possível atribuir um gosto para esse tipo de coisa.
Eu já estava no terceiro copo de uísque, não era o suficiente para me deixar bêbado, mas já me fazia um pouco mais feliz. Levantei do lugar onde estava, e comecei a andar rumo à pista de dança, e antes mesmo de chegar lá fui parado por uma mulher.
— E aí, tudo bem? – ela falou próximo ao meu ouvido.
— Sim.
Ela tinha a pele tão branca quanto a do Ciel, e seus cabelos também eram negros. A situação para mim estava tão ruim, que eu começava a comparar a aparência das pessoas com a aparência do Ciel.
— Quer dançar?
— Acho melhor não. – respondi.
— Ah que foi? Você está parecendo tão triste.
— Não foi nada demais, apenas uma desilusão amorosa.
— Que pena! Como alguém teria coragem de rejeitar alguém como você? – falou me abraçando.
— Não sei...
— Que tal sairmos daqui?
Aquela mulher era exatamente o tipo de pessoa que eu procurava em uma boate. Levemente bêbada e disposta a algo mais. A chance perfeita para começar a voltar à vida de antes.
— Tem algum lugar em mente? – Questionei.
— Qualquer lugar, onde fiquemos a sós.
— Vamos até meu carro então.
Andamos lentamente até meu carro, ela esbarrava nas pessoas e sorria descontroladamente. Com certeza ela estava mais bêbada do que eu achei que estivesse. Depois de muitos esbarrões e sorrisos escandalosos chegamos ao estacionamento. Paramos em frente ao carro e assim que encostei a mão na porta fui agarrado por ela.
— Aqui está bom. – sussurrou antes de me beijar.
Sua boca tinha um gosto nada agradável de cerveja, mas não tive coragem de interromper o beijo. Envolvi os braços em sua cintura e correspondi as caricias delas. Eu a conheci há menos de quinze minutos atrás, e nem sabia seu nome. Eu estava incomodado com essa situação naquele momento, apesar de saber que algo assim nunca me incomodou antes.
Ela interrompeu o beijo e começou a beijar meu pescoço, enquanto deslizava a mão pelo meu corpo. O incômodo que eu sentia antes começava a diminuir. Sua mão desceu em direção ao zíper da minha calça e com certa dificuldade o abriu. Do nada o rosto do Ciel me veio à mente, e sei lá, o que diabos aconteceu, mas eu não consegui deixar que ela continuasse.
— Eu não posso. – falei, afastando-a.
— O que foi?
— Nada. Eu só não posso.
Eu não sabia o que dizer para ela, já que nem eu sabia o motivo que me fizera afastá-la daquele jeito. Ela ficou parada por alguns instantes, me olhando com uma expressão de confusão e depois começou a andar, me deixando sozinho.
— IMBECIL! – Gritou ao longe.
Imbecil? Talvez eu fosse mesmo um imbecil, mas não era por ter rejeitado aquela mulher. Entrei no carro e mais do que depressa sai dali. Dirigi o mais rápido possível e em pouco tempo estava de novo em frente a sua casa. Eu não sabia o que dizer, nem sabia exatamente o motivo de estar ali. A única coisa que eu tinha certeza era que não dava para continuar daquele jeito.
Peguei o celular no bolso, já era quase meia noite. Eu tinha consciência de que não era o melhor horário para uma conversa, mas eu não sabia quanto tempo minha coragem para fazer aquilo duraria, então era melhor tentar agora, do que deixar para depois. Olhei para seu número na tela durante alguns segundos, antes de finalmente ligar.
O celular tocou até que a ligação caísse, mas ninguém atendeu. Tentei uma segunda vez, mas não obtive sucesso. Resolvi mandar uma mensagem então: “Estou em frente a sua casa, e preciso falar com você. Se você não vier até aqui, não irei embora e te ligarei insistentemente.” Eu imaginava que depois de tudo, não seria fácil falar com o Ciel, mas estava disposto a tentar insistentemente.
Algum tempo passou e eu ainda não tinha obtido uma resposta e já estava me preparando para ligar uma terceira vez, quando uma luz se acendeu no jardim. Eu estava ansioso e uma sensação boba de esperança tomou conta de mim. A porta de entrada se abriu e o Ciel saiu de lá. Ele andou calmamente até o carro e parou em frente à ele.
— É tarde sabia? O que você quer aqui? – falou com a mesma delicadeza de sempre.
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