Bad Red
13 O Corvo
Notas iniciais
Brooke caiu mais uma vez no tatame. Seu corpo estava transpirando e sua respiração ofegante. Não teve tempo para descansar, pois logo Allen deu-lhe uma chave de braço. Ele prendeu seus braços no pescoço de Brooke, dificultando sua respiração e com isso, seu desempenho na luta. Allen sabia de muitos truques, mas a maioria deles ele havia ensinado a ela. A luta estava em um tom sério e tenso. Por mais que a piadinhas fossem quase impossíveis de se fazer, ainda podia-se sentir o tenor do ambiente.
Brooke rosnou a partir do movimento de Allen. Ele rapidamente apertou mais a chave. As mãos da garota tentavam de uma maneira desesperada forçar um alívio entre a força bruta do movimento.
– Desiste? — Allen pergunta presunçosamente. Ele estava achando aquilo engraçado. Brooke era totalmente teimosa e ela não desistia tão fácil.
A feroz luta era assistida por Lucky, o cachorrinho apenas observava curioso o movimento restrito ao tatame. Seus grandes olhos estavam atentos em direção à garota.
– Nunca. — Ela tentou sair do aperto. Puxou o braço de Allen e girou, fazendo com que ele ficasse preso entre suas pernas e do tronco para cima, imóvel. Agora ela estava no comando. Era eminente que Brooke estava melhorando em seu treinamento. Sua agilidade, rapidez e força eram notáveis. A evolução de Brooke era notável. Allen havia ensinado a ela quase tudo que sabia. Ela forçou ainda mais seu aperto contra o homem. Agora quem estava no comando, hein?
– Já desistiu? — Brooke perguntou em tom irônico. Já fazia alguns meses que estava morando e treinando com Allen. Ele havia a ensinado várias técnicas e conceitos. Não era tão fácil na prática, mas ela estava pegando o jeito. Os movimentos se resumiam a praticamente quatro regras.
"Primeiro, observe e analise seu oponente, sua forma de lutar, o modo que seus músculos se contraem. Você tem que descobrir seus pontos fracos para poder fazê-lo de ponto forte. Seja ágil, você nunca sabe o que esperar."
– Eu não desisto facilmente. — Ralhou o homem. Ele apertou Brooke em seus braços e a suspendeu até seu corpo bater fortemente no chão. Ela grunhiu e sentiu seu corpo vacilar. A luta agora estava acirrada. O pobre cachorro latia em revolta e Allen, em movimentos ágeis, voltou a dominar a luta.
"Segundo, seu oponente sempre vai ter uma carta na manga. Não cante vitória antes do tempo. Lembre-se que está lutando com o inimigo. Do tatame para fora ele não é nada, mas do tatame para dentro ele pode ser sua perdição. Seja esperta e saiba elaborar truques."
Allen largou a garota e a estendeu a mão.
A luta tinha acabado e Brooke havia superado suas expectativas comparadas à garota que há dois meses parecia fraca e dócil. Brooke havia se saído muito melhor como uma forte fera.
Chame de orgulho ou até egoísmo, mas Brooke não aceitou, ela roulou no chão até passar seus pés pelas pernas do homem fazendo com que ele perdesse o equilíbrio e caísse ao chão. A batida do corpo seminu de Allen bateu no chão tão forte que e ele murmurou alguns xingamentos.
"Terceiro, elabore seus movimentos, renove sua cota de surpresas. Lembre-se que em uma luta, você nunca, jamais, confiará em seus instintos e você tem que compreender que se não fizer tudo isso, você vai se ferrar."
Brooke apenas se levantou, sentindo-se vitoriosa e estendeu a mão para Allen. A garota limpou o sangue que escorria de seu nariz com as costas da mão, a boca possuía o gosto inescrupuloso do sangue.
A sensação que sentia era de realização. O tempo que passou treinando, malhando e trabalhando na academia não fora à toa. Sentia-se renovada. Depois de tempos treinando, ela conseguiu derrubar Allen, seu treinador. Sentia-se completamente satisfeita.
– Então estamos em um impasse, por que eu também não desisto facilmente. — Ela falou por último.
Allen apenas riu com a atitude da menina, ela era totalmente orgulhosa. Ele deu um pulo e rapidamente se levantou. Sentiu seu corpo tenso e dolorido, ela realmente havia acabado com ele, embora precisasse de mais técnica, ela poderia derrubar qualquer um.
– Você ainda tem muito que aprender garota, mas por hoje chega. — Allen disse se movendo aos fundos da academia, onde ficava seu escritório. Ele ainda ofegava entre suas palavras.
– Espera. — Brooke o chamou e o homem virou-se, curioso. Ela não sabia lidar muito bem com sentimentos, mas seu instinto a levou para a ocasião. Ela tinha que agradece-lo por tudo.
– Obrigado. – Ela sussurrou a palavra para Allen. Brooke sabia que ele havia entendido o recado.
– Da próxima vez eu vou chutar essa sua bunda. — Ele optou em quebrar o clima "familiar". Não estava preparado para falar essas coisa. Nunca fora um sentimental. Infernos, ele nunca fora de ligar muito, mas ele se importava com a garota.
Parecia absurdo, mas Allen estava realmente acostumado com Brooke, ela parecia preencher a solidão daquela casa e Jake a adorava. Se eles não tivessem um relacionamento tão complicado, talvez pudessem manter uma relação amigável e pacífica com ela e até poderiam virar amigos.
– Vou esperar sentada, velhote. — A garota sorriu. Pobre homem, Pensou. Ela havia contando tudo que sabia sobre Marie e Alice, apenas tirou as partes que a envolvia na história, ele não precisava sofrer mais e muito menos Jake. Ela se sentia responsável pelos dois e podia ver que eles precisavam de sua ajuda.
Brooke foi em direção ao vestiário. Ela olhou no relógio na velha parede verde, ainda eram 06h30, daria tempo de tomar uma ducha e sair.
A garota finalmente havia achado uma pista sobre seu passado, não era bem uma pista, mas sim uma testemunha.
Todas as noite, Brooke tinha as lembranças dos demasiados e horríveis dias que passou em cativeiro, era como um miserável flashback.
Ela sabia que aquilo só iria acabar quando ela os matasse.
Em suas demasiadas noites sem dormir ela pesquisou sobre seus pais, arquivos da antiga faculdade onde disseram que estudaram jutos. A partir daí ela descobriu um antigo amigo de colégio, ele talvez pudesse confirmar suas suspeitas. Depois de muito tempo procurando, ela achou seu endereço e era para lá que ela iria. Não estava com medo, não estava minimamente assustada. Era agora ou nunca. Brooke não se importava no que vinha depois, afinal, qual é a graça em sempre pensar no amanhã?
Suspirou, cansada. Ainda era o começo da batalha. Mas não iria desistir. Ela podia sentir seu sangue ferver apenas em pensar em tudo que passou.
A garota tirou as roupas molhadas de suor e observou seu corpo. Estava completamente diferente, agora sua barriga estava trincada e pequenos músculos formavam em seus braços. Suas coxas estavam resistentes e seu rosto não era como antes, estava bonita. Seu corpo ainda reagia como o de antes, podia-se ver que ainda era esquiva e magra.
Seu olhar foi em direção a sua cintura, onde havia uma frase tatuada junto com a imagem de um pequeno corvo sobrevoando as letras. Lembrou-se do por que daquilo era uma forma de se não esquecer seu destino. Uma forma de nunca esquecer. A cada vez que olhasse a frase, ela sentisse sua cabeça borbulhar e seu coração vazar o ódio.
"Liberta de um futuro, presa por um destino."
Ela não parecia apenas uma garota de recentes dezenove anos e sim uma mulher, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Suas ações e pensamentos estavam idealizados em uma só ideia, justiça.
Quando se perde tudo que tem, todo amor e alegria, a única coisa que resta é vingança. Era a única coisa que ela podia se apoiar, vingança, as lembranças. Poderia doer, mas ela sabia que não aguentaria a dor que encheria seu peito se ela abandonasse tudo.
Brooke vestiu uma roupa e rapidamente saiu do vestiário. Seu cabelo, antes na cintura, agora estava na altura de seus ombros, ela mesma havia os cortado, tinha que tirar o peso morto de seu corpo. A cor, antes um castanho escuro, estava coberta por um preto. A velha escuridão. As lembranças de sua vida antiga não poderiam voltar, o que interessava agora era seu objetivo.
Com o acordo feito com Allen, Brooke conseguiu se reestabelecer e depois de juntar o dinheiro que ganhava trabalhando em sua academia e com isso conseguiu comprar um velho carro de um ferro velho à prestação.
Era um velho fusca amarelo, porém conseguia andar, era o que importava. Brooke entrou no carro e foi em direção a casa do homem.
No caminho ela relembrou o que tinha lido em seus arquivos. Não podia esquecer-se de nada.
Josh Parker, 45 anos.
Engenheiro Civil
Viúvo.
Sem filhos.
Mora sozinho em uma casa afastada da cidade.
Brooke estacionou em frente a grande e rústica casa feita de pedras. Um enorme quintal pôde ser visto pela garota. O casarão frio e assustador a intimidava por dentro, mais ela quase não sentia tal sentimento diante de todos os incrédulos pensamentos que a rodeavam.
Havia chegado a hora.
– Grey...Grey, aonde foi que você se meteu? — Ela murmurou tão baixinho que pouco poderia diferenciar a frase entre um sussurro ou apenas uma longa respiração.
Talvez aquele tenha sido um erro. Talvez bater naquela porta não fosse certo. Talvez... Não pudesse condizer com a realidade ser assim. Era um crime querer justiça? Talvez ela estivesse completamente errada. Tantas proposições. Seria egoísmo pensar apenas nela depois de tudo? Brooke vivia agora um complexo transtorno de perspectiva a sua personalidade. Embora o lado amargo e dolorido tomasse conta de boa parte dela, o carinho e a responsabilidade que tinha em proteger seu treinador e sua cria a sobrecarregava de uma maneira tão boa, tão... Libertadora.
Brooke poderia seguir sua vida, porém ela se lembrou da última e mais importante regra...
"Use seu objetivo como fonte de inspiração. Não siga o que lhe impõe. Lute contra eles e não desista. Não, nunca, nunca desista. Só há uma maneira de acabar com o inimigo, o nocaute final."
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