Bad Girls
68 Poker face
Notas iniciais
Can’t read my, can’t read my, no he can’t read my Poker Face.
– Então, foram três dias – Percy contou, enquanto estacionava o carro na frente da casa de Zeus, no Olimpo. – E você ainda está me dando o tratamento do silêncio.
Eu não respondi. É claro. O que seria o tratamento do silêncio se eu respondesse?
– Certo, faça o que quiser – ele bufou. – Eu duvido que você não se lembre do que aconteceu naquela merda de quarto de hotel.
– É claro que duvida – ironizei. – Você não confia em mim. Do que mais você duvida? Duvida que seja eu nesse carro?
Percy não respondeu. Ótimo. Agora, eu estava ganhando o tratamento do silêncio. O que ele queria que eu dissesse? “Ó deus grego Percy Jackson, perdoai-me por ter feito você duvidar de mim”? Eu não lembrava do quarto de hotel, só lembrava de ter ido até lá e afogado minhas mágoas com Absolut enquanto pensava na minha mãe Britney Spears nos dias ruins de carreira. Só sei que eu acordei, conscientemente, algumas horas depois, de volta ao meu quarto, e Percy estava dormindo na minha cama comigo. Bem, então a partir desse ponto foi um barraco tão grande quanto os meus conflitos com a minha genitora, onde Percy dizia todas as merdas que eu havia feito – e eu não duvido de ter feito, mesmo – e eu continuava repetindo que não lembrava de porra nenhuma e que não queria ele ali.
Conclusão: os dois orgulhosos ficaram emburrados, mas não emburrados o suficiente para sumirem de vista um do outro. Sensatos.
– Eu estou tentando pedir desculpas – Percy continuou. Eu tentei sair do carro, mas ele trancou a porta, impossibilitando que eu saísse. Fala sério. Até o céu quase despencando de tanta chuva parecia um ambiente mais agradável do que aqui dentro. – E você não acredita em mim. É uma briga atrás da outra, Annabeth. Por quê? Eu amo você, e você me ama. Não é isso que importa? Você... me ama, certo?
– Não seja idiota – revirei os olhos. – É claro que eu te amo.
– Então, por que estamos brigando?
– Eu... – Merda! Péssima hora pra não saber o que falar. Pensa, Annabeth, pensa. Por que você está brigando com ele? Espera, por que é que estávamos brigando mesmo? Ah, é. Os roxos, e toda a questão do Octavian. Do filho da puta do Octavian. – Isso é tão fodido.
Percy pegou a minha mão e a levou até a boca, depositando um beijo nos nós dos meus dedos. Meus pelos se eriçaram, e eu não encontrei coragem em tirar a mão dali depois de ver os olhos verdes do Percyto.
– Eu sei. Mas é só uma briga. Vai passar.
– Não, não são as brigas. Somos nós. A nossa relação, eu e você, isso tudo é fodido. Você é fodido, eu sou fodida. É... Confuso.
Percy enrijeceu.
– O que você está falando?
– Percy, eu quero ficar com você. Eu realmente quero. Mas eu não tenho certeza se você está pronto. Você mesmo disse que é muita bagagem.
– Eu estava brincando!
– Eu sei, mas é verdade.
– Annabeth, eu tenho certeza que posso aguentar a perseguição do seu ex-namorado psicopata. Já aguentei coisas piores.
– É, por minha causa.
– Nada foi por sua causa. E, se foi, valeu a pena. Tudo que é por você vale a pena, idiota – Percy revirou os olhos e destrancou o carro. – Agora, você tem certeza de que está pronta pra entrar?
Não, eu não estava pronta. Não posso ir embora?
– Estou – assenti. – Um pouco. Vou ficar bem.
Nós saímos do carro e subimos as escadas até a porta de entrada da casa de Zeus. Eu queria poder dizer que a chuva e os trovões meio que davam um toque sinistro à coisa toda, mas a coisa já era sinistra por si só, então o clima desfavorável só servia de coadjuvante.
A sensatez em pessoa, como também é chamada a minha mãe, decidiu que ela não ia voltar para Califórnia de mãos atadas e sem a sua “preciosa” filha. Então, aparentemente, ela meio que fez macumba e convocou uma reunião de família no Olimpo, onde toda a minha família montaria uma espécie de Assembleia e discutiria se eu deveria ou não ficar. E a minha opinião? A minha família está pouco se fodendo para o que eu realmente quero. Como sempre, quer eu esteja na Califórnia, quer eu esteja em Nova York.
A sala de jantar da casa de Zeus já estava um tumulto quando chegamos lá. Só faltava as pessoas atirarem pratos na parede e comida uns nos outros para a coisa ficar legal de verdade. Assim que eles viram a mim e ao Percy entrando na sala, entretanto, todo mundo agiu como se nunca tivessem gritado nenhuma vez na vida.
– Como você está? – Thalia perguntou. – Eles raramente fazem uma dessas. Acho que a última vez que fizeram foi quando queriam comprar uma TV de plasma para ver a última Copa do Mundo.
– É – Luke sorriu. Era a primeira vez que eu o via nessas Assembleias de Zeus, ou seja, isso não devia significar coisa boa. – Annabeth se mudar, final da Copa do Mundo... São coisas tão parecidas em grau de importância.
– Enfim – Thalia ignorou o que Luke disse. Ela estava grávida, e ela estava me dando medo. – Nós vamos aproveitar e contar sobre você-sabe-o-quê.
– E aí eles podem decidir entre te surrar ou te surrar e depois abortar o seu bebê – eu disse. – Você está ficando maluca? Não é melhor contar isso pro seu pai quando, não sei, ele não estiver completamente psicótico?
Olhamos para Zeus. Ele estava parecendo um daqueles apresentadores de talk-show, quando o show meio que perde o controle e os convidados começam a dar alfinetadas nos outros. Exceto que Zeus não estava calado e sorrindo para a câmera, e sim gritando mais ainda, como um episódio do The Voice onde a sua voz precisa ser mais potente que a dos outros.
– Silêncio! – No tribunal, completei em pensamento. – Muito bem, hoje vamos discutir um assunto muito importante. Como já sabem, na última Assembleia...
– Nós compramos uma TV nova pra sala – Ares disse.
– Não. Nós combinamos que só realizaríamos outra reunião dessas se fosse extremamente necessário. E, mediante aos novos acontecimentos, nós...
– EU PROTESTO! – Afrodite gritou, se levantando. – Eu demorei pra caralho pra conseguir juntar esses dois, Atena, e você não vai chegar aqui saltitando feliz achando que pode levar a Annabeth de volta, não! Não enquanto eu estiver viva, vaca!
– Mas ainda não começamos e...
– Ela é a minha filha! – Atena também se levantou. – Eu posso levar ela para onde eu quiser, visto que fui eu quem expeli ela da minha vagina!
Linda. Cena linda. Ótimo argumento.
– Mas foi você quem a mandou para cá! Se queria ela assim tão perto da sua vagina, por que foi que a mandou para o outro lado do país?
– Vamos parar de falar sobre vaginas, moças! – Ártemis pediu. – A nossa perseguida é algo ungido e não deve ser penetrada... Bem, nunca. Mas, em casos extremos, talvez depois do casamento.
– O que diabos é uma perseguida? – Poseidon indagou.
– Você só está dizendo essas baboseiras porque nunca deixou ninguém penetrar na sua perseguida! – Apolo caçoou. – Há! Perseguida ungida, onde já se viu?
– Nós não devemos falar assim do nosso corpo, pessoal. Não é algo que todos devam saber.
– O quê, como se ninguém aqui nunca tivesse visto uma – Apolo continuou. – Vai dizer que as perseguidas têm segredos? Como o jeito que você lava a sua? Achei que fosse universal.
– Eu estava mentindo – sussurrei para Percy. – Nós não somos fodidos. Essa família é.
– Isso não importa! – Ares se intrometeu. – Acho que a Annabeth devia dizer o que quer. É sobre a vida dela que estamos falando, afinal.
Isso, Ares.
– E o que ela sabe sobre a vida dela? – Atena deu um gole no vinho e jogou o copo contra a mesa, com tanta força que achei que fosse se quebrar. Não quebrou. – É só uma criança! As únicas aulas que ela já assistiu na vida foram as de Educação Sexual.
– Ah, mas essas são as melhores aulas – Apolo concordou.
– Educação Sexual – Ártemis debochou. – Dar aulas sobre perseguidas. Isso é doentio.
– Não existe perseguida, porra! – Hades esbravejou. – Fale vagina, va-gi-na, ou vulva, ou algum nome que não implique que a “perseguida” é uma bruxa viva durante a Inquisição!
– Fale chavasca – sugeriu Apolo.
– Achei que estivéssemos aqui para discutir sobre Annabeth, não para discutir sobre que nome devemos chamar a vagina. É uma vagina. Ponto!
– Olha, todo esse estresse – Deméter balançou a cabeça negativamente, em reprovação. – Nada disso aconteceria se todos comessem cereais.
– Por favor, não – Zeus cobriu o rosto com as mãos.
– Foi você quem começou esse papo lunático sobre ela ter saído da sua vagina e isso faz você ter alguma espécie de controle mental sobre ela – Afrodite rebateu. – Você não pode controlar as pessoas, Ateninha. Já está na hora de aprender isso, né, amorzinho?
– Não me chama de amorzinho – Atena rosnou. – Ninguém me chama de amorzinho.
– Tenho certeza de que chamam a sua perseguida de amorzinho – Poseidon debochou.
– Olhe, ela é a minha filha – Atena ignorou o que Poseidon dizia, e mesmo odiando ela, não posso dizer que não teria feito a mesma coisa. – Eu só quero o que é melhor para ela. Estava ocupada devido ao trabalho, mas agora eu sei que vou conseguir me dedicar mais à ela e...
– Isso é mentira! – foi a minha vez de gritar, e aproveitei a situação para me levantar também. Já estavam todos de pé, mesmo. – Você é uma hipócrita. Vocês todos são. Eu nem ao menos queria vir para cá em primeiro lugar, e agora que eu estou aqui, agora que eu finalmente me acostumei com... Essa loucura genética... Vocês querem me tirar daqui? Querem me mandar embora e me despachar como se eu fosse um produto entregue errado?
– Ninguém quer te mandar embora, menina – Ares disse. – Sua mãe é que está sendo maníaca.
– Como quer que eu mantenha a minha filha aqui, neste lugar desprezível, onde um fugitivo da cadeia está a perseguindo e a ameaçando?
– Um fugitivo que eu conheci na Califórnia – corrigi. – Um fugitivo que eu namorei enquanto morava na Califórnia. Me desculpe, mas você esqueceu de tudo que eu fazia quando eu morava com você, “mãe”? Eu fui expulsa de duas escolas, mas as minhas festas eram as melhores. E eu namorava fugitivos da polícia. Dizem que velhos hábitos nunca mudam. Não seria uma pena se eu, que aqui finalmente comecei a pensar que talvez eu possa ter um futuro, voltasse para a Califórnia e voltasse a ser do jeito que eu era? Seria tão fácil quanto roubar doce de criança.
Senti Percy dando um beliscão na minha perna, mas o ignorei.
– Ela tem razão – Afrodite cruzou os braços. – Eu já a peguei brigando nos corredores, aos tapas com uma menina, nos seus primeiros dias aqui. Agora, ela não sai aos tapas com ninguém. Não em público, pelo menos.
– Aos tapas? – Atena piscou. – O quê?
– Ela nem ao menos sabe do que estamos falando! – Afrodite mexeu nos cabelos. – Realmente quer mandar Annabeth de volta para essa mãe negligente? Realmente? Uma mãe que, no primeiro sinal de dificuldade, simplesmente mandou a filha para longe?
– E do que você sabe sobre ser mãe? – Atena cuspiu. – Nem ao menos sabe ser uma esposa decente.
– Escuta aqui...
– EU ESTOU GRÁVIDA!
Silêncio. Longo silêncio. Um silêncio muito constrangedor, também. Subitamente, eu estava novamente sentada na cadeira, e era Thalia quem estava de pé, com as mãos na cintura e o olhar de desaprovação no rosto. Não, mentira. Era Ártemis quem estampava o maior olhar de desaprovação de todos. Não era Deméter – provavelmente estava checando o Google para ver se existia alguma camisinha de cereais, e se existisse, ela diria que Thalia devia tê-la usado. – ou Afrodite, nem Zeus. Era Ártemis. Ártemis e sua conversa louca sobre perseguidas ungidas devia estar doida da vida agora que descobriu que Thalia estava grávida e que sua perseguida já não era tão ungida assim. Apolo já riscava coisas aleatórias no seu bloquinho para não tomar partido, e Poseidon e Hades deviam estar trocando fichas de aposta por debaixo da mesa para saber quem ganharia a discussão: Zeus, Thalia ou Ártemis.
Pelo grau de loucura, eu apostaria em Ártemis.
– Você o quê? – Zeus finalmente se pronunciou. – Você fez o quê?
– Dã-ã, sexo – Afrodite explicou. – Você sabe, é aquela coisa que os homens e mulheres fazem quando se amam, e quando querem obter prazer ou procriar.
– Eu sei o que é sexo! Todos aqui sabem o que é sexo, menos Ártemis! – Zeus surtou. – Eu só não posso acreditar que a minha filhinha fez sexo! A minha doce e inocente filhinha e... Quem foi o filho da puta? QUEM FOI?
Espera, acho que eu quero apostar em Zeus.
– Como eu disse, não somos fodidos – eu sussurrei. – Me desculpe por dizer isso.
– Me desculpe por ter te deixado marcada – ele sussurrou de volta. – Eu posso ter desejado isso... um pouco... no começo. Mas depois eu não consegui me controlar. E você é fodida, sim. Por mim.
Tava demorando.
– Cala a boca – sorri. – Você não tem pelo que se desculpar. Eu tenho.
– Foi você quem saiu marcada, não eu.
– Tecnicamente, suas costas podem estar um pouco arranhadas.
– Valeu a pena. Você implorou.
– Eu não implorei coisa nenhuma!
– Você disse, e eu repito – Percy pigarreou. – “Eu não quero que você se controle” – ele disse, com uma voz exageradamente fina.
– Isso não é implorar.
– É, sim. E você gritou.
– Não gritei.
– Gritou, sim.
– Gritou, sim – Silena disse, se intrometendo na conversa. – Calem a boca, os dois. Eu quero escutar a discussão.
Percy sorriu e me abraçou, beijando o meu pescoço e impedindo que eu rebatesse Silena, porque eu iria rebater, e a coisa ia ficar feia se eu rebatesse. Mas tudo bem, fiquei quieta, porque tinham coisas maiores acontecendo.
– A questão não é essa, pai – Thalia continuou. – Eu estou grávida. E eu e o... pai... da criança decidimos que nós não vamos abortar. Nem dar para a adoção.
Meu Deus, pausa dramática. Esqueceram de me contar isso. Então podemos ter uma pequena Thalia ou um Luke Júnior correndo pela casa daqui a nove meses? Seria legal se o Luke Júnior pichasse as paredes perfeitamente limpas da casa do Zeus. Seria muito legal. Ele podia passar giz de cera na casa da minha mãe se quisesse, também.
– A questão é quem é o filho da puta? Quem é? QUEM É?
– Sou eu – Luke também se levantou. Na verdade, acho que todos ali já sabiam que o intruso que ninguém conhece e que subitamente aparece em uma das assembleias provavelmente é a razão para uma notícia bombástica. Menos o Zeus. Ele ainda tentava fazer com que tudo fosse perfeito.
Tarde demais, avô.
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