Bad Girl Fuckin Perfect

7 Cap VII: Vulnerável


Notas iniciais
Yo!!
Como sempre, gomem pela demora! Mas está ai o cap, um pouco maior que o anterior, pra compensar. Espero que gostem. Desculpem pelos prováveis erros de digitação e ortográficos.
Boa leitura.

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Cap VII: Vulnerável

Não podia mais usar camisa de manga curta, nunca mais. Eu tinha que cobrir as marcas nos meus braços, ninguém jamais poderia ver. Ninguém. Coloquei uma blusa de manga longa branca, que cobria quase que minhas mãos por completo. Perfeito!. Eu não as teria que erguer por calor e não teria mais aulas de educação física aquela semana, e por motivo nenhum alguém me pediria para arregaçar as mangas, então tudo estaria bem ate o fim da semana. Mas, o tecido de algodão branco que me cobria os braços, não se tratava mais de uma simples peça de roupa, ele era meu álibi.

Coloquei mais um casaco pesado e desci as escadas já com a mochila nas costas, mas ao chegar à porta e tocar na maçaneta, paralisei. Sentia-me completamente apavorada, tão subitamente tomada por um medo que jamais imaginei sentir. Não queria voltar a escola e ter que olhá-los novamente depois do ato de imbecilidade que havia cometido, não queria. Mas o fiz. Cabisbaixa, com a touca do casaco quase cobrindo meu rosto, sai de casa e fui apresada, sem olhar para trás ou para os lados, em direção ao meu inferno.

Nunca passei tão rápido pelos corredores, nunca me desesperei tanto para chegar a uma mesa, sentar-me e sentir-me segura rodeada pelos colegas de sala que me ignoravam. Suspirei aliviada quando vi Antony entrar na sala com sua maleta preta, suspirei ainda mais aliviada por não ver nem Lucy e muito menos Matt na aula de literatura. Não que isso significasse que ambos faltaram, provavelmente estariam cabulando aula ao redor da escola, mas já era um grande alivio não tê-los por perto mesmo que por pouco tempo. Relaxei minha postura na cadeira e me deixei ser envolvida pela voz forte de Antony, enquanto ele explicava animado sobre “O Diário de Anne Frank”. Acho que nós duas tínhamos muito em comum, ambas vivíamos escondidas e com medo por seremos quem éramos, mas por algum tempo Anne conseguiu evitar o campo de concentração nazista, eu, por outro lado, vivia no meu próprio campo de concentração e temia, que como Anne, não consegui-se sobreviver a ele.

- Para ser franca, não consigo imaginar como alguém poderia dizer "Eu sou fraco" e continuar assim. Se você sabe isso ao seu respeito, por que não luta contra, por que não desenvolve o caráter?

Fiquei aturdida ao ouvir Antony pronunciar tais palavras. Levantei os olhos e o vi segurando o livro de capa dura, os olhos fascinados depois de ler tal trecho, parecia devidamente admirado.

- Vocês conseguem compreender o que ela quer dizer diante de toda a situação que a rodeia?

Eu não conseguia entender nada. Parecia que Antony tinha lido aquilo diretamente para mim. Eu sabia que era fraca, tentará ate lutar contra, mas acabei por desistir, isso só fazia de mim ainda mais fraca? Estava complemente absorta, só voltei a mim quando ouvi Antony chamar meu nome em voz alta.

- Emily? – ergui novamente a cabeça ao ouvir sua voz, ele sorriu e prosseguiu: – O que poderia comentar sobre este trecho?

Me vi novamente aturdida. Antony tinha esse prazer, sempre que podia me fazia falar, me perguntava algo, não sabia se ele só queria me constranger ou se importava com o que eu achava.

- Er... – eu não fazia idéia do que poderia dizer, os olhos pequenos do professor me fitavam esperançosos – Acho que apesar de alguém ser fraco... ela pode ter caráter, mas sente-se tão mal que não consegue lutar contra sua fraqueza e muito menos mostrar seu caráter...

Vi Antony piscar inúmeras vezes, senti alguns olhares dos colegas sobre mim...Merda! Havia falado sem pensar, provavelmente não era nada daquilo que falei que ele queria ouvir, talvez esperasse de mim alguma comparação histórica diante da guerra em que o livro estava envolto, e não uma opinião confusa sobre minhas próprias fraquezas.

Nada fora dito pelo professor, ele apenas caminhou na direção da minha mesa. Inconscientemente puxei a manga da blusa branca enquanto o via cada vez mais próximo. Ele parou na minha frente, abriu o livro e me apontou um trecho grifado de amarelo.

- Leia em voz alta – pediu ele.

Engoli em seco, não o podia fazer. Olhei para o professor, mas ele parecia determinado e não sairia dali ate que eu fizesse o que ele pedira. Voltei a fitar o trecho grifado, respirei fundo e o li para que todos ouvissem.

- Para mim... – balbuciei as primeiras palavras, não queria continuar, minha voz saira falhada, quase um murmuro, mas ao contrario do que achei Antony não me pediu para ler mais alto. Respirei fundo mais uma vez, e continue: – é impossível ser sorridente num dia e venenosa no outro. Eu preferia o meio-termo de ouro, que não é tão dourado assim, e guardar para mim os meus pensamentos. Talvez algum dia eu trate os outros com o mesmo desprezo que me tratam. – ao terminar de ler, minha voz não falhara, estava alta e firme, quase confiante.

Olhei Antony nos olhos, ele nada disse, fechou o livro e voltou para frente da sala. Como se nada tivesse acontecido ele voltou a falar sobre o livro.

Sentia-me completamente exposta, como se por alguns momentos todos na sala fossem capazes de ver o que acontecia comigo e como me sentia. Completamente vulnerável...Naquele momento, agradeci ainda mais por Lucy e Matt não estarem presentes.

Ao toque da campainha todos se levantaram para seguirem o horário e irem para suas próximas classes. Como de costume fui a ultima a me levantar, a passos lentos me dirigi para a porta, mas antes que pudesse sair ouvi a voz de Antony me chamar:

- Emily, vem aqui, por favor.

Com certa falta de vontade e um súbito temor, virei-me na direção dele. Não queria trocar mais nenhuma palavra com o professor, por mais apreço que tivesse por ele, depois daquela aula não queria vê-lo tão cedo.

- Tome – estendeu para mim o livro que capa dura, o mesmo livro que me fizera ler para toda sala um trecho completamente constrangedor – É uma ótima historia, acho que vai gostar de ler.

- Mas... professor...

- Pode ficar com ele – sorriu enquanto levantava e pegava sua pasta preta – Tenho mais um desse em casa, e acho bom passar um livro pra frente, assim a historia continua... Ainda mais um livro desses, para alguém como você... – sorriu mais uma vez e simplesmente saiu da sala.

Fiquei parada por alguns instantes, o que ele queria dizer com aquilo tudo? Pensei em deixar o livro em cima da mesa e ir embora, mas ele pareceu tão sincero e era um presente, não poderia simplesmente me desfazer dele.

- Obrigada... – murmurei, mesmo sabendo que ele não estava mais ali e que ninguém poderia ouvir.

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Destranquei a porta de casa com uma mão e com a outra ainda segurava o livro que havia ganhado. Nada de tão ruim tinha acontecido aquele dia, graças à ausência de meus adoráveis amigos... Gostaria de saber como foi que me tornei tão sarcástica.

Larguei a mochila no chão, sem soltar o livro, e fui para a cozinha. Na verdade, não havia desgrudado daquele livro desde o momento que o Antony me entregara ele. Enquanto esperava minha comida esquentar no forno, sentei-me e comecei a folhear o livro. Vários e vários parágrafos haviam sido grifados com uma variedade enorme de tons de marca-texto. Me distrai tanto com as marcações e anotações feitas no livro, que quase deixei minha comida queimar. Devorei o pedaço de frango com arroz e ervilhas em poucos minutos, para logo em seguida migrar com o livro para a sala. Tirei os sapatos e sentei da forma mais confortável que encontrei: sentada em cima dos meus próprios pés.

Letra por letra, palavra por palavra, frase por frase, parágrafo por parágrafo, pagina por pagina. Eu estava devorando o livro! Absorvia os pensamentos e cada ação, sentia-me interada, era devidamente fascinante. Pelos anos que passei sozinha havia pegado o habito de ler, mas fazia algum tempo que não li algo tão... marcante! Nunca havia pensado na possibilidade de escrever um diário... Diários deveriam conter coisas interessantes dos quais um dia, quando não mais pudéssemos lembrar por nós mesmo, os recorremos para reviver nossas lembrança, e eu não tinha nada que gostaria de lembrar, muito pelo contrario.

Não sei ao centro quanto tempo passei sentada ali no sofá, mudando muitas vezes de posição por causa do formigamento nas pernas, mas sem um minuto desviar minha atenção do livro. Eu ansiava por terminar de ler, mesmo já sabendo o desfecho da historia, queria ler tudo de uma vez, sem perder nada. Mas minha visão já estava ficando fadigada pelo esforço feito ao se ler com pouca luz, e isso fazia minhas pálpebras pesarem... Por mais que eu lutasse contra, manter os olhos abertos era uma tarefa muito mais difícil do que poderia imaginar, e quando dei por mim as palavras lidas estavam soltas e sem sentido, e minha cabeça se inclinava para frente...

Acordei brutamente com uma mão forte balançando meu ombro. Não tinha mais o livro entre as mãos. Eu ainda estava confusa, ouvia alguém gritar e em chacoalhar, mas não conseguia compreender bem o que estava acontecendo por minha visão ainda estar embaçando; mas assim que o cheiro forte de álcool chegou as minhas narinas, tive um súbito de consciência: havia passado tempo demais lendo, tanto tempo que acabara por cochilar no sofá e meu pai chegara bêbado.

- O que você ta fazendo aqui, sua vadia? – ela balbuciou, quase perdendo o equilíbrio. Estava completamente bêbado, como de costume.

- Pai, eu... – não tive tempo de me explicar, antes que pudesse terminar ele acertou minha face com um tapa forte.

- Não me chama de pai, sua puta! – cuspiu as palavras da forma mais grosseira possível – Sai da minha frente, agora!

Levantei apresada do sofá antes que levasse mais um tapa. Meus olhos estavam repletos de lagrimas, tanto por causa da agressão física quando psicológica, mas chorar já era um habito. Enquanto subia correndo pelas escadas pude ouvir o corpo nojento, suado e fedendo a bebida de meu pai cair de encontro ao sofá, se é que aquilo poderia ser chamado de pai...

Inconscientemente, ou talvez muito mais consciente do que eu pudesse imaginar, fui correndo em direção ao banheiro, trancando com urgência a porta. Sim, eu tinha medo que ele viesse atrás de mim, muito medo. Sentei-me no chão e abracei minhas próprias pernas, como uma criança apavorada. Mais ainda sim podia ouvi-lo gritar uma infinidade de obscenidades no andar de baixo, obscenidades lançadas a mim, cujas quais não conseguia bloquear tapando os ouvidos com as mãos.

- Sua puta maldita, você é tão imprestável quanto sua mãe!

Acuada no canto e tentando me proteger das palavras lançadas a mim pelo meu próprio pai, eu chorava compulsivamente. Era pior do que qualquer coisa que Lucy ou Matt poderiam dizer, pois eles não eram as pessoas que deveriam cuidar de mim e me proteger, muito menos me amar a cima de tudo.

- Você é tão imprestável e inútil quanto aquela vadia!

Gostaria de acreditar que ele só falava aquilo enquanto estava bêbado, gostaria mesmo de acreditar que um dia fui algo importante para ele e não apenas um fardo. Ele me atingia ainda mais quando falava de minha mãe... Ela não era inútil e não merecia uma filha empestável, como tantas vezes ele repetiu que eu era.

Levantei-me e fui ate a pia, eu já sabia o que queria e dessa vez teria uma trilha sonora ao fundo: meu próprio pai me xingando. No armário da pia abri uma pequena gaveta que se encontrava ao lado, dentro dela encontrei algumas giletes, peguei uma que ainda estava fechada e voltei a me sentar no chão.

- Sua putinha, me responda enquanto estou falando com você!

Tentei ignorar os gritos, mas era quase impossível. O choro quase havia cessado, mas logo voltaria. Dessa vez eu faria mais rápido. Levantei a manga branca do braço esquerdo, as marcas ainda muito vermelhas estavam cicatrizando, não havia sobrado tanto espaço assim para novas. Puxei então a manga do braço direito, aquele ainda estava intacto, branco e sem nenhuma cicatriz ou marca, mas não ficaria assim por mais tempo. Abri a embalagem da gilete e deslizei a lamina mais vezes do que imaginava ser possível sobre o antebraço. Havia um rombo em meu peito, um machucado profundo feito pela inutilidade de não ser boa o suficiente nem para os meus pais, e agora essa dor escorria pelo meu braço. Minha pele era frágil demais e o sangue escorria farto pelos cortes, assim como as lagrimas pelos meus olhos. Assim que a primeira gota vermelha caiu no chão, os gritos de meu pai cessaram, talvez tivesse caído de bêbado no chão da cozinha. Perguntei-me por um instante, se ele visse o que fizera comigo, sentiria-se culpado? E a responda veio em seguida: Não!

Larguei a lamina no chão e sequei as lagrimas com a manga da camisa, para em seguida passar a mão sobre o sangue no outro braço, manchando-a por completo de vermelho. Eu tinha feito de novo e provavelmente não seria a ultima vez, principalmente se dependesse de meu pai. Ao ver o sangue voltar a brotar em cima das feridas, lembrei-me do livro deixado para trás no desespero de me proteger. Eu não o terminaria de ler, sabia que o diário estaria incompleto, como todo diário é... Pois no final ela morre, morre da maneira que já sabia que morreria... No final todos morremos, e eu estava apenas esperando o meu chegar, e sabia, que como o de Anne, ele não seria feliz.

Notas finais
Quis usar o livro ''O Diário de Anne Frank'' como ponte(alem dos trechos), porque acho que a Emily e a Anne realmente tem muito em comum, alem de ser um otimo livro (recomendo).
Enfim.. Essa fic vai começar a se encaminhar para um de seus pontos de maior climax, então... Isso significa que ela não termina tão cedo viu!!
Espero que tenham gostado. Comentarios, sim?
Bjos e ate!!