Backstage
24 Capítulo XXIV
Notas iniciais

Bruce aguardou, com impaciência, a chegada de uma ambulância e cuidou para que o agente Grayson fosse levado a um hospital. Não precisou da avaliação preliminar do socorrista para constatar que o rapaz fora vítima de alguma substância psicoativa, provavelmente ministrada em sua bebida ou refeição, na pausa que fizera para almoçar. Além de dopado, o agente fora deixado em um lote lindeiro, às imediações do estúdio, amarrado e com alguns ferimentos, apenas para deixa-lo fora de ação tempo suficiente.
Richard não se lembrava de nada, exceto da saída para o almoço. Lembrava-se de ter pedido um bacon e fritas para comer e uma Soda para se refrescar. O refrigerante havia sido cortesia de J’onn pelo que se lembrava. Depois disso, acordou em um local estranho, próximo ao restaurante, as mãos atadas atrás das costas, a cabeça dolorida – provavelmente por um golpe – e alguns arranhões. Não foi difícil se soltar, dado o seu treinamento, difícil foi encarar seu mentor e se dar conta que falhara na missão.
Bruce não o culpou e tampouco o advertiu pela negligência. Estava convencido de que, se alguém cometera um equívoco, este alguém era ele próprio. Prometeu a Diana que a protegeria, com a própria vida se fosse possível e, no momento em que deveria estar ao lado dela, estava longe o suficiente para que seu algoz agisse sem dificuldades.
O fato de J’onn não ter executado Grayson deixou Bruce ainda mais apreensivo. Já lidara com várias mentes doentias e sabia identificar os padrões de ações daqueles com os quais poderia negociar e com aqueles que não tinham nada a perder. J’onn fazia parte do segundo tipo. Ele parecia não se importar em deixar pistas, ao contrário, queria deixar rastros e declarar sua intenção de vingar a morte do irmão adotivo, sem importar-se com as consequências de seus atos. Ele mataria e morreria, com a mesma simplicidade de um piscar de olhos.
Dinah avisara ao Comissário Gordon sobre as recentes descobertas e todo o efetivo policial estava em alerta nas ruas da cidade, na busca pelo carro da emissora. Bruce preferiu sair sozinho, usando seu próprio carro, e sequer esperou pela parceira. A todo instante, se culpava por ter sido negligente, por não ter juntado as peças antes, quando agora tudo parecia ter tanto sentido.
A culpa era sua, lamentava-se, por ter misturado seus sentimentos pessoais com seus deveres de policial. Amava Diana, mas nunca se perdoaria se ela fosse ferida por sua ineficiência. Precisava correr contra o tempo, cada segundo que demorasse para localiza-la seria um segundo de vantagem que J’onn teria para cumprir suas ameaças. Não podia sequer imaginar a menor possibilidade de Diana estar sendo torturada, fisicamente e psicologicamente.
Sua vantagem era conhecer cada centímetro das áreas mais obscuras de Gotham, tinha contatos no submundo do crime. Um detetive precisava saber negociar com a escória, eventualmente. J’onn não conseguiria sair com Diana do perímetro urbano, todas as vias de fuga estariam bloqueadas. E, conhecendo a atração de mentes doentias por teatralidade e reconstituições, podia apostar seu distintivo que ele estaria no lugar em que o irmão foi morto.
Gotham era uma cidade grande, estava há cerca de uma hora fazendo rondas em busca da captura de J’onn J’onzz. A noite já havia ganhado corpo e, pelo visto, a primavera começaria com chuva. O céu nublava-se e relâmpagos reluziam como flashes no horizonte. O coração de Bruce trovejava, as mãos firmes no volante suavam. Vez ou outra ele olhava a arma deixada no banco do carona. Nunca havia precisado matar, mas, pela primeira vez, sabia que não hesitaria em chegar as vias de fato.
― Detetive Wayne, na escuta? – A voz da detetive Lance soou no rádio que Bruce levara consigo.
― Só me interrompa se tiver novidades, detetive Lance. – A voz de Bruce soou ríspida e o chiado em sequência no rádio foi resultado da irritação da parceira, que bufou.
― O carro da emissora foi localizado.
― Onde? – Bruce retesou os dedos que seguravam o volante, enquanto segurava o rádio com a outra mão.
― O capitão convocou os agentes mais experientes para a operação. Faremos uma abordagem em conjunto. – Dinah explicou.
― Só diga onde, Lance! – Bruce exigiu e a parceira bufou novamente. Obviamente, a detetive não julgava o desespero do parceiro, mas temia que as emoções o colocassem em perigo.
― Nas Docas. – Dinah revelou, sabendo que Bruce não esperaria reforços. ― Entendeu a parte do ‘em conjunto’, Bruce? – Ela aguardou a resposta, mas Bruce já havia soltado o rádio e cuidava em fazer um retorno, para pegar um atalho para o local.
Bruce conhecia bem as docas, haviam inúmeros galpões usados por criminosos para todo e qualquer tipo de atividades ilícitas. Lembrava-se de quais destes pontos pertenciam a Sal Maroni e sabia que a execução de Hades acontecera em um desses galpões. Agora que tinha a confirmação de suas suspeitas, não teria dificuldade para descobrir o local correto, só não podia perder tempo.
Enquanto o efetivo da polícia se organizava e planejava um contingencial de resgate, Diana estaria a mercê de um homem doente e frio. Ele não permitiria que ela sofresse mais do que a violência emocional que as semanas de ligações lhe causaram.
(...)
Quando Diana voltou a si,tinha o rosto e o colo molhado. Os cabelos gotejavam e a cabeça doía incisivamente do lado direito. Havia um filete de sangue pendendo da lateral da cabeça, proveniente do corte que o golpe do cabo da arma lhe causara. Por alguns instantes, ela não se deu conta do que estava acontecendo, parecia um pesadelo, um terrível e doloroso pesadelo, que não fazia sentido.
Ela estava sentada, amarrada a uma cadeira, os pulsos e os tornozelos doíam, dada a intensidade dos nós. A visão estava turva e a luz parca do ambiente não contribuía para que ela reconhecesse onde estava. Ela olhou para as roupas que vestia, lembrando-se de ter saído cedo para o ensaio fotográfico. Ergueu a cabeça com dificuldade, sem conseguir fazer movimentos bruscos com o pescoço para olhar para o lado.
À sua frente, uma parede com a pintura gasta, com marcas de pichações e muita sujeira, tinha folhas mensais de um calendário apregoadas em sua extensão. Os dias de cada mês estavam marcados com um ‘x’ e o dia atual circulado em vermelho. Apesar da dificuldade em enxergar, ela podia jurar que a marca não fora feita com tinta vermelha comum, parecia sangue.
Ao deduzir o tipo de recurso utilizado para grifar a data, ela lembrou-se dos últimos acontecimentos. A saída do estúdio, a ausência do agente Grayson, o temor por Bruce e a revelação de J’onn. Um esguicho de água jogado novamente em seu rosto, fez com que ela recobrasse completamente a consciência e olhasse na direção de seu raptor.
J’onn parecia o mesmo de sempre, o semblante ilegível, o olhar melancólico, exceto pela curvatura sádica que pairava em seus lábios, quando o olhar de Diana cruzou com o dele. Havia inúmeros questionamentos no olhar de Diana, vários temores em seu coração, mas ela só conseguiu expressar uma lágrima de lamentação num primeiro momento. Conhecia J’onn há menos de um ano, ele havia lhe contado sobre sua vida como soldado, nutrira uma afeição e respeito, quase que imediatos, por ele, jamais poderia imaginar que ele lhe quisesse mal. Que lhe quisesse morta.
Ele aproximou-se dela, lentamente, apoiou a mão sobre uma pequena mesa de madeira e correu o polegar pela extensão da lâmina de uma adaga deixada ali. O olhar de Diana acompanhou o movimento de J’onn e parou sobre o relógio despertador deixado ao lado. Um grito ficou preso em sua garganta, ao rememorar cada uma das ameaças que lhe foram feitas. O coração quase sufocou de tanto pânico e tristeza. Se aquilo era de fato real, J’onn pretendia não somente mata-la, mas também havia sido o responsável pela morte de sua mãe.
― Por quê? – A voz saiu embargada, mas em bom som. O olhar de J’onn se endureceu, mas ela insistiu. ― Por que, J’onn?
J’onn ergueu a adaga e pressionou a ponta da lâmina contra o seu dedo indicador, que já tinha um corte recente. Ele girou a adaga, causando uma perfuração superficial, mas não pareceu se incomodar.
― Você matou meu irmão! – Havia raiva e dor em seus olhos.
― Irmão!? – Diana murmurou para si mesma. Lembrando-se da teoria dos detetives, sobre o perseguidor ser alguém ligado ao seu pai. J’onn era seu tio? Ela questionou-se, horrorizada diante daquela situação. ― Eu não matei meu próprio pai. Nós mal convivemos um com o outro.
― O erro dele foi justamente querer conviver com você. Ele a amava. – J’onn deu mais um passo à frente, fitando Diana com mágoa e ódio. ― Primeiro ele amou a maldita da sua mãe, e só o que recebeu em troca foi ingratidão. Ela acabou com a vida dele. – J’onn começou a contar a versão que conhecia, e que fantasiava, dos fatos. ― Depois, ele descobriu sobre você. Pensou que você o aceitaria, que retribuiria o seu amor de pai. Mas você é igual a ela. Não ama ninguém além de si mesma.
As palavras foram um golpe para Diana, não somente pela descoberta, como pela forma que J’onn interpretava os fatos.
― Isso não é verdade, J’onn. – Diana reagiu, perplexa e furiosa. ― Hades nunca amou a minha mãe, ele a enganou e abandonou. E também nunca sentiu nada por mim, além de interesse pelo meu dinheiro.
Diana sentiu o rosto sofrer um impacto de uma bofetada e, em seguida, teve o queixo erguido pela ponta da lâmina da adaga. J’onn tinha os lábios trêmulos de ira e ela viu o desejo de vingança inflamar-se no olhar dele. Ele pressionou a adaga em sua garganta, o suficiente para fazê-la sangrar.
― Não ouse desonrar a memória do meu irmão, maldita. Pensa que eu não sei de toda a verdade? – J’onn conteve o impulso de cortar a garganta de Diana, ao sentir a pulsação dela aumentar e o medo ficar evidente em seus olhos. Ele se afastou, dizendo a si mesmo que era injusto dar a ela uma morte rápida, quando seu irmão tivera uma morte dolorosa, porque ela o enganou.
― Hades mentiu pra você, J’onn. – Apesar do descontrole de J’onn, Diana insistiu em fazê-lo entender a verdade. ― Minha mãe me falou uma vez, sobre um irmão do meu pai. Ela disse que ele o manipulava. Não pense que é fácil admitir isso, mas o homem cujo sangue corre em minhas veias era uma pessoa horrível. – Diana deixou as lágrimas saltarem de seus olhos, tentando encontrar algum resquício de sanidade em J’onn.
― Cale-se! – J’onn fez menção de avançar sobre Diana mais uma vez, mas conteve-se quando ela se encolheu. ― Sua mãe era uma mentirosa. Seduziu meu irmão e depois partiu o coração dele. Ela nunca lhe contou que estava grávida.
― É mentira. – Diana reagiu, horrorizada. ―Hades a abandonou justamente quando soube que minha mãe estava grávida.
― Tola! Você aprendeu a acreditar nela, a ser como ela. – J’onn reparou em como Diana tinha traços do seu irmão e desviou os olhos, atormentado pelas lembranças. ― Sua mãe era uma vadia qualquer. Meu irmão teve uma fase difícil quando ela o iludiu, foi para o mal caminho, mas eu o ajudei. O resgatei e o salvei.
Diana observou as reações de J’onn, suas emoções expostas, percebendo que aquilo que ela julgava ser discrição da parte dele era, na verdade, frieza. Ele não era gentil com ela, era calculista. Seu jeito introspectivo não era resultado dos anos na guerra, mas de sua psicopatia.
― Você matou a minha mãe. – Diana chorou, acometida pela dor da perda e pela compaixão que sentiu por J’onn e sua mente doentia, enganado a vida toda por um homem como seu pai.
― Ela ia prender o meu irmão. Ia coloca-lo no corredor da morte, por vingança, só porque ele não a queria mais. Sim, ela se arrependeu de tê-lo deixado no passado e quis consertar as coisas. – J’onn repetia o discurso mentiroso que ouvira do irmão e o levou a matar Hipólita para ‘salva-lo’. ― Eu tive que tira-la do caminho. Se eu tivesse feito o mesmo a você, quando ele resolveu procura-la, meu irmão ainda estaria vivo. – Ele lamentou-se, fitando Diana com ira e repulsa.
Diana deixou a cabeça cair, voltando os olhos para o chão. Aquilo tudo era muito pior do que imaginava, do que era capaz de compreender. Sua mãe morrera por uma mentira, morrera por um dia ter amado um homem como seu pai. Sentia que a qualquer momento sufocaria com o próprio choro, seu coração estava dilacerado, sua alma em agonia.
― Meu irmão disse que você iria ajuda-lo, que estava financiando o negócio dele. Minha filha é boa! É o que ele dizia. Dizia também que, quando se estabilizasse, nós voltaríamos juntos para a Europa.
Os ouvidos de Diana zuniam. A garganta queimava e ela mal podia sentir os membros que formigavam. Estava devastada, aturdida, apavorada.
― Mas você o enganou. Deixou seu próprio pai endividar-se, criar falsas expectativas e depois negou o empréstimo para que ele investisse no negócio que estava empreendendo. – J’onn fez uma pausa. ― Eu tentei ajuda-lo, mas um ex soldado mal tem rendimentos para se manter. Os credores ficaram impacientes. Cobraram a dívida com sangue. – J’onn deixou uma lágrima escapar. ― E eu vou fazer com que você também pague com sangue. A culpa foi sua.
J’onn ergueu novamente o queixo de Diana com a ponta da adaga. Queria que ela sentisse o calor de sua revolta pelo olhar, queria vê-la estremecer e agonizar antes mesmo que começasse sua vingança.
― Hades era um criminoso. – Diana soluçou. ― Ele queria me extorquir para financiar seus negócios ilícitos. Se eu soubesse de tudo antes, eu o teria ajudado, eu teria tentado fazê-lo se regenerar. Mas ele também mentia pra mim. Eu soube recentemente da morte dele. Não queria que tivesse terminado assim. – Havia um lamento sincero no olhar de Diana, mas não o suficiente para comover seu algoz.
― Basta! – J’onn segurou firme o queixo de Diana. ― Seus ardis não terão efeito sobre mim. A única pessoa que amei e que me amou, foi o meu irmão. Ele pediu aos pais que me adotassem, porque queria um irmão, um amigo. Ele sempre me deu valor. – J’onn sacou a pistola que tinha no bolso e correu o cano da arma pela bochecha de Diana. ― Os malditos nazistas acabaram com a minha família. Mataram meus pais, por serem judeus, na minha frente. – J’onn secou a face, com as costas da mão. ― Passei por vários abrigos, não tinha amigos. Até que Hades me viu, pela grade de contenção de um dos lares para menores, e começou a vir falar comigo. Ele prometeu que iria pedir um irmão aos pais e cumpriu. Ele nunca mentiu pra mim. Ele me amava, tinha orgulho de mim.
Os olhos de J’onn se estalaram por um instante, como se recordasse cenas antigas. O pobre homem jamais soubera que Hades nunca quis um irmão. Aliás, ficara feliz quando os irmãos de sangue morreram. A ideia de adoção fora dos pais e, não podendo evitar, Hades tratou de escolher o irmão que, os responsáveis pelo abrigo, haviam dito ter traumas emocionais.
― Lembro quando lutei na guerra do Vietnã. Hades me disse que eu seria um bom soldado. E eu fui. Ele ficou orgulhoso quando viu minhas condecorações e lamentou-se quando viu minhas cicatrizes. – J’onn puxou para fora da camisa um cordão que sempre carregava consigo, olhou para o grande pingente retangular de ouro, onde mandara gravar suas iniciais e as do irmão e quase sorriu, tomado por falsos sentimentos que foram incutidos nele. A verdade era que o irmão o incentivara a ser soldado, para ficar livre dele, na expectativa de que ele morresse na guerra.
Diana sentiu que a cabeça poderia explodir a qualquer instante, tamanha eram as ondas de dor que aquela situação lhe causava. Esperava que alguém viesse em seu socorro, queria ser resgatada, queria sair dali. Mas sequer podia desejar que Bruce viesse ao seu encontro. Sabia que J’onn o usaria para puni-la, não podia imaginar que Bruce fosse ferido, morto, por sua causa. A menor possibilidade disso acontecer, lhe fazia querer implorar para que ele a matasse. Destruída como estava, não era uma sentença difícil de aceitar. Entretanto, queria viver. Queria ser feliz, queria ver Donna ser feliz, queria fazer Bruce feliz.
― Você tirou tudo o que eu tinha, Diana Prince! – J’onn efetuou um disparo. O projétil passou a poucos centímetros da face de Diana e se alojou na parede atrás dela. Trêmula, ela percebeu que, da próxima vez que J’onn disparasse, ele não erraria. ― Quando descobri como chegar perto de você, consegui referências para me tornar motorista. Foi difícil ter paciência durante todo esse tempo, estudar seus passos, esperar a oportunidade certa. Mas este dia chegou.
― Desista dessa vingança, J’onn. O homem que matou Hades está preso. Se me matar, você será preso também.– Diana tentou, inutilmente, argumentar. ― Eu não tenho culpa.
― Tem! – J’onn limpou o suor que brotava em sua testa. ― Você é a causa e a consequência de tudo. Eu não tenho medo da prisão. Quando terminar com você, poderei descansar em paz. – J’onn apontou a arma para o próprio coração, deixando claro que se mataria. ― Eu vou fazer a você o que fizeram com o meu irmão. Vou fazê-la implorar para morrer. Sua bela irmã vai sentir o mesmo que eu. – Diana lembrou-se de Donna e lamentou-se. ― Vou tirar o seu amor. Vou livrar o detetive de ser feito de trouxa, como sua mãe fez com meu irmão. Deixei pistas para ele me encontrar, quero que você o veja morrer.
― Não! Por favor, não! – Diana implorou, chegando ao limite de suas forças. ― Se alguém precisa morrer, este alguém sou eu. Bruce não conheceu seu irmão. Não tem culpa de estar nesse caso.
J’onn sentiu a satisfação dominá-lo, ao ver Diana sofrer apenas com a possibilidade de machucar o detetive. Era isso que ele queria, vê-la em pânico e à sua mercê. Mas estavam apenas começando. Ele pressionou a arma na garganta dela mais uma vez, e acariciou o rosto bonito, encharcado por lágrimas, com a lâmina da adaga.
― Você vai morrer, Diana! Lenta e dolorosamente. – J’onn deu um sorriso digno de piedade. ― O detetive também vai. Espero que ele não demore. Estou preparado para lidar com ele. Andei estudando e descobri que Bruce Wayne é um policial que nunca matou ninguém. Nobre da parte dele. – J’onn pegou uma venda e colocou nos olhos de Diana. ― Eu já matei muitas vezes, na guerra é inevitável.
― Esqueça Bruce! – Diana sentiu o desespero se apossar de seus batimentos cardíacos. ― Você queria me ver implorar para morrer, não é? – Ela respirou fundo. ― Eu imploro, me mate. Mate-me agora, por favor!
― Ainda não!Só estamos começando. – J’onn garantiu, passando a lâmina da adaga na palma da mão esquerda de Diana. Ela estremeceu com a dor e sentiu o sangue escorrer livremente entre seus dedos.
J’onn inalou o cheiro do sangue, sentindo o ódio pulsar forte em seu peito. Esperou muito por aquele momento, iria aprecia-lo. Ele avaliou o rosto vendado de Diana, indeciso se causava um estrago na face esquerda primeiro. Lágrimas escorriam por sua bochecha e isso o motivava ainda mais. Ele queria vê-la arruinada, queria que ela caísse aos seus pés e implorasse verdadeiramente pela morte.
Antes que J’onn decidisse qual o próximo ferimento que causaria, um som vindo dos fundos do galpão chamou sua atenção. Ele espetou a ponta da adaga contra a mão de Diana, até que ela gritasse. Ele sabia que era o detetive à espreita, e nada como um grito de dor de sua amada para fazê-lo perder o foco. Satisfeito com o grito que Diana exprimiu, ele a acertou com o cabo da adaga, a ponto de fazê-la cair, amarrada à cadeira.
― Seu detetive chegou! – Ele comemorou internamente e abaixou-se para tirar a venda dos olhos de Diana. ― Vou deixa-la aí, no chão, para assistir a morte dele.
J’onn se afastou, com a pistola empunhada e a adaga na outra mão. Satisfeito, ele aguardou que o detetive o abordasse, enquanto Diana agonizava, temendo pelo que estava por vir.
(...)
Bruce já havia revistado três galpões abandonados quando o som de um disparo, em um galpão ao lado, chamou sua atenção. Em anos de profissão, foi a primeira vez que o detetive sentiu seu coração parar por um par de segundos e uma sombra de medo se alojar em sua espinha. O som viera de onde Diana estava, ele tinha certeza.
Ele passou as coordenadas do local para a parceira, através de uma mensagem, e não esperou respostas ou censuras. Correu, com todo fôlego que tinha, e avaliou o galpão de onde identificou ter vindo o disparo.
Chovia intensamente, o paletó de Bruce estava encharcado. Ele o deixou caído na entrada do galpão, quando encontrou uma escada que lhe permitiria escalar até o telhado e tentar entrar sorrateiramente por ali.
O galpão antigo era barulhento, era impossível se mover por ele sem chamar atenção. Sem contar o fato de estar ciente que J’onn deveria estar à sua espera, uma vez que deixou pistas para ser encontrado. Ainda assim, Bruce queria valer-se de suas habilidades estratégicas e tentar uma abordagem surpresa, ele só não contava que seu coração interferiria no curso de seus anos de treinamento e no trabalho centrado de sua mente.
Embora sempre fosse um policial cuidadoso, silencioso e preciso, Bruce se viu atropelado pelos sentimentos ao escutar Diana gritar. Um grito agudo e penoso que lhe atingiu a alma. De onde estava, teve tempo de ver J’onn acerta-la com um golpe e a cadeira cair. A cena foi pior que levar um tiro a queima roupa. Diana estava rendida, sendo agredida e ferida.
Não tinha ângulo para atirar, se tivesse, teria optado por uma execução rápida e certeira, colocando uma bala na cabeça de J’onn J’onzz. Mas este não era o tipo de policial que se propusera a ser, ele lembrou-se. A morte não era a melhor sentença para a justiça. Precisava manter-se frio, calculista, e tentar uma aproximação segura para Diana e para si mesmo.
Ele não podia falhar.
Sacando a pistola do coldre, ele desceu do telhado ao chão e continuou sua trajetória cautelosamente. Havia apenas uma parede divisória o separando de Diana. Não havia luz onde estava, guiava-se apenas pela iluminação fraca que vinha da parte da frente do galpão. Encostado à parede, deslizou com a precisão de um felino até à porta, semicerrada, que levava até o outro lado.
Um estalo nos céus, após o clarão de um relâmpago, fez com que as luzes do outro lado se apagassem. Decerto algum fusível da caixa de iluminação havia se queimado. Se houvesse iluminação de emergência, seriam poucos minutos até a eletricidade se reestabelecer.
Bruce engatilhou a arma, pronto para agir. A adversidade também devia ter pegado J’onn de surpresa. Deu mais um passo, empurrando de leve a porta. Tinha uma boa audição e lidava bem com o escuro. Não houve movimentação do outro lado, o que limitava sua ação. J’onn tanto podia estar à sua espera, como poderia estar usando Diana como escudo para detê-lo.
O instinto fez com que desse mais um passo, não podia atirar e nem ficar à espreita, apesar da vulnerabilidade, saberia se defender num combate corpo a corpo, se fosse abordado de forma limpa.
Quando virou a quina da porta, sentiu um vulto atrás de si tentar golpeá-lo. Ele girou rápido o suficiente para desviar do punho, mas não conseguiu evitar que a adaga entrasse profundamente em seu ombro esquerdo. A dor foi imediata e violenta, o sangue jorrou, ensopando a manga da camisa. Bruce xingou baixinho, mas ignorou a dor ao ser novamente alvejado por um soco.
Sem poder enxergar o que acontecia, Diana gritava desesperadamente, impotente e temendo pela vida do homem que amava. Ela tentava se soltar, pedia que J’onn deixasse Bruce partir, mas era tudo inútil. Seus apelos eram abafados pelo som de socos e pontapés zunindo na escuridão.
Mesmo ferido, Bruce conseguiu revidar, lançando-se contra a cintura de J’onn e empurrando-o de encontro a um móvel de madeira qualquer. O som de vidro se quebrando ecoou. Com o cabo da arma, Bruce conseguiu acertar um golpe no olho de J’onn, que rugiu de dor.
O ex soldado era muito forte e habilidoso, mas os anos mais jovens e o treinamento árduo de Bruce lhe davam uma larga vantagem numa luta corporal. Eles trocaram socos, mas Bruce conseguiu ser mais eficiente em seus golpes, deixando J’onn atordoado. O detetive conseguiu segurar o pulso da mão em que J’onn tinha a adaga, e acertar uma cabeçada em seu oponente.
Movido pelo ódio e pela adrenalina em não perder a oportunidade de se vingar, J’onn reuniu todas as suas forças para lidar com Bruce, mesmo em desvantagem. Ouvir os gritos de Diana atrás de si o impulsionava a vencer, para vingar seu irmão, enquanto Bruce era impulsionado a manter-se vivo para garantir que ela ficasse a salvo.
Atracados em meio a escuridão, os dois estavam tensos e rígidos, os rostos muitos próximos, o cheiro de sangue, suor e violência preenchia toda a atmosfera. O som das respirações ofegantes ecoava junto com os trovões vindo da área externa.
Usando toda a força que tinha, Bruce conseguiu torcer a mão de J’onn e desarma-lo da adaga. J’onn tentou usou a arma, mas Bruce também conseguiu fazer com que ele a soltasse em seguida. Sem se dar por vencido, ele conseguiu levar Bruce para um combate no chão, tentando usar a arma do detive contra ele próprio.
Os dois rolaram livremente pelo chão de cimento queimado, batendo nos poucos móveis que havia no recinto. J’onn tentava se apossar da arma de Bruce e o detetive tentava evitar um disparo, já que a arma estava engatilhada.
A mão de Bruce estava escorregadia, pelo sangue que fluía de seu ombro e escorria por todo o braço, por isso J’onn estava em vantagem ao tentar imobilizar seu punho. Obstinado, Bruce tentava esquecer a dor em seu ombro e se livrar do peso de J’onn sobre seu corpo.
Bruce conseguiu inverter as posições e acertar mais um golpe na face de seu adversário. Resistente, J’onn jogou sujo e cravou-lhe os dentes no ombro ferido. Bruce rugiu e afrouxou a mão tempo suficiente para que J’onn alcançasse a arma.
A disputa durou menos de dois segundos, inevitavelmente o dedo escorregadio de Bruce foi pressionado contra o gatilho. O som abafado do disparo foi só o que ressoou no galpão por longos segundos.
(...)
Bruce e J’onn tinham os olhos arregalados quando as luzes de emergência se acenderam, e nenhum dos dois se movia. Já Diana, sequer podia abrir os olhos, temerosa em ver o desfecho daquele embate.
Havia uma tristeza profunda no olhar de Bruce e um sorriso doentio nos lábios de J’onn. O detetive rolou o corpo para o lado, caindo de costas no chão, permanecendo ao lado do ex soldado. O som da voz de Diana foi a primeira coisa que se ouviu após o tiro.
― Bruce! Por favor! – Ela o chamou, abrindo os olhos e enxergando os dois homens, estendidos um ao lado do outro. ― Bruce! – As lágrimas correram livremente por sua face, quando ela viu o detetive erguer o corpo ensanguentado.
O tiro havia acertado em J’onn.
Bruce olhou o ex soldado dar seu último suspiro, a bala havia perfurado o tórax. Lamentando, ele se afastou, preocupado com Diana.
― Vai ficar tudo bem! – Bruce beijou a testa úmida de Diana e apressou-se em desamarra-la.Ele estava tonto, pela quantidade de sangue que perdera no ferimento do braço, mas só conseguia se sentir o pior dos detetives, enquanto observava o estado dela.
― Você está muito ferido. – Ela tocou no ombro de Bruce com a mão agora livre e que também sangrava, enquanto ele desfazia os nós que atavam seus tornozelos.
― Você também, está! – Ele lamentou-se, rasgando um pedaço da camisa para improvisar um curativo na mão de Diana. ― Mas nós vamos cuidar disso.
Mesmo exausto e ferido, Bruce a ajudou a se levantar, abraçando-a, aliviado, e Diana agarrou Bruce fortemente contra o seu corpo, como se ainda pudesse perdê-lo. Ela queria sentir alívio, mas o medo ainda pulsava forte em seu peito.
Ela abriu os olhos por um instante e viu J’onn cambaleando e alcançando a pistola caída no chão.
― Não é possível! – Ela murmurou, incrédula.
― Sabe qual o seu defeito, detetive? – A voz chamou a atenção de Bruce que virou-se e empurrou Diana para trás. ― Você não sabe matar. – J’onn disparou, rastejando no chão, atingindo Bruce em cheio no abdômen.
O grito estridente que Diana dera foi o suficiente para fazer J’onn sorrir, mesmo no limite de suas forças e nos últimos suspiros.Apesar de ferido, o pingente de metal que usava, diminuiu o impacto da bala.
Bruce caiu de joelhos com o impacto do tiro, tentando alcançar a arma em sua cintura. Diana notou a arma de J’onn apontada para ela. Tremendo, ela não reagiu. Se Bruce iria morrer, ela morreria com ele. Sem reação, ela fechou os olhos aguardando sua sentença.
A mão de J’onn tremia e ele quase não enxergava. Ele aprendera a disfarçar os sinais vitais na guerra, muitas vezes foi o que salvou sua vida. Já havia matado, mesmo baleado, durante a guerra. Sua pontaria era certeira. Os anos no exército fizeram dele um exímio atirador. Sabia que desta vez não sobreviveria, mas também não morreria sem cumprir sua missão. Pensando em seu irmão, fechou os olhos e preparou-se para puxar o gatilho mais uma vez.
Dois tiros ecoaram.
Um deles passou raspando o casaco de Diana. O outro acertou em cheio a nuca de J’onn. Quando Diana abriu os olhos, a detetive Lance tinha os cabelos molhados pela chuva, a arma em punho e olhar em choque ao ver o parceiro caindo ao chão.
Abafando um grito. Diana abaixou-se a tempo de amparar a cabeça de Bruce, antes que ela batesse no chão.
― Fique comigo, Bruce! – Ela pediu, repousando a cabeça do detetive em seus joelhos. ― Você precisa ficar comigo. – Exigiu, passando as mãos pelos cabelos dele, para ver melhor o seu rosto. Um pedido de desculpas ficou entalado na garganta de Bruce e escancarado em seu olhar. ― Por favor! – Ela suplicou, cobrindo o corpo dele com o seu, quando ele desmaiou.
Dinah imediatamente recolheu as armas do local e pediu que Diana se afastasse, para avaliar o parceiro. Por sorte, havia acionado uma ambulância a caminho, sabia que era impossível esse tipo de operação policial terminar sem feridos.
Sabendo da teimosia do parceiro, ela adiantou-se das viaturas em sua Harley Davidson, chegando antecipadamente ao local. Encontrou o paletó do parceiro na entrada do galpão e teve a vantagem de entrar sem ser notada, enquanto eles lutavam. Lamentava apenas não ter sido rápida o suficiente para evitar que o parceiro fosse ferido.
Desolada, ela rasgou a camisa de Bruce e o livrou do colete, perfurado por um projétil especial de 9mm, certamente contrabandeado por J’onn. Diana rasgou um pedaço do próprio vestido e usou para fazer compressão no ferimento aberto pela bala.
― Eu não vou deixa-lo morrer. – Debilitada, fisicamente e emocionalmente, ela disse para Bruce, encontrando os olhos da loira em seguida.
― Eu também não. – A detetive garantiu, desejando que o parceiro aguentasse firme até a ambulância chegar.
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