Backstage

16 Capítulo XVI


Notas iniciais
Hello, Detetives!❤ Feliz 2018 para todos!❤ Tenham uma ótima leitura! Kisses❣

Atônita, Diana sentou-se com Bruce ao seu lado, segurando-a firme contra seu peito, até que sua respiração se normalizasse e o choro cessasse completamente. Ele lhe ofereceu um copo com água e praticamente teve que ajuda-la a levar o líquido à boca, já que ela não tinha firmeza nenhuma para segurar o copo e não conseguia controlar o tremor em suas mãos.

Com sussurros de que tudo ficaria bem e carícias suaves, Bruce era seu porto seguro naquele momento. Ela via a preocupação no olhar dele, mas também um brilho de desafio e confiança. Ele era o homem forte e protetor que a acolhia e o policial obstinado e eficiente de que ela precisava, podia visualizar as duas personalidades perfeitamente delineadas em suas feições.

Diana queria sair imediatamente dali, mas como deixar aquele ambiente, sabendo que seu algoz ainda poderia estar por perto, perto o suficiente para ataca-la quando ela menos esperasse? Centenas de imagens se passavam em sua mente, imaginando-o com uma arma, uma faca ou uma ferramenta pesada para acerta-la na cabeça e espanca-la até a morte quando tivesse oportunidade. Espasmos percorriam seu corpo ao pensar em cada hipótese.

Quando a sentiu minimamente controlada, a ponto de não precisar se apoiar nele, Bruce fez uma ligação pedindo apoio e, mesmo que Diana não tivesse conseguido prestar atenção em nenhuma palavra, tinha certeza que ele estava falando com a parceira. Em seguida, o detetive vasculhou cada canto do camarim, a procura de mais pistas ou qualquer evidência, mas seu semblante deixava claro que não havia qualquer rastro do perseguidor.

Diana sentiu alívio quando Bruce entrou no toillete e logo saiu, dizendo que não havia ninguém ali. Pelo menos, dentro daquele recinto, estava protegida, ela pensou. Mas como sairia para o salão de festas? Milhares de pessoas, amigos, colegas de trabalho e seus familiares se divertindo e entre eles um louco assassino a sua espera, ela refletiu, se recusando a acreditar que o culpado de seus tormentos pudesse ser alguém que trabalhava na emissora. Esperava pelo menos que fosse um desconhecido qualquer, um penetra ou um infiltrado entre os funcionários do buffet que servia a festa. Doeria menos ser alvo de um desconhecido do que de alguém com quem já tivesse convivido minimamente.

Quantas vezes seu algoz já teria chegado perto de si? Teria cruzado com ele na rua, numa lanchonete ou no supermercado? Ele já teria lhe dado bom dia, já teria sorrido quando ela o cumprimentou ou até mesmo se fez passar por fã na porta de algum evento? Talvez ela tenha lhe dado um autógrafo, talvez tenham tirado uma foto juntos... Deus! Ela suspirou, tentando parar de pensar, a fim de não enlouquecer.

Quando bateram na porta do camarim, ela quase gritou. Se estivesse sozinha teria desmaiado. Mas Bruce estava com ela. Sem alarde e apenas com um olhar foi capaz de silencia-la e fazer com que se sentisse segura. Ele perguntou quem era, antes de abrir a porta, e Diana afundou de alívio no sofá ao reconhecer a voz de seu diretor.

― O cinegrafista quer saber se já pode entrar, Diana. A entrevista será em cinco minutos. – John empurrou a porta quando Bruce a abriu e só parou de falar quando percebeu o rosto lívido de Diana e o olhar nada receptivo do detetive. ― Está tudo bem? – Ele perguntou, com certo atraso.

― Diana não tem condições de fazer essa entrevista. Encontre outra solução ou cancele. – Bruce respondeu, apontando a saída para o diretor do The Prince Show, que parecia incrédulo com a petulância do detetive.

― Negativo. – Diana respirou fundo, se ajeitando no sofá. ― Preciso de dez minutos para me recompor, John, mas farei a entrevista. – Bruce fez menção de censura-la por se esforçar, mas Diana se antecipou. ― Eu estou melhor. Não há com o que se preocupar. – Ela olhou para Bruce e em seguida para John. ― Se puder nos dar licença.

John assentiu com a cabeça, tentado a questionar o que realmente estava acontecendo ali, mas o olhar pesado com que Bruce o fitava foi motivo suficiente para o fazer recuar.

― Você não precisa provar nada a ninguém, Diana. Não se esforce mais do que já vem fazendo ultimamente. – Bruce se aproximou dela e ela meneou a cabeça.

― Não vou deixar esse maldito roubar meu profissionalismo. Ele já roubou minha paz de espírito, minha liberdade... não posso deixar que ele mine o que amo fazer. Se ele ainda estiver aqui, não vai sentir o prazer de me ver fraquejar. – Ela respirou fundo.

― Tudo bem. – Bruce beijou-lhe o topo da cabeça. ― Mas se mudar de ideia, se quiser cancelar, isso não diminuirá em nada sua competência e nem será sinal de fraqueza.

Diana assentiu com a cabeça e levantou-se, dirigindo-se a um espelho e tentando corrigir os borrões que as lágrimas causaram na maquiagem. Ela sabia que tinha o direito de se dar um tempo, sabia que não estava nas melhores condições para executar seu trabalho, porém se concentrar em fazer o que amava lhe ajudaria a não entrar em pânico enquanto ainda estivessem ali.

(...)

Bruce pediu que Clark acompanhasse Diana na entrevista, enquanto aproveitava o tempo interrogando alguns seguranças, que deveriam estar a postos na porta do camarim durante toda noite e, providencialmente, – para o perseguidor – não estavam por perto quando o bilhete fora deixado lá.

Frustrado, Bruce sabia que em um evento daquele tamanho, com milhares de funcionários e convidados, empresas terceirizadas empregando funcionários em serviços diversos no evento, seria praticamente impossível encontrar um vestígio do psicopata. Encerrar o evento e criar um alarde estava fora de cogitação. Interrogar todos os presentes seria inviável e nem um pouco produtivo.

Tinha que haver um fio solto, algum detalhe que estavam deixando passar. Já lidara com diversos casos de psicopatas, sociopatas e maníacos ensandecidos, mas este caso estava superando seu tempo máximo de resolução. Bruce se cobrou, irritado consigo mesmo pela sensação de ineficiência que o tomava. Ver Diana definhando emocionalmente também contribuía para que ele ficasse impaciente. Estava disposto a defendê-la com a própria vida, se fosse preciso. Mas ele precisava de equilíbrio, precisava de inteligência emocional naquele momento para que seus sentimentos não afetassem sua mente sempre brilhante.

Ele ficou orgulhoso de ver como Diana se revestiu de uma força inexplicável nos dez minutos que pedira a John para se preparar para a entrevista. Obviamente, ele via a preocupação no olhar dela, o medo, as mãos inquietas ao lado do corpo, indicando sua agitação interna. Mas, ainda assim, ela abriu seu melhor sorriso quando George Michael e Paul McCartney entraram no camarim e agiu com desembaraço ao recepciona-los. Ela era fascinante, ele sorria, internamente, ao pensar na morena.

Bruce deu uma volta por entre os convidados, observando atentamente a multidão de pessoas se divertindo, comendo, bebendo e dançando, tentando encontrar um rosto que não fazia ideia de como seria ou pelo menos um rosto de alguns de seus suspeitos, mas só o que enxergava eram pessoas absortas no clima festivo, ignorando qualquer tipo de situação obscura que pairava nos bastidores.

Quando ouviu um burburinho que lhe chamou a atenção, virou-se e viu que era Dinah chegando ao local, chamando a atenção de 11 em um grupo de 10 homens, solteiros ou casados, que babaram pela loira estonteante em um vestido preto, nada básico, e curto. Ao ver uma mulher esvaziar a taça de champanhe, jogando a bebida na cara de seu acompanhante que distraiu-se tempo demais apreciando o ritmo dos quadris de sua parceira, Bruce quase sorriu.

― O furacão Lance. Sempre causando frisson por onde passa. – A descontração forçada era evidente pela ausência de sinais de divertimento em seu semblante. ― Me desculpe interromper sua noite de folga. Era urgente.

― Você causa muito mais estragos por onde passa, Bruce. – Ela olhou em volta, notando o clima do evento. ― Você devia ter descolado um convite pra mim, teria poupado tempo diante do ocorrido. Eu estava em uma boate com um babaca, sua ligação me salvou. – Ela deu um tapinha no ombro do parceiro, seguindo-o para os bastidores.

― Como se você não soubesse lidar bem com isso sozinha. – Ela deu de ombros.

― E Diana? – Ela olhou em volta, não vendo sinais da apresentadora.

― Fragilizada, mas está bem agora. Ela é uma mulher incrível. Mesmo depois do ocorrido, está fazendo o seu trabalho, se superando para não sucumbir ao medo. – Dinah não deixou de notar um brilho reluzente no olhar de Bruce quando se referiu à Diana.

― Já se olhou no espelho quando fala ou pensa nela? – A loira arqueou uma das sobrancelhas perfeitamente delineada. ― Bruce, nunca o vi tão apaixonado. – Ao vê-lo abrir um meio sorriso, Dinah se alarmou. ― Estou preocupada, com você e com ela.

Um combinado entre Dinah e Bruce era jamais se intrometerem na vida afetiva um do outro, isso porque ambos tinham um histórico ruim e de nada adiantava os conselhos que um tentava dar ao outro diante de um investimento amoroso arriscado. Contudo havia uma camaradagem, uma certa confidencialidade esporádica entre os amigos, já que conviviam muitas horas do dia juntos e era praticamente impossível não se importarem um com o outro.

― Já não é apenas paixão, Dinah. Eu amo Diana Prince e, quando encerrar esse caso, vou me casar com ela. – O detetive falava sério e Dinah impressionou-se com a obstinação em seu olhar.

― Ela já sabe disso? – Dinah duvidava, lembrando-se da Diana resistente de alguns dias atrás.

― Ainda não. – Bruce admitiu, como se fosse um mero detalhe. ― Mas, aceitaria ser nossa madrinha?

― Certamente. – A loira sorriu e o encarou seriamente. ― Só não se esqueça do que realmente importa nesse momento, Bruce. Passionalidade não é um bom ingrediente em nossa profissão.

Bruce sabia que Dinah não lhe chamara atenção por mal e nem queria ser invasiva, porém o comentário lhe causou certa irritabilidade. Seu atraso nas investigações não tinha qualquer relação com seu envolvimento afetivo no caso, se fosse isso, a parceira, tão sagaz quanto ele, já teria detectado algum fator que ele tivesse deixado passar despercebido.

― Eu sei quando agir como policial e como homem. – Para evitar que o assunto se estendesse, ele retirou do bolso o bilhete encontrado no camarim e o passou para a parceira. ― Este foi o recado da noite. Duvido que os peritos consigam digitais, mas temos que seguir os protocolos.

Dinah examinou a mensagem e guardou o bilhete, já envolto em um saco plástico, em sua bolsa.

― Veremos o que o pessoal do laboratório consegue. À propósito, tenho novidades do ex-marido. Ele já está em Gotham para o interrogatório na semana que vem. Parece que ele e a esposa estão em uma crise daquelas no casamento já faz uns seis meses, soube inclusive que Athur Curry quer tirar a guarda do filho, de um ano, da esposa.

Bruce assentiu, não havia nada de novo para ele nas informações, exceto o fato do herdeiro da indústria de pescados Curry já ter chegado a Gotham. Quando deixou a delegacia mais cedo, Bruce apenas sabia que o voo do ex marido de Diana já havia saído do aeroporto de Los Angeles.

― O relatório das investigações em Chicago, na última emissora em que Diana trabalhou, já está pronto. A passagem de Diana por lá foi a melhor possível. Ainda preciso checar dados de alguns funcionários da equipe do programa que ela apresentava, mas, ao que parece, teremos pouco proveito. – Bruce colocou as mãos nos bolsos da calça e bufou. ― Um detalhe interessante é que John Stewart foi demitido de lá, logo que Diana foi contratada na época.

― Vou fazer um estudo minucioso desses dados no fim de semana, não se preocupe. Qualquer novidade, entrarei em contato. – Dinah tranquilizou o parceiro, supondo o quanto ele devia estar inclinado a desistir do que tinha planejado, diante do acontecido nesta noite. ― Relaxe, Bruce. Você e Diana vão precisar desse fim de semana.

― Vou ficar lhe devendo uma.

― Eu lhe devo um monte. Nunca nos apegamos a isso. – Ela sorriu, despedindo-se do parceiro com um beijo na bochecha.

Bruce a observou atravessar a pista de dança, sendo assediada por um grupo de rapazes e se desvencilhando, sem nenhum problema, das cantadas maçantes e atrevidas de alguns deles. Quando a notou perto da saída, virou-se e caminhou para encarar Diana.

(...)

Já havia bastante tempo que Diana terminara a entrevista e a demora de Bruce em voltar a deixou com os nervos à flor da pele. Se não acreditasse piamente em seu chefe, poderia jurar que Bruce tivesse entrado em uma perseguição atrás de algum suspeito e por isso desaparecera por tanto tempo.

Mas Clark Kent era um péssimo mentiroso e seus belos olhos azuis transmitiam calmaria e esperança a qualquer um que estivesse em sua frente, mesmo a uma Diana completamente aflita e desconfiada. Ele explicou, pacientemente, duas ou três vezes, que Bruce apenas estava tomando providências como detetive, na tentativa de obter alguma informação útil com os seguranças, e seu sorriso afetuoso evitou que Diana entrasse em pânico.

Era impressionante como Diana se transformava quando estava trabalhando e ficava vulnerável quando não tinha algo que a estimulava para se concentrar. Clark notou a mudança de postura de sua estrela enquanto ela conduzia a entrevista e nos minutos que encerrou seu dever. Embora o trabalho fosse uma terapia poderosa, Clark estava convencido de que Diana precisava dar um tempo, sair da atmosfera de Gotham e dos preparativos diários para apresentar seu talk show antes que surtasse completamente.

― Vou lhe dar uns dias de folga, Diana. Você não tirou férias desde que foi contratada pela Planet, acho que se ausentar por alguns dias lhe fará bem.

― Está louco, Clark? – Ela sorriu, ficando séria quando percebeu que seu chefe não estava fazendo uma sugestão aleatória. ― Meu trabalho me mantém sob controle.

― Mas é lá também a maior incidência de ameaças. Uma semana fora vai ser bom para que você descanse. – Clark levantou-se e massageou os ombros de Diana. Atitude típica de quando ele queria pedir ou ordenar algo difícil de se aceitar. ― Para evitar comentários, direi que você viajou a trabalho.

― Eu não vou viajar a trabalho. – Ela retirou as mãos dele de si e também levantou-se para encará-lo de frente.

― Sou seu chefe, Diana. – Clark estava sem jeito, mas estava decidido. ― Se eu disser que irá, você irá.

Diana respirou fundo. Precisava tentar negociar ou pelo menos fazer com que Clark enxergasse o quão sem sentido sua sugestão imposta poderia ser.

― E o programa? – Ela arqueou uma sobrancelha, era recordista de audiência no seu horário. ― Vai exibir reprises?

― Temos duas entrevistas gravadas e nos outros dias Lois assumirá. Aliás, ela adorou a ideia de lhe dar uma folga.

― É claro que ela adorou. – Diana revirou os olhos e não escondeu o cinismo no tom de voz. O que seria mais providencial para Lois Lane do que uma semana cobrindo sua folga no The Prince show?

Clark iria repreendê-la, mas o retorno de Bruce desviou-os do assunto.

― Conseguiu algo? – Clark quis confirmar, apesar de notar o semblante pouco animado do amigo.

― Dei uma circulada, conversei com os seguranças... ninguém viu nada. – O olhar de Bruce para Diana era um pedido de desculpas, mas ele não parecia desanimado. ― As imagens do circuito de segurança serão examinadas e os que transitaram pelo recinto serão convocados para depor.

― Ele está chegando perto. – Diana abraçou o próprio corpo. ― Está ficando impaciente. – Ela olhou para Bruce, suplicando que não a poupasse.

― Ele está ficando descuidado também, Diana. Pra chegar até você, ele terá que passar por mim e garanto que, se esse confronto acontecer, ele vai se arrepender.

― Não tente bancar o herói, Bruce. – Diana deu um sorriso triste. Policiais não eram indestrutíveis, ela sabia disso.

― Não se trata disso, Diana. Meu dever é protegê-la e vou cumpri-lo a qualquer custo.

Sentindo o clima tenso no ar e nenhum pouco disposto a ser espectador de um conflito de casal, Clark interrompeu o assunto.

― Eu já liberei Diana de suas funções da noite e da próxima semana. Presumo que devam estar loucos para sair daqui.

― Clark, eu não concordei...

― Não é um acordo, é uma ordem. Está de folga. – O sorriso que Clark deu para Bruce fez Diana ficar extremamente desconfiada.

Pegando o casaco e a bolsa de Diana, Bruce se despediu do amigo e arrastou uma Diana feroz para fora do camarim, inconformada com a intimidação de seu chefe. Ela só não o praguejou mais, porque enquanto deixavam o espaço de eventos, ela estava preocupada demais em olhar ao seu redor, temendo que alguém estivesse observando-a à espreita.

Sua distração foi tanta, que sequer se deu conta que ao invés de caminharem para a saída, rumo ao estacionamento, Bruce a colocara no elevador, rumo à cobertura do prédio. Quando o elevador chegou ao seu destino e Bruce a conduziu por mais um lance de escadas, foi que Diana percebeu que estavam tomando o caminho errado.

― Aonde está me levando?

― Para fora daqui. – Ele garantiu e ela o seguiu por ímpeto e curiosidade.

Quando ele abriu a porta de acesso à cobertura equipada com um heliponto, Diana ficou boquiaberta ao ver um helicóptero com o brasão da família Wayne à espera deles e um piloto que logo veio cumprimentar Bruce. O piloto cumprimentou Diana que estava atônita demais para saber se respondeu corretamente, nem prestando atenção nas instruções que o homem passava para Bruce, enquanto observava o helicóptero de perto.

Bruce agradeceu ao piloto pelo serviço prestado e o dispensou em seguida, se aproximando de Diana, que tentava entender porque raios Bruce solicitara um helicóptero para leva-la para casa.

― O que isso significa?

― Nosso meio de transporte para sairmos daqui.

― Seu carro? – Ele deu de ombros e ela começou a sentir medo. ― Por que precisamos sair assim?

― Alfred veio buscar o carro e dará uma carona ao piloto. Nós vamos dar um passeio pelo ar, Diana. Era pra ser uma surpresa, para encerrarmos nossa noite, mas de qualquer forma, minha ideia veio a calhar diante do último acontecimento. – Não era mentira, mas Bruce decidiu que seria melhor contar toda a verdade aos poucos. ― Tem medo de voar?

― Não. – Ela garantiu, enquanto ele a conduzia para dentro do helicóptero. Já sentada, Bruce ajustava o cinto de segurança nela e Diana pensava o quanto isso era estranho, inesperado e exagerado, mas teria ficado impressionada com o impulso de Bruce se a noite tivesse terminado no clima em que estavam antes de receber mais uma ameaça. ― Sabe mesmo fazer isso? – Ela não duvidava, mas quis se certificar quando Bruce assumiu seu assento do lado dela, mexendo com familiaridade nos gadgets do painel.

― Tirei minha brevê há uns dez anos. – Bruce ajustou o próprio cinto, colocou o headset nos ouvidos, travou as portas do helicóptero e acionou o rádio para ouvir as informações aeronáuticas e meteorológicas antes de decolarem.

― Não gosto dessas futilidades. – Diana soltou, quando Bruce começou a levantar voo. ― Quer dizer, prefiro me locomover como as pessoas comuns.

― Sei disso, Diana. Mas perderíamos muito tempo viajando de carro. – Bruce respondeu, após terminar de passar as coordenadas de seu destino via rádio.

― Viajando? – Diana gritou no microfone do headset, sem ter certeza que ouvira direito, talvez o barulho das hélices tivessem prejudicado sua audição.

― Está de folga, lembra? – Bruce sorriu, prestando atenção na estabilização da aeronave. ― Eu também acabei pedindo o fim de semana de folga, para você ter o que fazer e não ficar entediada.

Levou menos de um minuto para Diana começar a encaixar as peças da armação que fizeram contra ela, mas ela estava preocupada demais para concluir o quebra-cabeças e precisava questionar Bruce sobre um detalhe muito importante.

― Eu não vou e não posso deixar Gotham. – Diana olhou para Bruce, que sorria. Ela já estava sobrevoando a cidade. ― Minha irmã? Pensou nela? Não vou deixa-la sozinha.

― Não só pensei em Donna como foi ela quem fez suas malas. Estão aí atrás. – Diana ficou perplexa ao reconhecer sua mala e uma outra ao lado, que presumiu ser a de Bruce. ― Quanto a Donna, ela vai passar uns dias na mansão, minha mãe adorou a ideia e Donna também. Tenho certeza que elas vão se dar bem.

Traição! Diana pensou. Sua irmã, seu chefe e seu detetive tramaram uma maneira de rapta-la de forma que ela não tivesse como escapar. Com um suspiro pesado, ela não fez questão de esconder sua insatisfação.

― Bruce, eu odeio ser enganada. Não tente se defender e dizer que vou gostar da surpresa que preparou ao me tirar da cidade, porque eu não vou. – Ela cruzou os braços, diante de sua impotência em se livrar daquela situação. ― Aliás, pra onde estamos indo?

― Casa dos Lagos, em Washington. Um lugar maravilhoso para você relaxar.

― Sua casa em Washington, eu presumo. – Bruce confirmou e ela o ameaçou. ― Detetive, sabe que levar alguém a algum lugar sem consentimento é crime, não sabe? Quero passar o fim de semana na minha casa.

― Você pode prestar uma queixa ao meu respeito quando voltarmos. E quanto a sua casa, prometo que passaremos o próximo fim de semana juntos por lá. – Bruce sorriu de lado, destilando toda sua insolência, que fazia o sangue de Diana ferver. Não que quisesse irrita-la, mas isso sempre era uma boa distração, especialmente para dissipar os temores que a dominavam horas antes.

― Que droga, Bruce! Eu disse para irmos com calma. – Diana lamentou, vendo a situação sair fora de seu controle. ― Você planejou minha vida pelos próximos dias, conspirou com minha irmã e meu chefe. O que você tem na cabeça?

― Você, princesa. Você não sai da minha cabeça.

― Eu juro que não lhe acerto logo a cabeça porque não sei pilotar essa coisa e morreríamos os dois, mas isso não vai ficar assim. Uma hora você terá que dormir e aí então...

― Então? – Bruce a motivou, mas ela desconversou.

― Se fez isso pra me levar pra cama, perdeu seu tempo e seu dinheiro abastecendo essa máquina.

― Estou levando-a para se distrair, Diana. Tem vários quartos de hóspedes na casa, embora você seja muito bem vinda a compartilhar o meu. Você terá bastante tempo para decidir enquanto estivermos lá. Agora, relaxe, lembre-se da nossa dança, não foi você mesma quem disse que estamos nos conhecendo melhor?

Cretino! Diana o praguejou por deixa-la sem palavras.

Bruce concentrou-se em pilotar o helicóptero e Diana deu-se por vencida, observando a cidade de Gotham ficar para trás, enquanto cruzavam a fronteira estadual. É verdade que ela estava furiosa por ter sido enganada, detestava que decidissem sua vida por ela. Agora os olhares de Donna para Bruce, antes de saírem de casa, faziam todo sentido. Ela teria uma conversa séria com a irmã quando voltasse.

Ela olhou para Bruce e sentia vontade de esgana-lo, mas lembrar dos sentimentos que ele desnudou dentro dela esta noite, da forma que ele a amparou todas as vezes que precisou, a impedia de ser consumida pela raiva. Aquietando seu coração, ela descobriu que estava com medo de ficar tanto tempo a sós com ele, se as coisas evoluíssem nesse fim de semana, não sabia se conseguiria administrar um relacionamento. E se ele se decepcionasse com ela, como Arthur se decepcionou?

Para evitar pensar, ela se distraiu com a paisagem aérea, desejando que conseguisse lidar com as surpresas desse fim de semana, sem se machucar emocionalmente ou magoar Bruce.

Notas finais
Continua! Um pequeno glossário. Creio que não seja necessário, mas também não vejo motivo para não deixa-lo nas notas. Headset: também conhecido como fone operador, fone de cabeça, headfone ou handsfree é um conjunto formado por um fone de ouvido com controle de volume e um microfone acoplado, utilizado por pilotos e passageiros de helicópteros. Brevê: Certificado que atesta a capacidade de um indivíduo pilotar aviões e afins. E então, curiosos para esse fim de semana? Mais surpresas a caminho.❤