Backstage
19 Capítulo XIX
Notas iniciais

O dia amanheceu chuvoso e frio, condição que só serviu de estímulo para que Diana e Bruce passassem a manhã toda no quarto. Quando teve forças, Bruce levantou-se e lhes trouxe o café da manhã na cama, as atividades intensas da madrugada lhes exigiram bastante energia e lhes deixou pouco tempo para descanso. Alimentados, dormiram algumas horas, aproveitando o clima propício para a troca de calor entre si.
Diana foi a primeira a despertar, já passava do meio dia quando ela resolveu conferir a hora no relógio de pulso de Bruce, deixado sobre o criado ao lado da cama. Honestamente, ela não queria deixar seu travesseiro quente e musculoso, onde havia adormecido tranquilamente, sem pesadelos e crises de consciência. Mas ciente de que não conseguiria dormir mais, preferiu levantar-se, antes que acordasse Bruce com sua inquietude.
Cautelosamente, ela se arrastou para fora da cama, não antes de admirar o quanto seu detetive ficava bonito dormindo. Não que ele ficasse feio de alguma forma. O semblante parecia sempre alerta, mas ela podia jurar que havia uma curvatura relaxada em seus lábios, indicando um sorriso. Sorriso que ela também ostentava nos lábios, sem se dar conta.
Vestindo uma das camisas de Bruce, ela seguiu para o banheiro, precisava de um tempo sozinha, de se olhar e de assimilar tudo o que aconteceu durante a madrugada. A experiência vivenciada havia sido muito além de prazer carnal, fora uma saciedade que mexera com a sua alma.
Enquanto a banheira enchia, ela olhou-se no espelho, gostando do que viu. Uma mulher feliz, satisfeita e com um brilho diferente no olhar. Era uma identidade nova para ela, mas cuja aparência lhe agradou muitíssimo. Estava crescida demais para acreditar em contos de fadas e finais felizes, mas pensou, pela primeira vez, que sabia exatamente como a Cinderela se sentiu, quando o príncipe lhe colocou o sapatinho de cristal no pé. O amor realmente podia ser mágico.
Estando a banheira cheia e o banho preparado ao seu gosto, mergulhou completamente na água, para complementar a sensação de bem estar que sentia.
Sentiu vontade de cantar, enquanto os músculos relaxavam dentro da água, mas, sabendo que embora o banheiro fosse grande o suficiente para suprimir parcialmente o som de sua voz, as notas desafinadas que saíssem de sua boca certamente seriam como agulhas certeiras no ouvido de Bruce para acordá-lo. Não iria começar o dia lhe causando uma má impressão.
Preferiu então aproveitar a vista panorâmica que tinha, enquanto banhava-se. A chuva caía serena sobre o jardim e escorria lentamente pelas vidraças do banheiro. Conseguia ver a copa de algumas árvores valsando com o vento e algumas folhas se desprendendo e indo embora com a brisa.
A chuva lhe fez pensar em transformação, renovo. E era exatamente assim que se sentia naquele momento. Assim como o bailar das árvores ditado pelo vento, ela estava se permitindo seguir o ritmo dos seus sentimentos, após anos de decepções. As folhas que se desprendiam das árvores eram como as mágoas e dores que começavam a se soltar de dentro dela. E assim como via as vidraças sendo lavadas pela água da chuva, sentiu-se purificada quando algumas lágrimas deixaram seus olhos.
Não era um choro de tristeza, mas de profunda comoção, enquanto lembrava-se da trajetória de envolvimento entre Bruce e ela, até culminarem na noite maravilhosa que compartilharam juntos, na cama dele.
Compartilhamento, era isso que Diana nunca havia experimentado, sendo uma mulher adulta, divorciada, e com alguns envolvimentos em seu currículo afetivo, nunca havia vivenciado uma troca igualitária se tratando de amor e de sexo.
Por isso sempre evitara se envolver depois das desilusões que sofrera. Carregava o fardo da culpa pelos relacionamentos não durarem. Carregava humilhações por sempre pensar que era ela que se doava menos, que não correspondia às expectativas dos homens que se interessavam por ela. Podia soar ridículo, para alguém que ouvisse de uma mulher de tanta representatividade, que ela se oprimia daquela forma, que era insegura e que mal havia chegado perto do prazer até a última madrugada. Mas essa era a sua história.
Hoje, porém, parecia sua redenção. Tudo isso porque um homem quebrou suas barreiras, uma a uma, antes de tê-la em seus braços. Ele a teria seduzido muito antes se quisesse, Diana tinha de reconhecer que não resistiria a Bruce se ele assim quisesse. Mas ele não queria uma amante, ele queria uma parceira. Ele a conquistou por inteira e não lhe deu menos do que ela tinha para oferecer.
Se sentia uma tola por estar chorando enquanto refletia, mas uma tola aliviada e realizada como mulher. Bruce havia lhe levado ao céu, a outros planetas, caminharam pelas estrelas... nem sabia como descrever as sensações que ainda eram vivas em sua memória. Perdeu a noção do tempo, adormecera com os dedos dele escondidos em seus cabelos e nem sonhos tivera, porque o melhor dos sonhos estava dividindo a cama consigo. Agora sentia paz, completa e plena, além de esperança de conservar-se assim, pelo menos enquanto estivessem ali.
Sem que ela notasse, Bruce entrou no banheiro, atraído pelo aroma delicioso das essências aromáticas e pela visão divina da mulher que virou sua cabeça, acomodada tentadoramente dentro da banheira. Todavia, a expressão que ele viu em seu rosto lhe rendeu um estalo de preocupação.
― Pensei que a encontraria com um sorriso no rosto. – A voz de Bruce a tirou de seus pensamentos. Ficara tão imersa em suas reflexões que não o viu se aproximar e parar ao seu lado na banheira. ― Talvez irritada, mas lágrimas... não foi uma hipótese que eu considerasse. – O desapontamento em sua voz era evidente.
Bruce tinha os cabelos perfeitamente bagunçados, o que lhe conferia um charme espetacular por destoar de sua figura séria e centrada. Usava um roupão escuro e uma linha de preocupação marcava sua fronte ao observar Diana chorosa e pensativa. Foi inevitável não pensar que ela estivesse arrependida, mesmo com a lembrança de que, enquanto compartilhavam seus corpos e seus sentimentos, ela parecia bastante consciente e satisfeita.
Ele sentou-se na borda de mármore que revestia a banheira e contornou a face de Diana com a mão, tentando ler o seu olhar. O susto dela por ser surpreendida logo foi substituído pela necessidade de se justificar.
― Eu não estava chorando, Bruce. – Ela tentou se explicar ao perceber a angústia no olhar dele. ― Quer dizer... eu estava, mas não porque queria, foi uma reação inesperada. – Ela tentou sorrir, pensando que dessa forma não pareceria tão ridícula aos olhos dele.
A reação amena não evitou que Bruce nutrisse dúvidas e receios.
― Sou o responsável por essas lágrimas? – Ele suspirou, tentando entender o que fizera de errado.
― De certa forma. – Ele afastou a mão do rosto dela, concluindo que as coisas estavam boas de mais para ser verdade e que começariam a tomar um rumo desagradável. ― Mas, não é de um modo ruim. – Diana percebeu que ele estava recuando. ― Você não entenderia se eu explicasse. – Ela desviou os olhos, constrangida, não queria que ele pensasse que ela estava arrependida ou decepcionada. Mas julgou que ele não seria capaz de entender o que ela estava sentindo ou não fizesse diferença. Ninguém nunca se importou antes e era uma constatação recente até para si mesma.
― Não vou me ofender se disser que as coisas não saíram como você esperava, Diana. Apenas me deixe saber. – Ele passou a mão pelos cabelos. Não era uma questão de ego. Amava essa mulher e só por isso se importava tanto se havia lhe deixado feliz.
Diana voltou a encara-lo. Ele não podia estar falando sério, podia? Ela o confrontou com o olhar, percebendo a frustração em seu semblante.
― Realmente as coisas não saíram como eu esperava, Bruce. – Ele enrijeceu o maxilar e ela sorriu. ― Felizmente foi tudo muito melhor. – Ela apoiou-se na borda da banheira. ― Quando disse que você não entenderia, foi porque eu nunca tive uma experiência como a nossa. Nunca ninguém me amou, me tocou... fez como você. – Ela corou as bochechas. Reunindo um pouco de coragem, abriu-se com ele. ― Sei que não é o mesmo para você, mas, para mim, nunca foi tão incrível. – Mais uma lágrima brilhou no canto de seus olhos e Bruce a conteve, antes que ela escorresse pelo rosto de sua princesa.
Bruce precisou de um minuto para absorver tudo o que Diana estava dizendo e acreditar que aquele choro era de emoção e não de decepção. Quando a teve em seus braços, havia percebido que ela tinha dificuldade de se entregar, mas abrira-se para ele, confiando no que ele tinha para lhe oferecer. Jamais podia imaginar que sua restrição pudesse ter sido por experiências mal sucedidas, acreditava apenas que ela tinha medo de lhe dar uma chance.
Era fascinante descobrir que ele fora especial para ela. Não porque precisava de elogios para ostentar sua virilidade, mas porque almejava um espaço em seu coração, em sua mente, e parecia tê-lo conquistado.
― O que lhe faz pensar que não é o mesmo para mim? – Ele beijou a ponta do nariz perfeito e esperou que ela se abrisse mais.
― Vocês, homens, não têm as mesmas necessidades que nós mulheres. – Ela tentou deixar o comentário banal, mas havia pesar em suas palavras.
― Talvez alguns homens sejam idiotas. Mas já lhe disse para não me enquadrar em suas referências. – Ele a compreendia, mas aparentou ofendido para que ela se convencesse de que entre eles tudo seria diferente. ― Acha que o que houve entre nós foi apenas mais uma noite pra mim? Eu compartilhei muito mais que o meu corpo com você, princesa.
― Eu sei. – Ela concordou. ― Eu senti. – Ainda estava sentindo, embora não fosse admitir. ― É que nunca fui boa nisso. Para vocês, homens, é muito mais simples. Para algumas mulheres também, mas... a verdade é que eu sempre fui complicada. – Ela desistiu de explicar. Como poderia falar sobre isso com Bruce sem parecer patética?
Bruce refletiu sobre o que ouviu e amaldiçoou cada homem que havia tocado nela antes dele e, de alguma forma, lhe ferido emocionalmente. Nenhuma mulher merecia ser tratada exclusivamente como um objeto de satisfação sexual e usada apenas para satisfação unilateral. Mesmo que se propusessem a ser apenas amantes de uma noite.
Tivera muitas mulheres em sua vida, mas nunca fora descuidado com nenhuma delas. Fossem conquistas de uma noite ou paixões duradouras. Fora um homem de verdade para todas e se orgulhava disso.
― Complicada? – Ele deu um meio sorriso. ― Eu adjetivaria como faminta, exigente, dominadora... apaixonante. – Ela ruborizou-se. ― Entenda uma coisa, princesa: São necessárias duas pessoas dispostas a fazer amor, enquanto para fazer sexo apenas é preciso um consenso entre elas. Quando um envolvimento sexual fica abaixo do esperado, a responsabilidade é equivalente ou daquele que foi egoísta o suficiente de querer o prazer apenas para si.
Era isso, Diana refletiu, enquanto Bruce falava. Sempre esteve disposta a fazer amor, mas nunca tivera alguém ao seu lado com a mesma disposição e só percebia a verdade quando era tarde demais. Fazer sexo, livre de qualquer sentimento, não era algo que lhe atraísse, embora tivesse tentado, por acreditar que supriria sua necessidade de sentir-se amada, já que chegou a acreditar que fazer amor era uma fantasia inalcançável na prática.
Após cada decepção repetia para si mesma que a culpa não era sua, mas a recorrência com que se frustrava lhe fez duvidar e se responsabilizar. Ouvir da boca de Bruce o que ela sempre tentou se convencer era libertador.
Bruce queria lhe esclarecer mais alguns detalhes, mas, para isso, lhe pediu permissão para juntar-se a ela na banheira, que sorriu em assentimento. De pé a sua frente, ela avaliou o homem de um metro e noventa e dois de altura, despir-se do roupão e expor-se gloriosamente para seu deleite. Ela não precisava bancar a inocente ou desviar os olhos e fingir uma discrição desnecessária. Podia e queria aprecia-lo por inteiro. A natureza perfeitamente esculpida e generosa nas formas másculas que ele ostentava.
Bruce sorriu ante o olhar indiscreto de Diana. Ele sabia que ela era orgulhosa demais para lhe fazer um elogio verbal, mas estava completamente satisfeito pela exaltação em seu olhar. Ele acomodou-se na banheira, ficando de frente para ela. Imergiu até a água atingir seu pescoço, permitindo-se um instante de relaxamento. Satisfeito, encontrou a perna feminina sob a agua, e inclinou-se para frente, o suficiente para puxar Diana para junto de si.
― Sabe, princesa! – Ele roçou os lábios contra os dela, inalou o cheiro das essências aromáticas que se entranhavam no corpo dela. ― Nunca fiz questão de ser o primeiro homem de uma mulher. – Ele envolveu o pescoço dela com uma das mãos, acariciando sua nuca. ― Mas nunca fiz tanta questão de ser o último, como faço agora. – Os olhos de Bruce brilhavam de convicção.
Atraída pelo toque e pela reivindicação, Diana o beijou, trazendo o corpo dele para junto do seu, arrastando-se para o colo de Bruce e deixando os joelhos flexionados, para apoiar-se ao lado de suas pernas. Ela também queria que ele fosse o último, esperava que ele pudesse ser. Mesmo que houvesse pouco mais de um mês que se conheciam, era mais do que ela já tinha experimentado uma vida inteira.
― Confesso que, ao tê-la em meus braços, senti inveja dos outros homens que tiveram a mesma oportunidade. – Ele murmurou, entre os lábios dela. ― Agora, sabendo da incompetência deles, posso sentir pena. – Ele acariciou o colo de Diana, contornou a curva dos seios e beijou seu pescoço. ― Você é e sempre foi incrível, princesa. – Ele gemeu ao ouvido dela, quando ela pressionou de leve seu sexo contra o dele, reagindo ao seu estímulo. ― A complicada nunca foi você. Terei sempre o prazer de convencê-la disso.
― Obrigada, Bruce. – Ela sussurrou ao ouvido dele, era o máximo que conseguiria dizer por ele compreendê-la, por resgatá-la de sua culpa arrastada e infundada.
― Eu amo você, princesa! Nunca se esqueça disso. ― Ele murmurou, trazendo o rosto dela para seu campo de visão e beijando-a tão intensamente que ela sentiu que poderia desmoronar sobre ele.
Ela não desmoronou, mas entregou-se mais uma vez às inúmeras sensações que os beijos de Bruce lhe provocavam, sentindo a fome por ele a consumir como chamas impiedosas. Ela nunca se cansaria de ser consumida por ele, estava convencida disso.
O banheiro foi inundado por uma onda de água que transbordou, quando Bruce inverteu as posições, pressionando Diana contra uma das bordas da banheira, sem deixar de beija-la onde fosse possível. Ele a amparou com um dos braços, para que seus corpos não perdessem o contato e nem o equilíbrio.
Com os corpos friccionados um contra o outro, o desejo veio desesperador, como uma fera enjaulada há muitos anos e que encontra a porta de acesso à liberdade escancarada. Aquilo também era amor, Diana sabia, mas em sua forma primitiva e bruta, uma urgência incontrolável, que não lhes permitia carícias suaves ou palavras gentis. Honestamente, ela nem as queria agora, necessitava dessa libertação selvagem e avassaladora, viver uma nova descoberta de si mesma junto com Bruce.
Os toques eram firmes e agitados, as bocas sedentas e atrevidas, os movimentos, provocações e reações ágeis e eletrizantes. Não havia como suprimir os suspiros ofegantes, os gemidos sôfregos e a luta intensa por domínio.
Eles se devoraram em preliminares ousadas e desafiadoras. As risadas altas e travessas de Diana preencheram todo o ambiente, fazendo com que Bruce a beijasse com mais paixão e volúpia. Ela sabia lhe provocar fantasias com habilidade, Bruce percebeu pela forma que ela brincava com o corpo de ambos, apenas para tortura-lo.
Bruce gostava de ter o domínio, mas permitiu que ela ‘vencesse’, para ter o prazer de ser submetido aos instintos predatórios que via em seu olhar. Ela o empurrou, fazendo-o acomodar-se na extremidade da banheira, para dar-lhe espaço para acomodar-se novamente em seu colo.
Ela o fez lamuriar-se, beijando-o seu tórax, pescoço e boca com ferocidade, provocando-o com fricções delirantes contra seu membro rijo e ansioso. Ele a segurou possessivamente pela cintura, clamando por ela, mas ela apenas se divertiu com seu martírio, usando as mãos para aumentar seu desejo.
Quando ela viu o desespero em seu olhar, sentiu-se satisfeita e disposta a compensa-lo, montando-o cautelosamente e se ajustando sobre ele, até encontrar uma posição confortável para os levarem ao completo delírio.
Complicada, ele grunhiu e sorriu, quando ela começou a se mover, roçando os mamilos contra o seu peito nu e inclinando-se para beija-lo aleatoriamente. Complicado seria quando ela tivesse completa percepção do domínio que exercia em seus sentidos, ele concluiu, sabendo que não se importaria nunca de que ela se dispusesse dele como quisesse.
Diana o encarou, percebendo o significado de intimidade quando foi dominada pela confiança para explorar seu homem, para conduzi-los ao clímax com total liberdade e cedendo aos instintos selvagens que lhe invadia. Era alucinante sentir que era livre e ao mesmo tempo lhe pertencia completamente.
Ela estava preenchida, não apenas fisicamente e por sentimentos luxuriosos, mas por um amor tão ardoroso que sabia que não poderia ser despertado por mais ninguém além de Bruce. Sua satisfação é que enxergava a mesma completude no olhar dele. Não era uma loucura temporária que inflamava o olhar do detetive, era uma reciprocidade integral ao que ela sentia.
Hipnotizado pela articulação do corpo esguio e escultural, movendo-se freneticamente sobre ele, arqueando-se, pendendo-se, ele a acompanhou, numa maratona ritmada de investidas, cujo prêmio só tinha valor se a vitória fosse compartilhada.
Com alguns segundos de vantagem, ela cruzou a linha de chegada ao êxtase, mas Bruce teve tempo de alcança-la, impulsionado pela eletricidade do corpo dela em espasmos sobre o seu. Coroados pelo prazer, aconchegaram-se nos braços um do outro, enquanto os corpos relaxavam e absorviam o frenesi que lhes percorria.
(...)
A chuva não dera trégua ao longo da tarde, mas a noite veio provocante e majestosa, o céu límpido e estrelado, servindo de acessório para a lua cheia e prateada brilhar e encantar qualquer um que lhe dedicasse um olhar.
Apesar do cenário deslumbrante, era inevitável para Diana não sentir um pesar abafando seu peito, enquanto seus pensamentos lhe mostravam que logo não estaria mais protegida naquele paraíso particular, sem se preocupar com o mundo que, muito em breve, precisaria enfrentar lá fora.
Estava consciente de que a realidade cotidiana à sua espera não seria das melhores, não enquanto um louco ainda estivesse planejando sua morte e dedicado a tirar seu sono com ameaças incisivas. Se pudesse escolher, ficaria ali, mas seria covardia de sua parte se esconder, não encarar de frente os desafios à sua espera. Diana Prince nunca fora omissa e não seria agora. Restava-lhe apenas a oportunidade de usufruir dos últimos momentos de paz que encontrou ali.
Outro detalhe importante, sobre o qual precisava pensar, era quanto a sua relação com Bruce. Em poucas horas ele voltaria ser o detetive Wayne e sabia que precisaria lidar com isso. Ele era um homem maravilhoso, mas ainda seria um policial. Talvez pudessem arriscar uma relação sem compromisso, mas ela seria capaz de se contentar com tão pouco? Sabia que não. Era madura o suficiente para entender que um relacionamento não sobreviveria apenas com noites maravilhosas de amor e que Bruce não estaria disposto a um relacionamento de conveniência. Era assustador ter que tomar uma decisão, mas seria inevitável diante do caminho pelo qual se enveredaram.
Ela o encontrou sentado nos degraus de madeira da escada de acesso à varanda que circundava a frente casa, observando a paisagem tranquila sob o véu da noite. O frio estava cortante, mas ele não parecia se incomodar com o vento incidindo forte contra o seu rosto e bagunçando alguns fios de seu cabelo. Ele parecia tão à vontade e integrado ao cenário que era hipnotizante.
Após contemplá-lo por alguns instantes, Diana juntou-se a ele, sentando-se ao seu lado. Com uma bandeja em mãos, o surpreendeu com duas xícaras de chocolate quente e dois sanduíches de geleia e pasta de amendoim.
― É meu pedido de desculpas. – Ela se explicou quando ele a encarou e o serviu. ― O chocolate não está tão bom quanto a receita de Alfred, mas o sanduíche é minha especialidade. Única especialidade, aliás. – Ela alertou, quando ele provou do chocolate e deu uma mordida generosa no sanduíche.
Ela experimentou um pouco do chocolate que levara para si, enquanto o observava tentar intimida-la, fazendo caras e bocas enquanto mastigava o sanduíche.
― Acho que sobrevivo às suas habilidades culinárias quando nos casarmos. – Ele a provocou, provando mais um pedaço do sanduíche. ― Está delicioso. – Ele a beijou na bochecha, notando que ela parecia em choque.
Não foi o elogio que a paralisara, mas a menção a casamento. Um frio percorreu sua espinha e lhe trouxe de volta a promessa que nunca mais repetiria esse erro. Não importava que Bruce e Arthur fossem homens completamente diferentes, ela ainda acreditava na prudência e no bom senso. Não deixaria que momentos extraordinários lhe roubassem o juízo, mesmo que seu coração tentasse lhe dizer que desta vez seria diferente.
― Ficou tensa de repente. – Bruce comentou ao vê-la deixar a xícara de chocolate quente de lado e estremecer quando ele lhe tocou os cabelos.
― Não é nada demais, Bruce. Apenas me situando de que, embora o fim de semana tenha sido maravilhoso, precisamos encarar a realidade. – Ela deu um sorriso fraco ao encara-lo, desviando os olhos para o céu em seguida.
― O que lhe preocupa, princesa? – Ele segurou sua mão, embora ela parecesse resistente. ― Dinah e eu vamos resolver o caso, prender o maldito que vem lhe atormentando. E nós vamos ficar bem, juntos. – Ele sentiu a mão dela tremer contra a sua.
― Confio no trabalho de vocês. – Ela foi honesta. Acreditava realmente que a investigação seguiria seu curso e culminaria com a prisão de seu algoz. ― Mas nós... juntos... – Ela olhou para a mão de Bruce cobrindo a sua.
― Eu te amo, Diana. – As palavras provocavam êxito e pânico em Diana. ― Pensei que estivesse convencida disso. – Bruce praguejou mentalmente.
― Eu também te amo, Bruce. Você foi muito mais que eu já tive a vida toda. – Ela suspirou e abraçou o próprio corpo. ― Mas tudo aconteceu rápido demais e em circunstâncias incomuns, admita. – O medo tomou voz dentro de si.
― Eu estava errado mais cedo. Está arrependida agora. – Ele deu um sorriso cruel para si mesmo. Era essa sua sina afinal: coração partido.
― Não estou arrependida. – Diana vociferou e tentou controlar a irritabilidade. Não queria brigas e ressentimentos, mas precisavam conversar, estabelecer a extensão da relação entre eles.
Ela tocou o rosto de Bruce com ternura e receio, no seu olhar havia conflitos incontáveis. Não fazia sentido que um homem tão incrível estivesse à espera dela esse tempo todo, era o que ela acreditava. Ninguém era perfeito, mesmo Bruce que parecia contrariar essa regra ante seus olhos.
A intensidade repentina com que ela o encarou, deixou Bruce intrigado, especialmente quando um vinco se formou em sua testa. Ela estava tensa, lutando consigo mesma, ele podia sentir pela intensidade de seu toque.
― Divida seus pensamentos, princesa. – Ele desviou o olhar para a paisagem noturna, ainda sentindo os olhos dela parados sobre si.
― Você... – Diana ponderou sobre e como falar, mas fazer rodeios não era uma estratégia que soubesse adotar. ― Por que nunca se casou, Bruce? – Um choque interno percorreu Bruce com a pergunta. ― Você é um bom partido, de acordo com o que a sociedade julga. É jovem, bonito, rico, inteligente, cavalheiro...
― Vou me casar com você, Prince. – Ele desconversou e a honestidade daquela afirmação quase fez com que Diana perdesse o rumo do assunto.
― Sem brincadeiras, Bruce. Eu li nas revistas que foi noivo duas vezes, li sobre rompimentos escandalosos com atrizes e cantoras. Sua fama de conquistador e de inconsequente. Não é possível que em meio a tudo isso não tenha amado ninguém.
Se havia um assunto que deixava Bruce Wayne desconfortável era falar sobre seus envolvimentos amorosos. Somente quem o conhecia muito bem sabia que o Príncipe de Gotham, destruidor de corações, era um recordista em ter o coração partido.
― Eu amei, princesa! – Ele suspirou, pesaroso. ― Mais vezes do que você pode imaginar.
― Então é um homem de amores passageiros? – Isso seria uma justificativa plausível para se afastar dele, ela pensou, sabendo que não se contentaria em ser mais uma em seu histórico.
― De amores não correspondidos, seria mais justo dizer.
Bruce finalmente voltou os olhos ao encontro dos olhos de Diana. A incredulidade estava estampada no rosto dela. Mas ele notou que ela lhe dera o benefício da dúvida quando se manteve sério e a sinceridade em seu olhar. Parecia absurdo para ela que um homem como ele fosse dispensado tendo tantos predicados.
Contornando o rosto de Diana com a ponta dos dedos, ele abriu um meio sorriso triste, ciente de que ser honesto com ela poderia implicar na potencialização do principal motivo pelo qual ela sempre preferiu se manter afastada dele.
Porém, não era uma parte de si que pudesse omitir. Poderia fazer tudo por ela, exceto negar quem era e o que amava fazer. Sua profissão não era um passatempo ou uma brincadeira de menino rico. Sua missão de salvar vidas como detetive não era uma parte de si que abriria mão, mesmo amando Diana intensamente.
― Você não é a única mulher avessa a policiais, Diana. – Ele afastou as mãos ao perceber o rosto dela enrijecer-se. ― Minha profissão sempre teve um peso nas minhas relações. Fosse por ter amado mulheres indispostas a seguirem a lei. – O olhar de Diana se arregalou. ― Fosse por não ser o namorado que pudesse doar o tempo que elas me exigiam.
― Se envolveu com criminosas? – Ele anuiu e ela sacudiu a cabeça, tentando entender, mas não era o que importava no momento. ― Não o imagino abandonando a profissão para se unir a uma ladra, por exemplo, mas por que não abriu mão de tudo pelas outras? Você poderia ser um empresário bem sucedido e constituir uma família feliz.
― Você estaria feliz se tivesse abrido mão de seu sonho pelo seu ex marido? – Bruce a confrontou, mesmo que a contragosto, e ela não pode deixar de compreendê-lo. ― Ser detetive faz de mim o que sou hoje, Diana. Fiz uma promessa quando meu pai foi assassinado diante de meus olhos, prometi que faria justiça. A princípio acreditei que isso se resumiria à prisão do assassino. Mas a justiça está além da minha tragédia pessoal. Quando recebi meu distintivo assumi a missão de salvar vidas de serem ceifadas indiscriminadamente e de vidas serem marcadas pela dor da perda de um ente querido de maneira cruel.
Era uma missão nobre, Diana não podia negar. Mas ela conhecia os riscos dessa devoção à profissão. As lembranças eram vivas em sua mente e mais ainda em seu coração.
― Minha mãe quase enlouqueceu quando eu fui aprovado na corporação de Gotham. Mas ninguém me apoia tanto quanto ela, atualmente. Eu me encontrei nessa cruzada contra o crime. Se acreditasse em destino, diria que fui predestinado a isso.
Diana também havia lido sobre o sucesso de Bruce na profissão, mas isso não mudava nada a respeito do que ela sabia sobre a insegurança de nunca saber se a pessoa que você ama, numa profissão de risco, vai voltar para casa. Sua mãe havia sido uma policial brilhante, corajosa e devotada, isso, porém, não lhe salvou de uma morte precoce nas mãos de um marginal desconhecido.
― Policiais, muitas vezes são heróis, mas vocês não são indestrutíveis, Bruce. Eu sei disso. – Ela abraçou o próprio corpo, tentando conter a dor. ― Notei as cicatrizes que você carrega pela profissão que escolheu. Eu também carrego cicatrizes profundas, aqui dentro. – Diana apontou para o próprio coração. ― Policiais não têm horários, policiais não têm vidas normais, era o que minha mãe dizia.
― Mas policiais também amam, princesa. – Ele reagiu vigorosamente e fez uma pausa. ― Não queria usar esse momento para ambos mexermos em feridas, Diana. Mas você não pode viver sempre esperando pelo pior. Meu pai era médico, jovem e gozava de ótima saúde. Não voltou para casa depois de eu ter insistido para que fôssemos ao cinema. – Bruce respirou fundo, todas as vezes que se recordava da cena, ouvia a voz de sua mãe lhe dizendo que não foi culpa sua. ― Uma tentativa de sequestro, uma reação e eu ainda posso sentir o sangue dele respingando em mim.
Diana estremeceu com o relato, sentiu vontade de tocar Bruce e de dizer que sentia muito, mas seus traumas também ganharam voz.
― Eu sei que a morte é imprevisível para todos. O pai de Donna também era policial e morreu de um ataque no coração. Mas isso não diminuiu o medo que eu tinha de minha mãe nunca voltar para casa.
Ele queria prometer que sempre voltaria para ela, mas sabia que não podia lhe dar garantias que nem mesmo ele tinha.
― Eu precisei superar a culpa, Diana. Você precisa superar o medo. – Ele segurou na mão dela e a acariciou. ― Não é fácil, princesa. Mas eu nunca senti por ninguém o que sinto por você. Minha mãe me disse que o que nos curou foi o amor que meu pai nos dedicou. Deixe-me cura-la com o amor que sinto. – Ele pediu e Diana desviou os olhos marejados para o lado.
Medo, muito medo, era o que Diana sentia ao pensar nos desafios de consolidar aquele relacionamento. Sentia que Bruce lhe amava verdadeiramente e ela lhe correspondia, mas isso nunca lhes garantiria uma vida normal. A missão estaria sempre em primeiro lugar. Não era apenas a dedicação que ele tinha a profissão que lhe deixava ressentida, mas também a incerteza de que ele sempre voltaria para ela depois de cumprir seus deveres.
― Eu não queria sentir o que sinto por você, Bruce. Não queria que tivéssemos nos envolvido tanto. – Ela respirou fundo. ― Não me arrependo por chegarmos até aqui, mas eu não consigo pensar em perdê-lo, sob nenhuma hipótese. – Embora aquilo fosse uma declaração de amor, Bruce foi comedido, puxando-a para um abraço afetuoso, enquanto ela repousava a cabeça em seu peito.
― Eu vivi minha vida à espera da minha mãe, Bruce. Ela nunca esteve lá quando eu mais precisava, pois seu juramento de proteger as pessoas estava acima de mim e de Donna. Eu a perdi para a farda, antes de perdê-la para uma bala perdida, disparada por um marginal qualquer.
― Nós já sabemos quem somos e o que sentimos. – Ele ponderou, sabendo que nenhum deles se anularia pelo outro e que precisariam saber lidar com isso. ― Eu sei o que quero, princesa. Eu vou tentar persuadi-la a ficar comigo, mas não irei pressiona-la. Por mais que me doa, permitirei que me deixe, me afastarei, se estiver convicta de que não quer estar ao meu lado. – O aconchego de Diana em seus braços foi um obrigada silencioso. Ela queria dizer que seu desejo era ficar com ele, mas não era tão simples verbalizar e assumir todos os riscos daquela relação.
― Quanto a sua mãe. – Ele prosseguiu quando sentiu que ela estava mais calma. Não era um assunto que quisesse trazer à tona antes de voltarem para Gotham, mas dado os rumos da conversa seria melhor ser franco. ― Andei investigando a morte dela e reabri o inquérito. – Diana o olhou, estarrecida, ele não tinha esse direito, pensou. ― Não creio que a morte dela foi um descuido, Diana.
― O que está dizendo? – Diana ficou lívida, a dor e a revolta abrindo passagem em seu peito.
― A ação policial daquele dia, o tiroteio entre policiais e criminosos, apenas serviu de ocasião propícia para que sua mãe fosse vitimada por alguém que não estava envolvido. – Diana perdeu a voz e Bruce segurou o rosto dela entre as mãos. ― Talvez eu esteja enganado, Diana, mas minha intuição diz que, quem está atrás de você, tem relação com a morte dela.
Era demais, muito além do que poderia suportar. A morte de sua mãe fora considerada negligência. O exame de balística apontava que o disparo partira de um bandido qualquer, caçado na operação que prendeu uma das maiores quadrilhas de tráfico de entorpecentes da época.
Diana sentiu que desfaleceria ao pensar que o assassino de sua mãe pudesse estar à solta e prestes a torna-la sua vítima. Se o que Bruce estava dizendo fosse verdade, ela tinha um motivo a mais para não cair, para resistir ao pesadelo que vinha enfrentando. Seria forte e corajosa, moveria céus e terras para encontrar o homem que já havia matado uma parte de si quando tirou a vida de sua mãe.
― Se isso for verdade, encontre o responsável por isso, Bruce. Agora mais do que nunca, quero que essa pessoa pague pelo que fez e pelo que tem feito. – Ela agarrou-se ao paletó de Bruce, num gesto de súplica e refúgio.
Uma lágrima de dor saltou dos olhos de Diana e Bruce a amparou, abraçando-a. Sabia exatamente como ela se sentia e lhe faria justiça.
Os dois permaneceram em silêncio por quase uma hora, apenas aconchegados um ao outro. Era doloroso para ambos revisitarem lembranças do passado e assimilarem os conflitos futuros, mas era inquestionável perceber que seus caminhos não haviam se cruzado por acaso.
Diana era o amor arrebatador que preenchera o coração de Bruce. E Bruce a prova da superação que lhe oferecia a cura para muitas feridas. Havia questões dolorosas os confrontando, perigos ameaçando-lhes o futuro, mas nada disso ganhava voz quando podiam se concentrar no ritmo das batidas de seus corações servindo-lhes de suporte.
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