Backstage

7 Capítulo VII


― Eu acho melhor sem. – Bruce opinou, chamando a atenção da maquiadora prestes a aplicar um batom rosa sobre os lábios de Diana. ― O tom natural dos lábios da senhorita Prince é incrivelmente mais bonito que qualquer cor que os cubra.

Quando a maquiadora teve coragem de encara-lo, ele foleava a revista que tinha em mãos, parecendo tão avesso ao que acabara de falar, que a mulher quase pensou ter tido alucinações. Ao contrário de Diana, que bufou, já habituada aos atrevimentos de seu detetive.

― O fato de eu ter que andar com um detetive a tiracolo já é absurdo, agora, você se achar no direito de opinar no trabalho dos profissionais que cuidam de mim, é muita pretensão. – Diana o fulminou através do espelho, que estava sentada de frente, apenas notando que ele ergueu rapidamente os olhos sobre a revista, ignorando-a por completo.

“Ele quer me irritar. Isso deve diverti-lo.” Ela pensou, fazendo um gesto para a maquiadora terminar seu trabalho, tinha apenas cinco minutos para entrar no ar. Era seu momento de concentração, não deixaria Bruce perturbá-la justo agora.

Louise finalizou a maquiagem em Diana e a deixou logo em seguida, não ficava muito a vontade sabendo que um policial estava no recinto, observando e fazendo interpretações da postura de cada profissional que trabalhava diretamente com a apresentadora. Desde que o detetive Wayne e a detetive Lance passaram a frequentar diariamente a emissora, havia certa tensão pairando sobre a equipe que auxiliava a princesa da comunicação, poucos sabiam de fato o que estava acontecendo, mesmo com a recente publicação dos fatos nos jornais.

Era difícil para a maioria agir naturalmente, quando sentiam olhares discretamente atentos os avaliando. Especialmente do detetive Wayne, que para a maioria das mulheres ali era apenas o Príncipe de Gotham, o solteiro mais cobiçado da América. Se diante do charme do homem já era difícil manter uma postura natural, diante da postura enigmática e profissional que ele mantinha, era praticamente impossível não ficar desconcertada.

― O programa já vai começar. – Diana o informou, ao tomar a revista de suas mãos, o olhando feio logo que percebeu que ele estava lendo algo sobre ela.

― Vou ficar por aqui. – Ele pegou a revista de volta e a observou ficar repentinamente surpresa. ― Você não corre riscos enquanto trabalha, princesa. E, quanto a mim, preciso fazer meu trabalho nos bastidores.

― Ouça, não ouse intimidar minha equipe. São pessoas íntegras e de minha total confiança. – Havia sinais de ameaça e ao mesmo tempo de incredulidade no olhar dela. ― Acha mesmo que meu algoz estaria aqui?

Ela não queria uma resposta. Nem mesmo o simples arquear de sobrancelha de seu detive, deixando-a intrigada. Ela deu de ombros. A hora de pisar no estúdio era sagrada, não ia deixar de brilhar para o seu público, porque começou a achar que seu detetive era paranoico.

― Consiga um autógrafo de Michael Jordan pra mim. – Bruce pediu, já que ela havia comentado que o fenômeno do basquetebol seria o entrevistado da noite. Diana rolou os olhos e bateu a porta atrás de si, o ignorando. Ele, porém, não se sentiu ofendido, distraiu-se ao inalar o perfume que ela deixou no ar e se deleitou. ― Que mulher!

Ele voltou sua atenção para a matéria que lia de Diana, publicada há nove anos atrás, quando ainda trabalhava numa afiliada regional de uma emissora da TV aberta. Algumas novidades na antiga revista lhe abriram muitas possibilidades investigativas, especialmente porque descobrira algo muito surpreendente a respeito dela, que até então não havia lido nas revistas de grande alcance e tampouco ouvia-se comentários no meio artístico sobre essa fase da vida pessoal da apresentadora.

Contudo, para seguir essa linha investigativa, ele sabia que deveria abordar o assunto diretamente com ela, embora sua intuição, sempre infalível, já o alertasse que seria como atravessar um campo minado. Não que ele se importasse com o perigo.

Nem tão satisfeito assim com a descoberta, ele levantou-se, esticou o corpo e aguçou a mente. Antes, porém, de fazer uma ronda pelos bastidores e conversar com alguns profissionais, ele pegou o controle remoto sobre o braço do sofá e ligou a TV do camarim, queria apreciar a princesa fazer a abertura do programa.

Radiante! Era assim que ele definia Diana, sempre que ela adentrava o estúdio, acenando e sorrindo para as câmeras e plateia, dando início a mais um The Prince Show. Era difícil acreditar que aquela mulher cheia de desenvoltura na tela, era a mesma mulher que vinha enfrentando dias difíceis no cotidiano. Sua força e profissionalismo eram fascinantes. Assim como sua capacidade de ser naturalmente simpática e encantadora, e repentinamente hostil e arredia em sua presença.

Bruce estava começando a amar quando conseguia fazê-la franzir o cenho antes as suas ações e falas, e quando ela o rebatia, fosse para coloca-lo em seu lugar, fosse para sair por cima. Mas, na verdade, era aquele sorriso luminoso, exibido na tela da TV, que ele queria ter o domínio de fazer desabrochar, especialmente para si.

Percebendo-se distraído demais, ele decidiu que era hora de exercitar seus dotes investigativos. O dever em primeiro lugar. Esse era seu lema. Mesmo que a atmosfera para o romance lhe fosse tão tentadora.

Ao apoiar a mão sobre a maçaneta da porta, ele rapidamente deu um passo para trás, percebendo que ela fora girada de fora para dentro. Calmamente, ele abriu espaço para o visitante entrar e viu o jovem ruivo ficar sem cor quando deu de cara com ele em sua frente, com um semblante nenhum pouco receptivo.

Wally respirou fundo cerca de três vezes, coçou os cabelos na altura da nuca e pigarreou antes de conseguir falar sem gaguejar. O jovem estagiário não esperava que fosse encontrar alguém no camarim àquela hora, muito menos o detetive com cara de poucos amigos que vinha sendo a sombra de Diana.

― Eu só vim deixar isso. – O jovem mostrou o delicado botão de rosa que tinha em mãos para o detetive, entrando e depositando-a sobre a penteadeira do camarim. ― Me desculpe se o incomodei. – O ruivo girou os calcanhares, tentando sair dali o mais rápido possível, mas Bruce não permitiu.

― Espere! – Wally gelou quando sentiu o peso da mão do homem sobre seu ombro direito. Desde que vira o estagiário numa das reuniões de pauta, seus olhares para Diana chamaram muito a atenção de Bruce, ele não perderia a oportunidade de conversar um pouco com o rapaz. ― A rosa não deveria estar acompanhada de um cartão?

― Ah! – Wally não sabia se o quase sorriso no rosto do detetive era gentil ou hostil, mas tentou não se intimidar. Enfiou a mão no bolso da jaqueta, visivelmente sem jeito, enquanto fingia procurar por algo. ― Eu acho que o perdi pelo caminho. – Ele tentou disfarçar, sabendo que não enganara os olhos atentos de Bruce sobre ele. ― Mas, não fará falta. A rosa é apenas um simples gesto de amizade de minha parte. Soube o que Diana está enfrentando. Ela é uma pessoa querida por todos aqui.

― Suponho que você a queira um pouco mais que alguns, certo? – Bruce viu a face do rapaz ficar da cor de seus cabelos e os olhos se arregalarem diante de sua indagação. ― Não precisa se constranger. Estranho seria se você não tivesse se encantado por ela.

― Desculpe, senhor, doutor...

― Detetive! – Bruce o ajudou.

― Detetive! – Wally sabia que estava começando a transpirar por debaixo da blusa. ― Eu respeito muito Diana. Não pense que meu gesto seja algo como um assédio ou...

― Assédio?! Não. – Bruce apertou o ombro do rapaz, como se dissesse para que ele não fraquejasse. ― Um galanteio. Direi à Diana que você deixou a rosa, se não quer mesmo deixar o cartão que está no bolso da calça. – Bruce apontou para o pedaço de papel branco que despontava no bolso de Wally e o rapaz tentou demonstrar surpresa, retirando o cartão do bolso e o colocando sobre a penteadeira, junto à rosa.

― Eu espero que prenda logo quem está perturbando nossa estrela. Eu estou as ordens, detetive, caso eu possa ajudar. – O ruivo tentou inflar o peito e se mostrar seguro diante de Bruce, mas mal conseguiu retribuir o aperto de mão do detetive com a mesma intensidade.

Para alívio de Wally, Bruce o dispensou imediatamente, com poucas palavras, embora lhe tivesse fitado com um olhar que fizera sua garganta se fechar e se arrepender amargamente de ter escolhido a hora errada de deixar um agrado para sua musa.

Tão logo o rapaz bateu a porta, Bruce tomou nas mãos o cartão deixado por ele, avaliando o recado deixado ali: “Sei que você prefere as rosas no jardim, mas juro que não violei nenhum para agrada-la. Que a beleza desta rosa sirva para lembra-la que você é especial. Tudo vai ficar bem.” W. W.

Bruce franziu o cenho ao terminar de ler. O fato da mensagem ter sido impressa ao invés de escrita, chamou muito mais sua atenção do que os dizeres. Se não fosse um detetive experiente, ele quase sentiria remorso de ter intimidado o rapaz apaixonado e com remotas chances de ser correspondido. Mas, os anos atuando com investigações diversas lhe faziam enxergar muito mais até nos gestos de um rapaz, aparentemente atrapalhado e inofensivo, dominado por um amor platônico.

Ele se perguntou se Diana já havia reparado nas gentilezas do jovem estagiário. A julgar pelo que Dinah vinha lhe dizendo de suas observações pessoais sobre ela, era fácil presumir que não, mas no momento oportuno ele a questionaria.

Com pesar, ele se despediu da imagem da princesa na tela da TV, recebendo o astro da NBA no palco, e retirou-se do camarim para fazer seu trabalho, uma de suas partes mais divertidas, interrogar.

(...)

Raríssimas pessoas ousariam questionar Bruce Wayne em qualquer lugar, fosse por sua posição social, fosse por seu ar de intocável. Ele não precisava de muito esforço para incorporar o playboy cobiçado, o empresário invejado ou o detetive intimidante. Ele só precisava de um mínimo de concentração para decidir qual persona encarnar e os que o observavam captavam exatamente a atmosfera que ele exalava.

Sua versatilidade caía como uma luva no trabalho, um meio sorriso, um olhar penetrante, um mínimo de atenção dedicada a outrem, o sobrenome... eram recursos suficientes para que ele obtivesse informações, reações e cúmplices da forma que queria. Charme, objetividade e inteligência eram qualificações preciosas para alguém como ele, que sabia muito bem usufruir delas.

Ele só não contava o quanto isso poderia ser cansativo, aplicado nos bastidores de uma emissora de TV tão grande como a Planet. Especialmente porque o ambiente do show business era recheado de grandes talentos com vocação para atores e atrizes, pessoas que sabiam fingir todo tipo de reação para manter seu cargo ou usurpar outro na primeira oportunidade. E isso não se restringia ao alto escalão.

Se as pessoas comuns pudessem vislumbrar a realidade por detrás das câmeras – o ambiente hostil, competitivo e interesseiro que se escondia atrás do glamour de se trabalhar na televisão – provavelmente sonhariam muito menos com o estrelato.

É verdade que ele precisava reconhecer que a produção do The Prince Show era diferenciada, profissionais engajados e com brilho no olhar pelo que faziam, sem contar no apreço genuíno que constatou, de muitos, pelo talento e pela pessoa de Diana. Entretanto, as horas que dedicou à sua ronda e sondagem pelos corredores do estúdio, e visitando alguns ambientes importantes da emissora, serviu também para colher uma dose considerável de inveja e frustração, mentiras e contradições, que lhe lembraram um dos principais motivos que o levaram a não ser o CEO de suas empresas e gerir pessoas.

Ficara cerca de duas horas perambulando por alguns setores da emissora. Seu trabalho fora satisfatório até então, mas gastara mais tempo do que gostaria mantendo conversas informais, que de triviais nada tinham, não para ele. Ele conferiu a hora no Rolex em seu pulso, supondo que Diana, naquele momento, deveria estar participando da reunião de pauta ainda, o que lhe dava mais alguns minutos para conversar com pelo menos mais uma pessoa que renderia informações relevantes.

Bruce havia analisado a ficha da maioria dos profissionais que trabalhavam diretamente com Diana ou que foram contratados para isso desde que ela assinara com a emissora. A maioria eram profissionais gabaritados e com muita experiência, entretanto sua inspeção o levou a descobrir que alguns tinham um currículo profissional muito superficial para estarem ocupando determinados cargos numa emissora tão conceituada, e todos foram admitidos no último ano. Ele examinaria a questão com os responsáveis pelas contratações, mas não antes de conversar pessoalmente com uma dessas pessoas, que era muito próxima de Diana no momento.

Guiando-se pelas sinalizações nos corredores, ele não teve dificuldade em chegar à central de atendimento ao telespectador, onde vários atendentes ocupavam seus postos, com fones nos ouvidos e discursos, na maioria das vezes, decorados.

Com o olhar atento, ele fez uma varredura em todo o ambiente, logo localizando uma porta ao fundo, onde ele presumiu ficarem os atendentes especiais.

Os operadores de telemarketing que notaram a presença do detetive, caminhando livremente pelo recinto, o fitaram com estranheza, mas já sabiam que o homem, além do dever de executar sua função, tinha carta branca do dono da emissora para transitar em qualquer setor, desde que não comprometesse o trabalho da equipe.

Bruce passou por todos ignorando os olhares e murmúrios, eles não era o seu foco. Com duas leves batidas na porta da sala de atendimento especial, ele anunciou sua chegada, não esperando a formalidade de ser atendido. Sem cerimônias, abriu ele mesmo a porta, onde encontrou a atendente das ligações destinadas à Diana, sentada confortavelmente em uma cadeira acolchoada enquanto conversava com uma bela mulher, cujos quadris estavam apoiados relaxadamente na borda da mesa.

As duas mulheres o encararam com certa surpresa, mas nenhuma das duas demonstrou desconforto. A mais alta, de cabelos curtos, bem vestida e com traços afro-americanos sorriu-lhe. Era Mari, a figurinista de Diana, com quem Bruce já havia trocado algumas palavras no início da semana, quando ela fora mostrar alguns looks novos para Diana usar no programa.

A ruiva, de olhos verdes penetrantes, apenas arqueou uma sobrancelha. Também não era a primeira vez que via o detetive, entretanto, não esperava uma inspeção no início de seu turno, já que no dia anterior havia prestado alguns esclarecimentos à parceira dele.

― Interrompo? – Bruce se apoiou no portal de entrada da saleta, enfiando as mãos nos bolsos da calça, deixando a abordagem um tanto casual.

― Posso ajuda-lo, detetive? – Shayera Hall girou a cadeira, cruzando os braços ao ficar de frente para ele.

Bruce precisou apenas levantar o olhar para a outra mulher logo se dar conta que deveria deixa-los a sós. Se despedindo rapidamente, Mari, deixou a sala e Bruce fechou a porta atrás de si, sendo medido pelos olhos semicerrados da ruiva, intrigada com sua presença ali.

― Vai precisar ser rápido, detetive. Faltam apenas dez minutos para começar o meu turno e, se você notar, as linhas já estão ativas. – Ela apontou para aparelhagem sobre a mesa, onde vários indicadores luminosos piscavam em tom vermelho, anunciando chamadas em espera.

Bruce não fez questão de sentar-se quando Shayera lhe indicou uma cadeira ao seu lado. Preferiu tomar a posição que a outra mulher ocupava minutos atrás, apoiando os quadris na borda da mesa e estudando meticulosamente as feições da ruiva ao começar a falar.

― Foi contratada especialmente para essa função na emissora, não é? Para ser mais específico, para trabalhar na linha especial que Diana fez questão de ter ao ser contratada, a fim de atender aos fãs.

― Você sabe que sim, detetive. Sua parceira já me fez algumas perguntas. – A ruiva não desviou os olhos do escrutínio intencional do detetive.

Bruce reconheceu uma hostilidade evidente no olhar da senhorita Hall. Ao que sabia, Diana e ela se tornaram amigas desde que a ruiva lhe fora apresentada pelo diretor do programa, John Stewart, com quem mantinha um romance secreto. Aliás, a indicação de Shayera Hall para a função teve um grande apoio de Stewart e não havia referências profissionais anteriores dela no arquivo funcional. Uma contratação apadrinhada e muito suspeita.

― Quantas ligações você recebe durante seu turno especial?

― Milhares. Todos querem falar com Diana. – Shayera examinou as unhas enquanto respondia, evidenciando sua indiferença em relação ao detetive.

― É boa em cálculo? – A pergunta fez a ruiva arquear uma sobrancelha. — Se for, sabe que as chances desse psicopata conseguir ter sua ligação ativa no exato momento em que ela está atendendo aos fãs são bastante remotas.

Shayera foi forçada a dar atenção novamente ao detetive. Embora o rosto dele fosse perfeitamente ilegível, ela sabia quando alguém estava testando-a.

― Desde que ele começou a ligar, nem sempre conseguiu falar com ela. Houve vezes em que eu o atendi e ouvi seu ‘recado’ para ela.

― Ainda assim, ele é muito preciso, não? As chances de ser atendido, já que seu turno é um horário muito especial, são poucas, se contarmos o tempo que as ligações ficam em espera e as novas tentativas de ter uma chamada ativa. Você não atende a todas as chamadas. Nem mesmo a central geral consegue esse feito.

― Aonde quer chegar, detetive? – A ruiva o confrontou, esperando que ele fosse direto, mas Bruce manteve um rumo trivial para o assunto.

― À solução mais rápida possível para esse caso.

― Insinuando que eu tenha envolvimento nele? – Ela alterou o tom de voz.

― Só estamos conversando. – Ele a olhou com tanta naturalidade, que a assustou, de tão convincente. Aquilo não era uma simples conversa, mas ela tinha que admitir que se quisesse medir intelecto com o homem em sua frente sairia perdendo.

― Pois não vamos conversar mais. – Ela decretou, se voltando para os computadores em sua frente e os ramais ativos. — A não ser que me faça um convite formal para um interrogatório. Além disso, preciso me preparar para cobrir meu turno de horário especial.

― Certo. – Bruce aplumou o corpo e se dirigiu rumo a porta. ― O convite formal chegará em breve. – Ele alertou a ruiva, antes de sair e deixar a porta aberta. Havia conseguido o que queria.

Shayera olhou as luzes piscando em sua frente e se lembrou de como alertara a John que conseguir aquele emprego para ela poderia ser suspeito. Sua inteligência aguçada lhe dizia que o detetive Wayne não seria um homem compreensivo e muito menos fácil de se convencer.

Se quisesse evitar problemas, era hora de começar a pensar em seu depoimento, que ela tinha certeza, não demoraria a acontecer.

(...)

Diana estava impressionada com o incômodo que vinha sentido, desde que chegara em seu camarim e não encontrou seu detetive de prontidão. Incômodo que se acentuou depois que ele retornou e ficou o tempo todo em silêncio, fazendo algumas anotações e apenas olhando em sua direção quando o telefone tocava.

Ela se sentiu tentada a puxar assunto por sucessivas vezes, mas lhe pareceu um tanto desapropriado, já que desde que ele vinha a acompanhado, ela fazia questão que ele se mantivesse em seu lugar, sem se dirigir desnecessariamente a ela.

Para sua felicidade, esta madrugada o psicopata não fez contato. Talvez fosse uma bonificação por ele ter sentido o quanto ela havia se descontrolado ao telefone quando ele ligou para sua casa, fora que também havia mandado ‘lembranças’ através do par de olhos extraídos de um pobre qualquer.

Foi horrível pensar, por um instante, que se o maldito perseguidor tivesse ligado, talvez Bruce tivesse falado, reagido, lhe dado atenção. Ela não admitiria, mas seu zelo por ela a aquecia. Mas, como felizmente a normalidade reinou, ela sentiu o dissabor que sua quase indiferença estava lhe causando. As respostas monossilábicas que ele lhe deu quando o comunicou que estava pronta para irem embora, lhe deixaram inquieta.

Até esta madrugada, ela pensava que, se ele se mantivesse em seu lugar, tudo seria mais prático para os dois. Entretanto, sua presença discreta só serviu para que ela prestasse ainda mais atenção nele, que começasse a perceber que gostava não apenas de sua proteção, mas também de sua companhia.

Bruce podia ser irritante, presunçoso e atrevido, mas também era bonito, inteligente, enigmático, bem vestido e absurdamente cheiroso. Não aquele aroma enjoativo que até as colônias caras deixam no ar com o tempo. Mas um cheiro amadeirado de colônia de barbear, mesclado com cheiro fresco de sabonete e arrematado com uma flagrância natural de homem. Não qualquer homem, um macho alfa, um homem que exala masculinidade, poder, domínio e sedução.

Inferno! Ela praguejou mil vezes mentalmente. Ele estava deixando-a tentada e, no meio dessa crise de ameaças, tudo que ela não precisava era se aventurar no amor. Homens não foram sua maior conquista na vida. Seu sucesso profissional sim. E era por isso que, nos últimos anos, vivia para sua carreira e para sua irmã. Não precisava de mais uma decepção amorosa, muito menos com um policial.

Eles cruzaram os corredores da emissora em silêncio, apenas o som dos saltos de Diana preenchia o ambiente. Bruce permanecia ilegível, com as mãos no bolso da jaqueta de couro e o olhar fixo em nada. Não havia nada demais que ela quisesse saber o porquê dele estar tão pensativo, Diana pensou. Porém seu orgulho lhe vetou de saciar a curiosidade.

Bruce, por sua vez, notou os diversos gestos de Diana para chamar sua atenção. Murmúrios para si mesma, comentários aleatórios em voz alta, passos ora lentos demais ora muito rápidos, e olhares de soslaio por incontáveis vezes. Mesmo estando muito concentrado, assimilando as informações que colhera esta madrugada, ele estava sentindo um divertimento ímpar por seu silêncio ser capaz de incomoda-la tanto.

Ele poderia facilitar o jogo para ela, dialogar, mas não seria tão atraente ceder em virtude de sua dificuldade em dobrar o orgulho. Na verdade, ele também estava voltado a usar o bom senso.

Diana era uma mulher irresistível, por quem já nutria uma admiração de longa data. Um homem maduro sabia diferenciar deslumbramento de interesse genuíno. E era apenas interesse o que vinha crescendo nele a cada noite que passava perto dela.

Diana cheirava a pecado e exalava um misto de candura. Não havia homem normal no mundo que não enlouquecesse com essa mistura. Porém, ali, ele era o detetive Wayne. Manter um pouco de distância foi uma constatação óbvia que ele vinha ignorando, mas, que diante de algumas conclusões esta madrugada, ele decidiu adotar. Seu dever, em primeiro lugar, era protegê-la. As demais emoções deviam ser guardadas para um momento oportuno.

— Senhorita Prince. – A voz fez Diana dar um salto no caminho para o estacionamento. — Perdoe-me, não quis assusta-la. – O homem se aproximou e desculpou-se.

— Tudo bem, J’onn. Eu estava distraída.

— Eu li os jornais, senhorita. – J’onn percebeu o desgosto no semblante de Diana e preferiu encurtar o assunto. — Creio que seja prudente usufruir de meus serviços como seu motorista durante essa fase. Eu fui um bom soldado, ainda posso defender uma dama em perigo.

Diana sorriu e apoiou a mão no ombro de J’onn. Ele era um homem discreto. No alto de seus 50 anos, ainda era muito vistoso, forte e perspicaz. O rosto endurecido, o olhar ilegível e a perna direita que arrastava um pouco eram marcas de ter lutado a Guerra do Vietnã.

Para surpresa de Diana, Bruce não disse nada que se opusesse a sugestão do homem. Ele estava concentrado em observar o carinho de Diana para com o motorista. Aliás, ela era sempre muito carinhosa e acessível com todos que trabalhavam com ela, não fazia distinção de pessoas ou de posições, característica que o impressionava muito. Como garoto rico, conhecia milhares de homens e mulheres de sua classe social, mimados e desumanos, que tratavam os menos favorecidos com repulsa e desrespeito – atitudes que ele abominava.

A doçura e gentileza de Diana lhe faziam se lembrar de sua mãe. E era impossível não reconhecer que Prince era a nora que Martha pediu a Deus.

— J’onn, eu tenho certeza que estaria segura com você. Porém, dispensarei seu serviço esta noite. Estou no meu carro e tenho que dar uma carona para o detetive, Wayne. – Diana explicou e Bruce ficou surpreso por ela ter se importado.

— Eu posso levá-lo. – J’onn se ofereceu, voltando os olhos para Bruce. — Posso servi-lo, senhor?

Bruce deu uma olhada rápida para a reação de Diana, que pareceu ligeiramente apreensiva com a possibilidade.

— Não acho que devo usufruir de um benefício que é exclusivo da senhorita Prince. – Ele viu as feições dela relaxarem. — Entretanto, talvez seja mais cômodo para ela. – Ele complementou e ela tensionou os ombros. — Mas não seria viável. De qualquer forma, teríamos que escolta-la. É meu dever protegê-la. Portanto, eu agradeço sua solicitude, senhor J’onzz. – Bruce leu o sobrenome no crachá do homem.

— Sempre às ordens, detetive. – O homem concordou e despediu-se de Bruce com um aperto de mão e um cumprimento respeitoso à Diana. Afastando-se lentamente para o seu posto.

Diana tentou conter o alívio e um sinal de euforia por Bruce voltar para casa com ela. Não era medo de voltar sozinha. Mesmo com os últimos acontecimentos, ela sempre conseguia buscar coragem para lidar com as ameaças. Porém, Bruce lhe inspirava confiança e desafio, odiava admitir, mas queria tê-lo ao seu lado naquele momento.

Quando entraram no carro, Diana pensou que o detetive Wayne se mostraria interativo ou implicante. Todavia, mais da metade do trajeto fora feito com Bruce ao celular, atendendo uma ocorrência de outro detetive que queria sua opinião em um caso. Diana fez um esforço para não prestar atenção no assunto, mas ela se sentiu tentada a saber um pouco dos problemas dos outros e comparar com o seu. Ela foi inocente de pensar que isso seria terapêutico. Quando ouviu a palavra serial killer, porém, ela se arrependeu. Uma mulher havia sido encontrada morta no parque de Gotham e ela temeu que seu perseguidor conseguisse o que queria e em breve ela fosse manchete nas páginas policiais.

Quando Bruce encerrou a ligação, ela se viu obrigada a falar. Já não era o silêncio a incomodando, era sua mente criando teorias tenebrosas.

— Devo deixa-lo na delegacia, detetive?

— Vamos para sua casa. – Ela o olhou rapidamente, mas lembrou-se que devia prestar atenção no trânsito. — Lance está a minha espera lá. – Bruce explicou e Diana respirou aliviada, concluindo que Donna não havia ficado sozinha.

Ela tentou falar algo mais, porém Bruce a impediu de continuar um assunto qualquer, ligando o som do carro e deixando o ambiente preenchido por You’re my best friend da banda Queen. Ele cantarolou a canção baixinho e Diana se surpreendeu com sua bela voz.

— Gosta de Rock, não é? – Bruce a questionou quando a viu sorrir discretamente. E ela assentiu com a cabeça. — Não ouve outro estilo?

— Existe outro? – Ela evidenciou sua reverência ao estilo musical. — E você, detetive? Do que gosta?

— Beatlles, Buddy Holle, David Bowie, Nirvana... – Ela balançou a cabeça em aprovação. — Mozart, B. B. King, Phil Collins, Whitney Houston... – Ela entreabriu os lábios e arqueou uma sobrancelha.

— Eclético. Você é surpreendente, detetive. Esconde muitos segredos? – Ela aproveitou para engatilhar um assunto.

— Não tenho motivos para segredos. – Ele ajeitou-se no banco, para olha-la confortavelmente. — Mas se vamos falar de surpresas, diria que você me supera.

Ela sentiu o corpo queimar com a intensidade do olhar dele, mas deu de ombros, reprimindo a vontade de perguntar o porquê dele ter chegado àquela conclusão a seu respeito. Sua intuição lhe alertou para recuar.

Estacionando o carro na porta de casa e soltando o cinto, ela finalmente teve coragem de encara-lo, pronta para dispensa-lo de seus serviços por hora. Contudo, a firmeza e o brilho que viu nos olhos de Bruce a emudeceu tempo suficiente para que ele falasse primeiro.

— Me diga, Diana. Por que nunca mencionou que foi casada?

Notas finais
Continua!