Backdraft

2 Capítulo II: Assura, a mulher que vai destruir o governo


Eu não podia acreditar, mesmo depois de uma noite de sono, que fora péssima, eu não podia raciocinar direito. O que eu vi noite passada? Realmente eu os matei? Não, não tive controle sobre o que eu queria fazer, apesar de realmente ser meu desejo, porque ontem eu realmente queria acabar com eles. Mas ainda estava confusa, isso é muito para minha mente. Minha família morreu, laminas saíram de dentro de mim e estava em um lugar escuro, mas o que realmente era isso? Eu estava naquele lugar, estava fora da cidade, fora dos muros azuis, "então meu irmão estava realmente certo, afinal de contas" pensei. Quando me dei conta uma lagrima correu pelo meu rosto, e percebi que não podia ficar ali, iria sair, alheais, o cheiro dos corpos mortos estava de matar, no entanto parei enfrente aquela porta, por algum motivo muito daquele material vermelho havia sumido, procurei uma sacola e quando a achei nela coloquei um pouco do que estava ali, sai, depois de uma longa caminhada pelos corredores daquele labirinto, me deparei com a luz.
Lá fora, pude ver aquele lugar, como ele era, o qual não consegui ver ontem a noite pois estava muito escuro. Aquele lugar não era tão diferente do "mundo normal", da cidade que vivi a minha vida toda, no entanto, não havia luz, e parecia pós-apocalítico, todas as casas caindo ao pedaços, destruídas, fios de luz arrebentados caídos no chão, sem nem um pouco de verde, toda a natureza ali fora eliminada, calçadas quebradas, e essas eram que nem as antigas de 5 anos atrás, de concreto, hoje todas as calçadas são feitas em mármore. E de repente, em meio aquele silencio todo que não tinha nem a presença de pássaros cantando, ouvi um choro, era de uma criança, não sabia se devia ir até lá para ver o que havia acontecido, mas precisava encontrar alguém, por que agora não tinha mais ninguém. Corri atrás desse som de desespero, esperançosa pelo que podia chegar. Mas quando cheguei me surpreendi, era uma covardia sem limites, sim era uma criança, mas ela estava sendo agredida, agredida por um soldado, um soldado da minha cidade, sim ele usava o uniforme da minha cidade, e embora eu não pude-se simplesmente aparecer na frente daquele guarda, uma coisa me fez querer aparecer por muitos motivos, acontece que o soldado estava gritando com a criança:
–diga logo pirralho, você viu ou não viu uma garota passando por essas ruas, ela tem estatura média, cabelo longo liso e escuro, olhos escuros — não acreditei que poderia ser, mas será que ele se refere a mim? Não poderia — fala logo. Dizia ele, eu não podia fazer nada, quando notei já estava ali, atrás daquelas fedidas latas de lixo, vendo os dois de cima do barranco.
–não senhor, eu não sei nem o que é estatura, e não vi ela não eu juro.
–mas o que? Você está mentindo para mim — gritou o soldado enquanto dava um chute com toda sua força no estomago no pobre menino — hum, acho que você não sabe mesmo, mas para que você não cresça revoltado vou ter que acabar com sua vida aqui e agora. Disse ele, sacando uma pistola e apontando para o menino.
–não, por favor, eu só quero um lugar melhor para minha família, só quero que minha mãe não passe mais fome, por favor, me deixe vivo que eu nunca farei nada de mau para vocês, sabe minha família as vezes não come, para que eu possa comer, eles depositam toda sua confiança, toda sua esperança em mim, eu quero crescer, para poder salvar minha familia desse inferno, por favor.
BANG! Então um tiro atravessou sua cabeça, só o vi caindo com uma lagrima no rosto, não pude me conter em chorar como uma criança, sabia que ele, o assassino ia me ouvir, mas quando achei que ia sair chorando que nem uma criança que viu o que não devia, mas então um pensamento cruzou minha cabeça, de todo aquele sofrimento que a família poderia sofrer, fiquei em choque, e enquanto não conseguia me conter a mãe do menino chegou:
–Nelson! Nelson, meu filho, o que fizeram com você? Meu Deus — disse uma mulher, muito pobre, ou era o que parecia, pois dentro daquelas paredes nunca vi ninguém pobre, mas ela veio e agarrou aquele menino sem se preocupar com sua vida, é na verdade, Assura Kindle, havia esquecido o que era amor de mãe, mas naquele momento nem pensará no que eu era ou deixará de ser — por que? Você não pode ter me deixado, você era minha esperança, não lembra?
BANG! E pronto, a mãe dele também deixará de viver. E por um instante vi meu irmão naquele menino, que tentava trazer felicidade para todos, que não pode realizar seus sonhos. Então eu vi o que eu tinha que fazer. Me levantei naquelas latas de lixo, me apoiei na cerca que havia ao lado com a perna esquerda e gritei, com um som ensurdecedor. Logo o soldado surpreso perguntou quem eu era, e respondi, "Eu sei que você procura Assura Kindle, a tímida garota que era muito medrosa e cética, ela não existe mais", gritei mais alto ainda, mais do que antes:
–é você, Assura Kindle é você? Perguntou surpreso, o soldado arregalou seus olhos.
–sim, mas dessa vez... — respondi — Sou Assura Kindle a mulher que vai destruir o governo e trazer paz ao mundo, essa é quem eu sou e não serei vencida por ninguém, eu que lembro falar tão mal dos homens da minha família, mas agora serei que nem eles determinados, corajosos e principalmente teimosos pra cacete!
Putz! Mas uma vez na minha vida, tinha me levado pelos sentimentos, mas todo mundo faz isso não é? Para mim não, porque no meu caso as coisas acontecem um pouco diferente, pois na maioria das vezes que sou levada pelas emoções sou levada a uma situação ruim, que sempre me leva para uma pior, que me leva para "puta situação". Mas ao invéz de correr pulei, e foi como ontem, senti a lamina sair do meu antebraço direito, era vermelho e ofuscante, pulei daquele barranco, e naqueles segundos vi, quase que em câmera lenta ela tinha formula triangular meio ondulada, cintilante, e em um momento ouvi a pele se rasgar, simplesmente, fechei os olhos enquanto ele caia, me senti orgulhosa, realmente posso dizer que mudei, que sou uma nova pessoa, só fico triste de dizer que o que me mudou, foi a dor...
"Ali esta ela, é a Kindle", disseram guardas vindo da minha direita, não tive escolha, tinha que fugir, esse não era um momento que podia fugir, acabará de investir no inimigo, mas não podia esquecer o que meu pai, Bruno Kindle sempre dizia "pense, haja, ganhe", sim, podia ser algo estranhe de se dizer, o mais estranho é que eu só tinha 7 anos, mas eu me lembro como se, como se tivesse ocorrido quando eu tinha 7 anos. Pois bem, não tinha pensado, só agi, agora será que eu posso ganhar? Infelizmente a resposta estava se transformando em não, pois quando me virei lá estavam muitos solados, estava literalmente cercada, achei que iam avançar em mim com toda a força, mas ao invés disso dispararam um sinalizador, então fiquei esperando por mais de 5 minutos, esse 314 segundos foram uma ansiedade total, parecia véspera de natal, sabe aqueles quando você já viu tipo 300 pacotes escondidos no armário, todos com o seu nome. Quase não pude resistir, tive de me conter, no entanto por algum motivo, eles pareciam mais amedrontados e surpresos do que eu, naquele momento varias coisas passaram por minha cabeça, enquanto contava os segundos, logo um homem de terno chegou, me deu uma lembrança horrível de ontem, senti até um pouco de medo, e muito receio, até porque se ontem eu soubesse que podia criar laminas pelo meu corpo, Bruno e Diego, estariam vivos, estranho eu chama-los pelos seus nomes, acho que realmente não pude aproveita-los...
E de repente, por um triz não era meu fim, o homem esticou seu braço, que ficou em uma coloração avermelhada, se eu não tivesse escorregado com o susto, levado um direto no rosto, mas parece que seria algo muito mais forte, meu cabelo quase foi arrancado do couro só com a força do vento provocado pelo seu punho. E antes de que eu pudesse me recompor, outro soco atingiu meu estomago, voei por mais ou menos 5 segundos, e caiu perto dos soldados que saíram correndo assustados. Antes que eu pudesse levantar outro já atingiu meu corpo me erguendo, com uma força incrível. Cai sobre o pescoço, tive a certeza de ter quebrado meu pescoço, mas não. Aparentemente, essa habilidade me dava resistência, ou algo do tipo, apesar de sentir muita dor, não havia recebido nenhum ferimento serio, já era hora de me levantar:

–por quê esta fazendo isso?
–porque nossa corporação quer você, o governo quer você, pois essa sua habilidade, nos interessa, agora, soldados de merda, vão embora daqui, pois vocês não puderam fazer nada...
Sim, realmente não havia nada que podia fazer tinha que lutar, então avancei, com aquela lâmina perigosa em meu braço, no entanto, quando me aproximei dele senti a lâmina sumir, me senti mais fraca, não conseguia correr com todas as minhas forças, estava ficando devagar, até que um punho me acertou, cai com o corpo doendo, e por algum motivo realmente senti como se tivesse me ferido gravemente, não podia nem me mexer, achei que era meu fim:
–que idiota — disse ele enquanto se aproximava — nem sabe usar a matéria X corretamente, você ficou sem forças, pois acabou a reserva no seu corpo, patética. Então ele me chutou com aquele pé elástico me atirando em uma placa de transito. Estava quase desmaiando, quando de repente uma silhueta aparece em um canto, e com seu braço, em um movimento reluzente, acertando o pescoço daquele homem que me atacará, aquele que usava palito risca-de-giz. Que foi jogado contra o chão de forma violenta, antes que eu acabasse dormindo, pude ver quem era aquele, com um soco monstruoso, ele se aproximando de mim, não pude acreditar no que vi, era simplesmente ele, "Kaia", disse bem baixinho enquanto ele me pegava, e eu apagava nos seus braços...

[...]

Fazia calor naquele dia, já não sabia se era o mesmo dia em que adormeci, mas tinha certeza de uma coisa, tinha sido salva, logo percebi onde estava, com certeza estava fora das paredes azuis, mas onde realmente estava? Era uma resposta que tinha medo de descobrir, estava nos escombros de alguma coisa, provavelmente uma casa, as paredes já aviam sido devoradas pelo bolor, e onde deviam haver janelas ou portas haviam um rombo, um buraco de onde eu podia ver perfeitamente o resto do mundo, podia também ver as paredes azuis lá no fundo. Outra coisa que era percebível era o relógio da minha cidade, que soava, para todas as pessoas que viviam lá dentro, que só buscavam a felicidade, mas também para as pessoas que não tem o privilégio de viver, apenas sobreviver, e o que isso significava para mim? Praticamente nada. Apenas que era meio-dia e eu estava com fome, então levantei, com um pouco de dor e tonta, como se eu tivesse dormido direto as ultimas 12 horas, o que não ocorreu. Quando me levantei pude ver onde estava de forma mais apropriada, via de longe a placa de transido que eu amassei com meu corpo, também ao meu lado havia aquele saco que eu coloquei aquele troço vermelho, aquele que parecia sorvete quente que brilhava no escuro, só que brilhava na luz também, você me entende? Enfim, o pacote estava pela metade, talvez isso explicasse como eu sobrevivi, mas agora, onde estava aquele cara que me salvou a pele, tinha que lhe agradecer de alguma forma.
Sai da onde estava, fui procurar, talvez ao menos encontrar alguma alma viva. Procurei pela primeira meia-hora, foi em vão, já nem sabia mais onde estava, a unica coisa que poderia usar de referência eram os muros azuis. Estava acabada, perdida, com fome, com calor, e provavelmente com depressão pós-trauma. No entanto, quando estava quase sedendo a uma desistência, comecei a ouvir vozes, belisquei-me algumas vezes, não podia ser real. Corri em direção ao som, encontrei o que estava procurando, era ele, o meu colega de classe que aparentemente tinha habilidades especiais como eu, conversando com uma senhora, então ele se aproximou de mim:
–ola, você esta bem, Assura?
–o que nós somos, eu quero saber, como nós podemos fazer o que fazemos?
–deixe isso para depois, agora me diga, você esta bem, Assura?
–isso não importa — comecei a chorar, tentava esconder, mas naquele momento começava a ficar desesperada — o que esta acontecendo aqui?
–calma, eu vou te contar tudo...
–mas o que nós somos, Kaia?
–o que nós somos? Bem é dificil de explicar, mas nós somos, bem seu pai não gosta de dizer dessa forma, embora seja verdade que nós somos simplesmente cobaias...
Cobaias, foi o que ele disse, não entendia como, mas eramos só isso? Simplismente projetos? Mas projetos de que? E alem do mais ele conhecia meu pai? Não sabia, mas eu estava prestes a descobrir...