Baby May Cry

12 Tudo começa com um adeus



SE A IRONIA SE MATERIALIZASSE, em toda sua pomposa glória e humor ácido, seria uma retratação bastante esquisita de uma versão minha mais velha com roupa de motoqueira e um sorriso felino nos lábios róseos. Estava processando o que meus olhos desconcertados viam sem colapsar ou dar um grito que causasse transtornos pra Bea, mas o intervalo entre a tempestuosa e disruptiva invasão e a surra coletiva não tinham discorrido nem fez minutos — na verdade eu nem sabia o horário só que na minha cabeça foi esse tempo aí.

Não era muito legal perceber que eu era minha versão menos descolada ali. Enquanto matutava as mais mirabolantes teorias para explicar a maluquice que presenciava, a outra se encaminhou até Maya e reivindicou Bea com um abraço afetuoso demais para negar que não existia um vínculo materno. A pequena riu de uma maneira que me desarmou o suficiente para permanecer vigiando, a distância, a interação.

— Você é algum clone? — Nero indagou. A outra emitiu uma carga energética que ressoou com a minha para que qualquer dúvida sobre sua identidade fosse sanada.

A outra afagou a cabeça da bebê e quase como se estivesse removendo uma camada de poeira displicentemente da cabeleira rala castanha revelando os fios prateados esvoaçantes. A princípio percebi a semelhança entre Bea e Dante e descartei a hipótese justamente pelas madeixas, ver que aquilo seria um mero disfarce e descobrir a cor original trouxe novamente a desconfiança e pense em um plot twist meio esquisito.

— Olha só pra você, meu anjinho. Deve ter aproveitado bastante, não é? — perguntou a Bea que intuitivamente esticou o bracinho e tocou o rosto da outra eu. — Claro que sim. Estava sendo amada, protegida e bem cuidada.

— Alguém pode esclarecer isso? — Lady questionou com um semblante não muito convencido. — Tem duas Divas aqui.

— Espera... Me dê um minuto... Se você é ela e ela é você...— Maya apontou pra mim antes de juntar os pontos ao alternar até Dante. — Vocês... Ela...? Não pode ser! Como como pode algo tão fofo ser relacionada genética com ele? — Maya voltou a atenção para Dante.

— Não é tão surpreendente. — Trish comentou. — Convenhamos isso já era de se esperar.

— Mas a aposta era disso acontecer em dois anos — Lyana retrucou, cruzando os braços. — Eu disse que seria em menos de duas semanas.

— Lyana! — gani indignada.

— O que? Só digo verdades, minha filha. — ela deu de ombros.

— Isso é loucura... Então a Beatrice é minha filha? — inquiri para confirmar.

A outra eu riu.

— Sinto muito pela situação — ela começou, embalando Bea. — Para dar um resumo antes de detalhar os pontos principais. Eu vim do futuro, é meio complicado, mas sim, Beatrice é nossa filha. Uma delas, no caso.

— Uma delas? — dessa vez foi Trish a indagar, encorajando-a a ser mais específica.

— Eu tive filhas gêmeas. — respondeu com um sorriso orgulhoso. — Com o Dante. — mecanicamente olhamos para o Devil Hunter que pareceu tão surpreso quanto todos nós.

— O negócio foi bom, hein. Rendeu logo duas na primeira tacada. — Lyana observou com o olhar afiado, quase perigosamente astuto.

— Isso não explica porque a deixou aqui. — Nero cortou a conversa constrangedora.

— A Diva se converteu em mãe desnaturada? — Lyana perguntou. — Por essa eu não esperava.

— É um bom ponto: por que a deixou aqui? — gani em um tom mais elevado que deveria, soando esganiçada.

Ela respirou fundo.

— Você perdeu o juízo, mulher? — exclamei inquieta. — Ela poderia ser levada a algum lugar ou ficado doente.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Durante todo o período em que ela esteve aqui, desde o momento que a acolheram a toda trajetória de cuidados, fiquei vigiando. Ela nunca saiu da minha proteção. — a outra brincou com a bebê que ria a todo instante. — Eu precisava mantê-la segura. Além disso, foi uma boa maneira de aprenderem a lidar com a responsabilidade e devo dizer, não lembrava de ser tão divertido assim.

— Divertido? Eu mal consegui dormir nos primeiros dias — balancei a cabeça. — Dante, diga alguma coisa!

— Alguma coisa... — Dante repetiu intrigado.

— Quem diria, é a primeira vez que vejo Dante sem palavras — Nero disse com um sorriso esgar.

— Não é hora de surtar!

— Mas, Divinha, você quem está surtando — Lyana replicou, dando batidas suaves em minhas costas.

— Você vai levá-la embora? — surpreendentemente o tom de Dante foi melancólico.

— Está na hora de voltar pra casa. — a outra eu anuiu com doçura, quase que tendo a mesma impressão que eu. O que, de fato, seria possível visto que somos a mesma pessoa em épocas distintas. — E ficar com a família.

— Será que posso segurá-la uma última vez?

Pra ser honesta, não esperava esse tipo de reação. Não que Dante fosse indiferente, em nenhuma hipótese, mas a maneira que se portava somado ao timbre terno soava meio triste. As circunstâncias, a sequência recorde de plot twist, afetou mais do que poderia imaginar — o que não julgava dado o quanto se importava com Bea. A abrupta ruptura deve ter servido como um ponto de virada pra ele.

A outra Diva encaixou a bebê nos braços de Dante que a acolheu de imediato e protetoramente.

— Vamos ter que cortar a aventura por aqui, baixinha — ele murmurou, Bea se aconchegou nele. Agora fazia sentido ela ser tão receptiva com Dante, ele ser a primeira pessoa que ela reconhece e sua tranquilidade com as ações engraçadinhas dele. Tudo isso só provava a ligação entre os dois; um pai que segurava sua pequena. — Mas prometo que quando nos reencontrarmos, vou te levar pra tomar sundae.

— Bebês não tomam sundae, Dante. — proferi entre risos.

Em um silêncio confortável, o meio-demônio a embalou uma última vez, assistindo-a lentamente fechar os olhos para embarcar em um sono sereno longe de qualquer preocupação.

— Vou sentir falta do seu riso. A única parte que não sentirei é a de trocar fraldas.

— Olha como é cínico, eu trocava as fraldas dela! — o corrigi entre risadas. — Foram dias agitados, as vezes caóticos, mas realmente vou sentir falta.

A outra pegou Bea e nos encarou com um sorriso secreto.

— Não se preocupem tanto, logo irão revê-la.

Corei com a resposta.

— Se for o caso, vou tentar adiantar o processo. — Dante rematou mordaz.

— Eu agradeço por terem cuidado da Bea. Realmente fico feliz de ter dado tudo certo, mesmo sendo uma ideia improvisada.

Aos poucos, com toda a adrenalina do susto se diluindo em meu sistema, fui tendo a noção de que seria o encontro final, que não verei mais Bea e não irei passar o tempo com ela. Antes parecia algo tão comum, afinal ela retornaria pra família e pro tempo dela, contudo, a consciência dessa verdade destroçou meu coração.

Reprimi as lágrimas e dei um beijo na testa dela.

— Cresça feliz e segura, Bea.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!