Baby May Cry
5 Como não ser uma família

NO ESSENCIAL, DANTE cumpria bem o propósito de dedicar tempo e cuidados para Beatrice, mas apesar da idade que possuía e ter certa experiência em lidar com crianças, esse conhecimento seria inválido ao se tratar de um bebê que não sabia andar, não comia sozinha e não conseguia usar o banheiro dependendo de fraldas para evitar acidentes. Ele tentava bastante ser prestativo, passava mais tempo brincando com a pequena para distraí-la — em termos de diminuir a incidência de choros Dante era o indicado.
Observei atentamente Dante com Beatrice que chorava copiosamente e se agitava enquanto ele parecia querer compreender o motivo da inquietação. Esperei o truque se desenrolar na minha frente; Dante a aconchegou em seu peito de uma maneira que a neném ficou em posição fetal encolhida.
Não pude deixar de sorrir com a cena.
E, começando do princípio: De praxe, acordei mais cedo que o habitual. Com Beatrice somada a minha rotina, meu ciclo circadiano estava desordenado, mas se fosse de outra forma estaria muito confusa sem a presença dela. Usualmente os horários de trocas e da fome também não eram das mais reguladas, ela dormia a noite toda ou, quando lhe apetecia, acordava a casa duas horas. Quando percebi que estava estranhamente quieto, o instinto foi: achar Beatrice. Preocupada, vasculhei o cômodo até escutar ruídos no andar inferior e assim que cheguei me deparei com Dante ninando a menina que não estava muito conformada com o tratamento de início, esperneando.
Dante lançou um olhar de interesse.
— Pelo visto você saiu melhor do que a encomenda.
— Não se deixe enganar pelas aparências, doçura. — comentou em um tom branco. — Passei um bom tempo tentando acalmar ela.
— Você faz parecer mágico — apontei pra bolinha encolhida nos braços dele. — Onde Lady e Trish estão, a propósito?
— Elas devem estar fazendo algo que melhor sabem fazer; me encher de dívidas.
Dando crédito a elas, desde que a agência virou minha residência permanente, nunca mais vi esse comportamento peculiar. Teorizo que isso se deve ao fato de tecnicamente depender de Dante pra maior parte das coisas por estar nesse mundo — embora ocasionalmente também saia em trabalhos com ele pra garantir não ficar ociosa.
Beatrice se agitou.
— Que foi bebê?
Beatrice me olhou, seus lábios tremiam e o rostinho estava vermelho.
— Acho que ela está com gases e pelo que vejo nem se arrotar melhora. Acho que preciso de ajuda. — fitei Dante que assentiu.
— Como vai ser?
— Deita ela e faça uma leve massagem na barriga dela. — Dante seguiu minha recomendação um pouco relutante. Ele a deitou do sofá e começou a massageá-la. Fiquei olhando atentamente para verificar se a massagem renderia bons resultados. Beatrice parou de chorar e balançou os braços, então deu um arroto poderoso. Dante continuou até que ele percebeu algo — e pela reação dele não era nada agradável.
— O natal chegou mais cedo e o Papai Noel te trouxe um presente, doçura.
— Ah, não! Se for o que estou pensando, nem vem!
— Eu não vou trocar.
— Sério? Sua mão não vai cair se fizer isso, sabia?
Travamos uma guerra de olhares, enquanto eu o fulminava, ele me encarava despreocupado. O choro de Beatrice deu impasse à batalha.
Dante soltou um suspiro designado.
— O que tenho que fazer?
— Bem, primeiro abre a fralda para ver o estrago.
Dante tateou a fralda até encontrar a aba. Respirando fundo, ele abriu e fez uma careta com a visão. Beatrice começou a rir, batendo palminhas.
— Ah, você é mesmo um doce, né?
— Huh, doce? Doçura, te garanto que isso não é chocolate. — Dante apontou para a fralda cheia.
— Não liga para ele, que você é ainda é um doce, Bea! — o ajudei a tirar a fralda e limpar Beatrice. Tive todo o trabalho de explicar a Dante como ele devia fazer quando trocasse à pequena. Beatrice estava muito inquieta. Ela até tentava chutar Dante, e em meio a bagunça percebi que ela tinha enfiado a mãozinha dentro do pacote sujo. Um lembrete para mim mesma: Nunca deixa uma fralda suja perto de um bebê agitado.
— Ei, princesa, vamos com calma, sem movimentos bruscos. — Dante orientou Beatrice com uma tensão engraçada. — Deixa eu só tirar isso de perto, bem tranquilo.
Engoli em seco.
Quando vimos a surpresa na mãozinha dela, o horror foi tudo que conseguimos conceber.
— Oh, não! — gememos em uníssono.
Limpar Beatrice se tornou um hábito de curto período — ela conseguia a proeza de se sujar com tudo ao alcance. E antes de terminar de vesti-la, percebi que chovia.
Deixei Beatrice com seu brinquedo e dei uma rápida olhada pela janela.
Não, estava acontecendo o segundo dilúvio bíblico. O dia estava lindo quando acordei, não dava para entender a variação repentina de clima. Isso seria preocupante se não tivesse totalmente relaxada. Beatrice brincava comportadinha com um ursinho todo surrado, pobrezinho. Dante comia o ultimo pedaço da pizza que havia encomendado horas antes. Lady e Trish tinham ido para nem sei onde. Eu estava na mais completa paz para me importar. Agora a única coisa que tinha que me ocupar era o chocolate que me esperava na cozinha — mas como estava muito quente, não tive outra escolha a não ser esperar.
Acho que nada poderia estragar aquele momento.
A porta foi abruptamente aberta. No susto peguei Beatrice e me posicionei alerta. A figura que irrompera pela agência era um homem todo de preto segurando firmemente um guarda chuva. Ele estava bastante molhado para alguém que tinha como se proteger do aguaceiro.
— Merda! Que susto! — coloquei a mão sob o peito, tentando acalmar meu coração que batia tão rápido que pensei que fosse saltar pela boca, perguntei quase instintivamente: — Que é você e de onde você veio? Nunca ouviu que deve bater na porta?
O homem fechou o guarda-chuva e respirou fundo.
— Quem eu sou? De onde vim? Essa é uma das perguntas fundamentais do universo; — o encarei assustada pela súbita mudança de humor, e me recuei com Beatrice para perto de Dante. O cara parecia um rei do drama de quinta. — De onde viemos para onde nós vamos...? Por que tudo junto é separado, enquanto separado é tudo junto...? E golfinho? É diminutivo de quê? De golfo?
— Não, criatura, eu quero saber o que faz aqui! Obviamente, você é um cliente, não é?
— Ah, sim!
— Ei, Dante. O negócio é com você — Não houve resposta, e voltei minha atenção para o dito cujo que parecia estar inerte em pensamentos — Dante?
— Ele tem razão... Golfinho parece ser diminutivo de golfo...
Com tantas coisas significativas para pensar, ele estava ponderando sobre justamente isso?
— Dante! — gritei impaciente.
Deixei os dois conversarem sossegados, afinal não me interessava o que tinham para conversar. Aproveitei para fazer a mamadeira de Beatrice e a alimentar. Tomei um pouco do chocolate e voltei para sala. Dante estava se aprontando para sair.
— Onde vai?
— Tenho que trazer dinheiro para casa. — dava para perceber que estava encenando o papel de chefe da casa, super responsável — Tenho uma boca a mais para alimentar — ele olhou para Bia que babava e mordia a própria mão. — Como o homem da casa, esse é meu dever. — seu tom graciosa dava a entender que ele tinha, magicamente, se convertido em pai.
— Vai me deixar sozinha cuidando da Beatrice?
— Você tira isso de letra, doçura.
— Mas...
— Eu sei que sem mim as coisas vão a baixo. — Dante depositou um beijo na minha testa e na da bebê. — Mas o papai aqui tem que cuidar do sustento da família.
— É mesmo? Você, sair nessa chuva? — o encarei acusatoriamente. — Parece uma desculpa pra me deixar com todo o trabalho.
— Sua desconfiança me magoa — fingiu estar ofendido, em um gesto tão dramático quanto cômico.
— Dante!
— Adios. — Dante fez um gesto de despedida e saiu calmamente me deixando totalmente sozinha.
— Agora será só eu e você, Beatrice!
×××
Acordei com um estranho ruído.
Era o telefone que insistentemente tocava. Verifiquei se o barulho não acordara Beatrice, para meu alivio ela continuava dormindo tranquilamente. Impaciente e praticamente dormindo em pé — parecendo um zumbi —, desci as escadas. Meus olhos mal se mantinham abertos e acabava tropeçando no processo de atender ao telefone. Não tinha como não ficar irritada com isso. Algum maldito gênio que aparentemente não sabe que é tarde o suficiente para ligar para casa de alguém.
— Devil May Cry. — disse sonolenta.
— Dante? — a voz familiar perguntou. Parei para analisar, eu conhecia a voz, mas de onde?
— O Dante está?
Um clique soou em minha mente. A resposta veio imediatamente.
— Nero!
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