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NOORA

Faz dois meses que me casei com Dean. Ele não me olha e raramente conversamos, pra não dizer nunca. Jamais quis me casar com ele, na verdade, seu nome estava no final de uma longa lista de pretendentes que eu poderia considerar para me casar um dia. No entanto, nossos pais decidiram, o meu foi meio relutante, mas ele não poderia dizer não a Robert Clines.

Sei que Dean me odeia, despreza e sonha que um dia eu suma. Pra Dean eu sou o lembrete de que o pai dele está sempre no comando de sua vida.
Outra mulher no meu lugar ficaria ofendida, mas eu entendo Dean. Meu pai é um monstro ao qual eu não quero voltar a morar. Meu casamento pode não ser o ideal e saudável, mas nada é pior que viver sempre com medo.

A manhã está muito bonita, geralmente eu nunca reparo nesse tipo de coisa, mas depois que me mudei parece que a cor do mundo está mais vibrante. Termino de pentear meu cabelo no banheiro e caminho para fora do quarto. Dean raramente aparece para dormir quando estou acordada. Ele chega do trabalho e vai pro escritório, daí na hora do jantar nós ficamos sentados comendo em silêncio. Ele termina e volta para o escritório, enquanto isso eu leio um livro no quarto. Quando pego no sono Dean surge e dorme ao meu lado.

Chegando ao primeiro andar vou direto para a mesa do café, meu gentil marido está na ponta lendo o jornal. Ele nem mesmo faz a questão de olhar pra mim quando entro no cômodo. Dou um "bom dia" meio animado, mas não recebo nada em resposta. Sou invisível... Tem dias que penso em puxar assunto com ele, mas a última vez que tentei ganhei um "Você pode por favor não falar comigo?". Nem preciso descrever minha cara assim que ouvi isso.
Peguei duas torradas e passei geleia de uva, eu odeio geleia de qualquer coisa, mas só estou fazendo hora. Meus dias são sempre chatos e meio solitários. As empregadas me ignoram, mas quando dou alguma ordem elas assentem pra mim, mas assim que se viram, sei que reviram os olhos. É como se eu fosse uma intrusa, bando de malucas.
O cabelo castanho escuro de Dean está com um penteado diferente, geralmente ele simplesmente joga para trás como se fosse um ator de Hollywood dos anos 50. Hoje ele manteve algumas mexas levemente onduladas batendo na altura de seus olhos cinzentos. Ele é um homem muito bonito, mas eu nunca havia reparado nele como homem até o nosso noivado. Minha família sempre foi convidada para passar os feriados importantes com os Clines. Eu simplesmente odiava, pois era sempre algo tão exagerado. Uma vez teve uma porcaria de escultura de gelo. Quem ainda faz isso? Sem falar das outras garotas da alta sociedade de Pergo que pareciam desesperadas por atenção masculina.

Sei que muitas dessas garotas estavam querendo Dean como marido, mas ganhei por ser filha do melhor amigo do pai dele. Nos chamaram de "casal poderoso", eu quase ri. Parecíamos ridículos juntos, pois somos dois riquinhos branquelos que foram forçados a se casar pelos pais.

Dean se levanta da mesa e caminha para pegar suas coisas e simplesmente bate a porta da frente atrás dele. Nenhum um "tchau" qualquer ou um olhar. Aprendi a não esperar algo de Dean, assim como ele não espera nada de mim. No entanto, toda essa situação não deixa de ser chata. Vivemos debaixo do mesmo teto, estamos casados em um papel e eu tive que mudar meus documentos, qual é! Pelo menos mereço um "tchau".

Depois do meu café, eu fui até a biblioteca gigantesca da mansão. Dean nunca veio aqui, acho que ele não é muito de ler. Azar o dele, sobra um lugar inteiro só pra mim sem a carranca dele. Há várias coleções completas de livros raros. É um paraíso para pessoas como eu que gostam de ler.
Me sento na poltrona confortável da biblioteca e volto a ler do livro onde parei ontem a noite. Em três horas termino o livro. A sensação de realização é rápida e logo o vazio de não ter o que fazer aparece. Caminho para as longas estantes de livros e procuro por um novo. Vejo um livro de romance e me sento abaixo de uma delas. Meu plano era ler as 20 primeiras páginas para saber se era bom, mas sem me dar conta acabo pegando no sono. Quando acordo, vejo que a biblioteca está iluminada fracamente por luzes que passam pelas altas janelas. O brilho da da lua funciona como um filtro de foto para o ambiente. A decoração metálica, como pequenas estatuas humanas em poses pensantes e iluminarias desligadas cintilam em toda parte. Parece um lugar mágico, aprecio a mistura de escuridão e brilho antes de sair da biblioteca.

Caminho pelos corredores do segundo andar, está uma escuridão, mas como na biblioteca é iluminado pelas janelas no final dele. Passo em frente a porta do escritório de Dean, por baixo da porta noto que há luz.

Ele já está em casa?

Desço as escadas até o primeiro andar, indo para o grande relógio na sala e vejo que já passou da meia noite. Fico sem acreditar que dormi na biblioteca praticamente o dia todo. Toda a casa está com as luzes apagadas. Os empregados já foram para suas casas e ninguém nem ao menos procurou por mim. Meu estômago ronca como jamais fez, então espio a cozinha. Abro a porta da geladeira gigante em busca de alguma esperança de que alguma cozinheira guardou um pouco do jantar pra mim. Nada...

Encaro a geladeira e vejo que terei que me virar sozinha. Pode parecer muito fútil e com toda a certeza é, mas eu nunca tive que fazer algo para comer. Na casa do meu pai sempre era servida e sempre procurada pelas empregadas. Elas me avisavam do almoço, me levavam lanche e com certeza me avisavam do jantar. Aqui sou invisível não só para Dean. Provavelmente ele espera que eu pire e arrume um jeito de acabar com nosso casamento. Que eu volte correndo de volta a casa do meu pai. Coitado.

Pego um prato no armário que levei dois minutos pra descobrir onde fica e depois minha nova descoberta é que o de pães fica em outro armário alto no lado oposto. Me sento na bancada de mármore branco e passo geleia de um sabor desconhecido -a droga do rótulo está em francês- em uma das fatias de pão. Me sirvo de suco de laranja que tinha na geladeira em uma jarra gordinha de vidro. Esqueci de dizer que tive que fazer tudo isso com a luz da geladeira de porta aberta. Eu realmente não consegui achar o interruptor e meu celular está no quarto. Essa situação me lembrou um filme que assisti uma noite na biblioteca pelo celular. Um rapaz vive na casa de uma mulher solitária sem ela nem saber. Eles acabam se apaixonando e vivendo um amor proibido incrível. Diferente na minha versão, todo mundo sabe que estou aqui e é bem improvável que eu vá me apaixonar dessa maneira por Dean.

Escuto alguém descer as escadas, fico parada e então corro para fechar a porta da geladeira que deixei aberta. Tudo fica escuro e só ouço passos se aproximando, de repente as luzes da cozinha se acendem. Meu olhos automaticamente se apertam por causa da luz invadindo. Dean aparece perto da parede ao lado da bancada. Ah, o interruptor estava perto esse tempo todo... Ele me olha por um segundo meio confuso, mas depois volta a desviar os olhos e a me ignorar. Queria imaginar o que se passa na cabeça dele. "Por que essa doida está comendo no escuro?" "Temos um gato em casa?" "Não podiam ter me arrumado uma esposa mais esperta?". Tentar imaginar o que Dean estava pensando me fez rir, não uma risada, mas um arzinho saindo do meu nariz. Ele nem olhou para trás quando foi até o armário. Ele pegou um copo e em seguida se aproximou de mim. Bom, foi o que pareceu na minha visão periférica. Dean pega a jarra de suco e despeja no seu copo. O braço dele aparece na minha frente, coberto pela blusa preta social. Seu pulso tem um relógio com design discreto e no seu dedo vejo um anel que não é a aliança que trocamos no altar. É o anel que todos os homens da família dele usam. Cada um tem um símbolo que eu realmente não conheço, mas meu pai tem um também. Ainda acho que esses caras fazem parte de um ceita ou sociedade secreta. Provavelmente essa teoria tem a ver com o livro que estou lendo atualmente, mas deixa quieto. Consigo sentir o perfume de Dean, é do tipo fraco, mas muito bom.

Dean deixa a jarra de suco no balcão e caminha para a entrada da cozinha. Observo a silhueta de um homem grande sumir na escuridão após a luz da cozinha não conseguir mais acompanhá-lo. Termino o sanduíche ou uma representação de um que fiz. Devolvo a jarra de suco a geladeira pela metade e desligo as luzes. Ando até a escada e subo com cuidado para não sair rolando por elas. Consigo achar meu quarto com facilidade, é o único lugar que sei de memória.

Entro em meu quarto e vou para o banheiro preparar um banho quente. Assim que termino, caio direto na cama com um pulo. O aquecedor está ligado deixando o ambiente muito confortável. A noite está fria e como o dia, muito bonita. Me endireito ao meu lado da cama e puxo as cobertas até o queixo e fecho meus olhos esperando o sono me levar embora de mais um dia. Que no caso já é outro, mas isso será considerado quando amanhecer.

Depois de um tempo meu sono não vem, mas escuto Dean entrar no quarto. Provavelmente ele acha que estou dormindo. O som da água caindo do chuveiro é rápido, então um silencio predomina, até que sinto a cama afundar ao meu lado. O cheiro do shampoo de Dean invade meu nariz. Ele é um homem bem cheiroso. Sinto ele puxar as cobertas levemente. E é isso, só o que consigo ouvir é a respiração dele. Dean não ronca ou se espalha na cama, praticamente como dormir com um boneco. Um boneco cheiroso, bonito e muito chato.

DEAN

Oie, você ligou pra Mary. Não posso falar no momento, deixe um recado após o bipe!

Caixa postal outra vez. Encerro a chamada e deixo o celular escorregar da minha mão para a mesa. Hoje faz um ano que Mary e eu terminamos. Ela não me atende e nem mesmo procura por mim. Provavelmente tem medo do meu pai fazer algo a família dela por serem humildes. Acho que se eu estivesse na pele dela faria o mesmo, pois o meu pai tem poder de acabar com qualquer um, inclusive comigo. Eu vejo como ele estragou a minha vida todo santo dia e tirou de mim a chance de ficar com a mulher da minha vida. Ao invés de ser casado e feliz com Mary, estou amarrado a uma garota estranha que vive com a cara enfiada em livros o dia todo.

Quando descobri quem seria a noiva que meu pai escolheu pra mim, não pude me importar menos. Era óbvio que ele escolheria a filha de Wilson Turner. Ele é o homem que meu pai mais confia no mundo, sem falar que é influente assim como ele. Eu conhecia Noora, sempre passavam os feriados com a minha família. Ela sempre foi uma garota quieta e parecia que estava sempre entediada. Nas festas ela nunca conversava com outras garotas e se mantinha isolada. Apesar de suas roupas de "filha do pastor", ela é gostosa. Nenhum evento passava sem que meus amigos me dissessem que queriam transar com ela. Noora sempre chamou atenção dos homens e tenho quase certeza que ela nunca notou isso. As garotas a odeiam simplesmente por ser mais bonitas que elas sem nem fazer esforço. Na recepção do nosso casamento, recebi parabéns sinceros de todos os homens importantes da nossa sociedade. Coisa que fez meu irmão me odiar mais. Desde criança Jay tinha uma obsessão por Noora que eu nunca quis me meter. Quando nosso pai contou para mim que me casaria com ela, Jay estava presente e simplesmente surtou. Na cabeça dele quem se casaria com aquela garota seria ele. Eu e meu irmão nunca fomos chegados. Ele é filho do meu pai com outra mulher e acha que deve competir comigo em tudo. Jay jamais conseguiu ganhar de mim em algo, fosse no futebol ou em assuntos da empresa. Ele sempre aceitou suas derrotas muito bem, mas desde que estou casado com Noora, Jay tem me enviado olhares mortais no trabalho e só se dirige a mim quando é de extrema importância. Não só meu irmão mudou comigo após meu casamento, alguns amigos meus não querem mais sair comigo, inventam umas desculpas qualquer. Meu melhor amigo Charles me disse que alguns caras se candidataram para se casar com Noora, mas que o pai dela me escolheu. Que sortudo eu sou...

Abro a porta do meu escritório em casa e caminho pelos corredores. Já passava da meia noite e eu ainda estava fazendo hora. Eu não tinha visto Noora no jantar, na verdade eu não a vi em lugar nenhum. Geralmente a esse horário ela está na cama, apagada depois de ler um livro qualquer. Passei pelo quarto e vi a cama vazia. São muitos corredores, não tinha como eu saber onde ela estava, então evitá-la era uma tarefa difícil, já que poderia aparecer em qualquer lugar. A mansão e a propriedade em volta dela está na minha família há anos, mas tinha sido reservada a mim quando meu noivado com Noora começou. Vivemos nela em boa parte da minha infância, mas a nova mulher do meu pai decidiu que viver na casa da falecida esposa seria demais para ela. Então a mansão da minha infância foi deixada de lado, até agora. Ainda tem o labirinto de plantas no jardim dos fundos. É meu lugar favorito, pois na época eu fugia para lá quando me chateava com algo ou com meu pai. Minha mãe sempre vinha me procurar no final do dia com um sorriso gentil.

As cortinas das janelas no corredor estão abertas, a lua cheia está iluminando o céu. Vou até uma das janelas e vejo o jardim banhado pela luz. É uma visão muito bonita. Fico alguns minutos parado na janela até que decido tomar algo na cozinha. Desço as escadas lentamente e ao contrário do corredor o restante da casa está muito escura. Me aproximando da cozinha e estico os braços para encontrar o interruptor próximo a bancada. Quando meu dedos encontram eu acendo todas as luzes de uma vez. Noora aparece instantaneamente na minha frente e por um segundo tenho um mini infarto. Ela está sentada na bancada com uma fatia de pão de forma coberta de geleia. Por que essa doida está comendo no escuro? Vejo o suco que queria beber está em sua frente. Eu caminho para o armário para pegar um copo. Geralmente eu demoro uns dois minutos para achar, mas por sorte de primeira os copos aparecem pra mim. Odiaria que ela soubesse que não consigo achar a porra de um copo na minha própria cozinha. Tenho certeza que de alguma maneira ela quer me humanizar, mas isso eu não vou deixar. Quanto mais ela perceber que a desprezo, talvez mais rápido ela vá ao papai reclamar do casamento infeliz e o convença a tirá-la dessa. Aposto que Wilson faria qualquer coisa pela princesinha dele.

Me viro para ela, os longos cabelos loiros estão soltos. Eles cobrem toda as suas costas, parece que nunca foram cortados na vida. Ela tem um cabelo bonito e quando me aproximo para pegar a jarra de suco eu consigo sentir o aroma dele. É muito bom. Decido não tomar o suco na cozinha, para evitar o silencio constrangedor entre nós. Caminho para longe de Noora em direção ao meu escritório. O jeito é esperar ela adormecer para poder tomar um banho e dormir.

Ao sentar na minha mesa, começo a rever alguns documentos que só precisaria da minha atenção no trabalho. Fazer o que, eu tinha tempo de sobra. Alguns longos minutos depois eu decido ir pro quarto. Tranco o escritório e caminho pelo corredor novamente. Ao entrar no quarto que divido com Noora, vejo que ela está dormindo. Entro no banheiro e abro o chuveiro, enquanto espero a água esquentar checo meu celular. Nenhum sinal de Mary. Suspiro frustrado e começo a tirar a roupa. Eu tinha deixado uma calça moletom e uma camiseta no armário do banheiro mais cedo. Depois de um banho rápido saio do banheiro com a toalha na minha cabeça pra secar meu cabelo. Sem querer eu observo Noora enquanto esfrego a toalha na minha cabeça. O pensamento de ficar casado com alguém que não amo é tão triste. Me pego tentando imaginar o que passa na cabeça dela a respeito de tudo que está acontecendo em nossas vidas. Um dia ela está na minha casa passando o Natal com sua família, então no outro está deitada na minha cama.

Mesmo que ela não tenha culpa de nada, não consigo deixar de odiá-la. Quem deveria estar aqui é a Mary e não uma garota mimada de Pergo. Ela roubou o lugar da mulher mais importante pra mim.

Devolvo a toalha onde encontrei e caminho para a cama. Me deito ao lado da usurpadora e puxo um pouco as cobertas para mim.A noite está fria e eu não quero congelar, ainda mais que a garota se remexe o tempo todo na cama. Parece que ela está dançando enquanto dorme. Vira sempre de um lado para o outro a todo momento. Sempre achei que ela fosse quieta, mas parece que me enganei ou era apenas um disfarce pra pagar de garota misteriosa.

Finalmente fecho meus olhos com a esperança de que tudo isso acabe logo.

Se depender de mim, você estará de volta a casa do seu papai antes de completarmos bodas de papel.

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