#BABYBATWINGS
3 03.
Notas iniciais
Então ele disse: "Tudo bem se
sentarmos e conversamos por um momento?
E na troca do seu tempo,
eu te darei esse sorriso?"
– When The Day Met The Night — Panic! At The Disco
xx
Leo estava tentando ser natural. Sério. Ele olhava para as quase-tipo-vacas lá em baixo em Veneza fingindo que seus olhos não corriam para a figura sombria um pouco distante de si, sem o seu casaco de novo, mas encolhido como quando estava com ele.
Leo não devia saber disso. Leo não devia lembrar do que ele fez enquanto estava doente. E Leo não devia ter saído do quarto antes de Nico acordar na cadeira e não ter dito nada sobre o assunto ainda. Ele estava sendo um cara pior que o normal, sabia bem disso.
Mas Nico estava virando seu assunto complicado.
– A Casa Negra. — Nico disse em inglês. — Calle Frezzeria é a rua.
Okay, Leo voltou a prestar atenção na conversa. Nico sabia italiano. No big deal. Italiano não era super próximo de espanhol, que isso. Os dois não iam se entender se falassem em seus idiomas nativos.
Enquanto os semideuses decidiam quem ia lá baixo e quem precisava ficar, Leo se surpreendeu ao ouvir Nico dizer:
– Eu vou com Frank.
Frank todo inocente:
– Huh, você é bom com animais?
O sorriso forçado de Nico fez os olhos de Leo arderem.
– Na verdade a maioria dos animais me odeia. Mas há algo nessa cidade… Muitas mortes. Espíritos inquietos. Se eu for talvez consiga mantê-los afastados. Além do mais, como você notou, eu falo italiano.
– Que difícil, cara. — Leo assoviou. Nico virou na direção dele no mesmo instante, fazendo Leo se arrepender de escolher essas palavras pra dirigir ao filho de Hades depois de ser um babaca. — Quer dizer, a parte dos animais.
– Também vou. — Hazel salvou Leo roubando a atenção ao segurar o braço de Frank. Eles eram fofos juntos, sem dúvida.
Antes de descer Nico lançou um longo olhar significativo para Leo. O latino engoliu a seco, perdendo a capacidade de fazer qualquer coisa sobre aquele olhar. Não era o agradável "de cachorrinho" como Leo havia nomeado. Era um olhar sério, observador, quase frio.
E Leo reconheceu que Nico não usava uma máscara no momento. O que só podia significar que... Ele estava puto. Isso por que o garoto tinha a maior paciência entre todos com ele, hem?
– Você é pior do que eu. — Nico resmungou. — Em questões sociais, você é muito pior.
Após dizer isso, Nico foi embora. Leo piscou uma, duas, sete vezes. Estava catatônico, como se tivesse levado um soco no meio dos olhos. Talvez um soco doesse menos. A verdade nunca era gentil ou doce.
Mesmo assim ele continuava definindo Nico dessa forma.
xx
A doninha de Hazel era uma boa distração. Leo não queria rir de uma amiga tão querida quanto ela (uma das suas crushs impossíveis), mas era inevitável quando via a doninha arranhando seus pés ou peidando com aquela cara enrugada e flácida como a bruxa que nunca deixara de ser.
Leo teria feito várias piadas para Jason se Nico não tivesse saído da sala com certa raiva, nem se propondo para ir atras de Hazel como sempre fazia. Leo quis mesmo não se importar com isso, mas aquela situação era completamente diferente com a dos macacos anões.
Leo ainda não havia falado com Nico e Jason não parava de comentar como Piper gostava dele sem motivo aparente e estava zangada pela mudança repentina de atitude do garoto. Leo queria dizer que não havia notado nada, por que Nico era mesmo fechado e distante em qualquer hora, mas ele mais que ninguém notou as diferenças.
Afinal, Leo que causou o problema que incomodava Nico para começo de conversa.
Seria cômico se não fosse irritante o fato do problema ser que Leo e Nico haviam virado amigos. Sim, isso aconteceu. Como? Primeiro teve a aproximação constrangida que não rendeu em nada, mas deixou Leo curioso. Depois Leo notou que Nico era de confiança, até um pouco… Parecido consigo mesmo. E ai ele teve uma conversa irônica com Nico, sendo uma das mais divertidas da sua vida.
(Não necessariamente nessa ordem)
Jason e Piper eram ótimos, mas eles não sabiam rebater como Nico com as suas artimanhas de virar o argumento vencedor à sua disposição e suas piadinhas de humor negro. Ele era muito divertido nesses comentários, quando você aprendia a apreciar.
Leo também pode perceber que, por mais que Nico se controlasse, estava se divertindo muito e falando mais do que era acostumado.
Isso tudo deixou Leo feliz. Por fim, Leo não estava intimidado como antes por Nico, e o achava um cara legal, bizarro, mas legal. Interessante, na verdade. Não seria ruim conhecê-lo mais.
O problema é que Leo também tinha medo. Nico podia viver tão bem sem a sua presença, talvez até melhor. Ele realmente não parecia se afetar pelas suas piadas ou por suas ações em geral. Agora ele podia estar zangado, mas Leo tinha certeza que não era por sua causa exatamente. E que Nico o esqueceria num piscar de olhos, por que ele não era do tipo de gastar o tempo.
Uma pessoa assim sabia deixar Leo agitado, inseguro. Por mais que Leo quisesse conhecê-lo… Não queria que não desse certo. Não devia ser tão importante, mas era.
E... Leo não deveria ter se distraído. Droga. Ele havia seguido Nico Di Angelo. Agora queria muito não ter feito isso. Mas Leo era sempre assim, agindo com o corpo antes do cérebro. Isso iria o matar qualquer dia. Talvez hoje.
– Então… É aqui que você se esconde?
Leo nunca lidou bem com o silêncio. Ele falaria até com uma árvore se aparecesse a chance. O silêncio geralmente o levava até o sono, que levava aos pesadelos, ou levava aos seus pensamentos que não queria ter. Eles não eram nada saudáveis, longe disso.
Além do mais Leo era curioso. Ele queria saber onde Nico passava metade do tempo… Emburrado. Não havia palavra melhor. Nico era um grande bebê emburrado.
Mas talvez Leo não quisesse saber se era o quarto de Percy. Quer dizer, Nico estava sendo obrigado a ficar ali por não ter um quarto a mais, mas agora Leo sabia que não estava sendo agradável pra ele. Agora Leo sabia como Nico se preocupava e sofria, por que Nico era quase uma pessoa normal para Leo. Então Nico não ficava naquele quarto comemorando a queda de Percy no Tártaro.
– Eu não me escondo. — Nico resmungou de cabeça baixa.
Não se escondia, né? Leo revirou os olhos.
– Nico, olha… Eu não fui o melhor cara desde…
– Pare com isso. — Nico cortou de forma… Zangada? — Não se desculpe. Não me dê explicações.
– O que? — Leo piscou. — Por quê?
– Por que não precisa. — Nico semicerrou os olhos. — Você sai falando com qualquer estranho? Eu não.
– Como assim estranho? — Leo estava exclamando, entrando no quarto. — Qual é a sua?
– Não é nada, Valdez. — Nico suspirou.
Aquilo doeu. Mas o que doeu mais foi que Nico não estava sendo sincero ali. Ele estava fugindo. Se ele realmente não ligasse para Leo não iria ter que deixar tão claro. Poderia simplesmente ignorá-lo como Leo sabia que ele fazia.
– Nope. — Leo decidiu. Nico o estranhou. — Eu não vou sair correndo por que você é o Hellboy, Ghost King ou qualquer outra merda.
Foram tantos nomes ofensivos que Nico não soube o que se defender primeiro. Quando notou Leo já estava próximo dele, parecendo mais determinado do que realmente era. Leo queria fazer aquilo. Deixar Nico sozinho seria como deixar outra versão dele sem ajuda.
– Talvez eu tenha feito merda…
Nico se recuperou instantemente só pra dizer:
– Você sempre faz merda.
Leo respirou fundo. Levantou as mãos pro alto, em rendição.
– Sim, porra, eu faço. Mas a questão é que essa não é a minha intenção. Bem, nem sempre. Não sei se você notou, mas somos extremamente deslocados socialmente.
– Como? — Nico soltou uma risada amarga. — Você tem os seus amigos que morreriam por você, Valdez. Pare de se fazer de vítima.
– Hey! Não é você que deve dizer isso, sou eu! Pare de roubar as minhas falas.
Nico continuou inexpressivo encarando-o, e se queria assustar Leo estava conseguindo. Seu olhar estava cheio de “Vá embora” e normalmente Leo obedeceria por não querer vê-lo irritado.
Mas dessa vez Leo queria morrer. E parar em algum melhor.
– Você nunca tentou. — Leo acusou após um longo instante de silêncio. Queria dizer algo melhor, algum discurso emocionante e inspirador, mas nada decente vinha na sua cabeça.
Então ele optou pela a verdade, por que ela ia escapar alguma hora.
– Não sabe do que está falando. — Nico murmurou em tom de aviso. Mas tudo que Leo notou foi a tristeza impregnada nele como uma sombra sugando a sua vida. Leo ficava cansado só de se imaginar lutando contra a sombra. Nico não?
– Exato! Eu não sei! Por que você faz isso, se encolhe no cantinho e não deixa ninguém ouvir e… — Leo bufou. — Do que você tem tanto medo?
– Vai embora, Valdez.
– Não vou.
Ele não iria por que a máscara de Nico estava quebrando e ele estava parecendo assustado. Leo notou que os braços cruzados não significavam hostilidade e sim defensiva, por que ele se encolhia. Seus olhos aumentavam. Alguém só precisava olhar para ele por mais de um segundo antes de desviar o rosto com medo para saber que ele não era exatamente a presença que as pessoas achavam que era.
Nico caiu sentado na cama, desviando os olhos. Leo não sentiu pena dele. Não, foi algo diferente. Compaixão? Não era a mesma coisa? Não, solidariedade? Porra, por que todas as palavras fugiam naquelas horas? Leo não fazia ideia como lidar com seres vivos. Ia ser mais fácil se Nico fosse uma máquina. Leo ia pular de alegria com as várias camadas que teria pra estudar.
– Você não precisa falar comigo. — Leo afirmou. Na verdade ele estava doido de curiosidade para saber o que bloqueava Nico, mas quem ia confiar nele assim do nada? Leo devia ter pensado nisso antes de ter começado a falar. — A gente pode só… Não sei como dizer…
– Coexistir? — Nico murmurou encarando o chão. Leo franziu o cenho.
– Não. Já fazemos isso. Se estivesse bom eu não estaria aqui reclamando agora.
– E o que você espera de mim, Leo? — Nico balançou a cabeça negativamente, a voz pesada e frágil ao mesmo tempo. — Uma amizade linda e pura que nunca vai te causar problemas?
Leo riu. Quarta vez. Não conseguiu evitar achar aquilo um avanço.
– Tá brincando? Eu sou o rei dos problemas! Isso não teria graça nenhuma. — seu sorriso era sincero, pela a primeira vez em o que pareceu eras. — Eu quero que a gente pare de tentar se ignorar, pode ser? Se não por mim… Por Hazel. Você sabe, conviver bem comigo é só o primeiro passo para conviver bem com todo mundo. Ela ia dar tudo para te ver fazendo amigos.
Isso pareceu ter mexido com Nico de verdade. Ele levou uma perna até o colchão, abraçando-a. Leo tinha certeza que ele não dormia num lugar tão sufocante.
– Você jura, Valdez? — Nico suspirou. — Sua lógica é estranha.
– Não, minha lógica faz total sentido: Se eu estou aqui tentando, isso quer dizer que os outros vão querer também. É tudo questão de perspectiva.
Nico passou um instante quieto, provavelmente pensando. Leo tentou não ficar muito nervoso. Claro, isso era impossível. Ele não tinha o menor controle sobre si mesmo, sendo uma criança hiperativa até dentro da sua mente. Não queria que Nico virasse as costas para si, mesmo após tantas tentativas. Deveria ficar cansado ou irritado, mas só estava esperançoso.
Leo devia ter feito algum curso em ser trouxa, ele finalmente notou isso.
– Por Hazel. — Nico assentiu. Leo se focou em ficar feliz por ter feito aquele progresso enorme que era convencer Nico, e sentou-se ao lado dele, mas com uma distância razoável.
– Então… Você sabe jogar cartas?
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