B l o o d s t r e a m
3 Dois
Notas iniciais
II
***
WARNING SIGN
***
Moira viu o homem desparecer por de trás do portão e, um tanto quanto transtornada, fez seu caminho de volta para a Mansão.
Não conseguia ver — e olha que estava se esforçando ao máximo! — o que Charles enxergava naquele homem! Ou mesmo em Raven... Não era que ela odiasse os irmãos adotivos de seu namorado, apenas desgostava deles o suficiente para querer jogar um vaso na cabeça de cada um.
Mas Raven, a sua maneira, ainda conseguia ser suportável, agora, esse Erik... Intragável em absoluto! Ele parecia querer ser desagradável ou incomodá-la! Havia realmente necessidade naquele comentário sobre ela não ter ido com Charles? Estava ali, cuidando da Mansão dele!
Bufou e sentiu que uma pequena parcela de sua irritação se dissipou apenas dela fazer isso. Foi até a cozinha e decidiu preparar um chá para si, isso a acalmaria e ela poderia voltar a olhar os relatórios que tinha deixado em cima da mesa do escritório quando as batidas na porta a interromperam. Sim, era exatamente isso que faria!
***
– Ande!
O homem olhou o relógio pela milésima vez naquela noite, mas aquela sentença era imutável: estavam atrasados! Estavam atrasados e tudo o que Raven fazia era continuar enfiando coisas na bolsa de mão!
– Raven! Pelo amor de Deus! – exclamou Charles.
– Ah, não comece, Charles! – ela pediu – Dois minutos e a estarei com tudo o.k.
– Aham. Foi isso que você disse há meia hora, quando começou isso. Eu não quero perder esse voo, Raven!
Um sorriso irônico brotou no canto dos lábios da irmã.
– Oh! Está com saudades da Moira, é? Calma Charles, ela não deve ter nenhum amante escondido no armário. E, se tivesse, você saberia não é?
– Eu não saio lendo a mente das pessoas a torto e a direito.
– Sai sim. Você mesmo me contou que quando viu que ela ia te dar um fora leu os pensamentos dela pra dizer exatamente aquilo que ela queria ouvir! – a mulher riu-se – Jogo baixo, Charles! Achei que só o Erik jogasse sujo na família.
Charles riu, mas no fundo sentiu uma angústia no âmago de seu peito. Erik... Onde estaria? Vez ou outra ele mandava um postal com as palavras “Estou vivo. Raven, meus olhos não são pinico pra você despejar suas ladainhas”, mas não era suficiente! Charles sentia a necessidade de vê-lo, de conversar com ele, de jogar xadrez, debater sobre sua tese de mestrado... Queria que ele estivesse lá naquela noite em que fora premiado por suas pesquisas na área gênica, mas Erik deveria estar em Santiago ou Calcutá ou qualquer outro lugar do globo que julgasse digno de sua atenção.
– Saudades dele? – perguntou Raven.
– Sim. Há quanto tempo ele não dá notícias mesmo?
– Uns três ou quatro meses. – ela respondeu – Também estou com saudades, mas logo logo ele manda sinal de vida.
Charles assentiu, olhando pela janela do hotel, de onde tinha uma vista belíssima da cidade em que morara os primeiros anos de vida.
– Eu só queria que ele não sumisse tanto. – desabafou rapidamente, antes que perdesse a coragem de dizer aquelas palavras.
Era verdade pura que Charles e Erik nunca foram exatamente unânimes em muitas coisas, mas, bem, como ele poderia explicar a si mesmo? Não entendia exatamente, mas Erik lhe parecia como seu segundo braço direito, um pedaço de si que fazia muita falta quando estava longe.
– Erik trilha os caminhos que ele mesmo escreve, Charles. – disse Raven, passando seus braços envolta dele – Ele sempre foi revolto, desde do dia em que o levamos para casa.
– Eu sei. – ele pigarreou, decidido a levar a conversa para outro rumo, não gostava de se sentir nostálgico – Pronta?
– Sim, senhor. – ela fez uma continência e ele revirou os olhos.
– Muito engraçado, Raven.
– O quê? – ela riu – Vem logo, resmungão. Eu acho que ainda dá tempo de comprar aquele bolo de chocolate com baunilha que eu vi quando a gente chegou aqui...
***
Raven resmungou ao sentir os cutucões de Charles em seu braço esquerdo.
– O que foi, Charles? — ela perguntou, ainda de olhos fechados, fazendo um bico com os lábios.
– Estamos em Westchester, Raven. — ele respondeu — O avião já pousou. Vem, precisamos descer.
Ela desatou o cinto, ainda sem ter muita ciência do que estava fazendo. Charles já tinha se posto de pé e a olhava com impaciência. Argh! Deus sabia como ela odiava quando ele fazia isso! Evitou a vontade de revirar os olhos e se levantou. Por que diabos ela tinha colocado salto para viajar? Seus pés estavam doloridos e ela estava mal-humorada.
Charles lhe deu um beijo no rosto e sorriu. Ela sabia bem o quanto ele se divertia com seu mau humor matinal.. Dessa vez não conseguiu ficar sem revirar os olhos. Esperava com toda força que aquela Moira Sonsa não estivesse na Mansão, pois se ela viesse com algum comentáriozinho idiota... Ai dela! Raven jurava a si mesma que chutaria a bunda batida daquela zinha! Não era que ela odiasse a mulher... Não, na verdade era sim. Não sabia onde Charles tinha achado aquela criatura... No lixo, talvez. Eles passavam horas no escritórios de Charles, trancados, lendo relatórios e mais relatórios, afundados nas teses e anotações do homem sobre mutação. Será que ela sabia que Charles era um mutante? Raven não fazia ideia. Tudo que conferia a Moira fazia Charles ficar irriquieto e fechado, ela era como um segredo que ele fazia questão de manter de tudo e de todos, inclusive da irmã.
Se pelo menos Erik estivesse aqui, ela pensou. Ele colocaria a Sonsinha pra correr em menos de um minuto. Além do que, ensinaria Charles a trabalhar seus critérios, que são péssimos no quesito "mulher"!
Ao entrar no carro que os levaria para a casa ela tombou a cabeça para o lado da janela, deixou a cabeça vagueando. Ao pensar em Erik, sentiu uma saudade do irmão! Erik tinha uma ideologia de vida completamente diferente da de Charles e isso, as vezes, fazia Raven ficar entre a cruz e a espada, mas, na maior parte do tempo, ela gostava. Os debates dos dois eram intensos e elevados a nível intelectual altíssimo, por vezes se via perdida em uma piada interna que não lhe fora muito bem explicada anteriormente. Para a mulher, Erik e Charles eram complementos. Um sem o outro era, no mínimo, estranho.
Nesse ponto, os olhos de Raven focalizaram um homem sendo expulso de um bar debaixo de socos e porradas. Observou a cena nos poucos segundos que o carro passou pelo local; um homem alto, vestido com blusa de lã negra fora jogado no chão, seu rosto se virou de modo que ela pode ver. Perdeu o fôlego no segundo que o reconheceu.
– Erik?
O carro já tinha passado pelo bar — que ela percebeu ser o bar de Ronnie Chatz, onde Charles e ela iam algumas vezes quando o homem estava em humor de comemoração. Talvez fosse engano... Afinal, o que Erik fazia ali? Da última vez que ele lhe mandou um postal estava em Marselha...
Não, ela tinha certeza, tinha certeza de que era o irmão. Reconheceria Erik e Charles em qualquer lugar sob qualquer circunstância. Sabia disso tão bem quanto respirava!
– Pare o carro! — ela pediu, elevando o tom de voz — Volte para o bar que passamos a pouco!
– Raven! — repreendeu Charles — O quê...
– Erik. Eu o vi.
– Não seja ridícula, Raven. — Charles sorriu e passou a mão em seu braço — Erik está pelo mundo, lembra-se?
– Não, Charles, eu vi. Olha. — ela fixou os olhos nele. Charles percebeu que aquele era o aval para entrar na mente de Raven, ele levou o dedo a têmpora direita vagarosamente, ainda incerto sobre a sanidade mental da irmã. Ela o sentiu em sua mente poucos segundos depois, vasculhando pensamentos aleatórios, até achar o que procurava.
Os lábios de Charles se entreabriram. Ele parecia em choque.
– Volte. — pediu ao motorista, que aguardava impacientado o desenrolar da conversa — Encoste no bar que alguns metros atrás.
Raven sentia a tensão sobre si. Fechou os olhos e controlou-se. Não podia se transmutar agora, não era a hora.
– Fique no carro. — disse Charles quando o carro encostou.
– Mas...
– Só fique, Raven.
Os olhos da mulher oscilaram por um milésimo de segundo para o amarelo vivo. Há! Ficar no carro! Até parece.
***
Erik sentiu o impacto quando seu rosto atingiu o chão arenoso da frente do bar. Estava lento, entorpecido pelo whiskey, pela vodca... E pelo que sabe Deus lá oque mais tinha tomado.
Hotel? Há, ele tinha pulado essa parte. O bar tinha sido seu ponto direto e ficara lá a noite inteira. Fazia muito tempo que não ficava bêbado, normalmente procurava se manter sóbrio, mas achou que, depois de tanto sabaticismo, podia abrir uma exceção muito mais do que merecida!
O problema foi quando a mulher entrou. Uma loira de cabelos cacheados que iam até o meio da cintura, sentou-se ao seu lado e pediu uma cerveja. Não havia nada mais no mundo que Erik apreciasse do que uma mulher que bebesse cerveja e soubesse fazê-lo. E esta sabia.
Estava desacompanhada, ele logo notou. Então tomou a iniciativa de se aproximar. Arredia. Ela não quis muita conversa com ele, mas ele estava bêbado e noção e o senso tinham ido embora a muito, muito tempo. Chegou mais perto e quase caiu em cima dela. Isso foi o que bastou, uma mão surgiu do nada e lançou Erik pelos ares.
Ele simplesmente tinha mexido com a mulher do dono do bar. Muito inteligente, pensou, agora que mastigava areia. E muito menos pra ele, ergueu-se, cambaleante devido ao valor altíssimo de substância etílica em sua corrente sanguínea.
Podia sentir o metal emanando por todo o lado, sorriu ao constatar que tinha armas o suficiente pra devolver ao projeto de valentão o tratamento que recebera.
– Va-moss — ele começou a falar, de modo enrolado — lhe ensinnr ua liçãão.
(N/A: link da música: http://www.vagalume.com.br/coldplay/warning-sign-traducao.html)
Ergueu as mãos, mas, quando estava prestes a elevar seu atacante pelo cinto e fazê-lo voar, uma voz entoou em sua cabeça.
Erik, pare.
Um sinal de alerta
Perdi a parte boa quando me dei conta
Comecei a observar e a bolha estourou
Comecei a procurar por desculpas
– Char-les? — perguntou para nada.
– Erik. — a voz vinha de trás de si.
Venha
Tenho que te contar em que estado estou
Tenho que te contar em meus tons mais altos
Comecei a procurar por um sinal de alerta
Erik se virou. Charles estava parado há menos de um metro dele, Raven estava mais atrás. Ela parecia feliz e assustada ao mesmo tempo, supondo que essa mistura fosse possível.
Quando é a verdade, eu sinto sua falta
Sim, a verdade é, que sinto tanto sua falta
– Ô, SEU FILHO DA PUTA! — gritou o dono do bar — EU NÃO TERMINEI COM VOCÊ AINDA NÃO!
Erik voltou a erguer a mão, sem olhar para o homem.
– Não, Erik. — disse Charles — Não vá arremessar o homem pelos ares!
Um sinal de alerta
Você voltou para me assombrar e eu me dei conta
De que você era uma ilha que eu ignorei
E você era uma ilha a ser descoberta
– Vaasculhando a miinha cabeça, Char-les?
– Não, apenas peguei a linha do pensamento enquanto tentava chamar sua atenção. — Charles suspirou — Vamos embora. Raven, ajude aqui.
– HEY! — o dono do bar berrou — EU DISSE QUE...
– Ouvimos o que você disse. — retrucou Charles — Entretanto acho que está tudo certo por aqui, Ronald.
Venha
Tenho que te contar em que estado estou
Tenho que te contar em meus tons mais altos
Comecei a procurar por um sinal de alerta
– Sr. Xavier, esse homem...
– É nosso irmão, Ronnie. — disse Raven, ao passar o braço pela cintura de Erik — Desculpa o que quer que ele tenha feito, ele costuma a ficar idiota quando bebe.
O dono do bar pareceu titubear. Erik ainda sentia voltade de jogá-lo pelos ares, mas Charles jamais permitiria.
Quando é a verdade, eu sinto sua falta
Sim, a verdade é, que sinto tanto sua falta
E estou cansado e não deveria ter deixado você ir
Charles passou o outro braço pela cintura de Erik e o guiou juntamente com Raven até o carro.
– Para casa. — ele anunciou para o motorista e enfiou Erik dentro do carro com alguma delicadeza.
Então eu rastejo de volta para teus braços abertos
Sim eu rastejo de volta para teus braços abertos
E eu rastejo de volta para teus braços abertos
Sim eu rastejo de volta para teus braços abertos
– Estou feliz que voltou, Erik. — disse Charles e sorriu — Já arranjando confusão, diga-se de passagem.
Erik se permitiu sorrir.
– Se nãão, não seriia eu. — replicou, com a voz embromada.
– Não. — concordou o outro — Não mesmo.
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