Bússola
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Uma sexta feira à noite. Uma badalada sexta feira à noite. Poderia ter ido a uma festa qualquer que Thawick insistira em me levar. Mas lá estava eu, largado no QG. Digno de um vagabundo, como diria Jade.
“Você tá precisando encher a cara, Cobreloa”.
Sorri ao lembrar das palavras que meu colega de trabalho havia usado em – mais – uma tentativa falha de me arrastar com ele.
A verdade é que eu não estava no clima para noitada nenhuma. Para coisa nenhuma. Ainda mais com aquelas costelas quebradas e alguns machucados sob o meu corpo.
Estava deitado na minha cama há algumas horas. Sabia que já estava tarde, mas o sono parecera me abandonar naquela noite. Por mais que eu tentasse, não conseguiria dormir tão cedo.
Depois de mais alguns minutos encarando todas aquelas caixas e pensando no trabalho que teria no dia seguinte, lembrei dos malditos analgésicos que havia esquecido de tomar. Como certa dificuldade me levantei e segui cambaleando. Peguei uma garrafa de água no caminho até o balcão, de onde tirei a maldita cartela de pílulas. Coloquei uma em minha boca seguida por um grande gole de água. A careta que tomou conta do meu rosto ao sentir o gosto amargo daquela coisa que descia pela minha garganta foi quase inevitável.
Dei as costas, pronto para voltar para a solidão do meu quarto, mas batidas leves me chamaram a atenção.
Karina.
A lutadora me olhava através da vitrine em um pedido silencioso. Tão frágil como eu nunca havia visto. Os olhos inchados e a maquiagem borrada denunciavam que ela estava chorando. O olhar da garota me fez ter certeza de que eu sabia o motivo para ela estar ali, naquela situação.
Peguei as chaves no meu bolso e segui o mais rápido que pude até a porta, a abrindo.
Antes que eu falasse qualquer coisa, Karina se jogou nos meus braços sem qualquer aviso, o que me fez cambalear para a trás devido a surpresa e a dor. Recuperei o equilíbrio rapidamente enquanto meus braços cercaram a sua cintura, a prendendo ali. Karina me apertou ainda mais, fazendo com que um gemido de dor escapasse de meus lábios.
— Vai com calma, pequena — pedi em um sussurro.
Ka se afastou assustada, e rapidamente se deu conta do estado em que eu estava.
— De novo, Cobra? — perguntou indignada. Enxugou as lágrimas, me lançando olhares bravos. Os mesmos que eu havia recebido meses atrás por estar naquela mesma situação — Será que você nunca vai aprender, cara?
As mãos da garota encontraram a barra da minha blusa e antes que eu as detesse, elas a levantaram sem nenhum aviso. Os dedos finos e quentes dela acariciaram todo o meu peitoral e toda a extremidade das minhas costelas, analisando os estragos dali. Senti um arrepio involuntário invadir meu corpo diante daquele mísero toque.
— Karina... — repreendi, me afastando. Meus olhos apontaram para a porta, em uma ordem.
A lutadora me deu as costas. Por um instante, achei que ela fosse embora, Mas quando a vi trancando a porta e retornando até mim com as chaves a mão, bufei.
— Nem começa. Eu não vou embora.
Revirei os olhos diante da teimosia sem igual da garota.
— Ei! — falei debochado ao perceber que Karina tentava tirar a minha blusa — Isso é assédio! — brinquei.
— Tira logo isso, Cobra! — pediu impaciente.
— Não precisa — garanti — Já tô melhor.
Antes que eu desviasse ou fizesse qualquer coisa do tipo, Karina cerrou a mão em punho e desferiu um murro no meu do meu abdômen o que me fez urrar e me contorcer de dor. Não havia sido muito forte, mas o suficiente para me machucar dada a minha situação.
— Agora precisa — foi o que ela disse, me ajudando a ficar de pé — Tira a blusa.
A lancei um olhar mortal enquanto me livrava daquele maldito tecido.
— Vem, vamos — ela me guiou até a cama onde eu me sentei, apoiando a cabeça da parede em busca de conforto.
Fechei os olhos, tentando organizar meus pensamentos. Precisava me livrar da marrenta de alguma forma.
— Desculpa pelo soco — pediu sincera — É que você me faz perder a cabeça e, de quebra, o pouco de paciência que ainda tenho.
Tentei sorrir, mas acabou saindo como um gemido devido a dor.
— Não sai daí — pediu em um tom autoritário — Vou fazer uma compressa de gelo e já volto.
Karina saiu do meu improvisado quarto e voltou minutos depois com um saco de gelo nas mãos. Sentou ao meu lado, colocando delicadamente a compressa em minhas costelas enquanto seus dedos seguiram até meus lábios, analisando o corte superficial que havia ali.
— Não sei porquê você ainda se mete nessas lutas ilegais, Cobra — me repreendeu — Sabe qu —
— Sem lição de moral, Karina — a interrompi.
Ela não disse nada. Já havíamos tido aquela conversa e ambos sabíamos como ela terminava.
— E então, — comecei — o que te trouxe aqui?
Ela parou de repente. A compressa escapou de suas mãos e atingiu o chão. A dor em seus olhos era quase palpável.
— Nós terminamos, Cobra — disse me um fio de voz, controlando as lágrimas.
Eu não precisei pensar muito para saber do quê, ou melhor, de quem ela falava.
Pedro.
O descabelado era, de novo, a razão para Karina estar ali, comigo. Por um instante eu desejei que ela estivesse ali por mim. Não por ele. Não de novo.
— Vocês vão voltar, Ka — a certeza em minha voz chegou a me assustar — Sempre voltam.
E era a verdade. De alguma maneira os dois sempre se atraíam. Eram opostos. Nada mais justo.
— Dessa vez não tem volta — pareceu decidida. E eu me perguntei há quanto tempo ela vinha ensaiando aquilo — Ele precisa seguir com o sonho dele. E eu não quero atrapalhar isso. Não quero ser uma pedra no caminho.
— Você não é. Nunca foi — garanti. Minha mão encontrou a dela, a apertando em apoio — O guitarrista só vai passar uns meses fora. Ele vai voltar pra você.
A Galera da Ribalta aos poucos alcançava o sucesso. Depois de ganhar a Batalha de Música e aparecer em um programa de TV há alguns meses atrás, as coisas pareceram decolar para a galera da banda. Shows, ensaios fotográficos, autógrafos, fama. Tudo isso fazia parte da vida de cada um agora.
— Ele pode até voltar — sorriu tristemente — Mas não vai ser pra mim. Ele vai voltar pra família dele.
A garota puxou a mão delicadamente para enxugar algumas lágrimas que deixavam seus olhos.
Antes de pensar no que fazia, abri meus braços em direção a ela. Karina pareceu confusa de início, mas sem pensar em muita coisa, aceitou o abraço. Minha cabeça estava apoiada na sua e a dela, por sua vez, estava em meu peito, o que me fez perceber que ela ouvia cada batida do meu coração. As mãos da garota rodearam minha cintura de maneira tímida, como se não soubesse o que fazer. Uma de minhas mãos afagavam os fios loiros da lutadora.
— Ka, a real é que você ama aquele desafinado, E ele te ama, pequena! — dei o meu melhor para que ela entendesse aquilo — E não vai ser uns meses separados que vai apagar isso.
Por alguns instantes Karina ficou calada. Como se absorvesse as minhas palavras.
— Agora foram três meses. Mas e quando forem anos? Quando ele precisar mudar de cidade? De país? — sentia as lágrimas dela sobre meu peito — Eu não vou poder acompanhá-lo. Não vou poder ficar com ele.
Ela era marrenta, mas era tão frágil quanto qualquer um.
— Eu terminei com ele —disse um pouco depois — Eu pensei bastante antes de ligar — um comentário indignado iria sair de minha boca, mas ela foi mais rápida e me interrompeu — Não diga nada! Eu sei que deveria ter esperado ele chegar. Encarar o problema de frente... Mas eu não consegui — sussurrou — Precisava libertá-lo. Me libertar.
— Ei — fiz a garota se levantar. Ela limpou as lágrimas, se sentando de frente para mim — Não fica assim. O tempo que vocês passaram juntos foi eterno enquanto durou, né? — ela baixou os olhos — Digo, tenho certeza que vocês foram marcantes um pro outro. Ele te ensinou tantas coisas, e você ensinou tantas outras a ele — lembrei — O cara pegou um pouco da tua marra, Ka. Ainda lembro quando ele veio aqui arrumar confusão comigo. Por você.
Sorrimos.
— Isso — assentiu em uma pausa — Mas sinto que isso tudo aconteceu num tempo tão distante. Algo perdido no passado e que eu insistia em trazer para o presente. Achava que seria melhor para mim, mas não era. Não mais.
Ao ouvir aquilo algo dentro de mim, algo que eu tentava fracassadamente reprimir, me consumia de uma fora assustadora.
— Você tem razão, Cobra. Eu o amo — me olhou fixamente — Mas as vezes só o amor não é suficiente.
E eu a entendia.
— Desde que descobri tudo aquilo nada mais voltou a ser como era antes. E talvez nunca mais seriam. —encarava o lençol da cama fixamente. Prendendo algumas partes em seu dedo — As coisas e as pessoas que me faziam bem estavam diferentes, ou ao menos era isso que eu achava. Tudo estava cheio e ao mesmo tempo tão vazio, monótono — suspirou cansada — Foi aí que eu me dei conta de que ninguém havia mudado, mas eu havia amadurecido. O meu foco havia mudado. Mudanças são necessárias.
— É, as vezes são — comecei pensativo — Mas pelos motivos certos.
— Soube que você e ela terminaram — seus olhos desviaram do meu rapidamente ao se dar conta do que falava. Seus dedos passaram a brincar novamente com o tecido da cama — Quer dizer, eu — parecia encabulada.
— Nós terminamos, sim — interrompi, pondo fim a vermelhidão que tomava conta de sua face. Karina não disse nada. Aquilo era algo que eu admirava na lutadora. Ela jamais me pressionara, sobre nada. Me deixava livre para escolher falar ou não — Não iria durar muito. Esse lance de ser bonzinho não é comigo.
Uma gargalhada escapou de sua boca.
— Eu gosto do teu lado marginal. A tua versão Cobra — explicou sorrindo — Sem aulinhas de etiqueta, sem esse lance de bailarino — sua boca abriu e fechou diversas vezes até a frase deixar seus lábios — Gosto quando você é... Você.
— Eu também — admiti.
Meu relacionamento com Jade havia acabado há alguns dias. Começamos a discutir por um assunto qualquer e a discussão nos levou ao término. Término, porque éramos namorados. Mudei tanto pela Dama que por um momento esqueci que a minha essência era ser um eterno vagabundo. E no meio de farpas e palavras grosseiras, o nosso jogo havia acabado.
— Precisava de algo que me lembrasse o meu verdadeiro eu, e foi por isso que —
— Se meteu em uma luta ilegal — a compreensão em sua voz me fez relaxar — Eu te entendo. Eu no seu lugar teria feito o mesmo — falou calma — Mas não faça isso de novo, ouviu? — disse brava. Suas mãos cerraram em punho novamente, mas dessa vez fui mais rápido, a detendo.
— Ei, eu não vou! — disse com um certo desespero, largando sua mão levemente.
— Bom saber — me lançou um falso olhar bravo.
Sorri sendo acompanhado por ela.
— Nós somos dois azarados no amor! — disse com sinceridade.
— Somos! —concordou — Mas olha pra você, Cobreloa. Além de ser um fracasso no amor, ainda vai a nocaute na luta — zombou — Minha situação é melhor que a sua!
Antes que ela analisasse cada movimento meu e esquecendo a dor por alguns segundos, parti pra cima dela. Ela acabou deitada devido ao impacto. A garota estava presa pelo meu corpo. Minhas mãos buscaram as suas e, com certa dificuldade, consegui as prender em cima de sua cabeça.
Karina se debatia. Irada.
— Agora estamos quites, Karina — brinquei quando ela ficou um pouco mais calma. Contra a sua vontade, um sorriso escapou dos lábios da loira, fazendo com que eu a acompanhasse.
Nossos olhares se cruzaram e os sorrisos abandonaram nossos lábios lentamente.
— Você já se perdeu nos meus olhos? — me perguntou curiosa.
— Milhares de vezes — respondi sem me importar. Aquela era a verdade. Foram milhares as vezes que eu mergulhei e me perdi naquele azul.
Ka desviou os olhos dos meus, corando. Tão linda.
— Você ficaria comigo? — sorri ao escutar aquela pergunta novamente.
— Até mesmo com essas costelas quebradas — brinquei a fazendo gargalhar — Você sabe, Karina — disse sério — Basta você estalar os dedos — me aproximei um pouco mais. Estávamos tão próximos que sentia a respiração da loira em meu rosto. Meus olhos abandonaram os seus e seguiram rumo a sua boca. Tão convidativa. Meses haviam passado, mas eu ainda me lembrava a sensação de tocar aqueles lábios.
Karina levantou a cabeça, o suficiente para que nossos lábios se roçassem.
— Sabe, — sussurrou com os olhos fechados — com você segurando minhas mãos desse jeito é quase impossível eu estalar os de —
E perdendo a paciência que ainda me restava, pressionei meus lábios sob os dela. Uma de minhas mãos encontrou a base de sua cintura enquanto a outra buscava apoio em sua nuca, aprofundando o beijo. Senti as mãos dela percorrerem toda a extensão do meu braço, arranhando em alguns pontos, até chegarem em minha nuca, onde brincava com alguns fios do meu cabelo.
Quando nossos pulmões imploraram por ar, nos afastamos. Pra logo em seguida começar com aquilo de novo.
O beijo dela era, sem dúvidas o mais gostoso que um dia meus lábios tiveram o prazer de provar. Ela tinha um jeito único de devorar cada pedaço de mim e, ainda assim, ser carinhosa e doce.
Karina se distanciou um pouco em busca do maldito oxigênio, eu depositava mordidas em seus lábios e beijos na pele exposta de seu pescoço. O cheiro dela era tão inebriante que o queria em mim, para sempre. A garota sorri em meio aos meus toques e isso aguça de uma forma absurda meus instintos mais primitivos que clamavam por ela ali e agora.
As mãos de Karina foram até as minhas, as guiando até a barra de sua blusa. Eu não precisei pensar duas vezes para saber o que ela queria.
Fechei os olhos, mordendo os lábios tentando reprimir aquela pergunta por medo de sua resposta. Mas a sanidade falou mais alto.
— Você tem certeza disso? — e ela acabou saindo, tão insegura como da primeira vez que nos beijamos.
Ela selou nossos lábios em resposta.
— Sabe aonde está o meu foco agora? — neguei enquanto um sorriso idiota saía de meus lábios — Em você.
E aquilo foi o suficiente.
[..]
— O que cê achou? — perguntei.
— Acho... — sorriu — Acho que poderíamos tentar!
— Tentar o quê?
— Ficar junto! — suas mãos bagunçaram alguns fios — Mas sem rótulos por enquanto! — deixou claro — Somos dois azarados tentando encontrar a sorte. Ou uma bússola — brincou.
Apenas beijei o topo de sua cabeça em resposta.
Sentia Karina sobre meu peito novamente. Só que dessa vez não havia tecido nenhum entre nós, apenas o lençol que nos cobria. Minhas mãos acariciavam toda a extensão de suas costas, sentindo ela se arrepiar algumas vezes.
— Não tem perigo você dormir aqui? — me referi ao seu pai. Se o Mestre soubesse que Karina havia passado a noite ali, me mataria. Se soubesse então que dessa vez eu não dormi no chão, mas ao lado dela, e que não só dormimos, ele faria questão de me ressuscitar só pelo simples prazer de me matar de novo.
— É sempre um risco — sua voz estava sonolenta — Mas estou disposta a me arriscar.
Também estava disposto me arriscar. Por ela.
Alguns minutos se passaram e senti a respiração da loira ccomeçar a diminuir, tomando um ritmo constante. Estava dormindo.
Karina podia não saber, mas talvez, e só talvez, eu já houvesse encontrado a sorte. Minha bússola. E ela parecia um anjo dormindo.
Fale com o autor